sábado, abril 25, 2009

a felicidade

Às sete e meia da manhã fui ao café nova américa espreitar o ambiente. Tomei o pequeno almoço ao balcão e vi que as pessoas estavam em tensão mas olhavam uma s para outras com tímidos sorrisos de pequena felicidade. Menos os dois guardas da PSP que lá estavam agitados a anunciar em voz altiva que o Caetano estava a dominar o golpe.Na papelaria a senhora Hermínia confidenciou-me que estava à espera de edições especiais de todos os jornais e já tinha reservas de clientes que não iam sair de casa.Comprei pilhas para o radio portátil e corri para casa. É quando aguardo que "caia" o verde que um opel branco passa por mim e uma voz ecoa poderosa vinda de dentro morte ao fascismo! viva a Liberdade! Chegado a casa telefono pela enésima vez ao Duarte e digo-lhe vamos encontrar-nos nas picoas e rumar até ao rossio, parece que a gnr fiel ao governo posicionou-se em toda a praça e estão armados. Vamos mas é para o terreiro do Paço disse o Duarte. Não fomos. Acabei a manha devorar torradas na cozinha do "JPB" e a ouvir as rádios. Saímos para o Carmo quando o regime já agoniava,
Se tivesse de morrer , seria aqui disse quando descemos a rua nova da trindade a correr sem ligar nenhuma aos soldados da gnr de mauzer na mão que mantinham o cerco e alimentavam a ideia dos comandantes para uma acção de garrote ao largo do carmo.
Lisboa, entre-campos, 25 de Abril 1984

quinta-feira, abril 23, 2009

prima della rivoluzione


Foi assim: às 10 horas da manhã do dia ensolarado de 24 de Abril de 1974 apresentei-me no primeiro piso do tribunal de polícia, junto ao faraónico palácio da justiça, em S.Sebastião na qualidade de arguido-acusado de "actividade subversiva contra a segurança do Estado" e -há sempre um "e"!- por ter recusado pagar uma coima de 2.250$00 por distribuição de panfletos no Liceu D. Pedro V .
Lá estive -lá estivemos , os doze ou treze colegas "subversivos- quase uma hora a circular no hall seguido(s) pelos olhares insatisfeitos de quase uma vintena de agentes fardados de cinzento e equipados a rigor de pistola-metralhadora a tiracolo até que uma porta se abriu e um senhor de fato escuro comunicou o adiamento da sessão para 4 de Outubro.
Convém recordar que "isto" se explica uns meses antes -em Junho de 1973-, num meeting realizado no Liceu D. Pedro V contra o fascismo onde foram detidos vinte e tal estudantes (incluindo um menor de 14 anos)no decurso do festim de bastonadas e outras bestialidades comuns ao tempo por ordem do Capitão Pereira que cercara e invadira literalmente a escola. Conduzidos sob escolta(!) primeiro a uma esquadra junto à penitenciária de lisboa depois rumo ao governo civil de Lisboa,fomos encarcerados numa cela de 3 m2 com mais oito ou 9 colegas desde o fim do dia até meio da manhã seguinte. Depois do acto forçado(de despersonalização, tão criticado em missivas oficiais por Marcelo Caetano) do corte de cabelo à máquina zero numa barbearia repleta de guardas reformados a lançarem-nos "bocas" e a aplaudirem as "carecadas"fomos conduzidos para o gabinete do chefe de dia, espécie de recepção de hotel, para nos apresentarem a factura de 2.250$00 por "actividade subversiva" (nunca percebi se o corte de cabelo estava incluído).Eram perto das 13h30 de sábado quando saímos em liberdade.
Nessa noite de 24 de Abril de 1974, eu , o meu amigo "JPB" e o seu pai, advogado e oposicionista, reunimo-nos num restaurante chinês para a habitual tarefa de debater com entusiasmo o fim do salazarismo-marcelismo. O "fim" só era possível , como havíamos concluído, pela força das armas. O pai de "JPB" ainda arriscou a possibilidade de Caetano conseguir controlar os "ultras" e por em marcha mudanças de fachada .
Ironia do destino: quando cerca das onze e meia da noite descia a av. estados unidos da américa em direcção a casa a fadiga e a excitação da conversa não me despertou os sentidos que dois camiões militares em velocidade passassem por mim em direcção à avenida de Brasil. Chegado ao meu quarto lancei-me sob a cama a ouvir na rádio renascença a leitura de abertura ("Grândola, Vila Morena /Terra da Fraternidade/ O Povo É quem Mais Ordena/ Dentro de ti Ó Cidade)do programa Limite o som de marcha cadenciada e a voz do Zeca a troar livremente. Mal sabia eu... .
Eram cinco da manhã quando a minha Avó Maria José me acorda a dizer está o Duarte ao telefone a falar de revolução. Graças a deus, graças a deus, vai acabar a guerra! dizia a minha avó com olhos a humedecerem-lhe. E o Duarte na linha a insistir sintoniza a emissora (nacional) estão a passar músicas do zeca, do mario branco, do adriano, também do fanhais, e do freire... .
Lembro-me perfeitamente... .
Lisboa, entre-campos, 23 de Abril de 1984

sexta-feira, abril 17, 2009

profissão de fé


Anteontem, durante o acto mais ou menos inglório de (des)arrumação de uma das estantes dei por mim a sorrir ao reencontrar uma velha pérola do então temerário Alberto Pimenta: "Discurso sobre o filho-da-puta" (com notas de Câpelo Filho Catedrático Literaturas Paradas) que em 1987 deu á estampa em festejada 6ª edição da Centelha de Coimbra e é hoje (quase) uma raridade -o livro ,claro!
A páginas tantas o Alberto escreve em duas linhas esta coisa singela e certeira :"Há os filhos-da-puta vocacionados para fazer e filhos-da-puta vocacionados para não deixar fazer e estes são os dois tipos universais e eternos filhos-da-puta... ."
Que triunfam, quer-se dizer!

domingo, março 29, 2009

Orson Welles


Quando as últimas flores
ou mesmo uma só flor murchar
heroicamente desdisser a cor e estame
e eu estiver longe e largo e afogado
em sementes condoídas mais inúteis
quando a vida for um morteiro longo
anunciando anunciando
dando vivas à raiz do seu nome e seu destino
quando ninguém olhar
ninguém sequer tocar de leve
quando vestir o colete de fraquezas
e o limo declarar as coisas breves
quando a aurora não for um nome de mulher
nem mesmo houver os nomes de mulher
e a raiva cair tal como a noite cai
mas numa só cabeça
sem rede sem luvas sem sentidos
quando o vento estiver perfeitamente louco
e o dicionário se perder
sem pena e sem vaidade
quando é certo claro que o é
quando um homem tiver braços abertos
e eu braços fechados
- no colete três vezes nove
vinte e sete
quando só ele me souber o nome
e me esperar já sem poder instar
por eu estar mudo é isso e já não houver
mas inda só o tempo e a espera não houver
mas inda só em mim - e tão diferentemente!-
e aqui seja tão tardo como ali
uma cerveja esperará por ti
Pedro Tamen, poeta
in Bosque Sagrado, ed. Gota de Água, 1986
Foto: The Third Man (Carol Reed, 1949)


domingo, março 08, 2009

portfólio (5)


Refª: "Uma Memória do Cinema"
(Comemorações 100 anos do cinema)
Formato: postal, 10,5X15,00
Design (e programação): JDiabinho
Edição: Inatel, Sector de Cinema

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

velhos amores


Depois de um dia stressado, como fora o de ontem, sabe bem (e é revigorante, q.b.) entregar-me -sempre com renovado prazer- a magníficas sonoridades como esta... Absolutamente imprescindível.

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

teoria do jogo (1)


Calar-se é mais prudente,
mais seguro, mais cómodo, mais prático,
calar-se é mais astuto,
mais rentável, mais útil,
calar-se não dá problemas,
calar-se evita sarilhos,
calar-se só traz vantagem,
calar-se impede que nos entrem moscas
pela boca dentro, calar-se é próprio de sábios,
está-se muito bem
calado.

Porque quem cala
outorga
licença, impunidade,
perdão, facilidades
e via livre
e pela boca morre o peixe e sempre
se há-de sentir o que se diz e nunca
dizer o que se sente
se se quer triunfar
em sociedade
e receber migalhas do grande bolo
do mundo.

Jesús Munárriz, poeta
Foto: The Hustler (Robert Rossen, USA,1961)

sexta-feira, janeiro 30, 2009

Portfólio(4)


Refª: Semana do Cinema Português
Formato: 16,5x23,5 (Catálogo)
Design, texto de abertura; organização textos: JDiabinho
Edição: Inatel - composição e impressão Casa Portuguesa (1989)

sábado, janeiro 24, 2009

a propósito de harold pinter (1930-2008)


Desde a primeira vez que vi The Go-Between(1971) /O Mensageiro, de Joseph Losey -numa sessão clássica do antigo cinema Monumental, no início dos anos 70- passei num ápice a exibir a minha simpatia entontecida(!) e exacerbada, por Harold Pinter, que até aí não passara de um ilustre "desconhecido" na minha vida.
O efeito dos diálogos de Pinter ( numa adaptação fiel da obra homónima de L.P.Hartley) produziam em mim um prazer tal pela literatura-cinema que durante uns tempos fui incapaz de um pensamento minimamente estruturado à volta da complexidade narrativa (não apenas pelo"flash-back"... )do filme que, ao invés, era bastante sedutora. E depois, como se não bastasse, não conseguia dissociar Losey de Pinter (e ainda bem!) que eram para mim o duo de interlocutores perfeito na minha aventura difícil de aprendizagem... .
É claro que aos 15, 16 anos não possuía um nível de conhecimentos filosóficos suficientes para ter a percepção e noção exactas sobre um mundo que privilegia o parecer em lugar do ser, como o trataram Losey-Pinter. O que me consumia em prazer (e emotividade)não era a subtileza, nem a teoria de jogos de poder da classe dominante ou a hipocrisia burguesa, mas o acto de subversão e de desafio dos amantes, que abalava todas as convenções.
Anos depois, ao assistir a The Servant (1963), -primeira (das três)colaboração Losey-Pinter- dei por mim a reflectir sobre as "deambulações" de Losey-Pinter em redor da complexidade das relações de poder e das suas implicações no funcionamento da sociedade.

segunda-feira, janeiro 12, 2009

rever Anna Karina


"la peur, le sang, la politique,l'argent. Comment est-ce que je n'ai pas envie de venir depuis le temps que je traine là dedans?
Made in USA, Jean-Luc Godard (1967)

domingo, janeiro 11, 2009

o meu amigo, rodrigues da silva (1939-2009)

Há quase uma vintena de anos (mais precisamente, a 10 de Agosto de 1989), o José Rodrigues da Silva escrevia "isto", -que abaixo se segue- no saudoso Diário de Lisboa, na sua habitual "crónica de cinema" das sextas-feiras: "...E a prova de que a qualidade, afinal (mesmo no Verão, mesmo em Agosto) rende.O exemplo do Forum (Picoas, gerido então pelo Paulo Branco) é apenas um.. O do Inatel na Costa de Caparica (que se dá ao luxo de fazer antestreias nacionais) é outro, com a sua programação cuidada e de qualidade... . Antes de ler esta "tirada" cinéfila de satisfação do Zé (que não era a primeira vez...) tinhamo-nos cruzado fortuitamente um ano antes num fim de tarde primaveril na Distri dos Restauradores trocado um pá, tás bom e destilado uma,duas amarguras rápidas sobre a merda dum filme qualquer..., escandalosamente em exibição à largas semanas no multiplex das Amoreiras. A nossa cumplicidade -eu enviava-lhe a programação mensal da Festa do Cinema na Caparica e ele escrevia, ou não, sobre os filmes de que mais gostava - pela paixão do cinema nunca a questionámos. Nunca sugerimos um ao outro que seleccionasse ou escrevesse sobre outro ou aquele filme, fabricado pelo realizador "y" ou do autor "z", -para quê?. Lembro-me do sorriso do Zé no dia da projecção, em antestreia, de "Do The Right Thing", de Spike Lee, no Cine-Teatro do Inatel na Costa... e de lhe ter posto a mão no ombro e dizer-lhe obrigado, Zé Rodrigues da Silva, pela tua notazinha cúmplice ("A estreia -ou melhor, a antestreia- do novo filme de Spike Lee é o acontecimento da semana..." ) de anteontem no "DL" (24 Agosto 1989).
Tenho pena por a nossa relação de cumplicidade nunca ter saído do estado de "bons" conhecidos. Isso não invalidará que o Rodrigues da Silva tenha sido "secretamente",como foi, um dos meus poucos bons amigos cinéfilos por quem tive, -melhor:tenho- uma enorme estima.

sábado, janeiro 10, 2009

"money makes the world go round..."

ontem(burguêsmente, na companhia dum canadian club ), rendi-me pela sexta vez ao brilhantismo de Bob Fosse.Revivalismo cinéfilo, pois.

domingo, janeiro 04, 2009

vontade indómita


Para a ministra dos Negócios Estrangeiros de Israel, Tzipi Livni (do partido Kadima, e ex-agente da Mossad) a criação de um Estado Palestiniano servirá como solução ao problema nacional dos árabes israelitas. Esta declaração surpreendente, pronunciada em 11 de Dezembro 2008, aos microfones duma rádio estudantil hebraica e divulgada no jornal israelita,"Haaretz", é exemplar nas intenções políticas para o futuro Estado de Israel. É também um tiro à queima-roupa nas crenças democráticas em Israel e um enorme soco no estômago para a opinião pública mundial simpatizante do sistema democrático judaico.
E o caso não é para menos. Livni,que ambiciona vir a ocupar o lugar de primeiro-ministro depois das legislativas de Janeiro, desenha assim, preto no branco, o futuro social:“Quando se criar o Estado da Palestina, poderei dirigir-me aos cidadãos palestinos (aos que chamamos árabes israelitas) e dizer-lhes: sois residentes com direitos iguais, mas a solução para o vosso problema nacional está em outra parte”. Tout court!
Em resposta aos comentários de Livni, o ministro [árabe israelita] da Cultura, Desporto e Ciência, Ghaleb Majadele reagiu do seguinte modo: "As raízes dos cidadãos árabes israelitas de Israel estão firmadas muito antes do estabelecimento do Estado de Israel. São residentes com direitos iguais neste Estado; a sua residência e cidadania não são negociáveis". E a concluir, Ghaleb deixou o recado:"Qualquer um que defenda a ideia de transferir a população árabe residente em Israel para os territórios do Estado da Palestina é anti-democrata". Nem mais.
Foto: Manifestantes judeus ortodoxos contra visita de Arial Sharon a Washington, em 29 Julho 2003 ( nkusa.org).

domingo, dezembro 28, 2008

punição recorrente


Ciclicamente, como vem sendo "tradição"também em período pré-eleitoral (com a extrema-direita como favorita), Israel cumpre sem disfarces a verdadeira natureza do colonialismo: opressão e morte. Para o povo palestiniano não resta outra saída senão resistir. Isso ou a submissão -que é impossível. Para já, a sitiada e martirizada Faixa de Gaza tem desde ontem de novo pela frente mais -e refinada- repressão sangrenta e demência, q.b. . Curiosamente ou talvez não, a novel acção punitiva do governo de Olmert tem lugar a poucos dias de Obama se tornar no primeiro presidente não branco do governo dos Estados Unidos -que injecta anualmente no Estado judaico a módica quantia de 2,5 / 3 biliões de dólares, a maioria dos quais destinados alegadamente à boa operacionalidade da máquina de guerra.
Foto:gazatoday.blogspot.com

segunda-feira, dezembro 22, 2008

redescobrir Paul Klee (1879-1940)


Monument in Fertile Country (1929), Watercolor, 46 x 30.5 cm.
Paul Klee Foundation, Kunstmuseum, Berne, Switzerland.

sábado, dezembro 13, 2008

Bresson revisitado


Jacques - (...)Il n'y a pas d'amour, Hélène, il n'y a que des preuves d'amour.
in Les Dames du Bois de Bologne (França, 1945), de Robert Bresson


sexta-feira, dezembro 05, 2008

reprovável


Nestes últimos dias, tenho cada vez mais a impressão de que a heróica decisão em salvar o glorioso BPP fez aumentar, imensamente, o desprezo pelo pouco crédito moral que merecem, totalmente, os seus decisores.

cartoon: by Kal The Economist

domingo, novembro 30, 2008

portfólio (3)


refª: "regul. concurso pintura e escultura";ciclo da nostalgia
formato: desdobrável(21x30)
design: JD
edição: departamento de activ. culturais do Inatel, 1991






terça-feira, novembro 25, 2008

proeza criativa


Faz quarenta anos que estreou 2001: A Space Odyssey, o mais revolucionário na forma e o mais original na criação técnica de toda a história cinematográfica do Mundo. Relembrem-se as declarações históricas de Stanley Kubrick na entrevista à revista norte-americana,Playboy : "2001 é uma experiência não verbal ; em duas horas e 19 minutos de filme, há apenas um pouco menos de 40 minutos de diálogo. Tentei criar uma experiência visual ,que escapasse aos registos verbalizados e penetrasse no subconsciente através de um conteúdo emocional e filosófico. Invertendo McLuchgan, em 2001, a mensagem é o meio".

quinta-feira, outubro 30, 2008

a harmonia (im)perfeita


Desde o final da adolescência que tenho conseguido manter uma estima especial pelo cinema de Woody Allen.Digo "conseguido, porque alguns filmes dele não me agradaram o suficiente e outros houve que contribuiram para o... rejeitar, por uns tempos, claro. Mas, na verdade, as minhas desilusões e "zangas" com Woody Allen encontram sempre um "antídoto" poderoso... vindo do passado para retomar o sentimento de estima e/ou de reconciliação. Interiors (1978) é o nome desse "antídoto" que ainda hoje mantém a "validade", a eficácia, e me dá uma completa satisfação cinéfila. Como vem sucedendo, de tempos a tempos, a cada nova revisão, como foi ontem o caso.