terça-feira, setembro 04, 2007

prazer do romance

Durante as férias, "penitenciei-me"do desinteresse a que tenho votado -desde o inicio de Março...- a literatura de ficção. Esse retorno ao (prazer do) romance literário foi, por um acaso feliz (ao remexer nos livros de minha mãe), iniciado com a leitura de Terra de Neve ( Yukiguni), uma obra-prima da escrita de Yasunari Kawabata(1899-1972), que é só um dos maiores (e mais esquecidos entre nós...apesar de obra editado) escritores nipónicos do século XX, prémio nobel em 68.
Sensível, poética, fluída a escrita poderosa de Kawabata tem o enorme poder de despertar o prazer da leitura
Terra de Neve, de Yasunari Kawabata
Edição das Publicações Dom Quixote, Dezembro 1968
Tradução de Armando Silva de Carvalho. Capa de Lima de Freitas

segunda-feira, agosto 27, 2007

o homem que amava a escrita

A minha admiração por Eduardo Prado Coelho foi como o betão armado: resistiu às desilusões (pequenas ou grandes e quase sempre de ordem política e ideológica) "emocionais" que fui experimentando com menor ou maior capacidade de encaixe. Lembro-me de ter alimentado quase à exaustão um debate ressentido sobre o seu abandono do PCP e a aproximação ao MES e, -com o tempo cada vez mais a desfavor da revolução- , ao PS. Pelo contrário, a minha admiração pelo Eduardo Prado Coelho foi-se cimentando com o correr dos anos. Conhecemo-nos e falámo-nos duas vezes e por breves minutos: a primeira, num corredor do edificio do Palácio Foz onde funcionava a Direcção-Geral de Acção Cultural de que o Eduardo era director, a segunda no S.Luiz (numa das sessões organizadas pela dupla João Lopes/Camacho Costa) e trocámos breves palavras sobre as expectativas do "novo" cinema português em preparação ano e meio depois do 25 de Abril (Os Demónios de Alcacer Quibir, do Fonseca e Costa, o Nós por cá, todos bem, do Fernando Lopes, Ruinas no Interior, do Sá Caetano, Trás-os-Montes, do Reis...).Recordo a sua afabilidade, o sorriso e a postura analítica do olhar. Vimo-nos, meses depois (já em 1976), na primeira sessão de La Spirale, de Armand Matellard, no auditório da Biblioteca Nacional. Depois, com a sua saída da Secretaria de Estado da Cultura revia o Eduardo nalgumas antestreias, nas extensões a Lisboa do Festival de Cannes, no Quarteto, ou nos ciclos da Gulbenkian ou ainda nos ciclos do Palácio Foz a que fui dando colaboração enquanto "prestador" de serviço, a partir de 1978, da Divisão de Cinema da DGAC/SEC. Desde sempre, nunca me escaparam os"textos literários" do Eduardo Prado Coelho (minto, houve um interregno, breve, por causa da sua aproximação e apoio a Eanes, em 1980...), os seus livros , as suas críticas de cinema (recortadas dos jornais e religiosamente coleccionadas), que conservo, "contaminados" por muitos sublinhados e anotações.
A imagem que conservo do Eduardo é também a imagem de um homem para quem a escrita era vivida como uma paixão, intensa e grandiosa.

sexta-feira, agosto 24, 2007

sacco e vanzetti: paz e liberdade

Fez ontem 80 anos que Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti foram assassinados pelo poder judicial norte-americano.
Apesar da reabilitação, em 1977, os Estados Unidos nunca promoveram oficialmente uma verdadeira condenação do vergonhoso processo político que esteve na origem da condenação á morte dos dois trabalhadores imigrantes italianos, assumidamente anarquistas, que clamaram até ao fim a sua inocência mas também a firmeza dos seus ideais e de amor à vida.
À época, muitos foram os escritores e artistas de renome , como John Dos Passos, Alice Hamilton, Paul Kellog, Jane Addams, Upton Sinclair, Dorothy Parker, Ben Shahn, Edna St. Vincent Millay, John Howard Lawson, Floyd Dell, George Bernard Shaw e H.G.Wells, que assinaram petições contra a execução de Sacco e Vanzetti.
Alguma da imprensa escrita de referência, sobretudo a italiana, destacou a efeméride nas suas edições de ontem e hoje. Atente-se, igualmente, nos artigos oportunos em "Corriere della Sera" e "Democracy Now", da jornalista resistente norte-americana, Amy Goodman.
Por último, uma referência ao filme (importante) de Guiliano Montaldo (estreado em Portugal no pós-25 de Abril, no cinema Roxy, pela mão da Castello Lopes) que continua proscrito na edição dvd (como já anteriormente em vhs...) portuguesa. Os interessados podem recorrer aos bons ofícios do Instituto di Cultura Italiano para aceder ao filme - gratuitamente, creio.







quinta-feira, agosto 23, 2007

lugar das imagens

À espera da anunciada recuperação -cujo projecto, segundo A.Victorino de Almeida, terá sido aprovado recentemente pela Câmara Municipal- , o edifício do Cine-Teatro "Valadares" A. Pires, de Caminha, (uma das muitas localidades a norte do Porto sem salas de cinema em funcionamento) aí está, votado ao abandono, desde meados de 80, e em avançado estado de degradação. Seria (no mínimo) uma incongruência deixar tudo como dantes, apesar das aparentes boas intenções... .



terça-feira, agosto 21, 2007

transfigurações

Na zona histórica de Caminha (que tarda em se recuperar...), frente ao edifício degradado do Cine-Teatro Valadares somos, de súbito, convocados para os territórios da lenda popular e do cinema fantástico. Mas o tempo já é outro. E não apenas nos ecrãs... mas, sobretudo, nas nossas próprias vidas.Cruel transfiguração?

segunda-feira, agosto 20, 2007

"casualties of war"

As "baixas" de que fala o painel -afixado numa das autoestradas mais movimentadas da Galiza-remete-nos forçosamente para uma das realidades sociais mais extremas de aniquilamento concebidas pela sociedade de consumo.

sábado, agosto 18, 2007

max roach (1924-2007)

Percusionista virtuoso, é um dos ícones maiores do jazz que mais contributos deu para a sua transformação. Um revolucionário, evidentemente.

sexta-feira, agosto 17, 2007

corpo/mulher

Une femme mariée (Jean-Luc Godard, 1964)

quinta-feira, agosto 16, 2007

galiza vista do lado de cá


Monte de Santa Tecla, La Guard(i)a -a partir da marginal de Caminha.

"a culpa" em ecrã de Moledo

Ontem à noite, graças à AMIR - Associação de Instrução e Recreio de Moledo, o centro cultural encheu-se de gente interessada (mais de uma centena e meia de espectadores) para assistir à projecção de A Culpa, filme de António Victorino d'Almeida rodado em 1979, em Lisboa e Caminha, e estreado em salas da capital e do Porto um ano depois, com alguma pompa circunstância. A Culpa, recorde-se, teve direito na altura a uma mão cheia de exibições, em antestreia, no Valadares,velho cine-teatro caminhense.
Para os mais "distraídos", convirá lembrar que no despontar dos anos oitenta o cinema português deu sinais de mudança muito prometedores (Manhã Submersa, de Lauro António, Kilas, o Mau da Fita, de Fonseca e Costa, Oxalá e Lugar do Morto, de António Pedro de Vasconcelos, Cerromaior, de Luis Rocha...) que mereceram a adesão entusiástica de muito público mas que com o correr dos tempos (e a retoma de alguns equívocos e obsessões narrativas) se foi esfumando.

A Culpa não é, evidentemente, um grande filme mas tem boas ideias: o velho tema do sentimento de culpa no viver português, aqui e ali pontuado por tons de irreverência e comicidade (nem sempre bem sucedida); um "cast" - onde pontificam, Mário Viegas, Sinde Filipe, Estela Novais, Rui Mendes, Adelaide João, entre outros - que prima pela muito razoável prestação artística; a qualidade da banda sonora, especialmente criada para o efeito, por Victorino d'Almeida e que é reveladora do seu enorme talento, imaginação e arte.

No meio do quase deserto cultural em que se tornou o concelho de Caminha, é de saudar esta iniciativa, como outras que aí vierem. Remar contra a maré, é preciso!.




iraq freedom, lembram-se!?


Pouco importa se os atentados bárbaros de ontem no norte do Iraque foram obra da Al-Qaeda, como pretendem os norte-americanos ou, pelo contrário,uma consequência directa da guerra de ocupação e rapina desencadeada por Bush em março de 2003. Uma coisa é certa: os iraquianos -todos os iraquianos, xiitas, sunitas, curdos, católicos, judeus...- estão a ser vítimas de uma guerra requintada de extermínio perpretada também por aqueles que se apresentaram cínicamente como pretensos "libertadores" e arautos dos valores da democracia. O pesadelo de Abu-Grahib comprova-o bem...demais.
No ano passado, a prestigiada (e insuspeita...) publicação médica britânica ,The Lancet estimava em mais de 600.000 mil os iraquianos mortos desde o início da guerra. Para os meios de comunicação que papagueiam a "opinião que faz lei" esses números do destino trágico dos iraquianos era "excessivo" quer dizer, inconveniente. Recentemente, -há menos de um mês- a Just Foreign Policy divulgou nova estimativa do grau de devastação humana -o hiperexcessivo, valor de 1.007,411!- com base num estudo científico. Credível ou não, a verdade é que o Iraque continua ser laboratório da barbárie. E justificadamente em nome da "moral" do mercado, entre outras !



quarta-feira, agosto 15, 2007

"rest forever here in our hearts"

Dias 23, 24 e 25 de Agosto, Boston presta tributo a Nicola Sacco e BartolomeoVanzetti, dois imigrantes italianos radicais assassinados pelo poder político-judicial norte-americano, em 1927. O mea-culpa veio em 1976 através de uma corajosa tomada de posição do democrata Dukakis, governador do Estado de Massachusets.

segunda-feira, agosto 13, 2007

revisitar miguel torga (1907-1995)


Não há céu que me queira depois disto,
Nem deus capaz de ouvir-me.
Um homem firme
É firme até no céu,
E até diante Do Criador!
É o que eu diria se, ressuscitado,
Fosse chamado
A depor!


Miguel Torga , Depoimento

domingo, agosto 12, 2007

imagem de uma ficção

Verão de 1980. Grutas de Mira D'Aire. Preparação de cena do documentário para a RTP, Moinhos Velhos, do João Ponces de Carvalho. A descida ao poço (com cerca de 25 metros) revelou-se-me uma tarefa bastante desconfortável -apesar do treino prévio- ao ponto de me tremerem os braços...mas absolutamente gratificante de prazer quando toquei chão firme. "Corta! vamos retomar a partir da saliência. Claquette... Acção!". De novo...
Foto: João Ponces de Carvalho

sábado, agosto 11, 2007

apocalypse, now!

Um dia após o "crash" nas principais bolsas mundiais(provocado, recorde-se, pela crise no mercado do crédito imobiliário norte-americano), Vasco Pulido Valente retoma, na edição de hoje do Público, o tema da América e do reinado "irresponsável" da administração Bush. Vê-se que VPV suporta mal qualquer uma das irresponsabilidades maiores que enumera (Iraque, Afeganistão, América Latina...)cometidas por um presidente norte-americano que fez gestos obscenos na televisão, observou exercícios militares com binóculo tapado ou leu do avesso livro infantil . Preocupado com as consequências da mentira e dos enganos(!) de George W. Bush, o clima insurrecional instalado no Partido Republicano e a derrota das aventuras militares, VPV profetiza: "O Ocidente está em risco de ficar sem a América". No pensamento de VPV já se vislumbram no horizonte tempos de catástrofe "inimaginável".
Sabendo que em política não existe a perfeição mas a sabedoria, o mínimo que me apetece dizer é que a América de Bush está a colher as tempestades da cobarde ousadia de invadir, ocupar, colonizar o Iraque com base em mentiras para se apropriar dos seus recursos petrolíferos e hídricos e cumprir objectivos militares geo-estratégicos, e não para "reformar o Islão" coisa nenhuma. O mesmo se aplica ao Afeganistão, evidentemente.

A América de que fala Vasco Pulido Valente só pode ser a América de Bush. É essa a América que deve, de facto, desaparecer -leia-se o artigo de Burt Cohen, "America needs to Impeach". Em nome dos valores democráticos de Jefferson e Luther King. E para bem do Mundo.
Foto: Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola (USA,1979)

sexta-feira, agosto 10, 2007

nos tempos que correm


Na semana passada, um velho amigo, jornalista, aposentado à força em nome duma alegada "reestruturação" (que, na realidade, nunca esteve para acontecer...) deu-me conta da sua preocupação face ao sistema político como se a ameaça à liberdade estivesse de novo na ordem do dia. Alguém (éramos mais três à volta duma mesa da Brasileira) "lembrou" que estamos a assistir a novas concepções de totalitarismo, incomparavelmente mais cruel do que outra forma conhecida de poder. De facto, interrompe o meu amigo, temos o fascismo higiénico, -como o disse Paulo Portas (sorrimos todos)- limitador da liberdade individual do acto de fumar.... a generalizar qualquer dia ao acto de beber e ao de...pensar e agir livremene, quem sabe. O que mais me tem causado perplexidade(interrompe o mais velho de nós) é que dantes no tempo do fascismo a gente se levantava contra aquilo que nos oprimia e agora não, são muito poucos os que ousam... .É -digo eu- a estratégia clássica da sobrevivência de pactuar com a iniquidade e o arbitrio em nome da vidinha, vegetativa e esterilizada... .
Foto: They Live! (John Carpenter, USA-1988)

quinta-feira, agosto 09, 2007

nagazaki foi há 62 anos


a cidade de Nagazaki em 9 Agosto 1945: antes e depois do lançamento da bomba atómica.

segunda-feira, agosto 06, 2007

hiroxima foi há 62 anos


A rosa de Hiroxima

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada
Vinicius de Moraes in Antologia poética

sábado, agosto 04, 2007

recordação de janis joplin

Aos 16 anos, não pensava que as coisas intensas (como o amor, a paixão, a amizade)fossem efémeras.Janis Joplin era um dos meus "refúgios" mais ou menos reconfortante quando alguma dessas coisas não corria bem, acabava(m) ou,simplesmente,me sentia desconfortável, ansioso e passava uns dias no quarto fechado. Eu e Janis!

sexta-feira, agosto 03, 2007

revisitar bertolt brecht


Dificuldade de governar
1
Todos os dias os ministros dizem ao povo
Como é difícil governar. Sem os ministros
O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.
Nem um pedaço de carvão sairia das minas
Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda
Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra
Nunca mais haveria guerra. E atrever-se-ia a nascer o sol
Sem a autorização do Führer?
Não é nada provável e se o fosse
Ele nasceria por certo fora do lugar.
2
E também difícil, ao que nos é dito,
Dirigir uma fábrica. Sem o patrão
As paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem.
Se algures fizessem um arado
Ele nunca chegaria ao campo sem
As palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem,
De outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que
Seria da propriedade rural sem o proprietário rural?
Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas.
3
Se governar fosse fácil
Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer.
Se o operário soubesse usar a sua máquina
E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas
Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários.
E só porque toda a gente é tão estúpida
Que há necessidade de alguns tão inteligentes.
4
Ou será que
Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira
São coisas que custam a aprender?

quinta-feira, agosto 02, 2007

bergman: a explicação da imagem

...Quand on fait un film, il faut arriver à accrocher ses démons à son char et être capable de foncer pour se défaire de tous les masques qui peuvent se succéder et entraver votre recherche de la vérité. Bergman, je crois, était quelqu'un de constamment assailli de tout un tas d'images et il disait dans une formule que je trouve marquante: "Mes films sont les explications de mes images". Le cinéma a vraiment une capacité d'investigation et en retour c'est un cinéaste qui a une valeur d'usage intime, chacun le reçoit très personnellement en fonction de sa sensibilité.
André Téchiné, declarações ao Libération, 31 de Julho 2007
Foto: Sommaren med Monika -1952 (Mónica e o Desejo)

quarta-feira, agosto 01, 2007

eternidade

comme s'il fallait remplacer l'éternité...
Jean-Luc Godard, a propósito de Lettre à Freddy Buache (1982)

antonioni "made in usa"

Zabriskie Point (1970)

terça-feira, julho 31, 2007

alienação, segundo antonioni

Monica Vitti, em L'Avventura (1960), de Michelangelo Antonioni. Primeiro filme (e seu primeiro grande sucesso internacional) da trilogia sobre a mulher na sociedade contemporânea. La notte (1961) e“L'eclisse” (1962) foram os seguintes.

michelangelo antonioni (1912-2007)


"Dou uma grande importância à banda sonora, aos sons naturais, aos ruídos, mais do que à música... . O nosso drama é a incomunicabilidade, que nos isola uns dos outros. A sua permanência faz-nos sentir perdidos e impede-nos de resolver os problemas por nós próprios. Não sou um moralista, nem tenho a pretensão nem a possibilidade de encontrar uma solução... ."
Michelangelo Antonioni,
declarações em "Dicionário de Cineastas", Georges Sadoul, Livros Horizonte ,1979

"last of the greats"

O elogio emocionado de Ingmar Bergman em artigo de Paul Schrader, argumentista(Taxi Driver) e realizador(Blue Collar, Patty Hearst) publicado na edição de hoje The Independent .

tomar o pulso...

O site do Partido Democrático norte-americano merece uma visita para se saber do estado da nação. Para além do "escândalo" Bill O'Reilly (com este a ameaçar destruir a voz de imprensa "DailyKos.com") fica-se a saber que a Administração Bush está a promover a ilegalização (cinco valentes e democráticos Estados já aderiram...) de t-shirts "estampadas" com os nomes dos soldados mortos na farsa sangrenta iraquiana . Mas o que se revela mais interessante é o constatar dum clima"opressivo" e "racista" generalizado no quotidiano americano. Um "passeio" por sites comerciais dão conta da panóplia de adereços anti-Bush e "estado das coisas" a que chegaram os United States of America.
Foto: catálogo wearatshirt.com

segunda-feira, julho 30, 2007

persona:lição de cinema

Confesso: "devo" a Ingmar Bergman o privilégio de, aos 14 anos, me ter confrontado com uma outra forma de fazer cinema, mais inovador, mais deslumbrantemente criador e inquietante (e de grande complexidade) do que até então me parecia. Desde esse dia percebi também que o cinema detinha um poder absolutamente notável; qualquer coisa que se joga entre a (linguagem da) imagem e a vida, e cuja relação connosco é grande, imenso e fascinante, que pode mudar, para sempre, as nossas vidas, como acredito que mudou a minha.

ingmar bergman (1918-2007)

"Eu penso que cada posição de câmara deve ser resultante
de um conhecimento íntimo do cinema .
Sabemos o que queremos obter e, então, também devemos saber
onde colocar a câmara. É uma moral profissional, uma ética."
Ingmar Bergman, Cahiers du Cinéma nº 203

quarta-feira, julho 25, 2007

In memoriam de sacco & vanzetti

Faz em Agosto oitenta anos anos que dois emigrantes italianos, Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti, foram usados pelo sistema político-judicial norte-americano e condenados à morte -num processo vergonhoso que veio a ser anulado quase sessenta anos depois- por electrocussão no estado de Massachusetts.
A partir de hoje, e até finais de Agosto, proponho-me aqui lembrar Sacco e Vanzetti não apenas como forma de homenagem mas também como símbolo de reconhecimento de todos aqueles que se estão batendo pela reinvenção do Homem, contra os poderes arbitrários e o totalitarismo nas suas diversas expressões.

simbolizar a coragem

Western "existencialista", High Noon / O Comboio Apitou três Vezes (Fred Zinnemann, 1952), é também visto como uma alegoria política dos anos negros do McCarthysmo da"caça às bruxas" e da intolerância. Relato (em tempo real!) de como uma comunidade citadina se acobarda e isola um xerife determinado e corajoso em afrontar quatro perigosos pistoleiros, High Noon foi na sua época celebrado como um dos exemplos mais interessantes do género e, porventura, aquele que sob um dispositivo clássico se propôs desenvolver um discurso "ideológico" nada tranquilizador sobre a responsabilidade moral colectiva e as virtudes do individualismo. Virtuoso e inteligente, é o filme- tipo no momento político que as televisões portuguesas fariam muitíssimo bem em programar para uma noite destas.

Foto: Gary Cooper e Grace Kelly, High Noon , de Fred Zinnemann (EUA,1952)

terça-feira, julho 24, 2007

simbolizar o "bem"

Noite de segunda-feira frente ao televisor para reencontrar (em dvd) um velho "herói" da adolescência cinéfila: Shane (George Stevens, 1953) afigura-se-me agora envelhecido, ultrapassado, demasiado simbolista. Ainda assim, o filme parece conservar muito da carga mítica com que seduziu, admiravelmente, espectadores de todas as idades. A figura misteriosa de Allan Ladd, o cavaleiro justiceiro de branco vestido, surgido do "nada", a lutar contra o mal, (personificado por Jack Palance, de negras roupagens) era , para mim, uma imagem tão sólida, tão abusivamente perfeita que chegava mesmo a ser paralizante ao ponto de o ter visto quase de seguida num longínquo fim de semana dos inícios de 70.

desmontagem crítica


Ser radical é descer à raiz; e a raiz do homem é o próprio homem (i.e. a sua individualidade)
Karl Marx
Faz trinta anos (para ser preciso, entre 18 Maio de 1977 e 29 Dezembro de 1978)que João Sousa Monteiro nos brindou com "O Homem do Tempo", um singular e nada usual programa radiofónico, transmitido duas vezes por semana na ex-RDP 4. Singular porque assumia um inconformismo, subversivo e radical, na crítica do capitalismo (incluindo o de Estado) e desmontava, um a um, "os tabus sociais de maior impacto estratégico para a sobrevivência e o bom funcionamento de qualquer sociedade civilizada que consiste na proibição de pensar". Pouco ou nada usual porque JSM dirigia-se , num tom revolucionário que não era vulgar, deliberadamente, contra a formatação do conceito, vulgar e demagógico, de "revolucionário" e sobre algumas das suas teorizações mais dominantes.

A força de "O Homem no Tempo" mostrava-se muito para além dos textos ditos por JSM e o suporte audio (voz de Hitler a discursar; ruídos de aviões; metralha e explosões, etc.) que ajudava na "descida aos infernos". É certo que o trabalho de JMS (incómodo, muito incómodo para as "boas" consciências) terminou silenciado, para tranquilidade dos espíritos mais sensíveis e cheios de certezas.

Em 1979, a Assírio & Alvim resolveu publicar os textos que durante semanas, meses constituíram a razão desse refrescante "O Homem no Tempo": "Tire A Mãe da Boca" e "Tabu, príncipe dos cágados de fraldas ao vento ladra ás portas do futuro". Um diptíco imperdível agora que nos acenam com novos velhos costumes totalitários.


Foto: Die Blechtrommel ( O Tambor), de Volker Schlondorff, Alemanha/França, 1979

quarta-feira, julho 18, 2007

a vulnerabilidade do poder


A intolerância é sempre uma perda para quem a pratica.


David Lands, in "A Riqueza e a Pobreza das Nações"

segunda-feira, julho 16, 2007

a ultima oportunidade

Como se esperava, o socialista António Costa ganhou as eleições intercalares para a CML. Sem maioria absoluta e a previsível oposição moderada da assembleia municipal, que lhe é adversa, o ex-ministro Costa tem pela frente uma tarefa verdadeiramente ciclópica: a de voltar a repor a credibilidade na maior autarquia do país e num curto espaço de tempo. Não vai, concerteza, ser tarefa fácil. Por conveniência, mas também por necessidade "funcional"estratégica, o PS vai ter de fazer uma política de antecipação de interesses se não quiser tornar-se refém, não apenas de si mesmo, mas das oposições. É para esse risco, o de subordinação à teia de interesses representados pelo PSD e Carmona (responsáveis pelo desbaratar de crédito estes anos todos), que o PS tem de reagir. De contrário, é a anulação, a erosão numa palavra, renúncia. E, então, teremos a (re)comprovação de estarmos, politicamente, irremediavelmente condenados.

sexta-feira, julho 13, 2007

para minha mãe

Aconteceu-me hoje lembrar-me do teu aniversário. Em poucos instantes revi-te no olhar doce, expectante e por vezes triste a caminhares até mim dares-me um beijo, fazeres-me uma festa, retribuires-me um sorriso e tranquilizares-me com uma palavra.
Aconteceu-me hoje lembrar-te através dos beijos, dos abraços, dos afectos; lembrar-te também através das inquietações, dos receios, das preocupações, das alegrias; lembrar-te ainda através da combatividade, das incertezas, do (des)ânimo. Lembrar-te em muitas coisas que em criança me dizias e me faziam rir porventura das histórias de fadas e gnomos que me lias ao deitar e das matinées de cinema aos domingos, das passeios a pé, dos desenhos que fazias para mim ou dos teus poemas, escritos num pequeno bloco de bolso, que me lias em momentos especiais de felicidade.
Lembrar-me de ti é, como hoje, encontrar-me incomparávelmente só.

quarta-feira, julho 11, 2007

in memoriam de Sousa Mendes, o rebelde consciencioso


A peça de Luís Francisco Rebelo, "A Desobediência", sobre a personalidade corajosa e respeitável do cônsul Aristides Sousa Mendes que ousou desafiar ordens de Salazar salvando as vidas de 30.000 refugiados da demência nazi-fascista vai, a partir de 11 de Outubro, subir ao palco do Teatro da Trindade, numa encenação do actor Rui Mendes.

reflexos do tempo (2)

José Vítor Malheiros no Público de ontem, dia 10 : "Que se exija uma lealdade aos chefes que proíbe a crítica política é algo que não merece outra qualificação senão a de fascista". É confortante ver que nem todos se (re)traíram ao clima de medo e de intolerância que parece grassar impunemente na sociedade portuguesa decorridos trinta e três anos do acto libertador de 25 Abril. Não é por acaso que essa vaga de atitudes ultra-direitistas que vimos assistindo nos últimos dois meses têem tido um propósito deliberadamente provocatório. De resto, o próprio Governo, mais precisamente Sócrates, acusa algum desconforto mas, o certo é que tarda, tarda e muito, a tomada que se impõe de decisão de honra do governo, porque é de honra de um governo eleito democraticamente que se trata. E de um governo saído de um partido socialista. No mínimo, a honorabilidade do governo obriga a desencorajar, revelar desagrado, advertir os candidatos a opressores que a tolerância atingiu, agora e sempre, o grau zero de permissividade.
O governo deve deixar-se de explicações simplistas e, pior, ambíguas, que só tem servido para fazer aumentar a dúvida, duvidar das intenções políticas do Estado, instalar a insegurança progressivamente e a apologia do medo e da obediência cega ( não só para controlar) em que nos querem meter a todos. O governo deve agir, se quiser continuar a merecer o respeito do povo que lhe outorgou, através do voto democrático, a legitimidade do poder.
O artigo, acutilante e corajoso, de Vítor Malheiros é uma tomada de consciência do que está ocorrendo em certos pensamentos bem instalados e que não adianta querer disfarçar e assobiar pró lado. Quanto mais não seja em nome da democracia e dos seus intrínsecos valores.

segunda-feira, julho 09, 2007

reencontrar Kurosawa

Hoje, resolvi perder-me, uma vez mais, de amores por Dersu Uzala (cópia dvd, made in Spain, por 12,5 euros!) e reconfirmar Kurosawa como um dos realizadores mais marcantes e influentes na minha paixão pelo cinema. O texto, da minha autoria, que segue no parágrafo seguinte, foi redigido aquando da estreia, no final da década de setenta, na sala do Apolo 70, já desaparecida e publicado na Linha Geral, revista (ano 3, nº18, março de 79) da UEC (União dos Estudantes Comunistas, liderada por dois "pesos pesados": Zita Seabra e Pina Moura!) para a juventude estudantil, onde eu era colaborador. O texto, competente, mas pouco analítico e muito descritivo, cheio de "vicíos", dizia assim:
Dersu Uzala - A Águia da Estepe, é um filme lúcido e impressionante sobre dois paralelos: o homem e a natureza e a atitude do homem face a si mesmo. Mas é igualmente um filme sobre a amizade entre dois personagens centrais, Arséniev e Dersu. Amizade que se reforça graças ao amor que ambos dedicam à natureza. Tudo isto aliado a um tratamento soberbo da imagem e som. Observação rara, num estilo documental, onde se respira um profundo humanismo que se reconhece cena após cena com tal grandiloquência que fazem de (Akira) Kurosawa um excelente autor . De forma que este filme é um verdadeiro caleidoscópio de excelentes imagens com um dos mais difíceis actores: a natureza , tal como ela é.

Foto: Dersu Uzala, by Akira Kurosawa (URSSJapão, 1975)

domingo, julho 08, 2007

pierre bourdieu, presente!

Defensor da criação de um movimento social europeu capaz de se opor aos ditames da nova ordem económica mundial , o militante social, crítico acérrimo do liberalismo desenfreado e sociólogo Pierre Bourdieu (1930-2002) deixou-nos em Contrafogos (1 e 2, publicados pela Editora Celta) uma análise cortante e exemplar sobre as teias económicas dominantes em curso e a sua ofensiva poderosa, pelo gradual desmantelamento do Estado social. Acho que a palavra "cortante" é frouxa para adjectivar com precisão o rigor, a capacidade e a excelência de reflexão sobre os tempos que vivemos. E aqueles que ainda hão-de vir.

sábado, julho 07, 2007

reflexos do tempo (1)

Na companhia do gato, Nico, ( em cima da secretária, atentíssimo aos toques no teclado) reflicto sobre a troca de impressões de ontem com um velho amigo de noitadas cinéfilas: que efeito vão ter em cada um de nós os tiques autoritários e intolerantes expressos nos últimos tempos por alguns respeitabilíssimos membros da admnistração de Sócrates? Voltaremos aos anos de chumbo em que ter opinião contrária irá despertar, de novo, a aplicação da repressão? Por enquanto, o que mais me impressiona, é a tranquilidade bovina reinante: os comportamentos estão já formatados no essencial. Estamos agora na fase de amplificação. Talvez por isso a minha disponibilidade por estes dias para reler Chomsky, Bourdieu, Huxley(como também, Orwell) e Kafka tem sido quase total. Não, não como "porto de abrigo" nem essas tretas todas, antes como cúmplice de homens que pensaram o Homem com extrema lucidez profética.

Agrada-me que esta vontade de retorno ao Homem seja feita justamente por tão exímios ilustradores.
Foto: Stalker, by Andrei Tarkovsky (URSS, 1979)

quinta-feira, julho 05, 2007

totalitarismo estatal

Confesso: o pensamento da secretária Pignatelli sobre a liberdade de expressão e quais os sítios adequados e menos próprios para expressar opiniões conduziu-me de imediato ao quarto de banho cá de casa (por razões de pura comodidade e segurança... bacteriológica) para melhor avaliar do simbolismo do lugar onde, como aconselha a simpática senhora, deverão
ser despejados os nossos mais secretos rancores contra os governos, a nossa raiva incontida contra os ministros, os subsecretários e secretários (desculpem a des-ordem), os adjuntos dos últimos e respectivos assessores e chefes de gabinete se for caso disso.
Confesso: parte da missão da secretária Pignatelli era escusada, pelo menos para mim. O pensamento, isto é, todo o livre pensamento, foi sempre perseguido e condenado pelos poderes totalitários. Para o totalitarismo (estatal) não basta ser-se absoluto e arbitrário é preciso levar á asfixia toda e qualquer crítica do espírito. Foi isso que aprendi aos 16 anos em pleno regime fascista. Que fazer? Bom, sempre podemos por começar carregar no botão do autoclismo. E, de seguida, passar à acção... recordando Manuel Alegre: Há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não.

terça-feira, julho 03, 2007

Abu Graib:as confissões do general

A revista norte-americana, New Yorker, publicou no seu número de 25 de Junho uma entrevista, bastante esclarecedora, com o ex- general Antonio Taguba, responsável pela primeira investigação militar sobre as torturas praticadas na prisão de Abu Graib de Bagdad. Segundo Taguba, -que acabou afastado por se ter recusado a ocultar a barbárie praticada na prisão iraquiana- "o ex-Secretario de Defesa, Donald Rumsfeld, e outros altos funcionarios conheciam, meses antes da sua divulgação pública, a existência de mal tratos e torturas praticadas" no célebre cárcere da capital do Iraque.

Para aceder ao artigo, na íntegra, clique em:www.newyorker.com/reporting/2007/06/25/070625fa_fact_hersh





segunda-feira, julho 02, 2007

sinal de "progresso"

Por decisão da Direcção Regional de Educação do Norte (DREN) tomada em Abril passado, a EscolaEB 23 Padre Agostinho Caldas Afonso é extinta a partir de Agosto. Não fosse o caso de escola ter sido escolhida para receber o "Prémio Iberoamericano de Excelência Educativa 2007", atribuído por um organismo internacional não governamental, sedeado no Panamá, e o fecho anunciado deste estabelecimento de ensino seria apenas mais um nas estatísticas. Que explicação (simplista) tem o Ministério da Educação para mais este sinal de esclerose do sistema? Arrisco a "máxima" (que me ocorre no momento): descerebrizado pela grosseria neo-liberal o responsável (ou, os responsáveis) por mais este acto de depauperamento do país deu uma prova de se ter demitido da condição humana.

domingo, julho 01, 2007

running on empty revisitado

Metáfora sobre a família (que se reporta às consequências de um acto de luta política nos anos 60 contra a guerra do Vietname) , Running on Empty / "Fuga Sem Fim" , de Sidney Lumet mereceu, na altura da estreia em sala (verão 1989), os mais calorosos elogios por parte da crítica. E o caso não era para menos. Surpreendentemente, ou talvez não, Lumet fez de um tema carregado de emocionalidade e permeável à exploração lamecha, um filme de enorme contenção narrativa, sobriedade e rigor. Rever, dezoito anos depois, Running on Empty , em dvd, ficou -me amplamente demonstrado que o "toque" de Lumet fica para sempre fixado na minha retina como um dos mais comovidos e simples deslumbramentos humanos.
Foto: River Phoenix e Christine Lathi, em Running On Empty (1988), by Sidney Lumet

sábado, junho 30, 2007

palavra de homem

I refuse to be silent any longer. I refuse to be party to an illegal and immoral war against people who did nothing to deserve our aggression. My oath of office is to protect and defend America's laws and its people. By refusing unlawful orders for an illegal war, I fulfill that oath today.
U.S. Army First Lt. Ehren Watada

sexta-feira, junho 29, 2007

ideia de felicidade

Salvo uma ou outra excepção a política do governo continua a seguir, passo a passo, a cartilha de recomendações do FMI. E é pena, porque ao contrário do que se pensa, a sociedade portuguesa não tem (nem terá, nunca) desenvoltura nem dinâmica capazes de aguentar os efeitos devastadores das políticas económicas de "ruptura" em curso, definidas como "necessárias e imperiosas" para o "sucesso" de Portugal, como rezam todas as teses.Nem muito menos estamos preparados para as suas consequências. Em nome do mesmo "sucesso", pedem-nos que enterremos os sonhos (quer dizer, as aspirações, os desejos, as vocações...) e nos disponhamos de bom grado a aceitar todo o tipo de estereotipos e de normas, novas, em que "necessáriamente" passaremos a viver, a depender, para nosso bem, individual e colectivo, evidentemente.


O pior desta tragédia não é o facto de acabarmos, dia menos dia, por nos tornarmos ainda mais escravos e pobres, o pior é convencerem-nos através da alienação que o sonho é um absurdo agora e sempre para o resto das nossas vidas. A tragédia maior é que é preciso um esforço, enorme, para levar as pessoas a perceberem que ele, o sonho, é uma coisa que lhes pertence por direito, que lhes é intrinseca e não é "negociável", em nenhuma situação como as outras coisas que deixámos , pouco a pouco, e cobardemente, nos fossem sendo retiradas.Em nome da "crise", do "desenvolvimento" e também de um "futuro radioso" que jamais conheceremos. Se calhar a ideia de felicidade para a maioria continuará a estar, por muitos anos e bons, no preenchimento semanal do euromilhões. Quer dizer, pelo jogo, pelas apostas, só. Maior felicidade do que esta não pode haver!

quarta-feira, junho 13, 2007

intensidade sugestiva

Donde teria partido esta vontade súbita em voltar a ler António Ramos Rosa? Se calhar depois de ouvir (no pick-up!) os études, op. 10 & op. 25, de Chopin pelo toque virtuoso do piano de Maurizio Pollini. Que relação entre Chopin e Ramos Rosa? O certo é que um produziu, por assim dizer, o efeito (sugestivo) de desejo sobre o "outro". A (re) leitura de Ramos Rosa despoletada pela audição de Chopin deu nisto: a vontade de partilhar um poema (dos maiores...) de A.Ramos Rosa que é (como não podia deixar de ser) de uma enorme intensidade lírica na expressão do alargamento do sentir e do desejo do "eu" e do "tu".
Em abandono límpido tocar
a margem ou centro sob o sol
no perfeito e inacabado arco
do poema
em delírio de um avanço no silêncio
incorporar o escuro sopro de uma
sombra
percurso lúcido e essencial de uma
palavra
até ao limite intransponível
até ao hábito inicial
de uma boca
de terra e ar
fresca do silêncio no avanço
de um espaço branco e negro
margem e centro terra sempre
no fundo a secreta praia lisa
talvez o incessante respirar
(António Ramos Rosa, Boca Incompleta, Edição Artcádia)

domingo, junho 10, 2007

por este rio acima...

Uma das criações maiores da música portuguesa que não me canso de (re)ouvir sempre que a vontade o impõe. Maior também pela fonte (inesgotável) de inspiração. Por ele passou muita da força criativa de "Além do Maar"(Circulo de Leitores / Bertrand), do meu querido amigo Miguel Medina, morto faz exactamente um ano.

revisitar Joanne Woodward


A noite passada, furioso com o desplante assassino da rtp2 em exibir, numa cópia "pan & scan", um dos maiores filmes de Sydney Pollack, "Jeremiah Johnson", decidi procurar no acervo de vhs's "algo" suficientemente apaziguador e belo que me fizesse esquecer mais este acto hediondo (agravado pela habitualidade...) da televisão pública. Sem quaisquer reticências, optei por rever The Effect of Gamma Rays on Man-in-the Moon Marigolds ("O Efeito dos Raios-Gama no Comportamento das Margaridas", estreado no antigo Pathé, no outono de 1973...), de Paul Newman, baseado na obra de Paul Zindel, (prémio Pulitzer) com Joanne Woodward. O que é tocante neste drama intimista (a fazer lembrar uma peça de Tennesse Williams) é a actuação vigorosa de Joanne Woodward, na pele de uma mulher sem amor à volta com as dores de crescimento das suas duas filhas, adolescentes. Newman, que filma magistralmente, sabe como ninguém convocar os sinais de vida, as esperanças e desilusões, as dádivas e a retribuição, as incongruências e a desfaçatez. Parafraseando Angelopoulos, restar-nos -á o tempo inteiro e um dia?

palavras de howard zinn

Civil disobedience is not our problem. Our problem is civil obedience. Our problem is that numbers of people all over the world have obeyed the dictates of the leaders of their government and have gone to war, and millions have been killed because of this obedience. Our problem is that people are obedient all over the world in the face of poverty and starvation and stupidity, and war, and cruelty. Our problem is that people are obedient while the jails are full of petty thieves, and all the while the grand thieves are running and robbing the country. That's our problem.
Howard Zinn, historiador, in 'Failure to Quit'

quinta-feira, junho 07, 2007

dores de crescimento (7)

Lembro-me de ficar minutos no miradouro de s.pedro de alcântara a olhar as luzes brilhantes da avenida e de vaguear pelo cais ao amanhecer, lembro-me. Do mal que nós fizémos, do bem que não deixo de memorar, quando vou no convés do cacilheiro procurar na outra margem o sentido dos nossos absurdos.
Lisboa, Rua Pascoal de Melo, 10 de Setembro de 1984

terça-feira, maio 29, 2007

o futuro (utópico) da moral segundo Sartre

A fraternidade é o que os homens serão uns em relação aos outros, quando, através de toda a nossa História, se puderem dizer ligados afectiva e afectivamente uns aos outros. Se me falta alguma coisa, dás-ma, e vice-versa. Isto é o futuro da moral.

Jean-Paul Sartre, declarações a Benny Levy em Nouvel Observateur (Março de 1980), transcritas em O Jornal, edição de 9 Maio 1980.

segunda-feira, maio 28, 2007

santo ofício II

António Vitorino, dirigente do PS, hoje no jornal da noite da RTP1: "A prepotência dos pequenos poderes é a pior das prepotências". A esse respeito estamos de acordo. Mas não basta. Ou se castigam, forte e feio, os abusadores -que se acham senhores de todo e qualquer poder- onde quer que eles estejam ou então tudo não passa, tristemente, de mera condenação "retórica" destes ou de outros "excessos" de zelo. Vitorino acha mais: que "a suspensão (preventiva) é um mecanismo desproporcionado". Que o diga eu, protagonista à força de uma "ópera bufa" que subiu á cena num conhecido organismo público, em Março de 2005, dirigida por um ilustríssimo director de serviço com "carta branca" para a prepotência, o abuso e toda a espécie de atropelos à legalidade democrática de um Estado que se julgue... como tal.

sábado, maio 26, 2007

santo ofício


Em certo sentido, a situação do país retira toda a razão aqueles que perderam toda e qualquer capacidade de visão do real e são já incapazes de ver distintamente a realidade que a todos circunda. Os sinais de pulsão autoritária, de intolerância e perversão dos valores da democracia que vieram esta semana a público do norte do país (episódio DREN e da sua dedicadíssima directora-geral, of course!) não se devem a meros circunstancialismos, ajustam-se na perfeição ao clima de fascização social reinante que se vem instalando (e alastrando, em pézinhos de lã) em alguns ministérios, institutos públicos, autarquias, bancos, empresas, etc. . Para a depuração ser eficaz "pedem-nos" que nos mantenhamos em estado de impotência serial.

quarta-feira, abril 18, 2007

palavras de gandhi

My notion of democracy is that under it the weakest shall have the same opportunities as the strongest...no country in the world today shows any but patronizing regard for the weak... Western democracy, as it functions today, is diluted fascism...true democracy cannot be worked by twenty men sitting at the center. It has to be worked from below, by the people of every village.

Gandhi

segunda-feira, abril 16, 2007

relembrar françoise hardy


Tous les garçons et les filles de mon âge
se promènent dans la rue deux par deux
tous les garçons et les filles de mon âge
savent bien ce que c’est d’être heureux
et les yeux dans les yeux et la main dans la main
ils s’en vont amoureux sans peur du lendemain
oui mais moi, je vais seule par les rues, l’âme en peine
oui mais moi, je vais seule, car personne ne m’aime
Mes jours comme mes nuits sont en tous points pareils
sans joies et pleins d’ennuis personne ne murmure “je t’aime”
à mon oreille
Tous les garçons et les filles de mon âge
font ensemble des projets d’avenir
tous les garçons et les filles de mon âge
savent très bien ce qu’aimer veut dire
et les yeux dans les yeux et la main dans la main
ils s’en vont amoureux sans peur du lendemain
oui mais moi, je vais seule par les rues, l’âme en peine
oui mais moi, je vais seule, car personne ne m’aime
Mes jours comme mes nuits sont en tous points pareils
sans joies et pleins d’ennuis oh! quand donc pour moi brillera le soleil?
Comme les garçons et les filles de mon âge connaîtrais-je
bientôt ce qu’est l’amour?
comme les garçons et les filles de mon âge je me
demande quand viendra le jour
où les yeux dans ses yeux et la main dans sa main
j’aurai le cœur heureux sans peur du lendemain
le jour où je n’aurai plus du tout l’âme en peine
le jour où moi aussi j’aurai quelqu’un qui m’aime.
Françoise Hardy
(letra e música, 1962)


terça-feira, abril 10, 2007

clareza e síntese

No noticiário das 20 horas da Sic de ontem, o ministro Mariano Gago dispôs-se a falar do caso da licenciatura do primeiro-ministro, José Sócrates. Em menos de três minutos disse, com enorme clareza e bastante capacidade de síntese, como se processou o percurso académico do chefe do Governo. Em menos de três minutos, ficou a saber-se que a campanha erguida mansamente em certa imprensa pariu uma montanha... de omissões. Deliberadamente? Insidiosamente?.

Hemingway dixit

We have come out of the time when obedience, the acceptance of discipline, intelligent courage and resolution, were most important, into that more difficult time when it is a person's duty to understand the world rather than simply fight for it.
Ernest Hemingway

sábado, abril 07, 2007

lembrança de vinicius


Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.

Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.

Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.


Vinicius de Moraes

sexta-feira, março 16, 2007

encenadores da verdade

Cumprem-se hoje quatro anos que Bush, Blair, Aznar escolheram os Açores para anunciar ao mundo a decisão de assalto ao Iraque. Sabe-se hoje o que na altura já se adivinhava: a coberto de uma operação de manipulação da opinião pública mundial, os três magníficos mais um (o recepcionista Barroso!) revelaram-se tão inefáveis, tão inimitáveis, na sua encenação "brilhante" que se esqueceram que a realidade pós-Saddam haveria de se revelar, como se revela, uma farsa bem mais trágica, destruidora e sanguinária do que aquela em que os iraquianos viviam.

o (outro) cinema volta ao Trindade

Depois de Macbeth, de Orson Welles, anuncia-se para 27 de Março (Dia Mundial do Teatro) a projecção de Die Generalprobe / O Ensaio Geral, de Werner Schroeter, um documentário fora de vulgar (vencedor de grande prémio da Academia do Cinema Alemão) sobre a edição de 1980 do Festival Internacional de Teatro de Nancy. Depois, a partir de Abril, é a vez de Pina Bausch e o seu Tanztheater inaugurar no Trindade -na altura em que se anuncia a sua vinda a Lisboa- um curto mais significativo ciclo de filmes sobre a sua exemplar vida artística. Haverá oportunidade para aceder ao célebre "O Lamento da Imperatriz", sua primeira longa-metragem que permanece, à data, completamente desconhecida entre nós.
As sessões realizam-se na sala principal, às terças e quartas, pelas 17h30, com entrada livre.
Lá mais para a frente , Brecht subirá à cena através de uma colectânea de filmes documento de enorme valor histórico sobre alguns dos seus trabalhos maiores realizados em palco.

quinta-feira, março 15, 2007

do provincianismo

O director do Público, José Manuel Fernandes, falava ontem de "provincianismo" e "inveja" como estando na origem do afastamento do director do S. Carlos, o professor Pinamonti. Mesquinhez, acrescento eu, por mesquinhez -que grassa no país. Esperemos que o sucessor , Christoph Damman (se não estou em erro) seja tão bom quanto Pinamonti o foi, com bastante mérito (o suficiente para criar incómodos...) nestes seis anos em que esteve á frente dos destinos do S.Carlos.

segunda-feira, março 12, 2007

da paixão

Bertrand Tavernier, o realizador de Autour de Minuit (uma elegia à amizade e ao jazz, mais conhecido por Round Midnight), que os espectadores de meio mundo, mais exigentes, transformaram em filme de culto da segunda metade da década de 80, assina um curioso blog sobre o cinema. A avaliar pelo conteúdo do muito material já publicado, DVD Blog, par Bertrand Tavernier, bem merece ser visitado. Lamentável é continuar por editar entre nós muita da sua considerável (e importante) filmografia, como é o caso de Le Juge et L'Assassin(1973), Un Dimanche à Campagne(1984) e sobretudo L'Appat (1995) , nunca estreado em Portugal apesar de ter conquistado o "Urso de Ouro" em Berlin.

Façam o favor de tomar nota: www.sacd.fr/blogs/tavernier.


domingo, março 11, 2007

lembranças do 11 de março 1975

Faz 32 anos que a aventura golpista spinolista permitiu , em meia dúzia de horas, um avanço impensável do PREC. Lembro-me de seguir num carro a grande velocidade para o Ralis menos de uma hora depois do bombardeamento por ar da unidade do Dinis de Almeida. Lembro-me de haver centenas de pessoas à porta de armas a pedir armas enquanto não muito longe dali o Adelino Gomes e um operador de imagem da RTP testemunharem primeiro que todos nós o diálogo verdadeiramente sui generis entre os comandantes das forças atacante e defensiva. Lembro-me de à hora da rendição dos páras o local ser já dominado por militares à civil e civis à militar. Lembro-me ainda da tirada épica da Zita Seabra à saída do carro que a trouxera madrugada dentro da reunião extraordinária do CC do PCP anunciar aos jovens da UEC que aguardavam na sede da Rua Sousa Martins: "Camaradas, Portugal vai para o socialismo!". Também me lembro, e muito gostosamente, dos surpreendentes comunicados do PPD e do CDS saídos nessa mesma noite escreverem preto no branco a palavra socialismo como "objectivo" , salvo é claro pequenas grandes diferenças de método!. Uma autêntica heresia mesclada de oportunismo político meramente táctico dos partidos de direita.
A "salvação da face", recorde-se, deu-se meses mais tarde com a trama de vingança do 25 de Novembro, apresentada como acto de "reposicionamento do espírito de 25 de Abril". Um propósito que, como se viu e se tem visto, funcionou exactamente ao contrário. Apesar, naturalmente, de Soares nos ter martelado incansavelmente (com eficácia) a ideia de se "continuar" a caminhar para "o socialismo em liberdade".

sexta-feira, março 09, 2007

palavras de ruy belo (2)


As velas da memória
Há nos silvos que as manhãs me trazem
chaminés que se desmoronam:
são a infância e a praia os sonhos de partida
Abrir esse portão junto ao vento que a vida
aquém ou além desta me abre?
Em que outro mundo ouvi o rouxinol
tão leve que o voo lhe aumentava as asas?
Onde adiava ele a morte contra os dias
essa primeira morte?
Vinham núpcias sem conto na inconcebível voz
Que plenitude aquela: cantar
como quem não tivesse nenhum pensamento.
Quem me deixou de novo aqui sentado à sombra
deste mês de junho? Como te chamas tu
que me enfunas as velas da memória ventilando: «aquela vez...»?
Quando aonde foi em que país?
Que vento faz quebrar nas costas destes dias
as ondas de uma antiga música que ouvida
obriga a recuar a noite prometida
em círculos quebrados para além das dunas
fazendo regressar rebanhos de alegrias
abrindo em plena tarde um espaço ao amor?
Que morte vem matar a lábil curva da dor?
Que dor me faz doer de não ter mais que morrer?
E ouve-se o silêncio descer pelas vertentes da tarde
chegar à boca da noite e responder
Ruy Belo
Aquele Grande Rio Eufrates

segunda-feira, março 05, 2007

ruy belo e angelopoulos

A noite passada (em casa, como quase sempre) foi profícua em momentos de reentrega cinéfila e literária.
1. Regresso a Theo Angelopoulos, que é só um dos maiores realizadores de sempre da História do Cinema, através do seu penúltimo filme, Eternity and a day (1998) :obra admirável, de rara profundidade filosófica e enorme solidez visual, em redor da viagem de um escritor em busca do tempo perdido e dos momentos que gostaria ter de volta por um dia ou por toda a eternidade. Eleni Karaindrou assina uma contagiante e muito bela banda sonora. A (re)visão de Eternity and a Day deixa-me a sensação, agora mais firme, de que os sinais da devastação ética na Europa (vidé a destruição da Jugoslávia...) não é só uma consequência da intempérie da globalização mas também um sinal de retrocessos, perigosos na maioria dos casos, impensáveis há uma vintena de anos e que nos remetem directamente para a "utopia" de um mundo europeu, o da fraternidade, da igualdade, da solidariedade. Quer dizer: na nossa condição de humanos estamos a perder , cada vez mais, o sentido de Humanidade.
Como foram proféticas as palavras de Sartre sobre o futuro -"Socialismo ou barbárie?".
2. Ruy Belo, o excelente poeta da meditação, de grande poder narrativo, que descobri aos 23 anos, volta nestes dias a apetecer-me. E ainda bem que assim é (como provavelmente diria também o Eduardo Graça!). Reencontrar Ruy Belo é como descer ao mais fundo de nós. É entregarmo-nos a nós próprios, "fugitivos da catástrofe", - belo título do seu último poema publicado em vida ( na Colóquio /Letras, nº42, ) . Leio em Aquele Grande Rio de Eufrates (seu primeiro livro) esta coisa simples mas lapidar: "vem ao meu pátio ver crescer a sombra". Onde podemos enontrar tal força da palavra?.

domingo, março 04, 2007

buñuel e deneuve

Los productores ya la tenían (Catherine Deneuve) programada. Me pareció de un tipo posible para el personaje: muy bella, reservada y extraña. Por eso la acepté.

Luís Buñuel



Quand Buñuel m'a proposé ce rôle. j'ai accepté sans hésiter, mais c'était aussi audacieux pour l'époque. Et un peu risqué pour moi. J'avais 23 ans ; pour tout le monde, j'étais la jeune fille romantique des "Parapluies"... Le film m'a fait basculer dans cette zone indécise où on ne sait jamais si une femme est une vierge ou une putain. Aujourd'hui, des gens me regardent comme s'il y avait encore en moi quelque chose de "Belle de jour". Je précise que je n'en ai absolument aucun regret.
Catherine Deneuve, Télérama (1966)