sábado, agosto 04, 2007

recordação de janis joplin

Aos 16 anos, não pensava que as coisas intensas (como o amor, a paixão, a amizade)fossem efémeras.Janis Joplin era um dos meus "refúgios" mais ou menos reconfortante quando alguma dessas coisas não corria bem, acabava(m) ou,simplesmente,me sentia desconfortável, ansioso e passava uns dias no quarto fechado. Eu e Janis!

sexta-feira, agosto 03, 2007

revisitar bertolt brecht


Dificuldade de governar
1
Todos os dias os ministros dizem ao povo
Como é difícil governar. Sem os ministros
O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.
Nem um pedaço de carvão sairia das minas
Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda
Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra
Nunca mais haveria guerra. E atrever-se-ia a nascer o sol
Sem a autorização do Führer?
Não é nada provável e se o fosse
Ele nasceria por certo fora do lugar.
2
E também difícil, ao que nos é dito,
Dirigir uma fábrica. Sem o patrão
As paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem.
Se algures fizessem um arado
Ele nunca chegaria ao campo sem
As palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem,
De outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que
Seria da propriedade rural sem o proprietário rural?
Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas.
3
Se governar fosse fácil
Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer.
Se o operário soubesse usar a sua máquina
E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas
Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários.
E só porque toda a gente é tão estúpida
Que há necessidade de alguns tão inteligentes.
4
Ou será que
Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira
São coisas que custam a aprender?

quinta-feira, agosto 02, 2007

bergman: a explicação da imagem

...Quand on fait un film, il faut arriver à accrocher ses démons à son char et être capable de foncer pour se défaire de tous les masques qui peuvent se succéder et entraver votre recherche de la vérité. Bergman, je crois, était quelqu'un de constamment assailli de tout un tas d'images et il disait dans une formule que je trouve marquante: "Mes films sont les explications de mes images". Le cinéma a vraiment une capacité d'investigation et en retour c'est un cinéaste qui a une valeur d'usage intime, chacun le reçoit très personnellement en fonction de sa sensibilité.
André Téchiné, declarações ao Libération, 31 de Julho 2007
Foto: Sommaren med Monika -1952 (Mónica e o Desejo)

quarta-feira, agosto 01, 2007

eternidade

comme s'il fallait remplacer l'éternité...
Jean-Luc Godard, a propósito de Lettre à Freddy Buache (1982)

antonioni "made in usa"

Zabriskie Point (1970)

terça-feira, julho 31, 2007

alienação, segundo antonioni

Monica Vitti, em L'Avventura (1960), de Michelangelo Antonioni. Primeiro filme (e seu primeiro grande sucesso internacional) da trilogia sobre a mulher na sociedade contemporânea. La notte (1961) e“L'eclisse” (1962) foram os seguintes.

michelangelo antonioni (1912-2007)


"Dou uma grande importância à banda sonora, aos sons naturais, aos ruídos, mais do que à música... . O nosso drama é a incomunicabilidade, que nos isola uns dos outros. A sua permanência faz-nos sentir perdidos e impede-nos de resolver os problemas por nós próprios. Não sou um moralista, nem tenho a pretensão nem a possibilidade de encontrar uma solução... ."
Michelangelo Antonioni,
declarações em "Dicionário de Cineastas", Georges Sadoul, Livros Horizonte ,1979

"last of the greats"

O elogio emocionado de Ingmar Bergman em artigo de Paul Schrader, argumentista(Taxi Driver) e realizador(Blue Collar, Patty Hearst) publicado na edição de hoje The Independent .

tomar o pulso...

O site do Partido Democrático norte-americano merece uma visita para se saber do estado da nação. Para além do "escândalo" Bill O'Reilly (com este a ameaçar destruir a voz de imprensa "DailyKos.com") fica-se a saber que a Administração Bush está a promover a ilegalização (cinco valentes e democráticos Estados já aderiram...) de t-shirts "estampadas" com os nomes dos soldados mortos na farsa sangrenta iraquiana . Mas o que se revela mais interessante é o constatar dum clima"opressivo" e "racista" generalizado no quotidiano americano. Um "passeio" por sites comerciais dão conta da panóplia de adereços anti-Bush e "estado das coisas" a que chegaram os United States of America.
Foto: catálogo wearatshirt.com

segunda-feira, julho 30, 2007

persona:lição de cinema

Confesso: "devo" a Ingmar Bergman o privilégio de, aos 14 anos, me ter confrontado com uma outra forma de fazer cinema, mais inovador, mais deslumbrantemente criador e inquietante (e de grande complexidade) do que até então me parecia. Desde esse dia percebi também que o cinema detinha um poder absolutamente notável; qualquer coisa que se joga entre a (linguagem da) imagem e a vida, e cuja relação connosco é grande, imenso e fascinante, que pode mudar, para sempre, as nossas vidas, como acredito que mudou a minha.

ingmar bergman (1918-2007)

"Eu penso que cada posição de câmara deve ser resultante
de um conhecimento íntimo do cinema .
Sabemos o que queremos obter e, então, também devemos saber
onde colocar a câmara. É uma moral profissional, uma ética."
Ingmar Bergman, Cahiers du Cinéma nº 203

quarta-feira, julho 25, 2007

In memoriam de sacco & vanzetti

Faz em Agosto oitenta anos anos que dois emigrantes italianos, Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti, foram usados pelo sistema político-judicial norte-americano e condenados à morte -num processo vergonhoso que veio a ser anulado quase sessenta anos depois- por electrocussão no estado de Massachusetts.
A partir de hoje, e até finais de Agosto, proponho-me aqui lembrar Sacco e Vanzetti não apenas como forma de homenagem mas também como símbolo de reconhecimento de todos aqueles que se estão batendo pela reinvenção do Homem, contra os poderes arbitrários e o totalitarismo nas suas diversas expressões.

simbolizar a coragem

Western "existencialista", High Noon / O Comboio Apitou três Vezes (Fred Zinnemann, 1952), é também visto como uma alegoria política dos anos negros do McCarthysmo da"caça às bruxas" e da intolerância. Relato (em tempo real!) de como uma comunidade citadina se acobarda e isola um xerife determinado e corajoso em afrontar quatro perigosos pistoleiros, High Noon foi na sua época celebrado como um dos exemplos mais interessantes do género e, porventura, aquele que sob um dispositivo clássico se propôs desenvolver um discurso "ideológico" nada tranquilizador sobre a responsabilidade moral colectiva e as virtudes do individualismo. Virtuoso e inteligente, é o filme- tipo no momento político que as televisões portuguesas fariam muitíssimo bem em programar para uma noite destas.

Foto: Gary Cooper e Grace Kelly, High Noon , de Fred Zinnemann (EUA,1952)

terça-feira, julho 24, 2007

simbolizar o "bem"

Noite de segunda-feira frente ao televisor para reencontrar (em dvd) um velho "herói" da adolescência cinéfila: Shane (George Stevens, 1953) afigura-se-me agora envelhecido, ultrapassado, demasiado simbolista. Ainda assim, o filme parece conservar muito da carga mítica com que seduziu, admiravelmente, espectadores de todas as idades. A figura misteriosa de Allan Ladd, o cavaleiro justiceiro de branco vestido, surgido do "nada", a lutar contra o mal, (personificado por Jack Palance, de negras roupagens) era , para mim, uma imagem tão sólida, tão abusivamente perfeita que chegava mesmo a ser paralizante ao ponto de o ter visto quase de seguida num longínquo fim de semana dos inícios de 70.

desmontagem crítica


Ser radical é descer à raiz; e a raiz do homem é o próprio homem (i.e. a sua individualidade)
Karl Marx
Faz trinta anos (para ser preciso, entre 18 Maio de 1977 e 29 Dezembro de 1978)que João Sousa Monteiro nos brindou com "O Homem do Tempo", um singular e nada usual programa radiofónico, transmitido duas vezes por semana na ex-RDP 4. Singular porque assumia um inconformismo, subversivo e radical, na crítica do capitalismo (incluindo o de Estado) e desmontava, um a um, "os tabus sociais de maior impacto estratégico para a sobrevivência e o bom funcionamento de qualquer sociedade civilizada que consiste na proibição de pensar". Pouco ou nada usual porque JSM dirigia-se , num tom revolucionário que não era vulgar, deliberadamente, contra a formatação do conceito, vulgar e demagógico, de "revolucionário" e sobre algumas das suas teorizações mais dominantes.

A força de "O Homem no Tempo" mostrava-se muito para além dos textos ditos por JSM e o suporte audio (voz de Hitler a discursar; ruídos de aviões; metralha e explosões, etc.) que ajudava na "descida aos infernos". É certo que o trabalho de JMS (incómodo, muito incómodo para as "boas" consciências) terminou silenciado, para tranquilidade dos espíritos mais sensíveis e cheios de certezas.

Em 1979, a Assírio & Alvim resolveu publicar os textos que durante semanas, meses constituíram a razão desse refrescante "O Homem no Tempo": "Tire A Mãe da Boca" e "Tabu, príncipe dos cágados de fraldas ao vento ladra ás portas do futuro". Um diptíco imperdível agora que nos acenam com novos velhos costumes totalitários.


Foto: Die Blechtrommel ( O Tambor), de Volker Schlondorff, Alemanha/França, 1979

quarta-feira, julho 18, 2007

a vulnerabilidade do poder


A intolerância é sempre uma perda para quem a pratica.


David Lands, in "A Riqueza e a Pobreza das Nações"

segunda-feira, julho 16, 2007

a ultima oportunidade

Como se esperava, o socialista António Costa ganhou as eleições intercalares para a CML. Sem maioria absoluta e a previsível oposição moderada da assembleia municipal, que lhe é adversa, o ex-ministro Costa tem pela frente uma tarefa verdadeiramente ciclópica: a de voltar a repor a credibilidade na maior autarquia do país e num curto espaço de tempo. Não vai, concerteza, ser tarefa fácil. Por conveniência, mas também por necessidade "funcional"estratégica, o PS vai ter de fazer uma política de antecipação de interesses se não quiser tornar-se refém, não apenas de si mesmo, mas das oposições. É para esse risco, o de subordinação à teia de interesses representados pelo PSD e Carmona (responsáveis pelo desbaratar de crédito estes anos todos), que o PS tem de reagir. De contrário, é a anulação, a erosão numa palavra, renúncia. E, então, teremos a (re)comprovação de estarmos, politicamente, irremediavelmente condenados.

sexta-feira, julho 13, 2007

para minha mãe

Aconteceu-me hoje lembrar-me do teu aniversário. Em poucos instantes revi-te no olhar doce, expectante e por vezes triste a caminhares até mim dares-me um beijo, fazeres-me uma festa, retribuires-me um sorriso e tranquilizares-me com uma palavra.
Aconteceu-me hoje lembrar-te através dos beijos, dos abraços, dos afectos; lembrar-te também através das inquietações, dos receios, das preocupações, das alegrias; lembrar-te ainda através da combatividade, das incertezas, do (des)ânimo. Lembrar-te em muitas coisas que em criança me dizias e me faziam rir porventura das histórias de fadas e gnomos que me lias ao deitar e das matinées de cinema aos domingos, das passeios a pé, dos desenhos que fazias para mim ou dos teus poemas, escritos num pequeno bloco de bolso, que me lias em momentos especiais de felicidade.
Lembrar-me de ti é, como hoje, encontrar-me incomparávelmente só.

quarta-feira, julho 11, 2007

in memoriam de Sousa Mendes, o rebelde consciencioso


A peça de Luís Francisco Rebelo, "A Desobediência", sobre a personalidade corajosa e respeitável do cônsul Aristides Sousa Mendes que ousou desafiar ordens de Salazar salvando as vidas de 30.000 refugiados da demência nazi-fascista vai, a partir de 11 de Outubro, subir ao palco do Teatro da Trindade, numa encenação do actor Rui Mendes.

reflexos do tempo (2)

José Vítor Malheiros no Público de ontem, dia 10 : "Que se exija uma lealdade aos chefes que proíbe a crítica política é algo que não merece outra qualificação senão a de fascista". É confortante ver que nem todos se (re)traíram ao clima de medo e de intolerância que parece grassar impunemente na sociedade portuguesa decorridos trinta e três anos do acto libertador de 25 Abril. Não é por acaso que essa vaga de atitudes ultra-direitistas que vimos assistindo nos últimos dois meses têem tido um propósito deliberadamente provocatório. De resto, o próprio Governo, mais precisamente Sócrates, acusa algum desconforto mas, o certo é que tarda, tarda e muito, a tomada que se impõe de decisão de honra do governo, porque é de honra de um governo eleito democraticamente que se trata. E de um governo saído de um partido socialista. No mínimo, a honorabilidade do governo obriga a desencorajar, revelar desagrado, advertir os candidatos a opressores que a tolerância atingiu, agora e sempre, o grau zero de permissividade.
O governo deve deixar-se de explicações simplistas e, pior, ambíguas, que só tem servido para fazer aumentar a dúvida, duvidar das intenções políticas do Estado, instalar a insegurança progressivamente e a apologia do medo e da obediência cega ( não só para controlar) em que nos querem meter a todos. O governo deve agir, se quiser continuar a merecer o respeito do povo que lhe outorgou, através do voto democrático, a legitimidade do poder.
O artigo, acutilante e corajoso, de Vítor Malheiros é uma tomada de consciência do que está ocorrendo em certos pensamentos bem instalados e que não adianta querer disfarçar e assobiar pró lado. Quanto mais não seja em nome da democracia e dos seus intrínsecos valores.