Foi com Rocco I Suoi Fratelli que cometi a minha primeira transgressão pela causa cinéfila: aceder ao filme mentindo na idade (tinha 17 anos, o filme era para "Adultos") numa sessão do Abc Cineclube realizada numa manhãde domingo, fria, em 1973. Quando o ecrã (do defundo Pathé, o ex-Imperial, sito na zona da Morais Soares) se inundou com o genérico de abertura do filme eu estava longe de imaginar a dimensão do efeito emocional que de mim se apoderou até final. O retrato dessa Italia dividida em dois "países" em confronto, em aculturação recíproca e sem perspectivas de uma superação do futuro, dialécticamente falando, reprresentou a minha primeira grande tomada de consciência política e ideológica. Visconti e a sua estética haviam conseguido o resto: um encantamento (pela universalidade) do cinema que não mais parou.sábado, fevereiro 24, 2007
tinha 17 anos
Foi com Rocco I Suoi Fratelli que cometi a minha primeira transgressão pela causa cinéfila: aceder ao filme mentindo na idade (tinha 17 anos, o filme era para "Adultos") numa sessão do Abc Cineclube realizada numa manhãde domingo, fria, em 1973. Quando o ecrã (do defundo Pathé, o ex-Imperial, sito na zona da Morais Soares) se inundou com o genérico de abertura do filme eu estava longe de imaginar a dimensão do efeito emocional que de mim se apoderou até final. O retrato dessa Italia dividida em dois "países" em confronto, em aculturação recíproca e sem perspectivas de uma superação do futuro, dialécticamente falando, reprresentou a minha primeira grande tomada de consciência política e ideológica. Visconti e a sua estética haviam conseguido o resto: um encantamento (pela universalidade) do cinema que não mais parou.sexta-feira, fevereiro 23, 2007
lembrar zeca

A presença das formigas
Nesta oficina caseira
A regra de três composta
Às tantas da madrugada
Maria que eu tanto prezo
E por modéstia me ama
A longa noite de insónia
Às voltas na mesma cama
Liberdade liberdade
Quem disse que era mentira
Quero-te mais do que à morte
Quero-te mais do que à vida
Coro dos Tribunais, álbum editado em Dezembro 1975)
Foto: Associação José Afonso
quarta-feira, fevereiro 21, 2007
in memorian de allende e neruda
Salvador Allende , Presidente da República de Chile eleito democráticamente (e derrubado através de um "putsch" sangrento -a 11 de Setembro de 1973- orquestrado por Kissinger e executado por Augusto Pinochet) e Pablo Neruda, Premio Nobel da Literatura, (morto dias depois do golpe, já não viu a sua residência ser vandalizada por energúmenos do movimento fascista chileno, "Patria y Libertad"; o seu funeral foi a primeira manifestação (corajosa) contra o esmagamento da democracia pluralista no Chile).Foto: de Arquivo
no país do faz de conta(1)
O "Sim" à despenalização da interrupção da gravidez até ás dez semanas saiu vitorioso como o temiam muitos dos que pugnaram pelo direito (abstrato) à vida. Como se a vida só merecesse ser defendida no princípio e não lhe deverem ser reconhecidas as condições de qualidade e de dignidade universalmente expressas. O "Não" , ou para ser exacto, uma parcela mais iconoclasta do "Não" preferiu continuar a apostar naquela máxima "ou nós, ou a morte" como o comprovam algumas das mais fantásticas "tiradas" alguma vez lançadas num qualquer outro referendo congénere.
Simone Weill, que era de direita mas não era estúpida, promoveu em França- faz quase trinta anos- uma consulta similar que decorreu de forma apaixonada mas sem necessidade de resvalar para a retórica de sargeta ou cair na patetice larvar: no dizer dos defensores do "Não", e dos peritos na arte de dramatizar, uma vitória do "Sim" traduzir-se-ia num "aterrador aumento de abortos", "num problema de saúde da mulher(!)" ou, pior que isso tudo, "na condenação à morte de inocentes".
Num país estruturalmente atrasado como o é Portugal, com os centros de apoio a menores superlotados (apesar dos muitos esforços de muito poucos, incluindo obviamente de centenas de católicos bem formados), com as instituições (também a romper as costuras) que albergam ad eternum bebés abandonados e orfãos, com a ausência de politica séria e célere no processo de adopção -tudo situações que se vêm agravando nos ultimos 40, 30 anos- não vejo , sinceramente, onde reside a razão (mínima) para tanto ruído de muitos que abraçaram a causa do "Não".
Não seria um bom começo, contribuirem para a resolução das situações gritantes de crianças e jovens que vivem no limbo da sociedade? Não seria curial ajudarem a criar as condições sociais para que o aborto seja senão completamente irradiado pelo menos reduzido à sua expressão mais infíma? Por exemplo, poderiam os do "Não" abandonarem a acção (absolutamente nefasta) que vem promovendo de forma doentia contra a educação sexual nas escolas? Sabendo que uma parte significativa das mulheres que abortam são jovens , muito jovens ... não seria um bom princípio? Bem sei que issso pouco ou nada interessa a muitos que votaram e se bateram pelo "Não", convictos de estarem dentro da razão (a sua) e dela não abdicarem.
Num Mundo que se vem cada vez mais desumanizando, onde cresce o fosso entre os que tem tudo e aqueles que nada tem, um Mundo em que o poder do dinheiro determina já o tempo de vida de muitos, aparecem uns iluminados a colorir a realidade com cores que a esmagadora maioria dos seres humanos nunca verá. É obra!
Não tenho ilusões sobre isso, como em relação a muitas outras coisas. Apenas me pareceu oportuno lembrar que o Mundo é já hoje uma realidade bem diferente daquela que desejaríamos possível ou, paar ser mais claro, de acordo com os nossos interesses egoístas. Mas não: o Mundo de hoje é tão mais cruel do que antes e não se compadece com o "faz de conta" em que chafurdamos ano após ano para nos convencermos (fé inglória!) que tudo vai bem. Quer dizer, tudo vai mal. Bem o sabemos. Mas continuamos a assobiar pró lado. É o que ainda fazemos bem: assobiar como quem "faz de conta"... .A ver se a crise passa e o sol volte a brilhar de novo para todos(?) nós!
terça-feira, fevereiro 20, 2007
a noite do general
Noite de 27 Junho 1976. No Pequeno Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, o candidato à Presidência da República, Otelo Saraiva de Carvalho, (apoiado pela esquerda revolucionária)reunido com os orgãos de comunicação social a declarar-se "vencido" mas não convencido. O general Eanes foi o candidato vitorioso (61,6%) mercê do apoio da coligação de interesses -PS, PPD, CDS e MRPP- que viu nele o único garante (possível) para garantir o êxito do processo de normalização político iniciado em 25 de Novembro de 1975.
Atrás de Otelo, o operador de camera, de vinte anos, que empunhava a Bolex Paillard ainda acreditava que a Revolução continuava na ordem do dia e seguia dentro de momentos... .
segunda-feira, fevereiro 19, 2007
palavras de ramiro correia(2)
aquece as tuas mãos
na cinza do poema
prende os teus cabelos
às estrelas
e morre
ardendo lentamente
deixa o teu corpo
enfeitiçar
o tempo
Na Clivagem do Tempo, edição de autor (1973)
sábado, fevereiro 17, 2007
depuramento e fluidez
Letters from Iwo Jima (2006), de Clint EastwoodClint Eastwood não pára de surpreender: não obstante os seus 76 anos de idade mantém bem vivas as suas enormes capacidades criativas e o seu potencial talento. A atestá-lo, aí está Letters from Iwo Jima, que é talvez o mais depurado de todos os seus filmes, a par de uma fluidez narrativa, plena de elegância e eficácia, que permanece surpreendentemente exemplar.
terça-feira, fevereiro 13, 2007
domingo à tarde
Tenho-me interrogado algumas vezes sobre o significado da amizade e do amor.Dos amigos, não me apetece adiantar muito, todos me são queridos e poucos foram os que traíram, alguns sem o saberem bem porquê. Do amor, -esse risco de ousar ser inteiro todo o tempo mesmo que o medo tome conta de nós e a ternura, os carinhos e os beijos, afrouxem ou desapareçam apenas por umas horas ou mesmo dias- vou descobrindo que sinto a tentação de às vezes o repelir, talvez para melhor me aproximar dele. Para ter mais um pouco de amor. Quer dizer: de vida.
domingo, fevereiro 11, 2007
quinta-feira, fevereiro 08, 2007
quarta-feira, fevereiro 07, 2007
anne wiazemsky
Anne Wiazemsky, a actriz fétiche dos cineastas do cinema de autor, como Bresson, Godard, Garrel e Pasolini apresenta-se numa entrevista bastante interessante por sinal, publicada no último número da Les Inrockuptibles. É notório o peso de Bresson reflectido anos, muitos anos mais tarde na sua primeira obra escrita; o casamento com Godard (criticado por Bresson nestes termos: 'Mais Anne, vous faites une folie , il est trop vieux!'); a atracção pela personalidade de Pasolini; as experiências godardianas radicais, sobretudo La Chinoise.Anne Wiazemsky foi um dos meus amores secretos durante uma boa parte da adolescência e da idade adulta. Essa "fixação" em Anne obrigava-me a ver Au Hasard Balthazar, Teorema de Pasolini, Rendez-Vous, (de Téchinè) vezes sem conta. Uma atracção desmedida, confesso-o. Porque nunca me permitiu sair desse impasse, dessa impossibilidade, de a ter no ecrã e de a desejar a meu lado.
segunda-feira, fevereiro 05, 2007
pelo "sim", contra a hipocrisia
O referendo pela despenalização do aborto às dez semanas é pau para toda a obra dos que defendem o "não"até às ultimas consequências: bebés boneco made in china do tamanho de um isqueiro passam de mão em mão como que a alertar para o "crime hediondo" que livremente se praticaria aos "milhares"(sic) se o "sim" vencesse; a igreja (alguma da Igreja...precisemos) ensaia nas homilias a excomunhão violenta, ao estilo medieval ,das pecadoras sedentas de matar a vida no ventre, enquanto catequistas febris distribuem nos infantários e nas ruas cartinhas de supostas crianças a quem as mães não mataram a vida e que por isso estão agradecidas(!); um inventivo ex-ministro da segurança e do emprego propõe a condenação das mulheres a uma pena de serviço na comunidade como se fossem jovens delinquentes. Há ainda os moderados que defendem um castigo simbólico das mulheres que abortem, contra a própria lei que deixa de ser lei!.
Todos no "não" pugnam pela vida, a vida acima de tudo! Só estranho, e muito, que a coerência desses princípios não inclua as pilulas contraceptivas e não proponham -por mera razão de coerência- a sua proibição imediata e a aplicação de castigos a quem prevaricar, -como é?
Conclusão: De vez em quando o país vira uma enorme tenda de circo e o espectáculo é sempre o mesmo: disfuncional, demencial e histérico quanto baste, para manter as bancadas em gargalhada e na ilusão de estar a gozar de felicidade.
sexta-feira, fevereiro 02, 2007
palavras de faulkner
Some things you must always be unable to bear. Some things you must never stop refusing to bear. Injustice and outrage and dishonor and shame. No matter how young you are or how old you have got. Not for kudos and not for cash, your picture in the paper nor money in the bank, neither. Just refuse to bear them William Faulkner
terça-feira, janeiro 09, 2007
ícones
Andrei Rubliov (1966), de Andrei Tarkovski (André Rubliev)
Porque
o vento cobre de imagens os tellhados.O tempo das colheitas
já passou, vem a morte, André Roubliev,
mordendo os cataventos, espera-nos
um cavalo
tão fertil como a chuva sobre os ícones.
Gil Nozes de Carvalho,
in O Bosque Sagrado, Gota de Água (1986)
"paredes frias": voz off dum filme perdido
Stalker, de Andrei TarkovskiÀs vezes, dou por mim a imaginar-me viver perto da infância, tendo por companheiros os meus amigos mais chegados. Às vezes a companhia é a solidão, outras a fala das imagens que eu quando jovem e adolescente juntava depois de sair do cinema num fim de tarde de verão.
Às vezes, só ás vezes, vejo-me de olhos fechados, corpo adolescente, a imaginar a eternidade do momento, de todos os momentos e de todas as recordações, passadas num tempo que parecia límpido, tão inesperadamente límpido que nunca será inalienável. Nunca.
Outras vezes, sonho que todas as paixões mesmo as paixões mais absurdas vem de novo ter comigo e eu guardo-as apesar de tudo, apesar sobretudo da vida ser-nos reduzida.
Às vezes, às vezes, um gesto e olhar doce como no antigamente servem para varrer os axiomas da vida, descolar do desânimo e desviar do desespero. Nunca hão-de compreender aqueles, nem ou outros, que nunca ousaram o atrevimento de ser inteiros e únicos. Como diria o Fernando Pessoa.
Às vezes imagino que nunca vou me cansar de voltar a sentir tudo como se fora a primeira vez.
segunda-feira, janeiro 08, 2007
iniciação
Foi com Noronha da Costa que aprendi o sentido da pintura.Devo, em parte, essa descoberta ao Zé Miguel Figueiredo -amigo da adolescência com quem partilhei a paixão pelo cinema e a fotografia- que, em 1972, no dia de anos do pai (que saudades, Vitor Figueiredo!) me convidou a ir lá a casa. Logo à entrada, dei por mim siderado frente ao branco imaculado das paredes da sala a deslumbrar-me com "um" N.da Costa colocado acima do maple... . Um deslumbramento que me ficou na retina. Para todo o sempre.
sábado, janeiro 06, 2007
náusea
A condenação à morte de Saddam Hussein, a farsa judicial que o antecedeu e a divulgação de imagens da execução "em directo" por enforcamento, apenas servem para sublimar a grandiosidade do desastre da aventura imperialista no Iraque e permitir aos escribas de serviço arrotarem uma catadupa de idiotices e lugares comuns que tresandam a hipocrisia da mais rasteira.
Se Saddam mereceu a pena capital pelo massacre de 148 xiitas, ocorrida nos anos 80, então o que merecem Bush, Chenney e Rumsfeld pelas vidas de centenas de iraquianos massacrados desde o inicio da agressão militar?.Isto para já não falar do campo dos horrores que (comprovadamente) foi (é?) Abu Ghraib ou na paradisíaca estância de Guantánamo, que faria as delícias das SS e do seu líder, Adolf Hitler.
Há dias, o Manuel António Pina (uma das raras excepções a opinar fora da rota da pantominice instalada...) escrevia no JN esta coisa simples mas lapidar : "são sempre criminosos que julgam outros criminosos". Nem mais!
Se Saddam mereceu a pena capital pelo massacre de 148 xiitas, ocorrida nos anos 80, então o que merecem Bush, Chenney e Rumsfeld pelas vidas de centenas de iraquianos massacrados desde o inicio da agressão militar?.Isto para já não falar do campo dos horrores que (comprovadamente) foi (é?) Abu Ghraib ou na paradisíaca estância de Guantánamo, que faria as delícias das SS e do seu líder, Adolf Hitler.
Há dias, o Manuel António Pina (uma das raras excepções a opinar fora da rota da pantominice instalada...) escrevia no JN esta coisa simples mas lapidar : "são sempre criminosos que julgam outros criminosos". Nem mais!
quinta-feira, janeiro 04, 2007
vulnerabilidades do sistema
Finalmente, on line! Privado (desde o penúltimo dia do ano passado) de sinal do servidor fui-me -mesmo que não por decisão própria- habituando à condição momentânea de "incomunicável". Uma excepção, não a regra -evidentemente.
quinta-feira, dezembro 28, 2006
memória do tempo
Na noite de consoada a saudade veio de mansinho instalar-se no meu pensamento. E encontrei-me só, perdido em noites de leitura na minha velha cama de menino. Eram as aventuras do major alvega de princípe valente e do tarzan. A escutar o último autocarro a subir em esforço a avenida. Irado vou para a janela e fumo mais um cigarro. Engulo o fumo e depois faço-o sair em circunsferências nem sempre perfeitas. Olho a paisagem de carroos dormentes na praceta mal iluminada. Mesmo que não o deseje tenho de enfrentar a saudade. Que poderei eu fazer senão guardar-te na retina. Encontrar-nos-emos na morte, esse lugar cheio do tudo acabado. Que falta que tu me fazes, Mãe.
quarta-feira, dezembro 27, 2006
quarto dos brinquedos
Aconteceu-me a meio da tarde ser sequestrado pelos jovens sobrinhos no quarto de brincar e ser obrigado a ler a história da Anita e os fantasmas com interrupções pelo meio de um que queria pôr-se às cavalitas e outro que desejava exercitar os seus dotes de kung-fu entre gritos de guerreiros e risos incontidos. Às tantas, os miúdos desligaram a luz , ligaram o leitor de cd's e forçaram-me a acompanhá-los ao ritmo do hip-hop. Foi pena, o sequestro ter durado pouco tempo. Sequestro como este deixam a memória com um manancial de lembranças.
domingo, dezembro 24, 2006
imagine...

(by John Lennon)
Imagine there's no heaven
It's easy if you try
Nowhere below us
Above only sky
Imagine all the people
Living for today...
Imagine there's no countries
It isn't hard to do
Nothing to kill or die for
And no religion too
Imagine all the people
Living life in peace...
You may say I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope someday you'll join us
And the world will be as one
Imagine no possessions
I wonder if you can
No need for greed or hunger
A brotherhood of man
Imagine all the people
Sharing all the world...
You may say I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope someday you'll join us
And the world will be as one
sábado, dezembro 23, 2006
o natal na clandestinidade?
Nas últimas semanas os meios de comunicação (pelo menos, a escrita) vem repetindo as mesmas palavras, os mesmos "recados", sobre a nova ideia, absurda e perigosa, noticiada no diário britânico The Guardian relativa a uma alegada campanha de católicos e da direita, súbditos de Sua Majestade, a favor do "fim da celebração do Natal"(!). Não o fim em si mesmo mas um fim na sua "exposição" pública, sob o pretexto de "não ofender"(!) ritos de outras religiões. Quer dizer: celebrar a festa católica do Natal sim, mas o mais discretamente possível!. De preferência na clandestinidade!
Num mundo marcado cada vez mais pela ausência total de perspectivas o objectivos sociais e políticos uma proposta deste calibre -diga-se, surpreendentemente urdida- serve antes de mais para caracterizar a mentalidade actual de certos poderes em se disporem a "reeducar" as massas sobre aquilo que é ou não "conveniente" e "políticamente correcto".
Só pode tratar-se de uma ficção com propósitos publicitários à escala mundial,da consequência do estado de demência avançada de quem se lembrou duma atordoada destas ou, na pior das hipóteses, da primeira grande estocada de um qualquer lobbie islâmico a dominar as sociedades ocidentais, sem dispararem um único tiro ou deflagarem bombas.
A paranóia está instalada e tem já seguidores zelosos -na Grã-Bretanha, Espanha, Estados Unidos- que mandaram suprimir referências ao Natal nos cartões da época; em escolas (Saragoça) e até em aeroportos estadounidenses de onde terão sido mandadas retirar as tradicionais árvores de natal!.
Lembro-me, que de outra vez ( aquando da morte do capitalismo de Estado a Leste) falou-se em "fim da História". Viu-se aonde queriam chegar de facto os novos ideolólogos da capitalismo neoliberal com tamanho disparate.
Num mundo marcado cada vez mais pela ausência total de perspectivas o objectivos sociais e políticos uma proposta deste calibre -diga-se, surpreendentemente urdida- serve antes de mais para caracterizar a mentalidade actual de certos poderes em se disporem a "reeducar" as massas sobre aquilo que é ou não "conveniente" e "políticamente correcto".
Só pode tratar-se de uma ficção com propósitos publicitários à escala mundial,da consequência do estado de demência avançada de quem se lembrou duma atordoada destas ou, na pior das hipóteses, da primeira grande estocada de um qualquer lobbie islâmico a dominar as sociedades ocidentais, sem dispararem um único tiro ou deflagarem bombas.
A paranóia está instalada e tem já seguidores zelosos -na Grã-Bretanha, Espanha, Estados Unidos- que mandaram suprimir referências ao Natal nos cartões da época; em escolas (Saragoça) e até em aeroportos estadounidenses de onde terão sido mandadas retirar as tradicionais árvores de natal!.
Lembro-me, que de outra vez ( aquando da morte do capitalismo de Estado a Leste) falou-se em "fim da História". Viu-se aonde queriam chegar de facto os novos ideolólogos da capitalismo neoliberal com tamanho disparate.
quarta-feira, dezembro 20, 2006
ofícios
Every single empire in its official discourse has said that it is not like all the others, that its circumstances are special, that it has a mission to enlighten, civilize, bring order and democracy, and that it uses force only as a last resort. And, sadder still, there always is a chorus of willing intellectuals to say calming words about benign or altruistic empires.
Edward W. Said - "Orientalism 25 Years Later," Counterpunch.org website, 4 August 2003.
segunda-feira, dezembro 18, 2006
reflexão nocturna
Fui sempre um leitor sôfrego, mesmo que agora não o seja tanto quanto desejaria.Tenho-me interrogado, desde a morte de minha mãe, sobre o que teria mudado na minha vida de adulto se tivesse nos últimos trinta anos sido capaz de manter a mesma relação que até á adolescência mantive com os livros. Não apenas porque a leitura me criou a obrigação desde cedo (necessária) ao acto da própria escrita mas porque eu era uma pessoa que havia descoberto na literatura uma forma perfeita de lidar com a minha ligação com o mundo e outra data de coisas que me assaltavam a consciência.
Nunca fui capaz de entender a literatura como um mero entretém ou outro disparate qualquer. Alguns dos livros que li quando adolescente mudaram o rumo da minha vida outros foram um completo embuste. Em certo momento, aconteceu que os livros tomaram conta de mim e eu correspondi-lhes com espírito "de missão". Deixei que os livros (alguns dos livros) entrassem na minha vida interior com glória.
Os livros que eu nunca mais quis (re)ler esqueci-os por completo. Como acontece(u) com alguns amigos que, afinal, não eram nem nunca foram amigos porque foram incapazes de manter a relação em momentos agudos da vida. Provavelmente por medo.
domingo, dezembro 17, 2006
in memoriam de Lopes Graça
A 25 de Abril de 1974, eramos jovens e inocentes, -nem tanto. Viviamos sob o signo da utopia, do mundo novo que "estava ali" ao virar da esquina, julgavamos nós. Reuniamo-nos nos cafés da zona da Avenida de Roma (o Trevi, a Madrid) para falar dos ideólogos da nova esquerda, do marxismo, do leninismo,do último Godard, da revolução russa, de Stalin (que gerava entre nós muito prurido), de Guevara e Fidel, do Até Amanhã, Camaradas, (que todos sabíamos ser escrito pelo Álvaro), de Lukacs, dos eurocomunistas Carrilho e Berlingueri e do "puro e duro", Lister, dos filmes de Eisenstein, de Vertov e de Poudovkine, da Revolução Francesa, do Irish Republican Army, da Fatah, da contestação à guerra do Vietname de Praga 67, da Insurreição de Budapeste em 56, da Ofensiva de Tet e do exímio general vietnamita,Giap; dos "meetings" no ISE ou em Medicina, das cargas da polícia de choque comandadas pelo capitão Maltês ou pelo Capitão Pereira (que me deu voz de prisão duas vezes em 1973), da Declaração de Independência da Guiné-Bissau transmitida pela rádio Portugal Livre, etc, etc, etc. .
Mas o único motivo de satisfação (ia a escrever , enorme) que nós poderíamos ter vivido estava programado para uma noite memorável de Junho no Coliseu de Lisboa: as canções heróicas de Fernando Lopes Graça.
Lembro-me, perfeitamente, de a sala do Coliseu dos Recreios parecer vir abaixo com a implosão de milhares de vozes em uníssomo: "Vozes ao alto, vozes ao alto /unidos como os dedos da mãos / Havemos de chegar ao fim da noite / Ao som desta canção". Era uma festa, mas uma festa de combate. Em torno de muitas coisas, penso eu.
Lembro-me a propósito das pessoas mais velhas com lágrimas nos olhos darem as mãos às pessoas mais jovens e da fraternidade tomar conta da sala a noite inteira.
O Lopes Graça deixou-nos a todos nessa noite de 74 uma memória e uma lembrança: nunca renunciaremos ao sonho!
sábado, dezembro 16, 2006
elegia de ernesto sampaio
Às voltas com textos do Ernesto Sampaio e a releitura (do seu) "Ideias Lebres", veio parar-me às mãos um depoimento magnificamente sentido de Mário Cesariny, publicado no Público a 7 de Dezembro de 2001, dias depois da morte de Ernesto, a que não resisto partilhar:
"Ernesto Sampaio tinha a grande rebeldia e a grande inteligência. dentro do grupo surrealista, era dos mais lúcidos, dos que mais sabiam, dos mais rebeldes. Um sentido de humor formidável, uma agudeza de espírito extraordinária, amabilíssimo. Era uma figura muito rara, de saber e dedicação. Uma figura grande. Desde a morte de Fernanda Alves, já não sabia viver. É a única pessoa que conheço que morreu de amor".
"Ernesto Sampaio tinha a grande rebeldia e a grande inteligência. dentro do grupo surrealista, era dos mais lúcidos, dos que mais sabiam, dos mais rebeldes. Um sentido de humor formidável, uma agudeza de espírito extraordinária, amabilíssimo. Era uma figura muito rara, de saber e dedicação. Uma figura grande. Desde a morte de Fernanda Alves, já não sabia viver. É a única pessoa que conheço que morreu de amor".
sexta-feira, dezembro 15, 2006
os dias imensos
copyright by FotoAçorNa abertura oficial do 1º Festival Internacional de Cinema de Angra do Heroísmo, em Novembro de 2002, Leonel Vieira e Karra Elejalde (actor e realizador espanhol) apresentaram ao público da Terceira, que quase esgotou o Teatro Angrense, a mui aguardada produção de "A Selva", adaptação da obra de Ferreira de Castro realizada com apurado sentido criativo e de representação. Reexibido duas vezes durante o Festival, -para os estudantes do secundário e público ansioso- "A Selva" foi também responsável por um convívio inesquecível entre técnicos, produtores, actores, realizadores, organizadores ejornalistas como raras vezes me foi dado sentir em outras manifestações congéneres.
terça-feira, dezembro 12, 2006
a hora de bertolucci
Não será, por certo, o melhor filme de Bertolucci mas é com toda a certeza um dos seus mais lapidares, estreado em Portugal depois da queda da ditadura. No meio de tanto lixo e vulgaridade massificada, não seria má ideia sugerir ao Paulo Trancoso uma edição pack, no mínimo de quatro títulos (o inédito, La commare Secca, Prima Della Rivoluzione, Strategia del Ragno e o ora lembrado Il Conformista), tudo obras-surpresa dos primeiros anos de carreira de Bernardo Bertolucci No deserto em que se transformou a edição DVD neste país, a Costa do Castelo é a unica réstea de luz que, desde há anos, resiste e nos tem dado a (re)ver uma parte importante da memória do cinema. A Costa do Castelo (a "nossa"pequena Criterium!) é um caso singular de sucesso que merece ser apoiado. Paulo, te(re)mos Bertolucci em 2007 ?!
domingo, dezembro 10, 2006
lei da vida para pinochet
(Foto: Pinochet parece explicar ao Papa, João Paulo II que o visitou em 1987, como se resolve os problemas "em casa")
A lei da vida -a única que pelos vistos foi possível aplicar-lhe- colocou um ponto final na existência de Augusto Pinochet, o todo poderoso ditador que em 11 de Setembro de 1973, apoiado por Kissinger, CIA e uma vintena de Transnacionais norte-americanas, usurpou pela força das armas o poder legítimo do governo de Unidade Popular e assassinou o seu presidente,
- o socialista, não marxista, lembremo-lo- Salvador Allende.
- o socialista, não marxista, lembremo-lo- Salvador Allende.
Pinochet, que mandou assassinar centenas de opositores das mais variadas tendências políticas (comunistas , socialistas, sociais-democratas, radicais de esquerda e até democratas-cristão), foi o autor moral dos atentados (à bomba) contra o general constitucionalista, Pratts, em Buenos Aires, em 1974 e de Orlando Lettelier em Washington, foi o patrono da célebre Operação Condor que uniu todos os ditadores de então no poder da América Latina para uma guerra de terror e extermínio contra milhares de opositores "subversivos".
Pinochet é também o rosto do ódio à cultura e inteligência qaundo ordena a queima pública de livros, de bibliotecas inteiras, (inspiração germânica nazi) nas ruas de Santiago ordem cumprida pela soldadesca nos dias imediatos ao "putsch".
Foi com Allende que o Chile viu renascer a esperança de um novo mundo. Infelizmente, o país era (é ) demasiado rico em recursos para que a voracidade do imperialismo norte-americano permitisse veleidades como as privatizações do aço, do cobre, do salitre; nem sequer a consolidação de um regime democrático de inspiração social-democrata europeia (nórdica) era tolerável.
Nação com grandes tradições democráticas o Chile tem a sua História repleta de contra-revoluções e golpes sangrentos onde o poder da oligarquia se manteve sempre á tona de água.
Pinochet é também o rosto do ódio à cultura e inteligência qaundo ordena a queima pública de livros, de bibliotecas inteiras, (inspiração germânica nazi) nas ruas de Santiago ordem cumprida pela soldadesca nos dias imediatos ao "putsch".
Foi com Allende que o Chile viu renascer a esperança de um novo mundo. Infelizmente, o país era (é ) demasiado rico em recursos para que a voracidade do imperialismo norte-americano permitisse veleidades como as privatizações do aço, do cobre, do salitre; nem sequer a consolidação de um regime democrático de inspiração social-democrata europeia (nórdica) era tolerável.
Nação com grandes tradições democráticas o Chile tem a sua História repleta de contra-revoluções e golpes sangrentos onde o poder da oligarquia se manteve sempre á tona de água.
sexta-feira, dezembro 08, 2006
automatismo
Singing in the Rain (1952), de Stanley DonenNa brisa fria da tarde de final de Novembro lá vai ele, todo aperaltado de camisa branca desabotoada para se lhe ver os cabelos cinzentos do peito, calça de coutlé azul escuro e o velho blusão de pele castanho coçado. Lá vai ele, rua abaixo a vociferar impropérios do mais vernáculo dirigidos na aparência contra tudo e todos que passam mas, de facto, a nenhum alvo em particular. Lá vai ele, de cabeleira prateada desgrenhada a sorrir no intervalo breve de um palavrão soft ("os caras de cu estão a olhar, nunca viram?!! Sou igual a vocês, caras de cú!") indiferente á chuva que cai de forma impiedosa sobre todos mas não se importa.
Até entrar no único café aberto (repleto de senhoras e meninos presos pela mão vagamente assustados a verem a cortina de chuva intensa através da vidraça da montra) do largo atravancado de carros a apitarcom os limpa pára-brisas em frenético movimento, o Senhor Paulo do alto dos seus quase 63 anos, entra triunfalmente no café com o cumprimento usual, "boa noite, meus queridos mortais!" e põe quase toda agente de semblante carregado enquanto outros, poucos, lhe respondem com um sorriso e uns, mas afoitos, lhe respondem "os que vão morrer como tu também te desejam boa noite". O empregado, de cara de bebé, sorridente traz uma imperial que coloca à frente do Paulo ocupado na tentativa de acender um cigarro molhado que traz pendurado no canto da boca. Alguém lhe oferece um marlboro, ele agradece mas recusa, "prefiro um Camel molhadinho a essa coisa sem paladar" diz ao mesmo tempo que dá um gole na cerveja e solta um "Ah!". De súbito, o Paulo lá consegue acender o cigarro e logo de seguida ouve-se uma salva de palmas, vinda de uma mesa ocupada por três convivas deliciados a juntar copos de canecas no canto junto á parede. O Paulo , ergue o copo e agradece-lhes visivelmente satisfeito "este que vai morrer vos saúda!".
Saio do café com vontade de voltar a entrar, pagar um copo ao Paulo e passar com ele uma hora na conversa. Mas não acho que deva de o fazer para já. Mas adivinho o que vai na alma do Paulo.Para mais, o olhar esmagado de solidão, sem tristeza à vista, que ele mostra sem disfarce nem vergonha fez-me pensar na grandeza dos seus modos desprendidos de medo.
O Paulo vive em estado de ousadia permanente na cidade branca, bela como diz é certo, mas quase morta pelos crimes diários contra ela, pelo ostracismo a que é votada.
Dias depois, o Paulo salta-me ao caminho e atira-me um desafio irrecusável, "paga-me um copo!".Sentados a uma mesinha do british bar junto à montra, Paulo confidencia-me, "Já ninguém se indigna. A rua onde nasci (em Alcântara) está irreconhecível, diz em tom resignado mas não convencido. "As pessoas querem lá saber da felicidade de Lisboa, querem é continuar a esbanjar, esbanjar , esbanjar dinheiro para ver se encontram, a felicidade delas, mas não encontram a felicidade só a ilusão da mesma.
Nunca vão sentir o mesmo amor que sinto por Lisboa, nunca".
À saída, dou por mim a fixar o ar compenetrado do Paulo a olhar deliciado a chuva que caía forte e feio e na paisagem da praça repleta de automobilistas ansiosos a apitar. Chovia, chovia e o Paulo observava como se estivesse a ouvir uma dissertação filosófica interessante. O olhar de Paulo era o de um perturbado deslumbrado. Provavelmente, não tanto pela chuva mas mais pelo poder que ela tinha no momento de tudo perturbar num ápice.
Foi assim que vi pela última vez o Paulo, o Senhor 63 anos que um dia vindo do jornal Século deu em casa com o corpo da mulher caído de bruços na cozinha e nessa noite se pôs á janela a cantar "Ir e vir e ir, ao mar"do grupo Vozes na Luta. Para espanto do vizinhos , do médico legista, dos agentes da psp, dos bombeiros e do bairro inteiro.
Onde quer que estejas Paulo, fica bem!
Lisboa, Jardim do Principe Real, Setembro 2006
À saída, dou por mim a fixar o ar compenetrado do Paulo a olhar deliciado a chuva que caía forte e feio e na paisagem da praça repleta de automobilistas ansiosos a apitar. Chovia, chovia e o Paulo observava como se estivesse a ouvir uma dissertação filosófica interessante. O olhar de Paulo era o de um perturbado deslumbrado. Provavelmente, não tanto pela chuva mas mais pelo poder que ela tinha no momento de tudo perturbar num ápice.
Foi assim que vi pela última vez o Paulo, o Senhor 63 anos que um dia vindo do jornal Século deu em casa com o corpo da mulher caído de bruços na cozinha e nessa noite se pôs á janela a cantar "Ir e vir e ir, ao mar"do grupo Vozes na Luta. Para espanto do vizinhos , do médico legista, dos agentes da psp, dos bombeiros e do bairro inteiro.
Onde quer que estejas Paulo, fica bem!
Lisboa, Jardim do Principe Real, Setembro 2006
quinta-feira, dezembro 07, 2006
desaire imperial
The Roman Empire is falling. That, in a phrase, is what the Baker report says. The legions cannot impose their rule on Mesopotamia.Just as Crassus lost his legions' banners in the deserts of Syria-Iraq, so has George W Bush. There is no Mark Antony to retrieve the honour of the empire. The policy "is not working". "Collapse" and "catastrophe" - words heard in the Roman senate many a time - were embedded in the text of the Baker report. Et tu, James?
This is also the language of the Arab world, always waiting for the collapse of empire, for the destruction of the safe Western world which has provided it with money, weapons, political support. First, the Arabs trusted the British Empire and Winston Churchill, and then they trusted the American Empire and Franklin Delano Roosevelt and the Truman and Eisenhower administrations and all the other men who would give guns to the Israelis and billions to the Arabs - Nixon, Carter, Clinton, Bush...
Robert Fisk, The Independent -7 Dec. 2006
(artigo integral em: http://news.independent.co.uk/world/fisk/article2054595.ece)
terça-feira, dezembro 05, 2006
check-up
No Jornal de Notícias de ontem, Paulo Morais, incómodo como sempre, punha uma vez mais o dedo na ferida do mal (ancestral) deste país: "Vivemos tempos muito semelhantes aos que Portugal era antes do 25 de Abril, com corporações dominantes de todo o sistema. (...) O espírito de Salazar mantém-se e todo um conjunto de salazaretes de segunda que andam por aí a dominar o sistema fazem com que estejamos quase irremediavelmente afastados do desenvolvimento.... ."
Explicar aquilo que todos já sabem há muito mas andam a fazer de conta que não. No fundo, limitam-se a cumprir o "regulamento" do costume.
segunda-feira, dezembro 04, 2006
sessão especial
O grande mérito da (única) homenagem pública a Beatriz Costa, anos antes da sua morte, talvez tenha sido apenas isto: uma livraria/galeria de renome (a Barata) resolveu juntar na grande sala do Londres (antes da remodelação, anos depois, ditada pela crise), uma pequena multidão de cerca 200 pessoas para ovacionar a popular e talentosa actriz e delirar, pela enésima vez, com o adocicado, "A Canção de Lisboa"(obrigado Luís de Pina!). A somar ao prazer de apreciar também ao vivo o (bom) humor de Beatriz Costa, foi um memorável fim de tarde de verão, de Junho de 1992. (Foto de Fernando Correia. Ladeando Beatriz Costa, o casal Barata, Zélia e António).
domingo, dezembro 03, 2006
fracasso e fraude
Ao grande fiasco iraquiano vem, célere, juntar-se um outro -o do Afeganistão. É escusado fazer uso da fidelidade canina para mascarar a realidade do quotidiano afegão, é escusado. Basta recordar as palavras "proféticas" do fantasioso secretário de Estado da Defesa estadounidense, Donald Rumsfeld, em Agosto de 2002, proclamando uma nova era para o povo afegão: "a breathtaking accomplishment" e, delirando, "a successful model of what could happen to Iraq". Quatro anos depois da invasão e ocupação do Afeganistão, os EUA, apoiados pela Nato, ganharam a batalha por Cabul mas perderam a guerra. Nem é preciso procurar muito na imprensa internacional para perceber que a aventura imperial no Afeganistão vai ter o fim que outras tiveram no passado. Além de que, a tão propagandeada "democratização pacífica" e "reconstrução afegã" salda-se à data num surpreendente fracasso, uma enorme fraude, que já vem provocando danos na "coligação".Os biliões de dólares escoados por dezenas de países dadores e destinados à eufemística "reconstrução" e "ajuda internacional" são, segundo fontes oficiais, desviados na sua maioria pela "corrupção afegã". Mas na verdade o que acontece é que muitos desses fundos tem servido , segundo fontes de Ong's e da ONU, para construir embaixadas, universidades (americanas!), autoestradas (a preços "singelos" de 250.000 dólares o km ou, na pior da hipóteses, a 700.000 dolares cada km se o trabalho cair "nas mãos" do Louis Berger Group, empresa conhecida por ter recebido 665 milhões de dólares para construir... escolas). Um lógica simplex, cínicamente falando.
Recentemente, os EUA impuseram ao governo afegão a obrigatoridade de pagamento de taxa de 20 dolares mensais a todos os automobilistas afegãos. Com essa medida, os norte-americanos pensam reunir mais 30 milhões de doláres que funcionarão como "contributo dos Estados Unidos para a assistência social"(!).
E não deixa de ser sintomático que Cabul continue a ser uma cidade destruída, (destruída também pela mentira) repleta de tendas onde se albergam familias inteiras na maioria desempregados. Cabul, transformada na cidade das mulheres perdidas na prostituição e das crianças raptadas e escravizadas ou assassinadas por traficantes de orgãos.
O Afeganistão quatro anos depois da ilusória vitória é cada vez mais um campo de batalha, como o comprovam a subida em flecha dos ataques da resistência, cada vez mais organizada, dos talibãs e de outros que selhes juntaram.
Com o cultivo do ópio a chegar aos 59% pode dizer-se que os EUA ganharam o Afeganistão. O problema é saber "até quando?".
sábado, dezembro 02, 2006
sexta-feira, dezembro 01, 2006
o poder, todos os poderes
Há dias, o canal Hollywood reservou-me outra agradável surpresa: a exibição de Fahrenheit 451 (Grau de Destruição), de François Truffaut. Trata-se, como está bem de ver, de uma adaptação do célebre romance homónimo de Ray Bradbury em que o tema da sociedade totalitária e da escravização da condição humana -numa clara alusão ao nazismo- é abordado de forma notável.Visto hoje, Fahrenheit 451 (a temperatura a que arde o papel...) talvez incomode um pouco mais pela sua explícita denúncia do poder, de todos os poderes que , regra geral, controlam, vigiam e oprimem.
Mais do que um apelo (radical) à liberdade, a todas as liberdades o filme, tal como no romance, faz o elogio da resistência a favor da causa da dignidade do homem, de todos os homens, contra todas as formas de opressão, pela defesa da criação literária e artística, contra a manipulação de consciências e a conspiração do poder ideológico dominante, a favor da preservação da memória civilizacional. Em suma, tomar a defesa da liberdade como um bem essencial.
Nos tempos que correm, um filme/livro como Fahrenheit 451 será tão mais esclarecedor quanto nós assim o desejarmos. Para nos mantermos em estado de alerta, evidentemente.
imagem de um festróia
(Foto: Fernando Correia/DN)Basta olhar a expressão, no mínimo interessante(!), de Mickaela Kaiser, produtora austríaca de Die Papierene Brucke ( A Ponte de Papel) para se perceber o burburinho que esta imagem gerou em algum do staff e entre os convidados do III Festival Internacional de Cinema de Tróia (1987). Como se vê, a atenção nas explicações de Mikaela foi agudíssima.
quinta-feira, novembro 30, 2006
o "espírito" de langlois
Na programação da Cinemateca Portuguesa -sempre meritória, como vem sendo hábito- que se anuncia para o último mês do ano, figura a projecção, em sessões contínuas diárias (com entrada livre), de Le Fantôme d'Henri Langlois,interessantissíma longa-metragem documental assinada por Jacques Richard e produzida em 2004, sobre a vida e obra do pioneiro dos arquivos das chamadas imagens em movimento. Sabendo, como se sabe, que a Henri Langlois (1914-1977) se ficou dever não apenas a criação, em 1936, da Cinémathèque Française, mas todo um trabalho arduo de enorme rigor realizado com entusiasmo durante décadas a fio, que não se circunscreveu aos domínios da aquisição, preservação e restauração mas que superou as expectativas mesmo na vertente da divulgação como o comprovam as dezenas de intervenções públicas em defesa, designadamente, da "nouvelle vague" e do cinema de autor na generalidade, seria imperdoável deixar passar em claro este curioso filme que reune material de arquivo e depoimentos de consagrados realizadores como Godard, Nick Ray, Hitchcock, Franju ou Raoul Walsh.
Pena é que o documentário inglês datado de 1970 ,"Henri Langlois", da dupla Roberto Guerra e Elia Hershon, rodado com Langlois vivo não tenha vindo complementar o do realizador gaulês.
segunda-feira, novembro 27, 2006
pequenez...periférica
No ano em que se assinala os quatrocentos anos do nascimento do pintor e gravador Rembrandt , uma pequena distribuidora francesa de cinema alternativo de nome E.D. Distribution -celebrizada em França pela difusão da obra dos irmãos Quay e de Guy Maddin, entre outros- repõe por estes dias numa vintena de salas gaulesas, uma pequena pérola do cinema holandês completamente desconhecido entre nós: Rembrandt fécit 1669, de Jos Stelling. Porque se trata, desde logo, de um excelente e surpreendente filme tanto em termos artísticos como de concepção, espanta-me a contínua ausência de "imaginação" da distribuição cinematográfica portuguesa na forma como se revela (persistentemente!) incapaz em alargar, de uma vez por todas, os seus horizontes. Com os apoios comunitários (que subsistem) para a promoção e difusão das cinematografias europeias não há razões que justifiquem a estúpida teimosia em ausentar dos ecrãs nacionais a produção de dezenas de filmes húngaros, belgas, holandeses, polacos, dinamarqueses, suecos, finlandeses, romenos... etc, etc. Há algo de suicidário nesta visão redutora do mundo e daquilo que ele tem para nos oferecer. Há e é muito, muitíssimo, para a nossa cada vez mais comprovada pequenez.
domingo, novembro 26, 2006
cesariny (1923-2006)
Vamos ver o povo
Que lindo é
Vamos ver o povo.
Dá cá o pé.
Vamos ver o povo.
Hop-lá!
Vamos ver o povo.
Já está.
Mário Cesariny
in nobilíssima visão, Assírio & Alvim , Outubro 1991
sábado, novembro 25, 2006
"profecias" de ernesto sampaio
já desaparecidos
O Ernesto Sampaio (que conheci num dia longínquo de 1976...), jornalista, encenador teatral, foi sobretudo um dos grandes teóricos do surrealismo. Homem de cultura vastíssima o Ernesto foi um pensador exímio com uma capacidade de análise invulgar. O texto (extractos) que abaixo se segue , escrito no alvorecer do cavaquismo, põe a nú com grande lucidez o "futuro" que aí vinha ...e que estamos vivendo exactamente como ele o previu.
Um grande abraço, Ernesto!
Uma sociedade sem conflitos só pode ser uma sociedade totalitária, e já não restam dúvidas de que a utopia capitalista abre caminho a uma implacável ditadura: a do mercado. O que está em jogo é o fim de um período do capitalismo ligado de certo modo à emergência de uma sociedade pluralista. A gigantesca redistribuição dos mercados mundiais que hoje se entregam os colossos do capital financeiro, a concentração em poucas mãos de qauntidades de dinheiro astronómicas, significam o dobre de finados do pluralismo sob todas as suas formas.
Entretanto , instituições e aparelhos ideológicos (privados ou do Estado) funcionam essencialmente como máquinas de embrutecer, o ensino é medíocre e não tem qualquer finalidade humanista, a cretinice é a norma dos programas de rádio e televisão, a imprensa pratica sistemaáticamente o elctrochoque afectivo (dramatizaçãoi de acontecimentos ínfimos para ocultar os que são realmente importantes), o obscurantismo, sob todas as suas formas, está na ordem do dia, os conceitos mais vis e reaccionários beneficiam de uma publicidade espaventosa, os poderes montam disposistivos sofisticados para privar os cidadãos de qualquer hipótese de reflexão e acção.
Impotente perante este sistema (a que se submete cegamente) , o cidadão nunca se interroga sobre o que deve fazer (tem, aliás, a sensação de que não pode fazer nada), limitando-se a pensar co inquietação no que lhe virá a acontecer.
Viver atolado na merda até ao pescoço não o preocupa demasiado, quando outras ameaças mais concretas se perfilam no horizonte, como perder o emprego, por exemplo. Sem nenhuma influência influência no destino da colectividade nem no seu destino próprio, o individuo vê-se reduzido a esperar que a sorte lhe sorria, isto é, que não lhe batam muito... .
Ernesto Sampaio
in Diário de Lisboa 19 Junho 1987
in Diário de Lisboa 19 Junho 1987
quarta-feira, novembro 22, 2006
d.maria II, teatro aberto
foto: Teatro D. MariaNo "Público" de ontem (3ªfeira), Eduardo Prado Coelho faz o elogio da programação do Teatro Nacional D. Maria. Por uma questão, diz o cronista, "de honestidade intelectual a que sou extremamente sensível". Seguem-se elogios às "iniciativas que estão em curso" que considera serem "bastante positivas"... .
Ainda que os seus gostos não permitam encaixar tudo aquilo que foi enunciado pela director Carlos Fragateiro, tão contestado na altura da nomeação, o certo é que EPC considera existirem iniciativas de "inegável valor" que denotam "uma dimensão cosmopolita" muito "interessante e benéfica". Os elogios estendem-se à Livraria (gerida pelo teatro) e à criação da esplanada voltada para a Praça do Rossio.
O "deslumbramento" de EPC é sério, não tenhamos dúvidas, e também sensível. Depois do "coro de protestos" chega a hora da bonança. Mesmo quando elogia o trabalho desenvolvido pelo anterior director, António Lagarto, como "exemplar" - e crítica o modo como este foi afastado, "sem razões claras"- EPC não deixa de ser coerente porque tem a noção do valor dos dois protagonistas, Lagarto e Fragateiro. Mas, convenhamos, com uma ligeira diferença de "estilos": um fechou o espaço onde se mantinha a funcionar uma livraria (presumo que da Assírio & Alvim), o outro (re)abriu-a e deu-lhe atributos de serviço público.
Não será coisa muito relevante, pois não, nem de todo exemplar mas , em rigor, faz (toda) a diferença na gestão criativa dos espaços e na ideia de gerir um teatro como o nacional. Uma diferença que dá prazer a quem lá vai e se deixa "envolver", como de resto acontece com EPC. No fundo, um teatro pode e deve ser um espaço culturalmente mais aberto.
terça-feira, novembro 21, 2006
"heresias" buñuelianas
El joven monje: Hay algo que me turba.El inquisidor: Os escucho... .
El joven monje: Me pregunto si quemar a los herejes no es ir contra la voluntad del Espíritu Santo.
El inquisidor (algo sorprendido): Pero si es la justicia de los hombres quien les castiga.!Es el brazo secular! Los herejes no son castigados por ser herejes, sino por las sediciones e los atentados que cometen contra el orden público. ?Comprendéis lo que quiero decir?
El joven monje: Sí. Aunque , siendo así, aquellos que han visto quemar a sus hermanos quemarán a su vez los demás, y así sucesivamente. (en voz baja). Uno tras otro, todos estarán seguros de poseer la verdad...Y entonces, ?para qué habrán servido todos esos millones de muertos?
extracto diálogos, La Voie Lactée (1969), de Luís Buñuel
sexta-feira, novembro 17, 2006
the wonderful wizard of oz
The Wizard of Oz foi, com toda a certeza, um dos filmes mais vistos durante a minha infância. A minha mãe era não apenas uma ferrenha da Judy Garland mas também totalmente fanática do filme, que vimos juntos pelo menos uma cinco vezes. Lembro-me de sairmos do cinema de mão dada a trautear, We're off to see the Wizard / The Wonderful Wizard of Oz / We hear he is a whiz of a Wiz / If ever a Wiz there was. / If ever, oh ever a Wiz there was / The Wizard of Oz is one because / Because, because, because, because, because / Because of the wonderful things he does / We're off to see the Wizard / The Wonderful Wizard of Oz!. Lembro-me de uma vez ao regressarmos a casa de carro eléctrico eu na minha inocência de menino de sete anos ter dito á minha mãe que o mundo de Oz era um mundo imaginário em que era bom ser criança e ser feliz tinha(!) -achava eu- de se inventar (foi a palavra...) a felicidade para o mundo a sério. Lembro-me de a minha mãe sorrir levemente e fazer-me uma festa na cabeça, depois o seu olhar desviou-se para a janela do carro. A vida a correr lá fora, num domingo qualquer do ano de 1964.
quinta-feira, novembro 16, 2006
lembrar visconti (3)
(Outro exemplo: Visconti)Trabalhava como um doido, ocultando o seu sofrimento. A doença humilha, agora era de uma cadeira de rodas que dirigia os actores, alterava a decoração, discutia as luzes. Trabalha para não morrer, dizem os amigos. Horas e horas para escolher o tom de um cortinado, a maneira de erguer um véu à altura da boca, a cor das maçãs no linho baço da toalha, com esse amor à realidade que só conhece quem a sabe tão fugidia. Abandonada a câmara, era ainda no trabalho que pensava ao ler duas ou três páginas de Proust, Stendhal. Apagara a luz, depois de ter ordenado que retirassem as floress do quarto, o aroma das gardénias começava a enjoá-lo. Mas o sono demorava. Tinha a cabeça cheia de imagens, sobretudo de sua mãe, surgindo no meio de uns versos de Auden, que fizera seus nos últimos tempos. When you see a fair form chase it / And if possible embrace it / Be it a girl or a boy... Adormecia tarde e era o primeiro a despertar. Chamou para que o lavassem, o vestissem. Recomeçaria uma vez mais a cena, com nova iluminação. O rosto de Tulio Hermil deveria estar na penumbra, só as mãos francamente iluminadas. Porque é nas mãos... Não, não, as mãos são inocentes. É no espírito que tudo tem origem; mesmo no amor; mesmo o crime. Excepto a morte. A morte era bem no seu corpo que principiava. Ali estava ela, tomamndo conta de si. Via-a crescer a cada instante, essa cadela. de súbito tornara-se real, os dentes afiados, a baba escorrendo, o salto iminente. Em grande plano
Eugénio de Andrade
in O Bosque Sagrado, Edição Gota de Água, Maio 1986
quarta-feira, novembro 15, 2006
reflexo de redução do mundo real
Depois da antológica cláusula-lei-da-rolha imposta protocolarmente a favor da abstinência a eventuais críticas às políticas ou actos da câmara do Porto eís que surge uma decisão surpreendente do autarca-monarca da cidade invicta: suprimir as subvenções -a partir do próximo ano- aos agentes culturais!Na sua expressão mais simples, Rui Rio pôs a nú qual a concepção do mundo ( e dos valores) a que pertence. Doutrináriamente falando estamos pois esclarecidos sobre os traços essenciais deste sinistro fenómeno vindo de um poder autárquico democrático.
Mais grave é a complacência do poder político e, pior ainda, da dita "inteligenzia" deste país.
segunda-feira, novembro 13, 2006
palavras de josé afonso

Utopia Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
gente igual por fora
Onde a folha da palma
afaga a cantaria
Cidade do homem
Não do lobo mas irmão
Capital da alegria
Braço que dormes
nos braços do rio
Toma o fruto da terra
E teu a ti o deves
lança o teu
desafio
Homem que olhas nos olhos
que não negas
o sorriso a palavra forte e justa
Homem para quem
o nada disto custa
Será que existe
lá para os lados do oriente
Este rio este rumo esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
na minha rota?
in Como Se Fora seu Filho, edição Orfeu, 1983, LP- 33 r.p.m.
sábado, novembro 11, 2006
lembrar visconti (2)
Morte A Venezia (1970)Numa iniciativa do ABC Cineclube de Lisboa decorre até dia 30 deste mês no Auditório João Hogan (Voz do Operário, 5ªfeiras e sábados, pelas 17h00), um ciclo de homenagem a Luchino Visconti, no ano em que se celebra o centenário do seu nascimento.
Trata-se, antes de mais de um louvável propósito (o único neste "deserto" cultural em que até a Cinemateca Portuguesa faltou "à chamada"...) de desocultação de uma parte significativa (dez longas-metragens) da obra do grande mestre italiano, com destaque para os filmes (de grande densidade e poder de análise sociológica) de início de carreira -Obsessione, La Terra Treme, Belíssima e Senso- que representam a grande afirmação do que viria a ser (a partir de Il Gattopardo...) a generalidade da restante obra de Visconti.
Obra marcada -nunca é demais lembrá-lo- por uma capacidade invulgar de abordagem psicológica e sociológica da classe burguesa dominante num mundo atravessado por transições e mutações profundas. Quer na abordagem estética quer no domínio fílmico, Visconti evidenciou sempre enormes capacidades também na composição de universos ideológicos e na criação rigorosa de ambiências das épocas retratadas: neo-romantismo em Ludwig, impressionismo em Morte A Venezia e expressionismo alemão em La Caduta degli Dei / The Damned.
sexta-feira, novembro 10, 2006
casualties of war
Como está à vista, a máquina de propaganda dos neo-conservadores norte-americanos foi impotente para evitar a devastação eleitoral de que foi alvo nesta semana: os democratas (e independentes) conquistaram a maioria no Congresso e no Senado (alcançando a vitória á ultima hora no Estado de Virginia, reduto forte do partido do "elefante"), alterando assim a correlação de forças que permitiu durante décadas manter os republicanos no comando do poder "legislativo".A primeira causa-efeito foi o afastamento (previsivel desde o verão, aliás) do controverso e conflituoso secretário da defesa, Donald Rumsfeld , um dos mais líricos arquitectos da conquista do Iraque em clima hollywoodesco de festa e foguetes... mas que a realidade transformou depressa demais num enorme fiasco gerador de violência e caos extremos. O que teve por consequência a falência completa do fantasioso plano de reconstrução do Iraque, a desorientação no seio do exército dos Estados Unidos (que forçou generais à "rebelião"verbalista contra o Pentágono), a crescente oposição interna contra a guerra e a perigosa situação de desmembramento da nação iraquiana com os efeitos devastadores que se imagina para a região do Médio Oriente.
Se estas são algumas das causas que tornaram decisiva a vitória democrata não são, no entanto, de molde a criar ilusões sobre aquilo que vai mudar, de facto.
Para já, Bush -que já aprendeu a ver a guerra por outra perspectiva...- fica com o poder relativamente limitado às vontades da oposição e, enquanto aguarda pelo novo dossiê da redefinição estratégica da guerra no Iraque bem pode (re) negociar com o partido democrata alguma da "legislação" totalitária e digna de um estado fascista que impôs à América sob o disfarce do combate ao terrorismo.
Veremos, também , como se comportam os velhos novos herdeiros de Lincoln, designadamente em relação ao culto do Mal instalado em Guantánamo, ao obscuro Patriot Act e outros exemplos da perversão dos "neo-cons" que tanto envergonharam o mundo nestes últimos anos.
quarta-feira, novembro 08, 2006
"a sexta melhor pintora"
Ao remexer ontem em escritos de minha mãe redescubro um interessante folheto sobre a pintora Vieira da Silva, (que quase caiu no esquecimento, como é prática entre nós...) que foi, como se sabe, uma grande personalidade da cultura portuguesa de reconhecido e enorme valor artístico. Em 1966, a revista francesa Connaissance anunciou o nome de Vieira da Silva como uma das seis melhores pintoras, segundo opinião de proprietários das galerias de arte mais importantes em todo o mundo.
Esse folheto, em formato A5, que me veio parar ás mãos anuncia modestamente a realização de uma sessão de homenagem (creio que a única no imediato ...) após a sua morte e promovida pela livraria Barata, com a minha colaboração.
Lembro-me de a sala da galeria estar repleta de gente num sábado à tarde e da emoção disparar às primeiras imagens de Ma Femme Chamada Bicho, o singular documentário do meu amigo José Álvaro de Morais, também já desaparecido. Lembro-e das palavras do David Mourão Ferreira nos fazerem compreender o estatuto ímpar do trabalho da Maria Helena Vieira da Silva.
Esse folheto, em formato A5, que me veio parar ás mãos anuncia modestamente a realização de uma sessão de homenagem (creio que a única no imediato ...) após a sua morte e promovida pela livraria Barata, com a minha colaboração.
Lembro-me de a sala da galeria estar repleta de gente num sábado à tarde e da emoção disparar às primeiras imagens de Ma Femme Chamada Bicho, o singular documentário do meu amigo José Álvaro de Morais, também já desaparecido. Lembro-e das palavras do David Mourão Ferreira nos fazerem compreender o estatuto ímpar do trabalho da Maria Helena Vieira da Silva.
segunda-feira, novembro 06, 2006
hipocrisia(s)
A esperada condenação á morte de Saddam Hussein decretada por um tribunal criado e gerido pelos ocupantes norte-americanos traz à memória um, dois, três factos que convém não esquecer: a)- Saddam Hussein foi, desde que tomou o poder num golpe de estado em 1967, um homem que tombou nas graças dos americanos e, só caiu em desgraça porque se recusou a aceitar "partilhar" com os Estados Unidos as enormes riquezas naturais ao contrário do coronel Kadhafi que já não carrega nos ombros o anátema de "terrorista"(!) e até se tornou "bonzinho" e "civilizado"!; b)- Saddam Hussein e o Iraque foram nos anos 80, para o chamado "mundo civilizado", uma espécie de "contrafogo" às ameaças do Irão. Por essa razão (e outras) os Estados Unidos prestaram a Saddam uma ajuda militar sem precedentes, muito expressiva, também para ajudar o Partido Baas Iraquiano a suster a ira xiita; c)- O controverso secretário de estado, Donald Rumsfeld fez, nos anos de 80, uma (que se saiba e registada para a posteriedade:::)incursão pacífica a Bagdade na qualidade de membro da administração Reagan, para mostrar a sua simpatia e apoio ao governo de Saddam Hussein, como se pode observar mum curto video disponível online, desde a desastrosa operação "freedom iraq", que fere de vergonha a consciência dos democratas.Eram de origem norte-americana e ocidental as armas e munições usadas por Saddam para eliminar os focos de resistência interna; eram de origem norte-americana e ocidental os diversos tipos(!) de gases utilizados no extermínio de populações do curdistão iraquiano como o foram na frente de batalha contra o Irão. Eram norte-americanos e ocidentais os "instrutores" que apoiaram as tropas de Saddam, na contenda contra a Republica Islamica do Irão. Pergunta inocente: não deveriam estar também sentados no banco do réus do Tribunal especial criado pela admnistração Bush todos esses "amigos" de circunstância que tão bem exerceram a sua missão de armar o exército de Saddam? Não mereceriam esses "sponsors" (autores morais!?) eles também a acusação de "crimes contra a humanidade"e a pena de condenação à morte?
Registo, com um sorriso, o facto recente dos britânicos -numa sondagem no The Guardian da passada semana- terem colocado o nome de Bush logo a seguir ao de Bin Laden como os "mais perigosos" à Paz!. Sintomático este "fair play" british!
domingo, novembro 05, 2006
estratégias do desejo
Quarenta anos depois, Belle de Jour mantém intacta a capacidade de proclamar a plenos pulmões que a paixão deve ser objecto de experimentação até às últimas consequências, - i.e. transgressão e perversidade. Buñuel, que foi sobretudo um irónico surrealista, fez dos espectadores simples voyeurs, dando-lhes a ver o que "dispensavam" e a esconder-lhes o muito que ansiosamente desejavam ver. Catherine Deneuve , numa surpreendente metamorfose chamada Séverine, fez da moral burguesa uma amálgama de ambiguidades. Delirante exercício "poético"sobre o desejo e o seu objecto de sedução.sexta-feira, novembro 03, 2006
lembrar visconti(1)
Cumpriram-se ontem cem anos sob o nascimento de Luchino Visconti, uma das personalidades mais fascinantes da cultura europeia do século passado. De ascendência aristocrática, Visconti deixou-nos um legado artístico que supera em muito o poder criativo de um homem vulgar, que nunca foi, de facto. Da ópera ao teatro, da literatura ao cinema, Luchino Visconti ousou marcar o seu tempo com um vigor e inteligência impares, mantendo sempre a sua independência de pensamento e enorme dignidade intelectual. De Ossessione, passando por Rocco e i Suoi Fratelli Senso até Morte A Venezia, Gruppo i Famiglia in un interno e L'Innocente (seu derradeiro filme que rodou numa cadeira de rodas), Visconti distinguiu-se sempre pelo que havia de mais excelente na sua natureza:um perfeccionismo obsessivo e um virtuosismo desarmante ,elegante, intenso, capaz de nos reconciliar com a vida e estimular-nos a gostar de arte.quinta-feira, novembro 02, 2006
dores e crescimento
Um dos prazeres maiores de quando tinha 12 ou 13 anos, era estar nas noites de férias em casa do Duarte a ouvir música. Ouviamos discos, de toda a espécie de obras (Zeca Afonso, Chansons Revolucionaires, Brassens, Piaf, sonatas de Beethoven, Joan Baez, etc.), e à vezes, quando a melancolia (provocada pelos amores ausentes!) tomava conta de nós, ouviamos pela milésima vez Leonard Cohen, em especial "Suzanne".Suzanne takes you down to her place near the river / You can hear the boats go by /You can spend the night beside her / And you know that she's half crazy / But that's why you want to be there / And she feeds you tea and oranges / That come all the way from China / And just when you mean to tell her / That you have no love to give her / Then she gets you on her wavelength / And she lets the river answer / That you've always been her lover / And you want to travel with her/ And you want to travel blind / And you know that she will trust you / For you've touched her perfect body with your mind... .
Lembro-me de às vezes fechar os olhos e chorar. Por causa das palavras. Por causa da música.
quarta-feira, novembro 01, 2006
uma lição de cinema
Numa noite destas dei por mim a (re)deliciar-me (no canal Hollywood) com uma das mais memoráveis obras-primas de Joseph L.Mankiewicz, The Barefoot Contessa, com a belíssima Ava Gardner e Humphrey Bogart. Nunca será demais lembrar que a maior virtude do filme reside no ousado empreendimento de Mankiewicz que á epoca abalou as "convicções" do establishment: a demolição impiedosa de mitos (em especial, o "star system") e a subversão do conceito holywoodesco de melodrama. A conclusão moral de The Bareffot Contessa é que pode ser fatal a uma carreira de sucesso acreditar em contos de fadas (nem tão pouco nos irmãos Grimm!) sobretudo quando os príncipes encantados se podem transformar em assassinos. Excelente exercício de lucidez e enorme apogeu narrativo.terça-feira, outubro 31, 2006
o fim da aventura
(Cena 11- plano 6-vez 04- exterior/dia)
Voz Off:
Voz Off:
Olhar o rio e recordar as palavras que tantas vezes fomos incapazes de dizer um ao outro. Palavras que já não importam ouvir porque as deixámos para trás no tempo de exaustão, já sem uma esperança de sonho e eternidade. Agora tenho o teu rosto só o teu rosto , muito belo e carregado de ternura, a converter a alegria em tristeza (e aflição).
Sigo-te, câmara na mão num travelling tremido que me pareceu interminável, rua abaixo, com braço a doer a deixar-me conduzir pelo teu andar apressado e firme.
Talvez a esta lembrança se tenha seguido outra -aquela do plano de conjunto junto ao miradouro- a seguir ao instante em que beijaste os meus cabelos e ficámos a olhar para as sombras dos nossos corpos projectadas no alfalto negro da rua estreita.
Meros rumores, rumores apenas e não prodígios como poderias estar a pensar.
Lisboa, Entrecampos, Setembro 1983
segunda-feira, outubro 30, 2006
palavras de ramiro correia
um dia dei por mim a chorar
e o meu avô que é marinheiro
e morreu agarrando o sol com as duas mãos
atravessou o riacho
e com o seu sorriso de buzio e maio
atirou-me um cacho de uvas
foi assim
Ramiro Correia, Comandante,
membro da Coordenadora do M.F.A.
in, Na Clivagem do Tempo, edição de autor - junho 1973
e o meu avô que é marinheiro
e morreu agarrando o sol com as duas mãos
atravessou o riacho
e com o seu sorriso de buzio e maio
atirou-me um cacho de uvas
foi assim
Ramiro Correia, Comandante,
membro da Coordenadora do M.F.A.
in, Na Clivagem do Tempo, edição de autor - junho 1973
imagens do real
Na passada semana revisita a Industrial Britain, o clássico documentário de Robert Flaherty e John Grierson, por ocasião do docLisboa 2006. Pena é que a programação (excelente como sempre) não tenha incluído dessa dupla outros admiráveis momentos máximos, como Man of Aran(Flaherty) e Driffters(Grierson) que raramente acedem ao ecrãs dos festivais. Fica para a próxima, não!?.
domingo, outubro 29, 2006
palavras de giuseppe ungaretti
Silêncio
Conheço uma cidade
que cada dia se enche de sol
e tudo desaparece num momento
Cheguei lá quse à noite
No coração durava o ruído
das cigarras
Do navio
envernizado de branco
eu vi
a minha cidade perder-se
deixando
um pouco
um abarço de lumes no ar indeciso
suspensos
Giusepe Ungaretti
in Sentimento do Tempo
(Publicações D.Quixote / Cadernos de Poesia, fev.1971)
Conheço uma cidade
que cada dia se enche de sol
e tudo desaparece num momento
Cheguei lá quse à noite
No coração durava o ruído
das cigarras
Do navio
envernizado de branco
eu vi
a minha cidade perder-se
deixando
um pouco
um abarço de lumes no ar indeciso
suspensos
Giusepe Ungaretti
in Sentimento do Tempo
(Publicações D.Quixote / Cadernos de Poesia, fev.1971)
sábado, outubro 28, 2006
notas soltas
1.Nos últimos tempos tenho andado com vontade de ler Flaubert (contra quem sempre tive uma certa animosidade que não sei bem explicar porquê), Sartre (Les Séquestrés d'Altona e Les Mots...) e até Garaudy, por razões da experiência, digamos do vivido, e por uma atracção pelo religioso. Tudo autores que já conhecia mas não o suficiente. Esta necessidade tem muito pouco de extraordinário convenhamos, embora me continue a ocupar (menos, reconheço-o) da leitura de poesia mas sem "novidades" maiores porque tenho sentido é a necessidade de me voltar para a releitura daquilo que me é mais familiar : Pessoa, T.S.Elliott, Ungaretti, Carlos de Oliveira, Sophia, Armindo Rodrigues, Rimbaud, Ruy Belo... .
2.As questões da justiça, ou mais prosaicamente, o funcionamento do sistema judiciário português, tem-me ocupado desde há um ano, por razões bem sabidas dos que me são mais próximos, claro.O que me tem agradado nas leituras (de acordãos, de alegações...) não é tanto a retórica (algo pobre na maioria dos casos) mas a preocupação de certos magistrados em fazer crer que as decisões de penas são tomadas em total "independência" das pressões políticas ou outras. É aquilo a que eu chamo o esquema abstrato da independência!
3.La Voie Lactée, de Luís Buñuel, tem sido desde o fim do verão (calendáriamente falando...)
um "recurso" a que tenho recorrido "n" vezes. O que mais admiro em Buñuel não é apenas a capacidade em desmascarar a impostura desse enorme disfarce chamado catolicismo, é fazê-lo a partir das próprias considerações dogmáticas da Igreja. Corrosivo e irónico como sempre.
2.As questões da justiça, ou mais prosaicamente, o funcionamento do sistema judiciário português, tem-me ocupado desde há um ano, por razões bem sabidas dos que me são mais próximos, claro.O que me tem agradado nas leituras (de acordãos, de alegações...) não é tanto a retórica (algo pobre na maioria dos casos) mas a preocupação de certos magistrados em fazer crer que as decisões de penas são tomadas em total "independência" das pressões políticas ou outras. É aquilo a que eu chamo o esquema abstrato da independência!
3.La Voie Lactée, de Luís Buñuel, tem sido desde o fim do verão (calendáriamente falando...)
um "recurso" a que tenho recorrido "n" vezes. O que mais admiro em Buñuel não é apenas a capacidade em desmascarar a impostura desse enorme disfarce chamado catolicismo, é fazê-lo a partir das próprias considerações dogmáticas da Igreja. Corrosivo e irónico como sempre.
sexta-feira, outubro 27, 2006
joan crawford: in memorian
No Firmamento apagadonão luciluzem mais estrelas de cinema.
Greta Garbo
passeia ingógnita a solidão de sua solitude.
Marlene Dietrich
quebrou a perna mítica de valquíria.
Joan Crawford,
produtora de refrigerantes, o coração a matou.
O cinema é uma fábula de antigamente
(ontem passou a ser antigamente)
contada por arqueólogos de sonho, em estilo didático,
a jovens ouvintes que pensam em outra coisa.
O nome perdura. Também é outra coisa.
Tudo é outra coisa, depois que envelhecemos.
E não há mais deusas e deuses. Há figurinhas
móveis, falantes, coloridas, projectadas
no interior da casa. Não saem nunca mais,
enqunto se esvazia o céu da grécia
dentro de nós -azul já negro, ou neutra-cor.
Joan, não beberei por ti, à guisa de luto, nenhum líquido fácil e moderno.
Sorvo tua lembrança
a lentos goles.
Carlos Drummond de Andrade
in Discurso da primavera e outras sombras
quarta-feira, outubro 25, 2006
palavras de carlos de oliveira
Vento
As palavras
cintilam
na floresta do sono
e o seu rumor
de corças perseguidas
ágil e esquivo
como o vento
fala de amor
e solidão
quem vos ferir
não fere em vão,
palavras
Carlos de Oliveira, Trabalho Poético
segunda-feira, outubro 23, 2006
"Trás-os-Montes", longe da vista

foto de arquivo
Fez trinta anos em Junho que António Reis e Margarida Cordeiro nos deram a ver -primeiro numa circunstancial ante-estreia na Gulbenkian, depois na salinha do Satélite no ex-Cinema Monumental- a sua primeira longa-metragem: Trás-Os-Montes, um filme poético e ousado sobre a fascinação da terra transmontana no país profundo, que o fascismo dos "brandos costumes" votou ao ostracismo durante décadas a fio.
Após a estreia, Trás-os-Montes teve direito a elogios por parte de alguma (a menos dogmática, claro) da "inteligentzia" lusitana que viu nele uma "achado"fílmico, didáctico e reflexivo, capaz de colocar Portugal nos lugares cimeiros da cultura cinematográfica europeia. Como não podia deixar de ser, o filme não desmereceu a atenção das vozes dissonantes nacionais mais retrógadas, do tipo santa inquisição (telegramas enviados á Secretaria de Estado da Cultura pediam a queima do filme!) e do caciquismo ad eternum.
De alguns dos nomes maiores da História do Cinema, como Joris Ivens, vieram os maiores elogios; os Cahiers..., promoveram-no (como a generalidade da imprensa e crítica europeia) ao primeiro galarim; nos festivais de renome as salas esgotavam e ninguém arredava pé.
Trinta anos depois, se Trás-Os-Montes se distingue de quaisquer outros filmes portugueses, distingue-se sobretudo pela ousadia de fazer um filme de "género inclassificável", da sua temática e da sua proposta narrativa. Trinta anos depois, Trás-Os Montes permanece no limbo e no esquecimento apesar de fugazes exibições na Cinemateca Portuguesa e da atenção (a única homenagem "oficial" a Reis, até á data) de que foi alvo, em 1995, promovida pelo Sector de Cinema do Inatel em sessão realizada no Quarteto e, anos depois, a retrospectiva (integral) promovida pelo Cineclube de Faro.
"Milagre" menor a averbar: o de Trás-os-Montes continuar a ser ignorado ( tal como toda a restante obra de Reis/Cordeiro) pelo mercado vídeo. O que quer dizer que , mais uma vez, se pode dirigir uma valente pateada aos editores de dvd's deste país.
domingo, outubro 22, 2006
revendo cassavetes
Em Shadows estamos perante um daqueles casos extremos em que a banda sonora (marcada pelo jazz) não só é tão importante como a imagem como a sobredetermina. O melhor em Cassavetes sempre foi a sua vocação para histórias intímas às quais nunca (poderia) faltar uma ponta de ambiguidade e melancolia que derivaram sempre da forte dramaticidade que lhe foi tão característica em todos os seus trabalhos, desde Shadows e até Love Streams, seu derradeiro filme que contou também com a prestação (habitual) de sua mulher, a sublime actriz Gena Rowlands.
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