segunda-feira, julho 02, 2007

sinal de "progresso"

Por decisão da Direcção Regional de Educação do Norte (DREN) tomada em Abril passado, a EscolaEB 23 Padre Agostinho Caldas Afonso é extinta a partir de Agosto. Não fosse o caso de escola ter sido escolhida para receber o "Prémio Iberoamericano de Excelência Educativa 2007", atribuído por um organismo internacional não governamental, sedeado no Panamá, e o fecho anunciado deste estabelecimento de ensino seria apenas mais um nas estatísticas. Que explicação (simplista) tem o Ministério da Educação para mais este sinal de esclerose do sistema? Arrisco a "máxima" (que me ocorre no momento): descerebrizado pela grosseria neo-liberal o responsável (ou, os responsáveis) por mais este acto de depauperamento do país deu uma prova de se ter demitido da condição humana.

domingo, julho 01, 2007

running on empty revisitado

Metáfora sobre a família (que se reporta às consequências de um acto de luta política nos anos 60 contra a guerra do Vietname) , Running on Empty / "Fuga Sem Fim" , de Sidney Lumet mereceu, na altura da estreia em sala (verão 1989), os mais calorosos elogios por parte da crítica. E o caso não era para menos. Surpreendentemente, ou talvez não, Lumet fez de um tema carregado de emocionalidade e permeável à exploração lamecha, um filme de enorme contenção narrativa, sobriedade e rigor. Rever, dezoito anos depois, Running on Empty , em dvd, ficou -me amplamente demonstrado que o "toque" de Lumet fica para sempre fixado na minha retina como um dos mais comovidos e simples deslumbramentos humanos.
Foto: River Phoenix e Christine Lathi, em Running On Empty (1988), by Sidney Lumet

sábado, junho 30, 2007

palavra de homem

I refuse to be silent any longer. I refuse to be party to an illegal and immoral war against people who did nothing to deserve our aggression. My oath of office is to protect and defend America's laws and its people. By refusing unlawful orders for an illegal war, I fulfill that oath today.
U.S. Army First Lt. Ehren Watada

sexta-feira, junho 29, 2007

ideia de felicidade

Salvo uma ou outra excepção a política do governo continua a seguir, passo a passo, a cartilha de recomendações do FMI. E é pena, porque ao contrário do que se pensa, a sociedade portuguesa não tem (nem terá, nunca) desenvoltura nem dinâmica capazes de aguentar os efeitos devastadores das políticas económicas de "ruptura" em curso, definidas como "necessárias e imperiosas" para o "sucesso" de Portugal, como rezam todas as teses.Nem muito menos estamos preparados para as suas consequências. Em nome do mesmo "sucesso", pedem-nos que enterremos os sonhos (quer dizer, as aspirações, os desejos, as vocações...) e nos disponhamos de bom grado a aceitar todo o tipo de estereotipos e de normas, novas, em que "necessáriamente" passaremos a viver, a depender, para nosso bem, individual e colectivo, evidentemente.


O pior desta tragédia não é o facto de acabarmos, dia menos dia, por nos tornarmos ainda mais escravos e pobres, o pior é convencerem-nos através da alienação que o sonho é um absurdo agora e sempre para o resto das nossas vidas. A tragédia maior é que é preciso um esforço, enorme, para levar as pessoas a perceberem que ele, o sonho, é uma coisa que lhes pertence por direito, que lhes é intrinseca e não é "negociável", em nenhuma situação como as outras coisas que deixámos , pouco a pouco, e cobardemente, nos fossem sendo retiradas.Em nome da "crise", do "desenvolvimento" e também de um "futuro radioso" que jamais conheceremos. Se calhar a ideia de felicidade para a maioria continuará a estar, por muitos anos e bons, no preenchimento semanal do euromilhões. Quer dizer, pelo jogo, pelas apostas, só. Maior felicidade do que esta não pode haver!

quarta-feira, junho 13, 2007

intensidade sugestiva

Donde teria partido esta vontade súbita em voltar a ler António Ramos Rosa? Se calhar depois de ouvir (no pick-up!) os études, op. 10 & op. 25, de Chopin pelo toque virtuoso do piano de Maurizio Pollini. Que relação entre Chopin e Ramos Rosa? O certo é que um produziu, por assim dizer, o efeito (sugestivo) de desejo sobre o "outro". A (re) leitura de Ramos Rosa despoletada pela audição de Chopin deu nisto: a vontade de partilhar um poema (dos maiores...) de A.Ramos Rosa que é (como não podia deixar de ser) de uma enorme intensidade lírica na expressão do alargamento do sentir e do desejo do "eu" e do "tu".
Em abandono límpido tocar
a margem ou centro sob o sol
no perfeito e inacabado arco
do poema
em delírio de um avanço no silêncio
incorporar o escuro sopro de uma
sombra
percurso lúcido e essencial de uma
palavra
até ao limite intransponível
até ao hábito inicial
de uma boca
de terra e ar
fresca do silêncio no avanço
de um espaço branco e negro
margem e centro terra sempre
no fundo a secreta praia lisa
talvez o incessante respirar
(António Ramos Rosa, Boca Incompleta, Edição Artcádia)

domingo, junho 10, 2007

por este rio acima...

Uma das criações maiores da música portuguesa que não me canso de (re)ouvir sempre que a vontade o impõe. Maior também pela fonte (inesgotável) de inspiração. Por ele passou muita da força criativa de "Além do Maar"(Circulo de Leitores / Bertrand), do meu querido amigo Miguel Medina, morto faz exactamente um ano.

revisitar Joanne Woodward


A noite passada, furioso com o desplante assassino da rtp2 em exibir, numa cópia "pan & scan", um dos maiores filmes de Sydney Pollack, "Jeremiah Johnson", decidi procurar no acervo de vhs's "algo" suficientemente apaziguador e belo que me fizesse esquecer mais este acto hediondo (agravado pela habitualidade...) da televisão pública. Sem quaisquer reticências, optei por rever The Effect of Gamma Rays on Man-in-the Moon Marigolds ("O Efeito dos Raios-Gama no Comportamento das Margaridas", estreado no antigo Pathé, no outono de 1973...), de Paul Newman, baseado na obra de Paul Zindel, (prémio Pulitzer) com Joanne Woodward. O que é tocante neste drama intimista (a fazer lembrar uma peça de Tennesse Williams) é a actuação vigorosa de Joanne Woodward, na pele de uma mulher sem amor à volta com as dores de crescimento das suas duas filhas, adolescentes. Newman, que filma magistralmente, sabe como ninguém convocar os sinais de vida, as esperanças e desilusões, as dádivas e a retribuição, as incongruências e a desfaçatez. Parafraseando Angelopoulos, restar-nos -á o tempo inteiro e um dia?

palavras de howard zinn

Civil disobedience is not our problem. Our problem is civil obedience. Our problem is that numbers of people all over the world have obeyed the dictates of the leaders of their government and have gone to war, and millions have been killed because of this obedience. Our problem is that people are obedient all over the world in the face of poverty and starvation and stupidity, and war, and cruelty. Our problem is that people are obedient while the jails are full of petty thieves, and all the while the grand thieves are running and robbing the country. That's our problem.
Howard Zinn, historiador, in 'Failure to Quit'

quinta-feira, junho 07, 2007

dores de crescimento (7)

Lembro-me de ficar minutos no miradouro de s.pedro de alcântara a olhar as luzes brilhantes da avenida e de vaguear pelo cais ao amanhecer, lembro-me. Do mal que nós fizémos, do bem que não deixo de memorar, quando vou no convés do cacilheiro procurar na outra margem o sentido dos nossos absurdos.
Lisboa, Rua Pascoal de Melo, 10 de Setembro de 1984

terça-feira, maio 29, 2007

o futuro (utópico) da moral segundo Sartre

A fraternidade é o que os homens serão uns em relação aos outros, quando, através de toda a nossa História, se puderem dizer ligados afectiva e afectivamente uns aos outros. Se me falta alguma coisa, dás-ma, e vice-versa. Isto é o futuro da moral.

Jean-Paul Sartre, declarações a Benny Levy em Nouvel Observateur (Março de 1980), transcritas em O Jornal, edição de 9 Maio 1980.

segunda-feira, maio 28, 2007

santo ofício II

António Vitorino, dirigente do PS, hoje no jornal da noite da RTP1: "A prepotência dos pequenos poderes é a pior das prepotências". A esse respeito estamos de acordo. Mas não basta. Ou se castigam, forte e feio, os abusadores -que se acham senhores de todo e qualquer poder- onde quer que eles estejam ou então tudo não passa, tristemente, de mera condenação "retórica" destes ou de outros "excessos" de zelo. Vitorino acha mais: que "a suspensão (preventiva) é um mecanismo desproporcionado". Que o diga eu, protagonista à força de uma "ópera bufa" que subiu á cena num conhecido organismo público, em Março de 2005, dirigida por um ilustríssimo director de serviço com "carta branca" para a prepotência, o abuso e toda a espécie de atropelos à legalidade democrática de um Estado que se julgue... como tal.

sábado, maio 26, 2007

santo ofício


Em certo sentido, a situação do país retira toda a razão aqueles que perderam toda e qualquer capacidade de visão do real e são já incapazes de ver distintamente a realidade que a todos circunda. Os sinais de pulsão autoritária, de intolerância e perversão dos valores da democracia que vieram esta semana a público do norte do país (episódio DREN e da sua dedicadíssima directora-geral, of course!) não se devem a meros circunstancialismos, ajustam-se na perfeição ao clima de fascização social reinante que se vem instalando (e alastrando, em pézinhos de lã) em alguns ministérios, institutos públicos, autarquias, bancos, empresas, etc. . Para a depuração ser eficaz "pedem-nos" que nos mantenhamos em estado de impotência serial.

quarta-feira, abril 18, 2007

palavras de gandhi

My notion of democracy is that under it the weakest shall have the same opportunities as the strongest...no country in the world today shows any but patronizing regard for the weak... Western democracy, as it functions today, is diluted fascism...true democracy cannot be worked by twenty men sitting at the center. It has to be worked from below, by the people of every village.

Gandhi

segunda-feira, abril 16, 2007

relembrar françoise hardy


Tous les garçons et les filles de mon âge
se promènent dans la rue deux par deux
tous les garçons et les filles de mon âge
savent bien ce que c’est d’être heureux
et les yeux dans les yeux et la main dans la main
ils s’en vont amoureux sans peur du lendemain
oui mais moi, je vais seule par les rues, l’âme en peine
oui mais moi, je vais seule, car personne ne m’aime
Mes jours comme mes nuits sont en tous points pareils
sans joies et pleins d’ennuis personne ne murmure “je t’aime”
à mon oreille
Tous les garçons et les filles de mon âge
font ensemble des projets d’avenir
tous les garçons et les filles de mon âge
savent très bien ce qu’aimer veut dire
et les yeux dans les yeux et la main dans la main
ils s’en vont amoureux sans peur du lendemain
oui mais moi, je vais seule par les rues, l’âme en peine
oui mais moi, je vais seule, car personne ne m’aime
Mes jours comme mes nuits sont en tous points pareils
sans joies et pleins d’ennuis oh! quand donc pour moi brillera le soleil?
Comme les garçons et les filles de mon âge connaîtrais-je
bientôt ce qu’est l’amour?
comme les garçons et les filles de mon âge je me
demande quand viendra le jour
où les yeux dans ses yeux et la main dans sa main
j’aurai le cœur heureux sans peur du lendemain
le jour où je n’aurai plus du tout l’âme en peine
le jour où moi aussi j’aurai quelqu’un qui m’aime.
Françoise Hardy
(letra e música, 1962)


terça-feira, abril 10, 2007

clareza e síntese

No noticiário das 20 horas da Sic de ontem, o ministro Mariano Gago dispôs-se a falar do caso da licenciatura do primeiro-ministro, José Sócrates. Em menos de três minutos disse, com enorme clareza e bastante capacidade de síntese, como se processou o percurso académico do chefe do Governo. Em menos de três minutos, ficou a saber-se que a campanha erguida mansamente em certa imprensa pariu uma montanha... de omissões. Deliberadamente? Insidiosamente?.

Hemingway dixit

We have come out of the time when obedience, the acceptance of discipline, intelligent courage and resolution, were most important, into that more difficult time when it is a person's duty to understand the world rather than simply fight for it.
Ernest Hemingway

sábado, abril 07, 2007

lembrança de vinicius


Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.

Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.

Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.


Vinicius de Moraes

sexta-feira, março 16, 2007

encenadores da verdade

Cumprem-se hoje quatro anos que Bush, Blair, Aznar escolheram os Açores para anunciar ao mundo a decisão de assalto ao Iraque. Sabe-se hoje o que na altura já se adivinhava: a coberto de uma operação de manipulação da opinião pública mundial, os três magníficos mais um (o recepcionista Barroso!) revelaram-se tão inefáveis, tão inimitáveis, na sua encenação "brilhante" que se esqueceram que a realidade pós-Saddam haveria de se revelar, como se revela, uma farsa bem mais trágica, destruidora e sanguinária do que aquela em que os iraquianos viviam.

o (outro) cinema volta ao Trindade

Depois de Macbeth, de Orson Welles, anuncia-se para 27 de Março (Dia Mundial do Teatro) a projecção de Die Generalprobe / O Ensaio Geral, de Werner Schroeter, um documentário fora de vulgar (vencedor de grande prémio da Academia do Cinema Alemão) sobre a edição de 1980 do Festival Internacional de Teatro de Nancy. Depois, a partir de Abril, é a vez de Pina Bausch e o seu Tanztheater inaugurar no Trindade -na altura em que se anuncia a sua vinda a Lisboa- um curto mais significativo ciclo de filmes sobre a sua exemplar vida artística. Haverá oportunidade para aceder ao célebre "O Lamento da Imperatriz", sua primeira longa-metragem que permanece, à data, completamente desconhecida entre nós.
As sessões realizam-se na sala principal, às terças e quartas, pelas 17h30, com entrada livre.
Lá mais para a frente , Brecht subirá à cena através de uma colectânea de filmes documento de enorme valor histórico sobre alguns dos seus trabalhos maiores realizados em palco.

quinta-feira, março 15, 2007

do provincianismo

O director do Público, José Manuel Fernandes, falava ontem de "provincianismo" e "inveja" como estando na origem do afastamento do director do S. Carlos, o professor Pinamonti. Mesquinhez, acrescento eu, por mesquinhez -que grassa no país. Esperemos que o sucessor , Christoph Damman (se não estou em erro) seja tão bom quanto Pinamonti o foi, com bastante mérito (o suficiente para criar incómodos...) nestes seis anos em que esteve á frente dos destinos do S.Carlos.