domingo, novembro 26, 2006

cesariny (1923-2006)


Rebastecimento
Vamos ver o povo
Que lindo é
Vamos ver o povo.
Dá cá o pé.

Vamos ver o povo.
Hop-lá!
Vamos ver o povo.

Já está.
Mário Cesariny
in nobilíssima visão, Assírio & Alvim , Outubro 1991

sábado, novembro 25, 2006

"profecias" de ernesto sampaio

Ernesto Sampaio e Fernanda Alves,
já desaparecidos
O Ernesto Sampaio (que conheci num dia longínquo de 1976...), jornalista, encenador teatral, foi sobretudo um dos grandes teóricos do surrealismo. Homem de cultura vastíssima o Ernesto foi um pensador exímio com uma capacidade de análise invulgar. O texto (extractos) que abaixo se segue , escrito no alvorecer do cavaquismo, põe a nú com grande lucidez o "futuro" que aí vinha ...e que estamos vivendo exactamente como ele o previu.
Um grande abraço, Ernesto!
Uma sociedade sem conflitos só pode ser uma sociedade totalitária, e já não restam dúvidas de que a utopia capitalista abre caminho a uma implacável ditadura: a do mercado. O que está em jogo é o fim de um período do capitalismo ligado de certo modo à emergência de uma sociedade pluralista. A gigantesca redistribuição dos mercados mundiais que hoje se entregam os colossos do capital financeiro, a concentração em poucas mãos de qauntidades de dinheiro astronómicas, significam o dobre de finados do pluralismo sob todas as suas formas.
Entretanto , instituições e aparelhos ideológicos (privados ou do Estado) funcionam essencialmente como máquinas de embrutecer, o ensino é medíocre e não tem qualquer finalidade humanista, a cretinice é a norma dos programas de rádio e televisão, a imprensa pratica sistemaáticamente o elctrochoque afectivo (dramatizaçãoi de acontecimentos ínfimos para ocultar os que são realmente importantes), o obscurantismo, sob todas as suas formas, está na ordem do dia, os conceitos mais vis e reaccionários beneficiam de uma publicidade espaventosa, os poderes montam disposistivos sofisticados para privar os cidadãos de qualquer hipótese de reflexão e acção.
Impotente perante este sistema (a que se submete cegamente) , o cidadão nunca se interroga sobre o que deve fazer (tem, aliás, a sensação de que não pode fazer nada), limitando-se a pensar co inquietação no que lhe virá a acontecer.
Viver atolado na merda até ao pescoço não o preocupa demasiado, quando outras ameaças mais concretas se perfilam no horizonte, como perder o emprego, por exemplo. Sem nenhuma influência influência no destino da colectividade nem no seu destino próprio, o individuo vê-se reduzido a esperar que a sorte lhe sorria, isto é, que não lhe batam muito... .
Ernesto Sampaio
in Diário de Lisboa 19 Junho 1987

quarta-feira, novembro 22, 2006

d.maria II, teatro aberto

foto: Teatro D. Maria

No "Público" de ontem (3ªfeira), Eduardo Prado Coelho faz o elogio da programação do Teatro Nacional D. Maria. Por uma questão, diz o cronista, "de honestidade intelectual a que sou extremamente sensível". Seguem-se elogios às "iniciativas que estão em curso" que considera serem "bastante positivas"... .

Ainda que os seus gostos não permitam encaixar tudo aquilo que foi enunciado pela director Carlos Fragateiro, tão contestado na altura da nomeação, o certo é que EPC considera existirem iniciativas de "inegável valor" que denotam "uma dimensão cosmopolita" muito "interessante e benéfica". Os elogios estendem-se à Livraria (gerida pelo teatro) e à criação da esplanada voltada para a Praça do Rossio.

O "deslumbramento" de EPC é sério, não tenhamos dúvidas, e também sensível. Depois do "coro de protestos" chega a hora da bonança. Mesmo quando elogia o trabalho desenvolvido pelo anterior director, António Lagarto, como "exemplar" - e crítica o modo como este foi afastado, "sem razões claras"- EPC não deixa de ser coerente porque tem a noção do valor dos dois protagonistas, Lagarto e Fragateiro. Mas, convenhamos, com uma ligeira diferença de "estilos": um fechou o espaço onde se mantinha a funcionar uma livraria (presumo que da Assírio & Alvim), o outro (re)abriu-a e deu-lhe atributos de serviço público.
Não será coisa muito relevante, pois não, nem de todo exemplar mas , em rigor, faz (toda) a diferença na gestão criativa dos espaços e na ideia de gerir um teatro como o nacional. Uma diferença que dá prazer a quem lá vai e se deixa "envolver", como de resto acontece com EPC. No fundo, um teatro pode e deve ser um espaço culturalmente mais aberto.


terça-feira, novembro 21, 2006

"heresias" buñuelianas

El joven monje: Hay algo que me turba.
El inquisidor: Os escucho... .
El joven monje: Me pregunto si quemar a los herejes no es ir contra la voluntad del Espíritu Santo.
El inquisidor (algo sorprendido): Pero si es la justicia de los hombres quien les castiga.!Es el brazo secular! Los herejes no son castigados por ser herejes, sino por las sediciones e los atentados que cometen contra el orden público. ?Comprendéis lo que quiero decir?
El joven monje: Sí. Aunque , siendo así, aquellos que han visto quemar a sus hermanos quemarán a su vez los demás, y así sucesivamente. (en voz baja). Uno tras otro, todos estarán seguros de poseer la verdad...Y entonces, ?para qué habrán servido todos esos millones de muertos?

extracto diálogos, La Voie Lactée (1969), de Luís Buñuel

sexta-feira, novembro 17, 2006

the wonderful wizard of oz

The Wizard of Oz foi, com toda a certeza, um dos filmes mais vistos durante a minha infância. A minha mãe era não apenas uma ferrenha da Judy Garland mas também totalmente fanática do filme, que vimos juntos pelo menos uma cinco vezes. Lembro-me de sairmos do cinema de mão dada a trautear, We're off to see the Wizard / The Wonderful Wizard of Oz / We hear he is a whiz of a Wiz / If ever a Wiz there was. / If ever, oh ever a Wiz there was / The Wizard of Oz is one because / Because, because, because, because, because / Because of the wonderful things he does / We're off to see the Wizard / The Wonderful Wizard of Oz!. Lembro-me de uma vez ao regressarmos a casa de carro eléctrico eu na minha inocência de menino de sete anos ter dito á minha mãe que o mundo de Oz era um mundo imaginário em que era bom ser criança e ser feliz tinha(!) -achava eu- de se inventar (foi a palavra...) a felicidade para o mundo a sério. Lembro-me de a minha mãe sorrir levemente e fazer-me uma festa na cabeça, depois o seu olhar desviou-se para a janela do carro. A vida a correr lá fora, num domingo qualquer do ano de 1964.

quinta-feira, novembro 16, 2006

lembrar visconti (3)

(Outro exemplo: Visconti)
Trabalhava como um doido, ocultando o seu sofrimento. A doença humilha, agora era de uma cadeira de rodas que dirigia os actores, alterava a decoração, discutia as luzes. Trabalha para não morrer, dizem os amigos. Horas e horas para escolher o tom de um cortinado, a maneira de erguer um véu à altura da boca, a cor das maçãs no linho baço da toalha, com esse amor à realidade que só conhece quem a sabe tão fugidia. Abandonada a câmara, era ainda no trabalho que pensava ao ler duas ou três páginas de Proust, Stendhal. Apagara a luz, depois de ter ordenado que retirassem as floress do quarto, o aroma das gardénias começava a enjoá-lo. Mas o sono demorava. Tinha a cabeça cheia de imagens, sobretudo de sua mãe, surgindo no meio de uns versos de Auden, que fizera seus nos últimos tempos. When you see a fair form chase it / And if possible embrace it / Be it a girl or a boy... Adormecia tarde e era o primeiro a despertar. Chamou para que o lavassem, o vestissem. Recomeçaria uma vez mais a cena, com nova iluminação. O rosto de Tulio Hermil deveria estar na penumbra, só as mãos francamente iluminadas. Porque é nas mãos... Não, não, as mãos são inocentes. É no espírito que tudo tem origem; mesmo no amor; mesmo o crime. Excepto a morte. A morte era bem no seu corpo que principiava. Ali estava ela, tomamndo conta de si. Via-a crescer a cada instante, essa cadela. de súbito tornara-se real, os dentes afiados, a baba escorrendo, o salto iminente. Em grande plano
Eugénio de Andrade
in O Bosque Sagrado, Edição Gota de Água, Maio 1986

quarta-feira, novembro 15, 2006

reflexo de redução do mundo real

Depois da antológica cláusula-lei-da-rolha imposta protocolarmente a favor da abstinência a eventuais críticas às políticas ou actos da câmara do Porto eís que surge uma decisão surpreendente do autarca-monarca da cidade invicta: suprimir as subvenções -a partir do próximo ano- aos agentes culturais!
Na sua expressão mais simples, Rui Rio pôs a nú qual a concepção do mundo ( e dos valores) a que pertence. Doutrináriamente falando estamos pois esclarecidos sobre os traços essenciais deste sinistro fenómeno vindo de um poder autárquico democrático.
Mais grave é a complacência do poder político e, pior ainda, da dita "inteligenzia" deste país.

segunda-feira, novembro 13, 2006

palavras de josé afonso


Utopia
Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
gente igual por fora
Onde a folha da palma
afaga a cantaria
Cidade do homem
Não do lobo mas irmão
Capital da alegria
Braço que dormes
nos braços do rio
Toma o fruto da terra
E teu a ti o deves
lança o teu
desafio
Homem que olhas nos olhos
que não negas
o sorriso a palavra forte e justa
Homem para quem
o nada disto custa
Será que existe
lá para os lados do oriente
Este rio este rumo esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
na minha rota?
in Como Se Fora seu Filho, edição Orfeu, 1983, LP- 33 r.p.m.

sábado, novembro 11, 2006

lembrar visconti (2)

Morte A Venezia (1970)
Numa iniciativa do ABC Cineclube de Lisboa decorre até dia 30 deste mês no Auditório João Hogan (Voz do Operário, 5ªfeiras e sábados, pelas 17h00), um ciclo de homenagem a Luchino Visconti, no ano em que se celebra o centenário do seu nascimento.
Trata-se, antes de mais de um louvável propósito (o único neste "deserto" cultural em que até a Cinemateca Portuguesa faltou "à chamada"...) de desocultação de uma parte significativa (dez longas-metragens) da obra do grande mestre italiano, com destaque para os filmes (de grande densidade e poder de análise sociológica) de início de carreira -Obsessione, La Terra Treme, Belíssima e Senso- que representam a grande afirmação do que viria a ser (a partir de Il Gattopardo...) a generalidade da restante obra de Visconti.
Obra marcada -nunca é demais lembrá-lo- por uma capacidade invulgar de abordagem psicológica e sociológica da classe burguesa dominante num mundo atravessado por transições e mutações profundas. Quer na abordagem estética quer no domínio fílmico, Visconti evidenciou sempre enormes capacidades também na composição de universos ideológicos e na criação rigorosa de ambiências das épocas retratadas: neo-romantismo em Ludwig, impressionismo em Morte A Venezia e expressionismo alemão em La Caduta degli Dei / The Damned.

sexta-feira, novembro 10, 2006

casualties of war

Como está à vista, a máquina de propaganda dos neo-conservadores norte-americanos foi impotente para evitar a devastação eleitoral de que foi alvo nesta semana: os democratas (e independentes) conquistaram a maioria no Congresso e no Senado (alcançando a vitória á ultima hora no Estado de Virginia, reduto forte do partido do "elefante"), alterando assim a correlação de forças que permitiu durante décadas manter os republicanos no comando do poder "legislativo".
A primeira causa-efeito foi o afastamento (previsivel desde o verão, aliás) do controverso e conflituoso secretário da defesa, Donald Rumsfeld , um dos mais líricos arquitectos da conquista do Iraque em clima hollywoodesco de festa e foguetes... mas que a realidade transformou depressa demais num enorme fiasco gerador de violência e caos extremos. O que teve por consequência a falência completa do fantasioso plano de reconstrução do Iraque, a desorientação no seio do exército dos Estados Unidos (que forçou generais à "rebelião"verbalista contra o Pentágono), a crescente oposição interna contra a guerra e a perigosa situação de desmembramento da nação iraquiana com os efeitos devastadores que se imagina para a região do Médio Oriente.
Se estas são algumas das causas que tornaram decisiva a vitória democrata não são, no entanto, de molde a criar ilusões sobre aquilo que vai mudar, de facto.
Para já, Bush -que já aprendeu a ver a guerra por outra perspectiva...- fica com o poder relativamente limitado às vontades da oposição e, enquanto aguarda pelo novo dossiê da redefinição estratégica da guerra no Iraque bem pode (re) negociar com o partido democrata alguma da "legislação" totalitária e digna de um estado fascista que impôs à América sob o disfarce do combate ao terrorismo.
Veremos, também , como se comportam os velhos novos herdeiros de Lincoln, designadamente em relação ao culto do Mal instalado em Guantánamo, ao obscuro Patriot Act e outros exemplos da perversão dos "neo-cons" que tanto envergonharam o mundo nestes últimos anos.

quarta-feira, novembro 08, 2006

"a sexta melhor pintora"

Arpad e Vieira, em Paris nos anos 60.
Ao remexer ontem em escritos de minha mãe redescubro um interessante folheto sobre a pintora Vieira da Silva, (que quase caiu no esquecimento, como é prática entre nós...) que foi, como se sabe, uma grande personalidade da cultura portuguesa de reconhecido e enorme valor artístico. Em 1966, a revista francesa Connaissance anunciou o nome de Vieira da Silva como uma das seis melhores pintoras, segundo opinião de proprietários das galerias de arte mais importantes em todo o mundo.
Esse folheto, em formato A5, que me veio parar ás mãos anuncia modestamente a realização de uma sessão de homenagem (creio que a única no imediato ...) após a sua morte e promovida pela livraria Barata, com a minha colaboração.

Lembro-me de a sala da galeria estar repleta de gente num sábado à tarde e da emoção disparar às primeiras imagens de Ma Femme Chamada Bicho, o singular documentário do meu amigo José Álvaro de Morais, também já desaparecido. Lembro-e das palavras do David Mourão Ferreira nos fazerem compreender o estatuto ímpar do trabalho da Maria Helena Vieira da Silva.

segunda-feira, novembro 06, 2006

hipocrisia(s)

A esperada condenação á morte de Saddam Hussein decretada por um tribunal criado e gerido pelos ocupantes norte-americanos traz à memória um, dois, três factos que convém não esquecer: a)- Saddam Hussein foi, desde que tomou o poder num golpe de estado em 1967, um homem que tombou nas graças dos americanos e, só caiu em desgraça porque se recusou a aceitar "partilhar" com os Estados Unidos as enormes riquezas naturais ao contrário do coronel Kadhafi que já não carrega nos ombros o anátema de "terrorista"(!) e até se tornou "bonzinho" e "civilizado"!; b)- Saddam Hussein e o Iraque foram nos anos 80, para o chamado "mundo civilizado", uma espécie de "contrafogo" às ameaças do Irão. Por essa razão (e outras) os Estados Unidos prestaram a Saddam uma ajuda militar sem precedentes, muito expressiva, também para ajudar o Partido Baas Iraquiano a suster a ira xiita; c)- O controverso secretário de estado, Donald Rumsfeld fez, nos anos de 80, uma (que se saiba e registada para a posteriedade:::)incursão pacífica a Bagdade na qualidade de membro da administração Reagan, para mostrar a sua simpatia e apoio ao governo de Saddam Hussein, como se pode observar mum curto video disponível online, desde a desastrosa operação "freedom iraq", que fere de vergonha a consciência dos democratas.
Eram de origem norte-americana e ocidental as armas e munições usadas por Saddam para eliminar os focos de resistência interna; eram de origem norte-americana e ocidental os diversos tipos(!) de gases utilizados no extermínio de populações do curdistão iraquiano como o foram na frente de batalha contra o Irão. Eram norte-americanos e ocidentais os "instrutores" que apoiaram as tropas de Saddam, na contenda contra a Republica Islamica do Irão.
Pergunta inocente: não deveriam estar também sentados no banco do réus do Tribunal especial criado pela admnistração Bush todos esses "amigos" de circunstância que tão bem exerceram a sua missão de armar o exército de Saddam? Não mereceriam esses "sponsors" (autores morais!?) eles também a acusação de "crimes contra a humanidade"e a pena de condenação à morte?
Registo, com um sorriso, o facto recente dos britânicos -numa sondagem no The Guardian da passada semana- terem colocado o nome de Bush logo a seguir ao de Bin Laden como os "mais perigosos" à Paz!. Sintomático este "fair play" british!

domingo, novembro 05, 2006

estratégias do desejo

Quarenta anos depois, Belle de Jour mantém intacta a capacidade de proclamar a plenos pulmões que a paixão deve ser objecto de experimentação até às últimas consequências, - i.e. transgressão e perversidade. Buñuel, que foi sobretudo um irónico surrealista, fez dos espectadores simples voyeurs, dando-lhes a ver o que "dispensavam" e a esconder-lhes o muito que ansiosamente desejavam ver. Catherine Deneuve , numa surpreendente metamorfose chamada Séverine, fez da moral burguesa uma amálgama de ambiguidades. Delirante exercício "poético"sobre o desejo e o seu objecto de sedução.

sexta-feira, novembro 03, 2006

lembrar visconti(1)

Cumpriram-se ontem cem anos sob o nascimento de Luchino Visconti, uma das personalidades mais fascinantes da cultura europeia do século passado. De ascendência aristocrática, Visconti deixou-nos um legado artístico que supera em muito o poder criativo de um homem vulgar, que nunca foi, de facto. Da ópera ao teatro, da literatura ao cinema, Luchino Visconti ousou marcar o seu tempo com um vigor e inteligência impares, mantendo sempre a sua independência de pensamento e enorme dignidade intelectual. De Ossessione, passando por Rocco e i Suoi Fratelli Senso até Morte A Venezia, Gruppo i Famiglia in un interno e L'Innocente (seu derradeiro filme que rodou numa cadeira de rodas), Visconti distinguiu-se sempre pelo que havia de mais excelente na sua natureza:um perfeccionismo obsessivo e um virtuosismo desarmante ,elegante, intenso, capaz de nos reconciliar com a vida e estimular-nos a gostar de arte.

quinta-feira, novembro 02, 2006

dores e crescimento

Um dos prazeres maiores de quando tinha 12 ou 13 anos, era estar nas noites de férias em casa do Duarte a ouvir música. Ouviamos discos, de toda a espécie de obras (Zeca Afonso, Chansons Revolucionaires, Brassens, Piaf, sonatas de Beethoven, Joan Baez, etc.), e à vezes, quando a melancolia (provocada pelos amores ausentes!) tomava conta de nós, ouviamos pela milésima vez Leonard Cohen, em especial "Suzanne".
Suzanne takes you down to her place near the river / You can hear the boats go by /You can spend the night beside her / And you know that she's half crazy / But that's why you want to be there / And she feeds you tea and oranges / That come all the way from China / And just when you mean to tell her / That you have no love to give her / Then she gets you on her wavelength / And she lets the river answer / That you've always been her lover / And you want to travel with her/ And you want to travel blind / And you know that she will trust you / For you've touched her perfect body with your mind... .

Lembro-me de às vezes fechar os olhos e chorar. Por causa das palavras. Por causa da música.

quarta-feira, novembro 01, 2006

uma lição de cinema

Numa noite destas dei por mim a (re)deliciar-me (no canal Hollywood) com uma das mais memoráveis obras-primas de Joseph L.Mankiewicz, The Barefoot Contessa, com a belíssima Ava Gardner e Humphrey Bogart. Nunca será demais lembrar que a maior virtude do filme reside no ousado empreendimento de Mankiewicz que á epoca abalou as "convicções" do establishment: a demolição impiedosa de mitos (em especial, o "star system") e a subversão do conceito holywoodesco de melodrama. A conclusão moral de The Bareffot Contessa é que pode ser fatal a uma carreira de sucesso acreditar em contos de fadas (nem tão pouco nos irmãos Grimm!) sobretudo quando os príncipes encantados se podem transformar em assassinos. Excelente exercício de lucidez e enorme apogeu narrativo.

terça-feira, outubro 31, 2006

o fim da aventura

foto-cá-de-casa
(Cena 11- plano 6-vez 04- exterior/dia)
Voz Off:
Olhar o rio e recordar as palavras que tantas vezes fomos incapazes de dizer um ao outro. Palavras que já não importam ouvir porque as deixámos para trás no tempo de exaustão, já sem uma esperança de sonho e eternidade. Agora tenho o teu rosto só o teu rosto , muito belo e carregado de ternura, a converter a alegria em tristeza (e aflição).

Sigo-te, câmara na mão num travelling tremido que me pareceu interminável, rua abaixo, com braço a doer a deixar-me conduzir pelo teu andar apressado e firme.

Talvez a esta lembrança se tenha seguido outra -aquela do plano de conjunto junto ao miradouro- a seguir ao instante em que beijaste os meus cabelos e ficámos a olhar para as sombras dos nossos corpos projectadas no alfalto negro da rua estreita.
Meros rumores, rumores apenas e não prodígios como poderias estar a pensar.

Lisboa, Entrecampos, Setembro 1983

segunda-feira, outubro 30, 2006

palavras de ramiro correia

um dia dei por mim a chorar
e o meu avô que é marinheiro
e morreu agarrando o sol com as duas mãos
atravessou o riacho
e com o seu sorriso de buzio e maio
atirou-me um cacho de uvas
foi assim
Ramiro Correia, Comandante,
membro da Coordenadora do M.F.A.
in, Na Clivagem do Tempo, edição de autor - junho 1973

imagens do real

Na passada semana revisita a Industrial Britain, o clássico documentário de Robert Flaherty e John Grierson, por ocasião do docLisboa 2006. Pena é que a programação (excelente como sempre) não tenha incluído dessa dupla outros admiráveis momentos máximos, como Man of Aran(Flaherty) e Driffters(Grierson) que raramente acedem ao ecrãs dos festivais. Fica para a próxima, não!?.

domingo, outubro 29, 2006

palavras de giuseppe ungaretti

Silêncio
Conheço uma cidade
que cada dia se enche de sol
e tudo desaparece num momento
Cheguei lá quse à noite
No coração durava o ruído
das cigarras
Do navio
envernizado de branco
eu vi
a minha cidade perder-se
deixando
um pouco
um abarço de lumes no ar indeciso
suspensos
Giusepe Ungaretti
in Sentimento do Tempo
(Publicações D.Quixote / Cadernos de Poesia, fev.1971)

sábado, outubro 28, 2006

notas soltas

La Voie Lactée (1969), Luis Buñuel
1.Nos últimos tempos tenho andado com vontade de ler Flaubert (contra quem sempre tive uma certa animosidade que não sei bem explicar porquê), Sartre (Les Séquestrés d'Altona e Les Mots...) e até Garaudy, por razões da experiência, digamos do vivido, e por uma atracção pelo religioso. Tudo autores que já conhecia mas não o suficiente. Esta necessidade tem muito pouco de extraordinário convenhamos, embora me continue a ocupar (menos, reconheço-o) da leitura de poesia mas sem "novidades" maiores porque tenho sentido é a necessidade de me voltar para a releitura daquilo que me é mais familiar : Pessoa, T.S.Elliott, Ungaretti, Carlos de Oliveira, Sophia, Armindo Rodrigues, Rimbaud, Ruy Belo... .
2.As questões da justiça, ou mais prosaicamente, o funcionamento do sistema judiciário português, tem-me ocupado desde há um ano, por razões bem sabidas dos que me são mais próximos, claro.O que me tem agradado nas leituras (de acordãos, de alegações...) não é tanto a retórica (algo pobre na maioria dos casos) mas a preocupação de certos magistrados em fazer crer que as decisões de penas são tomadas em total "independência" das pressões políticas ou outras. É aquilo a que eu chamo o esquema abstrato da independência!
3.La Voie Lactée, de Luís Buñuel, tem sido desde o fim do verão (calendáriamente falando...)
um "recurso" a que tenho recorrido "n" vezes. O que mais admiro em Buñuel não é apenas a capacidade em desmascarar a impostura desse enorme disfarce chamado catolicismo, é fazê-lo a partir das próprias considerações dogmáticas da Igreja. Corrosivo e irónico como sempre.

sexta-feira, outubro 27, 2006

joan crawford: in memorian

No Firmamento apagado
não luciluzem mais estrelas de cinema.
Greta Garbo
passeia ingógnita a solidão de sua solitude.
Marlene Dietrich
quebrou a perna mítica de valquíria.
Joan Crawford,
produtora de refrigerantes, o coração a matou.
O cinema é uma fábula de antigamente
(ontem passou a ser antigamente)
contada por arqueólogos de sonho, em estilo didático,
a jovens ouvintes que pensam em outra coisa.
O nome perdura. Também é outra coisa.
Tudo é outra coisa, depois que envelhecemos.
E não há mais deusas e deuses. Há figurinhas
móveis, falantes, coloridas, projectadas
no interior da casa. Não saem nunca mais,
enqunto se esvazia o céu da grécia
dentro de nós -azul já negro, ou neutra-cor.
Joan, não beberei por ti, à guisa de luto, nenhum líquido fácil e moderno.
Sorvo tua lembrança
a lentos goles.
Carlos Drummond de Andrade
in Discurso da primavera e outras sombras

quarta-feira, outubro 25, 2006

palavras de carlos de oliveira

Vento

As palavras
cintilam
na floresta do sono
e o seu rumor
de corças perseguidas
ágil e esquivo
como o vento
fala de amor
e solidão
quem vos ferir
não fere em vão,
palavras
Carlos de Oliveira, Trabalho Poético

segunda-feira, outubro 23, 2006

"Trás-os-Montes", longe da vista


foto de arquivo
Fez trinta anos em Junho que António Reis e Margarida Cordeiro nos deram a ver -primeiro numa circunstancial ante-estreia na Gulbenkian, depois na salinha do Satélite no ex-Cinema Monumental- a sua primeira longa-metragem: Trás-Os-Montes, um filme poético e ousado sobre a fascinação da terra transmontana no país profundo, que o fascismo dos "brandos costumes" votou ao ostracismo durante décadas a fio.

Após a estreia, Trás-os-Montes teve direito a elogios por parte de alguma (a menos dogmática, claro) da "inteligentzia" lusitana que viu nele uma "achado"fílmico, didáctico e reflexivo, capaz de colocar Portugal nos lugares cimeiros da cultura cinematográfica europeia. Como não podia deixar de ser, o filme não desmereceu a atenção das vozes dissonantes nacionais mais retrógadas, do tipo santa inquisição (telegramas enviados á Secretaria de Estado da Cultura pediam a queima do filme!) e do caciquismo ad eternum.

De alguns dos nomes maiores da História do Cinema, como Joris Ivens, vieram os maiores elogios; os Cahiers..., promoveram-no (como a generalidade da imprensa e crítica europeia) ao primeiro galarim; nos festivais de renome as salas esgotavam e ninguém arredava pé.

Trinta anos depois, se Trás-Os-Montes se distingue de quaisquer outros filmes portugueses, distingue-se sobretudo pela ousadia de fazer um filme de "género inclassificável", da sua temática e da sua proposta narrativa. Trinta anos depois, Trás-Os Montes permanece no limbo e no esquecimento apesar de fugazes exibições na Cinemateca Portuguesa e da atenção (a única homenagem "oficial" a Reis, até á data) de que foi alvo, em 1995, promovida pelo Sector de Cinema do Inatel em sessão realizada no Quarteto e, anos depois, a retrospectiva (integral) promovida pelo Cineclube de Faro.

"Milagre" menor a averbar: o de Trás-os-Montes continuar a ser ignorado ( tal como toda a restante obra de Reis/Cordeiro) pelo mercado vídeo. O que quer dizer que , mais uma vez, se pode dirigir uma valente pateada aos editores de dvd's deste país.

domingo, outubro 22, 2006

revendo cassavetes

Em Shadows estamos perante um daqueles casos extremos em que a banda sonora (marcada pelo jazz) não só é tão importante como a imagem como a sobredetermina. O melhor em Cassavetes sempre foi a sua vocação para histórias intímas às quais nunca (poderia) faltar uma ponta de ambiguidade e melancolia que derivaram sempre da forte dramaticidade que lhe foi tão característica em todos os seus trabalhos, desde Shadows e até Love Streams, seu derradeiro filme que contou também com a prestação (habitual) de sua mulher, a sublime actriz Gena Rowlands.

o fracasso do sonho imperial

Free Press International
As baixas militares norte-americanas no Iraque conheceram este mês novo pico (o número de soldados mortos já vai em 80...) o que vem alarmando ainda mais as hierarquias do Pentágono e reforçou a tese defendida por dezenas de generais de que a estratégia delineada pela Casa Branca -antes mesmo da invasão do país há três anos- foi um "erro" monumental, uma irresponsabilidade assente em falsidades e inventonas de todo o tipo usadas para justificar o injustificável.
O sonhado passeio triunfal das tropas invasoras nas ruas de Bagdade que vinham libertar a nação iraquiana do jugo de Saddam nunca se verificou. Nem tão pouco as lagartas dos blindados que percorreram as artérias de Bagdad não o fizeram em cima de tapetes de flores como idealizaram Rumsfeld e seus sequazes.Mesmo as poucas dezenas de "iraquianos" que assistiram à derrocada da estátua em Bagdad do ditador Saddam Hussein não eram mais do que soldados norte-americanos meio-vestidos a arabes os únicos a dar nas vistas, como ficou demonstrado em dezenas de fotos publicadas em outras tantas páginas online ou em matutinos de referência.
Os milhões de dólares usados (diz-se, na compra de generais da temida guarda republicana, de centenas de informadores e da minoria de exilados afortunados no Ocidente, etc.) funcionaram no início mas não foram suficientes para evitar o caos e a barbárie instalada pelo comportamento das forças ocupantes.
Ao invés da democracia prometida os Estados Unidos elegeram logo no primeiro ano a máxima: em cada iraquiano suspeito um iraquiano a abater. Transformaram Abu Ghraib num santuário de tortura e bestialidade, um entretenimento sádico para soldados e oficiais desumanizados que violentavam jovens estudantes (muitos com menos de 16 anos) e condenavam à morte lenta dezenas de homens obrigados a cumprir todo o tipo de insanidades sob a ameaça de armas.
A democracia prometida jaz há muito também a partir do momento em que as tropas ocupantes passaram a contar com a ajuda "desinteressada" de atiradores de elite (snipers) vindos de Israel, Tchetchenia e da guerra do Kosovo que se tem empenhado no extermínio selectivo e calculado de quadros importantes da nação iraquiana: professores, politicos, cientistas, opositores , etc. com o propósito de destruir o Iraque enqaunto nação e provocar uma guerra civil por forma a fragmentar o país em especies de "cantões" federados. Uma solução "higiénica" que hipoteticamente manteria sob a alçada do invasor-ocupante a maioria dos recursos do Iraque.
Ao invés da democracia prometida por Bush, os iraquianos assistiram impotentes ao saque dos seus bens patrimoniais e históricos (roubados do interior de museus vandalizados) a maior parte "recapturado" em pequenos aeroportos de cidadezinhas do interior da América. Os milhões de dólares disponibilizados para a alegada "reconstrução das infra-estruturas do Iraque" foram sendo na sua maioria desviadas para contas de cidadãos norte-americanos, como o revelam inúmeras fontes insuspeitas dentro dos Estados Unidos.
A recente e arrasadora crítica do general britânico que ousou defender a retirada total e imediata dos soldados de Sua Majestade ( a que se seguiu a do seu homólogo australiano, pouco ou nada difundido nos meios de comunicação portugueses, o que se compreende...), a criticas dos generais do Pentágono, o reconhecimento por parte de Bush de que o Iraque "é um novo Vietnam"e a atribuição a James Baker de uma missão de alta importância que possa (através de contactos com todos os movimentos de guerrrilha iraquianos -mas também que englobe os governos "inimigos" do Irão e da Síria) evitar o descalabro e descontrolo total da situação militar no Iraque, já considerada de "derrota".
Falhados todos os objectivos principais que Rumsfeld previu no seu "caderno de encargos" para o Iraque, resta agora aos Estados Unidos não perder completamente a face. No fundo, no fundo, o que levou os Estados Unidos para este "beco sem saída" foi o controle dos recursos naturais (água, petróleo e gas) como se encontram consubstanciados em numerosos documentos que vieram a lume nos ultimos quatro anos.
A aventura americana no Iraque contabiliza já mais de 655.000 mortos iraquianos: menos (ainda...) do milhão e quase meio de vietnamitas mortos em cerca de 12 anos de guerra. As baixas de cidadãos iraquianos arrisca-se a superar assim o dos vietnamitas. Superados estão já os mais de 200 mil japoneses assassinados em Hiroxima e Nagazaki em Agosto de 1945 quando foram lançadas sobre essas cidades nipónicas sem valor militar duas bombas atómicas que constribuiram poucos anos depois para detonar a corrida aos armamentos .
A aventura iraquiana que também custou a vida a cerca de 2800 (dados oficiais) militares norte-americanos e dezenas de milhares de feridos, a maioria grave, pode perfeitamente vir a despoletar um movimento interno que contribua para afastar Bush da Presidência , promover novas eleições e instalar na Casa Branca um Presidente inteligente para quem o bom senso não seja uma palavra vã.

sexta-feira, outubro 20, 2006

o ovo da serpente

Der Jungle Torless (O Jovem Torless), o inquietante romance de Robert Musil -editado pela Livros do Brasil- que Volker Schlondorff transpôs para o ecrán em 1965 (estranhamente nunca editado em vídeo entre nós) continua a ser considerado um dos filmes mais emblemáticos sobre a natureza do mal e a tentação fascista que de vez em quando assola as sociedades em períodos de decadência. Visto também como prenúncio da ascensão do nazismo.

quinta-feira, outubro 19, 2006

ácido e cool

Revisitar (em cópia dvd) Mystery Train, deixou-me a sensação -é curioso...- de maior estima por Jim Jarmusch. O reencontro com os hóspedes dum hotel decadente de Memphis, cidade mítica da melhor música popular norte-americana permanece peculiar e continua a "mexer" comigo. Mystery Train , note-se, é também o título de uma canção célebre de Tom Waits.

quarta-feira, outubro 18, 2006

o caminho da serpente

Margritte: reproduction interdite
De tanto se resignar (à impotência) o português já não estranha o fogo rápido que sob ele se vem abatendo em nome dos pressupostos da crise não, o português já só deixa se entranhar, não obstante manter uma réstea muito fugaz de esperança... em que o pesadelo passe a ser visto como um cataclismo da natureza...dos homens evidentemente e que outros (homens não necessariamente humanos) saberão superar -e quase de certeza- sem a ajuda dos milagrosos ansiolíticos e antidepressivos que se esgotam de forma impressionante nas farmácias para gáudio dos laboratórios... .
O português já se cansou de tentar perceber onde pára a solução, justa e consensual, para os problemas do hiperendividamento das contas públicas do país, se os "grandes" (senhores e interesses) ficam sempre fora da zona de risco. O que explica a razão por que a crise faz felizes e descontraídos outros portugueses , em número muito mais reduzido, como é certo.
A felicidade exige sabedoria e talento. O português comum, constrangido e forçado a andar de mãos levantadas -longe dos bolsos, portanto- não o sabe, por certo. O primeiro-ministro sabe o que o português sabe (ou julga saber) sobre as políticas de "salvação" do sistema que estão sendo servidas a "frio" semanalmente e o que elas valem e valerão no futuro próximo.
Forçoso é, de qualquer modo, reaprender ou reajustar(!) algumas regras básicas de sobrevivência. Uma dessas regras diz respeito à atracção (fatal) por um antigo e popular mandamento "social" -salve-se quem puder! Isto quer dizer : os valores -os poucos que ainda rareiam- devem continuar a ser eclipsados. E pesem os circunstancialismos, muitas mentalidades já perceberam isso. É também por aí que a crise , na sua fúria reparadora, só pode trazer benefícios a uns e ilusões a muitos mais.Que tamanha felicidade!
Oeiras, 12 Setembro 2006

terça-feira, outubro 17, 2006

sábado á tarde

(escrito a pensar filmar...)
Reparo que trazes a saia de ganga que compráramos em saldo numa loja recatada das avenidas novas naquele sábado chuvoso e frio em que demos as mãos ao fim de muito tempo de receio mútuo. Reparo também que o teu sorriso já não é o mesmo desse dia, nem o teu olhar é luminoso como quando nos encontrámos no pequeno café de bairro antes da matinée no quarteto, nem quando nos despedimos demoradamente horas depois junto ao cais. Reparo ainda que o teu andar não é o teu andar, porque os passos que dás, até mim, já não tem o encanto e a subtileza dos passos qaundo avançavas para mim. Reparo, reparo ainda mais: na forma como procuras esconder o teu olhar do meu olhar, como administras o nervosismo (com o teu característico toque do dedo indicador no canto do lábio superior...) e com que dificuldade procuras a posição confortável na cadeira. Reparo, finalmente, que durante toda esta tarde só me fixaste uma vez, uma única vez (e me tocaste na face com carinho, reconheço-o) com o olhar mais triste que nunca te vi... .Mais triste e só, antes de me beijares e abandonares o café lentamente e eu só te perder, de vista, através da vidraça da montra. Com a morte dentro.

Lisboa, Jardim do Princípe Real, Maio de 2001

definição de juventude

... A imagem de indivíduos que tentam viver de acordo com o seu próprio ritmo em um envolvimento moral que é ou de uma estreiteza sufocante ou de uma altura ameaçadora, mas nunca á medida da solidariedade espontânea que estão prontos a oferecer. Anti-sociais por razão de lealdade e rebeldes por força específica de circunstâncias definidas...
Thomas Elsaesser

questão de identidade

Max Frisch foi uma descoberta (feliz) feita quase ao acaso -já lá vão 12 anos-, quando procurava outro autor (Harold Pinter, para que conste) com provas dadas também na escrita teatral. Chamem-me Gantenbein ( edição da Arcádia) é um romance sobre um homem que finge ser cego "sem o ser, que é cego para os outros, principalmente para a mulher que o ama, porque ele não vê...tudo aquilo que destruiria o amor...". Frisch é, surpreendentemente, sublime.

domingo, outubro 15, 2006

beckett

O que me atrai na personalidade incontornável do grande escritor irlandês, Samuel Beckett é a sua sensibilidade radical: hipersensível, hipercrítico -tanto em relação a si como aos outros- Beckett posicionou a vida na margem do limbo. Essa opção que diria, ser absolutamente consciente e que lhe trouxe como que se sabe consequências, (isolamento social; viveu os últimos anos de vida como um eremita) não foi mais do que uma via (dolorosa e necessária) para a afirmação punjante do seu poder criativo e qualidades reflexivas.

O que me atrai também em Beckett não é apenas o lado exasperado, alucinante e obsessivo da solidão (a incomunicabilidade) do Homem na sociedade moderna mas a consciência da sua resignação e impotência.

No ano em que se celebra o centenário do seu nascimento, recordemos o poema, Os ossos de Eco:

asilo sob os meus passos este dia inteiro
os seus folguedos abafados enquanto a carne se desmorona
arrotando sem receio sem pavor
percorrida a punitiva fileira da sensatez e insensatez
tomados pelos vermes por aquilo que são

sábado, outubro 14, 2006

viagem no tempo

Foto: Fernando Negreira

1976: o olhar semi-ocupado na leitura dos Cahiers du Cinéma numa tarde de primavera nas instalações do Centro Estudantil de Fotografia e Cinema (lugar de divulgação do cinema de autor e militante) em Lisboa, na rua dona Estefânea. Em contracampo, poster de "Che" Guevara, um ídolo que me ficou para sempre incrustado na retina.

sexta-feira, outubro 13, 2006

momento de "ilusão"

Que tem de especial a música de Eleni Karaindrou -compositora de enorme mérito que vem assinando as bandas sonoras dos filmes de Angelopoulos- que ouço (teimosamente e sem auriculares!) quase todas as noites desde há anos? Lirismo? Poesia? Nostalgia? Provavelmente por tudo isto.E também por instinto (de sobrevivência?), e pela busca dum momento sensitivo, muito forte, de libertação. Ou, se quiserem, da sua ilusão.

quinta-feira, outubro 12, 2006

dias puros

foto cá-de-casa
Filmando uma manifestação numa noite de outono de 1974, em Lisboa (Alameda D. Afonso Henriques): ao centro, da esquerda para a direita - o Roy Rosado, Eu (de bolex paillard em punho) e o Pedro Macedo (de óculos).
Foi o tempo de todas as esperanças; o tempo dos (im)possíveis, o tempo de ir sem medo, de experimentar o risco; o tempo de ver o sonho transformar o pensamento...

cidadãos de "sucesso"

Constatação (incómoda) de Manuel Antonio Pina no Jornal de Notícias de anteontem:
Para se ser livre é preciso coragem, muita coragem. (...) Porque é bem mais fácil sobreviver acobardando-se do que escolher livremente. Os locais de trabalho, a vida política, a mera existência social, estão (basta olhar em volta) cheios de cobardes de sucesso.

terça-feira, outubro 10, 2006

bertrand russell dixit

The first step in a fascist movement is the combination under an energetic leader of a number of men who possess more than the average share of leisure, brutality, and stupidity. The next step is to fascinate fools and muzzle the intelligent, by emotional excitement
on the one hand and terrorism on the other.

Bertrand Russell
(Freedom, Harcourt Brace, 1940)

domingo, outubro 08, 2006

não tenho palavras

A insónia da noite passada dói. Onde me magoa o corpo não sei.

Por momentos, (re)vejo o teu rosto no espelho do hall quando passo
para a sala ás escuras.As despedidas súbitas têm o sabor
a desejos irrealizados. Será?

O dia amanhece. Não tenho palavras para descrever a cólera.

A morte, na sua fria pontualidade, que veio roubar-te a vida com a impunidade de sempre e
deixar-nos no olhar a pior das saudades. Bicho laborioso que tudo consome.

Nesta hora ( o féretro vai em ombros para a carrinha) seguimos-te. Não temos palavras. Ficamos, como sempre, prisioneiros do silêncio e da dor. Humedecidos (e vergados) pela falta que nos fazes, já.

Lembras-te Mãe: dias e dias a fio a alimentar o sonho impossível do futuro melhor? Outra terra virá, fisicamente nova, -digo-te que nasce, mas da resistência.

quinta-feira, outubro 05, 2006

à memória de minha mãe, clotilde maria

Nunca mais
Caminharás nos caminhos naturais.
Nunca mais te poderás sentir
Invulnerável, real e densa
-Para sempre está perdido
O que mais do que tudo procuraste
A plenitude de cada presença.

E será sempre o mesmo sonho, a mesma ausência.

Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, outubro 04, 2006

esta gente / essa gente

O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente

Gente que seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente

Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente

Gente que enterre o dente
que fira de unhas e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente

O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente

Ana Hatherly

terça-feira, outubro 03, 2006

cinema e poesia

O Espelho (ZerKalo, aka The Mirror) de Andrei Tarkovsky - 1975

segunda-feira, outubro 02, 2006

os amores de um soldado

Havia formigas por todo o corpo. Corriam
velozes nos braços. Uma grande parte delas
havia-se concentrado no peito em redor da ferida
provocada pelo projéctil.
O soldado tinha um olhar parado de espanto
Um pasmo de incompreensão? Talvez...
Uma, duas, por certo mais de seis formigas
percorriam-lhe o rosto com invulgar curiosidade,
como se descobrissem nele outra terra interior.
Lisboa, Entrecampos, 12 Fevereiro 1982

sábado, setembro 30, 2006

nos tempos que correm

Evidenciar capacidades, ser sensível, apaixonar-se pelo que se faz, manter sempre uma certa combatividade, desempenhar com rigor e exigência, actuar sempre com sentido de dever público, agir com independência (para ser justo) - eís alguns dos atributos de eleição que, nos tempos que correm, podem trazer aborrecimentos aos seus seguidores .

sexta-feira, setembro 29, 2006

revisita a billy wilder

"Monstro sagrado" entre os "monstros sagrados" da velha Hollywood, como Garbo, Dietrich, Swanson ou Pola Negri. Fédora é a actriz feita mito. Que idade terá? Provavelmente sessenta, provavelmente setenta. As opiniões divergem. De facto ela terá a idade que teve nos seus filmes. Ela não existe ao passo que a sua imagem existe. Ela é, pura e simplesmente, a representação, incarnação de uma das fases de ouro da história do cinema.
Um dia, Ela começou a rodar um filme inacabado (como Marylin) e, depois, retirou-se prematuramente para Corfou, ilha das ilhas desertas que nos habitam a memória. Ela recebeu cartas de amor de John Barrymore, Hemingway, Pablo Picasso, Maurice Chevalier, Winston Churchill ou Rachmaninoff. Quando Ela morreu, as mensagens de condolências vieram de todo o mundo (como com Marylin).

Espécie de súmula das grandes preocupações que dominaram Billy Wilder na sua carreira (brilhante) de autor, Fédora é um enorme grito (por vezes lancinante) de amor ao cinema. Revi-o esta noite e continuo a considerá-lo um dos mais hábeis, inventivos e brilhantes filmes de Wilder.

quinta-feira, setembro 28, 2006

a odisseia de madonna

Os fanáticos ( e hipócritas) religiosos que não perdoam a Madonna a ousadia coreográfica da crucificação (como suporte à emblemática canção, "Live to Tell") levada á cena no show da sua última tournée, "Confessions tour Madonna", são os mesmos que silenciam, no quotidiano,
o drama de pobreza e fome vividos pelas populações de África, designadamente no Malawi,
onde a singular cantora desenvolve um projecto meritório de combate à miséria extrema.
Jesus, que foi crucificado e morto pelos pecados do homem, se voltasse á terra estaria como profeta revolucionário a defender os oprimidos do mundo inteiro. Ao lado de Madonna, of course!. JD

terça-feira, setembro 26, 2006

palavras de antónio reis, cineasta esquecido


Na cidade onde envelheço
não há brisa
há vento
A brisa é para o amor
e para os cabelos
Na cidade onde envelheço
a roupa tem de secar
durante a noite
os operários levantam-se cedo
e o seu amor é simples
e no trabalho.
António Reis, poeta e realizador

segunda-feira, setembro 25, 2006

palavras de fernando pessoa


Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive
Fernando Pessoa

domingo, setembro 24, 2006

a razão do predador

Jaws, de Steven Spielberg -1975
A semana política fica marcada pela torrente espaventosa de um grupo de convivas (na maioria gestores, simpatizantes dos neo-conservadores americanos) que deram a conhecer ao país propostas jubilosas para a salvação definitiva. Uma das ideias defendidas consistia no despedimento de mais de duzentos mil funcionários como condição sine quanon para se alcançar o"paraíso".Muitos dos senhores respeitáveis que se lançaram no convívio "Compromisso por Portugal" não encontraram disfarce eficaz para mascarar o apetite voraz que lhes vai na alma pelos fundos da segurança social e pelas empresas lucrativas (que restam) do Estado: para repetirem os negócios do passado?
Mas o mais interessante foi o encontro ter servido também para elevar o tom das intrigas. Calorosas e descontraídas, como sempre.

sábado, setembro 23, 2006

revisitar salò o le centoventi giornati di sodoma

Sou como um gato queimado vivo
Esmagado pelo pneu de um camião
Pendurado pelos miúdos numa figueira
Mas ainda, pelo menos, com seis
das suas sete vidas...
A morte não é
Não poder comunicar
Mas já não poder ser compreendido

Pier Paolo Pasolini, últimos escritos

sexta-feira, setembro 22, 2006

nostalgia

Meu amor,
vamos
ao cinema de bairro
A noite transparente
gira
como um moinho
silencioso, elaborando
estrelas.
Tu e eu entramos no cinema
do bairro, cheio de meninos
e aroma de maçãs.
São as antigas fitas
os sonhos já gastos,
na pantalha.
da cor das pedras
ou das chuvas.A bela prisioneira
do vilão
tem olhos de lagoa
e voz de cisne.
Correm
os mais vertiginosos
cavalos
da terra.
Os vaqueiros
perfuram
com os seus tiros
a perigosa lua
do Arizona.
Com a alma
num fio
atravessamos
estes ciclones de violência, a formidável luta
dos espadachins na torre, certeiros como vespas
a avalanche emplumada
dos índios
abrindo um leque na pradaria.
Muitos dos rapazes do
bairro
adormeceram,
fatigados do dia na farmácia,
cansados de esfregar cozinhas.
Nós
não, meu amor.
Tão pouco vamos perder
estes sonhos:
enquanto
estivermos vivos
faremos nossa
toda
a vida verdadeira.
Os sonhos também:
todos
os sonhos
sonharemos.

Pablo Neruda
(in O Bosque Sagrado, Gota de Água, 1986)

quinta-feira, setembro 21, 2006

a imobilidade do tempo segundo resnais

L'Année dernière à Marienbad, Alan Resnais - 1961
Foi com L'année dernière à Marienbad que se deu a minha descoberta de Alain Resnais. No momento (estavamos em finais da década de 70...e havia um lugar mágico de nome, cinema do Palácio Foz, um milagre para a época!) o filme operou em mim efeitos milagrosos, não apenas pela estética ou pela exarcebação naturalista ou pelo movimento quase coreográfico, não.
O que retenho ainda hoje, ( visto e sentido como o lado mais poderoso em Marienbad) é a sensação de uma misteriosa imobilidade do tempo. O tempo absolutamente parado num sumptuoso e inesquecível hotel rodeado de jardins imensos.
Obra onírica sobre o amor (ou da impossibilidade de a ele aceder?) o filme mais polemizado de Resnais é também uma incursão pelo território da (in)comunicabilidade e do vazio (existencial da burguesia?) e é-o ainda mais certeiro sobre a inacessibilidade do objecto do desejo amoroso.
Se calhar Barthes poderia ser convocado para aqui!
JD

quarta-feira, setembro 20, 2006

à espera da justiça

"Tudo o que seja corrupção,
falta de isenção, falta de ética,
deve ser punido severamente..."

Juiz Fernando Pinto Monteiro,
- futuro Procurador-Geral da República.

O tema de destaque da edição de hoje do matutino Público foi, como não podia deixar de sê-lo, o sucessor de Souto Moura na Procuradoria-Geral da República -Fernando Pinto Monteiro, juiz de mérito, cuja competência e independência lhe são amplamente reconhecidas.
Tendo sido um dos principais dinamizadores do Movimento Justiça e Democracia, "visto como um sector menos corporativo e mais aberto da magistratura, assumidamente anti-sistema", não podem restar dúvidas de que tem a vontade férrea indispensável para (fazer) cumprir a mudança na Justiça que a sociedade justificadamente anseia, travando a onda de impunidade e imunidade grosseiras que se têm instalado e que vêm minando e pervertendo o sitema democrático português.
Na qualidade de vulgar cidadão da República, trabalhador dependente, com reconhecida competência e actividade cultural valorizada nacional e internacionalmente, cumpridor dos deveres e exigente na defesa das liberdades, direitos e garantias (ousadia que pago caro desde há anos num processo kafkiano...), desejo-lhe sinceramente as maiores felicidades e espero que seja um vencedor antecipado dos duros e muitos combates que o esperam.
Que nos esperam, a todos.

"l'intermitence du coeur"

Que golpe no coração, perante aquele cartaz
já gasto...Aproximo-me, observo aquela cor
de um outro tempo que o rosto quente e oval
da heroína exibe, a palidez heróica do pobre, opaca, manifesta.
De súbito,entro! Sacudido por um clamor interior
decidido a estremecer a cada recordação,
a consumar a glória do meu gesto.
Entro na arena, para o último espectáculo,
sem vida, personagens cinzentas,
parentes, amigos, dispersos pelos bancos,
perdidos na sombra, em círculos distintos
e esbranquiçados, no fresco receptáculo...
Subitamente, os primeiros enquadramentos.
Transtorna-me e arrebata-me..."l'intermitence du coeur"
Encontro-me no escuro caminho da memória, nas misteriosas
câmaras onde o homem é fisicamente outro,
e o passado o banha com o seu pranto.
Contudo, tornado hábil pelo longo exercício,
não perco os fios: eis a Casilina,
sobre quem tristemente se abrem
as portas da cidade de Rosselini...
Eis a épica paisagem neorealista,
com os fios do telégrafo, as calçadas, os pinheiros,
os murozinhos descarnados, a mística
multidão, perdida nos afazeres quotidianos,
as tenebrosas formas de dominação nazi...
Quase emblemático já, o grito de Magnani,
sob as madeixas desordenadamente absolutas,
ressoa pelas desesperadas panorâmicas,
e nos seus olhares vivos e mudos
se adensa o sentido da tragédia.
É ali que dissolve e se mutila
o presente, e atroa o canto dos aedos

Pier Paolo Pasolini
(in O Bosque Sagrado, Gota de Água, 1986)

terça-feira, setembro 19, 2006

por um punhado de terra

O terrorismo de Estado praticado por Israel tem como factor de legitimidade o poder colonial exercido segundo os velhos ensinamentos do apartheid sul-africano e rodesiano. O estado de demência que se instalou nos gabinetes de decisão politico-militar israelense não é de molde a prever um futuro com menos barbárie e mais senso comum e lucidez política.
Israel não pode desejar conservar-se como Estado (de direito e com direitos inquestionáveis) se persistir em recusar aos palestinianos o direito a terem a sua própria pátria.
O número inquietante dos jovens e crianças que pereceram desde Julho nas ruas e nas casas de Gaza e da Cisjordânea -como hoje se refere na edição de The Independent- continuam a ser a pior prova de que Israel perfilha, aparentemente , os velhos expedientes dos terroristas nazis que durante anos exercitaram com comprovada eficácia as suas técnicas de extermínio selectivo da comunidade judaica europeia. Quem não se lembra do gueto de Varsóvia?
É a questão da terra e da sua posse que continua a ditar o destino e a comprometer o futuro de paz no Médio Oriente.O resto é retórica e verbalismo de pacotilha para continuar a enganar tolinhos.

Quando os soldados do IDF assaltam edifícios da Autoridade Palestiniana e destroem os discos rigídos dos computadores e desfazem à coronhada os monitores isso tem um nome e um propósito muito claros.
O direito à existência do Estado de Israel não é, concerteza, garantido através da continuada destruição dos territórios palestinianos com vista a impedir, por todos os meios, a criação, de facto, de um Estado Palestiniano autónomo, -como, de resto, o entenderam Clinton, Arafat e Rabbin.


JD

segunda-feira, setembro 18, 2006

cumplicidade


o cinema é cruel
como um milagre. Nós
sentamo-nos na sala
às escuras, pedindo só
ao espaço branco
e vazio que se mantenha puro
Frank O'Hara
(in O Bosque Sagrado, Gota de Água,1986)

domingo, setembro 17, 2006

saudades da casa

foto-cá-de-casa

sonhei a noite passada com a casa onde reaprendemos ternuras e encantos.

sonhei com o cheiro a café pela manhã vindo da cozinha, ao mesmo tempo que senti o odor doce dos croissants quentes que tu foste comprar à loja habitual, por serem os melhores.

sonhei com o odor a água do mar que ficou para sempre nas cortinas verde-laranja das janelas.

sonhei com os belos momentos passados á noite na varanda à espera de ver surgir um tapete voador, muito cinematográfico(!), que nos levaria à aventura.

sonhei com os passeios nocturnos pelas ruas estreitas quase silenciosas e sonhei, ainda, com as pessoas respeitosas daí que resistem e não se deixam contaminar...

JD

sábado, setembro 16, 2006

trabalho de casa(4)

Psycho, de Alfred Hitchcock - 1960
Ontem à noite, revisitação -pela enésima vez- de Psycho. O discurso hitchcockiano sobre as oscilações dos sentimentos de culpa é de uma actualidade extrema. Ao rever a (notável) sequência de assassinato no chuveiro -que permanece fascinante a meus olhos- dei por mim a pensar na capacidade de imaginação (e inspiração) e no inigualável rigor estilístico do cineasta, que permanecem poderosas quarenta e cinco anos depois. Se isto não é arte, meus amigos, então... .
Gosto de remexer as gavetas da minha secretária mesmo (ou sobretudo) à revelia de uma qualquer razão ou necessidade, como foi o caso de ontem à noite. Dei por mim a fazer o reconhecimento de velhos programas de cinema (do Condes, do Tivoli, do S.Jorge!), a reabrir cartas e postais dos amigos, a redescobrir fotografias de antes da revolução com mais de trinta anos ainda não amarelecidas , a rever-me, corpo e olhar juvenil, em foto de uma manifestação em 1974, de bolex paillard na mão, ao lado do Roy(Rosado) e do Pedro Macedo, ou do sorriso feliz da Isabel Paiva estampado numa "9x12" que o Duarte Medina registou na varanda da casa num longínquo dia de outono. Penso: fotos com os amigos guardadas na gaveta de cima -sempre à mão, sempre todos presentes, na memória e ao alcance da mão.Olho para uma foto de grupo (Ricardo, Rui, Tó,Isabel, Gina, Duarte,Sónia(!) e eu com um sorriso trocista nos lábios) tirada na praia da adraga e o que sinto é uma incontida exacerbação da felicidade desses anos.
Impossível não virem à memória, um a um, os dias brilhantes e limpos que passámos juntos.
JD


sexta-feira, setembro 15, 2006

saudades do eduardo

Algumas palavras são mais que o som.
Soltam-se delas lâmpadas, por vezes gritos.
Palavras que demoram na boca com o sabor da manhã
de Outubro, o claro gosto da terra húmida,
castanha até doer...

Eduardo Guerra Carneiro
( in Zero, O Perfil da Estatua, 1961)