Vamos ver o povo
Que lindo é
Vamos ver o povo.
Dá cá o pé.
Vamos ver o povo.
Hop-lá!
Vamos ver o povo.
Já está.
Mário Cesariny
in nobilíssima visão, Assírio & Alvim , Outubro 1991
foto: Teatro D. Maria
El joven monje: Hay algo que me turba.
The Wizard of Oz foi, com toda a certeza, um dos filmes mais vistos durante a minha infância. A minha mãe era não apenas uma ferrenha da Judy Garland mas também totalmente fanática do filme, que vimos juntos pelo menos uma cinco vezes. Lembro-me de sairmos do cinema de mão dada a trautear, We're off to see the Wizard / The Wonderful Wizard of Oz / We hear he is a whiz of a Wiz / If ever a Wiz there was. / If ever, oh ever a Wiz there was / The Wizard of Oz is one because / Because, because, because, because, because / Because of the wonderful things he does / We're off to see the Wizard / The Wonderful Wizard of Oz!. Lembro-me de uma vez ao regressarmos a casa de carro eléctrico eu na minha inocência de menino de sete anos ter dito á minha mãe que o mundo de Oz era um mundo imaginário em que era bom ser criança e ser feliz tinha(!) -achava eu- de se inventar (foi a palavra...) a felicidade para o mundo a sério. Lembro-me de a minha mãe sorrir levemente e fazer-me uma festa na cabeça, depois o seu olhar desviou-se para a janela do carro. A vida a correr lá fora, num domingo qualquer do ano de 1964.
(Outro exemplo: Visconti)
Depois da antológica cláusula-lei-da-rolha imposta protocolarmente a favor da abstinência a eventuais críticas às políticas ou actos da câmara do Porto eís que surge uma decisão surpreendente do autarca-monarca da cidade invicta: suprimir as subvenções -a partir do próximo ano- aos agentes culturais!
Morte A Venezia (1970)
Como está à vista, a máquina de propaganda dos neo-conservadores norte-americanos foi impotente para evitar a devastação eleitoral de que foi alvo nesta semana: os democratas (e independentes) conquistaram a maioria no Congresso e no Senado (alcançando a vitória á ultima hora no Estado de Virginia, reduto forte do partido do "elefante"), alterando assim a correlação de forças que permitiu durante décadas manter os republicanos no comando do poder "legislativo".
A esperada condenação á morte de Saddam Hussein decretada por um tribunal criado e gerido pelos ocupantes norte-americanos traz à memória um, dois, três factos que convém não esquecer: a)- Saddam Hussein foi, desde que tomou o poder num golpe de estado em 1967, um homem que tombou nas graças dos americanos e, só caiu em desgraça porque se recusou a aceitar "partilhar" com os Estados Unidos as enormes riquezas naturais ao contrário do coronel Kadhafi que já não carrega nos ombros o anátema de "terrorista"(!) e até se tornou "bonzinho" e "civilizado"!; b)- Saddam Hussein e o Iraque foram nos anos 80, para o chamado "mundo civilizado", uma espécie de "contrafogo" às ameaças do Irão. Por essa razão (e outras) os Estados Unidos prestaram a Saddam uma ajuda militar sem precedentes, muito expressiva, também para ajudar o Partido Baas Iraquiano a suster a ira xiita; c)- O controverso secretário de estado, Donald Rumsfeld fez, nos anos de 80, uma (que se saiba e registada para a posteriedade:::)incursão pacífica a Bagdade na qualidade de membro da administração Reagan, para mostrar a sua simpatia e apoio ao governo de Saddam Hussein, como se pode observar mum curto video disponível online, desde a desastrosa operação "freedom iraq", que fere de vergonha a consciência dos democratas.
Quarenta anos depois, Belle de Jour mantém intacta a capacidade de proclamar a plenos pulmões que a paixão deve ser objecto de experimentação até às últimas consequências, - i.e. transgressão e perversidade. Buñuel, que foi sobretudo um irónico surrealista, fez dos espectadores simples voyeurs, dando-lhes a ver o que "dispensavam" e a esconder-lhes o muito que ansiosamente desejavam ver. Catherine Deneuve , numa surpreendente metamorfose chamada Séverine, fez da moral burguesa uma amálgama de ambiguidades. Delirante exercício "poético"sobre o desejo e o seu objecto de sedução.
Cumpriram-se ontem cem anos sob o nascimento de Luchino Visconti, uma das personalidades mais fascinantes da cultura europeia do século passado. De ascendência aristocrática, Visconti deixou-nos um legado artístico que supera em muito o poder criativo de um homem vulgar, que nunca foi, de facto. Da ópera ao teatro, da literatura ao cinema, Luchino Visconti ousou marcar o seu tempo com um vigor e inteligência impares, mantendo sempre a sua independência de pensamento e enorme dignidade intelectual. De Ossessione, passando por Rocco e i Suoi Fratelli Senso até Morte A Venezia, Gruppo i Famiglia in un interno e L'Innocente (seu derradeiro filme que rodou numa cadeira de rodas), Visconti distinguiu-se sempre pelo que havia de mais excelente na sua natureza:um perfeccionismo obsessivo e um virtuosismo desarmante ,elegante, intenso, capaz de nos reconciliar com a vida e estimular-nos a gostar de arte.
Um dos prazeres maiores de quando tinha 12 ou 13 anos, era estar nas noites de férias em casa do Duarte a ouvir música. Ouviamos discos, de toda a espécie de obras (Zeca Afonso, Chansons Revolucionaires, Brassens, Piaf, sonatas de Beethoven, Joan Baez, etc.), e à vezes, quando a melancolia (provocada pelos amores ausentes!) tomava conta de nós, ouviamos pela milésima vez Leonard Cohen, em especial "Suzanne".
Numa noite destas dei por mim a (re)deliciar-me (no canal Hollywood) com uma das mais memoráveis obras-primas de Joseph L.Mankiewicz, The Barefoot Contessa, com a belíssima Ava Gardner e Humphrey Bogart. Nunca será demais lembrar que a maior virtude do filme reside no ousado empreendimento de Mankiewicz que á epoca abalou as "convicções" do establishment: a demolição impiedosa de mitos (em especial, o "star system") e a subversão do conceito holywoodesco de melodrama. A conclusão moral de The Bareffot Contessa é que pode ser fatal a uma carreira de sucesso acreditar em contos de fadas (nem tão pouco nos irmãos Grimm!) sobretudo quando os príncipes encantados se podem transformar em assassinos. Excelente exercício de lucidez e enorme apogeu narrativo.
No Firmamento apagado
Em Shadows estamos perante um daqueles casos extremos em que a banda sonora (marcada pelo jazz) não só é tão importante como a imagem como a sobredetermina. O melhor em Cassavetes sempre foi a sua vocação para histórias intímas às quais nunca (poderia) faltar uma ponta de ambiguidade e melancolia que derivaram sempre da forte dramaticidade que lhe foi tão característica em todos os seus trabalhos, desde Shadows e até Love Streams, seu derradeiro filme que contou também com a prestação (habitual) de sua mulher, a sublime actriz Gena Rowlands.
Der Jungle Torless (O Jovem Torless), o inquietante romance de Robert Musil -editado pela Livros do Brasil- que Volker Schlondorff transpôs para o ecrán em 1965 (estranhamente nunca editado em vídeo entre nós) continua a ser considerado um dos filmes mais emblemáticos sobre a natureza do mal e a tentação fascista que de vez em quando assola as sociedades em períodos de decadência. Visto também como prenúncio da ascensão do nazismo.
Revisitar (em cópia dvd) Mystery Train, deixou-me a sensação -é curioso...- de maior estima por Jim Jarmusch. O reencontro com os hóspedes dum hotel decadente de Memphis, cidade mítica da melhor música popular norte-americana permanece peculiar e continua a "mexer" comigo. Mystery Train , note-se, é também o título de uma canção célebre de Tom Waits.
Margritte: reproduction interdite
Max Frisch foi uma descoberta (feliz) feita quase ao acaso -já lá vão 12 anos-, quando procurava outro autor (Harold Pinter, para que conste) com provas dadas também na escrita teatral. Chamem-me Gantenbein ( edição da Arcádia) é um romance sobre um homem que finge ser cego "sem o ser, que é cego para os outros, principalmente para a mulher que o ama, porque ele não vê...tudo aquilo que destruiria o amor...". Frisch é, surpreendentemente, sublime.
O que me atrai na personalidade incontornável do grande escritor irlandês, Samuel Beckett é a sua sensibilidade radical: hipersensível, hipercrítico -tanto em relação a si como aos outros- Beckett posicionou a vida na margem do limbo. Essa opção que diria, ser absolutamente consciente e que lhe trouxe como que se sabe consequências, (isolamento social; viveu os últimos anos de vida como um eremita) não foi mais do que uma via (dolorosa e necessária) para a afirmação punjante do seu poder criativo e qualidades reflexivas.
Foto: Fernando Negreira
Que tem de especial a música de Eleni Karaindrou -compositora de enorme mérito que vem assinando as bandas sonoras dos filmes de Angelopoulos- que ouço (teimosamente e sem auriculares!) quase todas as noites desde há anos? Lirismo? Poesia? Nostalgia? Provavelmente por tudo isto.E também por instinto (de sobrevivência?), e pela busca dum momento sensitivo, muito forte, de libertação. Ou, se quiserem, da sua ilusão.
foto cá-de-casa
Constatação (incómoda) de Manuel Antonio Pina no Jornal de Notícias de anteontem:
The first step in a fascist movement is the combination under an energetic leader of a number of men who possess more than the average share of leisure, brutality, and stupidity. The next step is to fascinate fools and muzzle the intelligent, by emotional excitement
A insónia da noite passada dói. Onde me magoa o corpo não sei.
"Monstro sagrado" entre os "monstros sagrados" da velha Hollywood, como Garbo, Dietrich, Swanson ou Pola Negri. Fédora é a actriz feita mito. Que idade terá? Provavelmente sessenta, provavelmente setenta. As opiniões divergem. De facto ela terá a idade que teve nos seus filmes. Ela não existe ao passo que a sua imagem existe. Ela é, pura e simplesmente, a representação, incarnação de uma das fases de ouro da história do cinema.
Os fanáticos ( e hipócritas) religiosos que não perdoam a Madonna a ousadia coreográfica da crucificação (como suporte à emblemática canção, "Live to Tell") levada á cena no show da sua última tournée, "Confessions tour Madonna", são os mesmos que silenciam, no quotidiano,
"Tudo o que seja corrupção,
O terrorismo de Estado praticado por Israel tem como factor de legitimidade o poder colonial exercido segundo os velhos ensinamentos do apartheid sul-africano e rodesiano. O estado de demência que se instalou nos gabinetes de decisão politico-militar israelense não é de molde a prever um futuro com menos barbárie e mais senso comum e lucidez política.