sexta-feira, fevereiro 23, 2007

lembrar zeca


A presença das formigas
Nesta oficina caseira
A regra de três composta
Às tantas da madrugada
Maria que eu tanto prezo
E por modéstia me ama
A longa noite de insónia
Às voltas na mesma cama

Liberdade liberdade
Quem disse que era mentira
Quero-te mais do que à morte
Quero-te mais do que à vida



Coro dos Tribunais, álbum editado em Dezembro 1975)
Foto: Associação José Afonso

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

in memorian de allende e neruda

Salvador Allende , Presidente da República de Chile eleito democráticamente (e derrubado através de um "putsch" sangrento -a 11 de Setembro de 1973- orquestrado por Kissinger e executado por Augusto Pinochet) e Pablo Neruda, Premio Nobel da Literatura, (morto dias depois do golpe, já não viu a sua residência ser vandalizada por energúmenos do movimento fascista chileno, "Patria y Libertad"; o seu funeral foi a primeira manifestação (corajosa) contra o esmagamento da democracia pluralista no Chile).
Foto: de Arquivo

no país do faz de conta(1)

O "Sim" à despenalização da interrupção da gravidez até ás dez semanas saiu vitorioso como o temiam muitos dos que pugnaram pelo direito (abstrato) à vida. Como se a vida só merecesse ser defendida no princípio e não lhe deverem ser reconhecidas as condições de qualidade e de dignidade universalmente expressas. O "Não" , ou para ser exacto, uma parcela mais iconoclasta do "Não" preferiu continuar a apostar naquela máxima "ou nós, ou a morte" como o comprovam algumas das mais fantásticas "tiradas" alguma vez lançadas num qualquer outro referendo congénere.
Simone Weill, que era de direita mas não era estúpida, promoveu em França- faz quase trinta anos- uma consulta similar que decorreu de forma apaixonada mas sem necessidade de resvalar para a retórica de sargeta ou cair na patetice larvar: no dizer dos defensores do "Não", e dos peritos na arte de dramatizar, uma vitória do "Sim" traduzir-se-ia num "aterrador aumento de abortos", "num problema de saúde da mulher(!)" ou, pior que isso tudo, "na condenação à morte de inocentes".
Num país estruturalmente atrasado como o é Portugal, com os centros de apoio a menores superlotados (apesar dos muitos esforços de muito poucos, incluindo obviamente de centenas de católicos bem formados), com as instituições (também a romper as costuras) que albergam ad eternum bebés abandonados e orfãos, com a ausência de politica séria e célere no processo de adopção -tudo situações que se vêm agravando nos ultimos 40, 30 anos- não vejo , sinceramente, onde reside a razão (mínima) para tanto ruído de muitos que abraçaram a causa do "Não".
Não seria um bom começo, contribuirem para a resolução das situações gritantes de crianças e jovens que vivem no limbo da sociedade? Não seria curial ajudarem a criar as condições sociais para que o aborto seja senão completamente irradiado pelo menos reduzido à sua expressão mais infíma? Por exemplo, poderiam os do "Não" abandonarem a acção (absolutamente nefasta) que vem promovendo de forma doentia contra a educação sexual nas escolas? Sabendo que uma parte significativa das mulheres que abortam são jovens , muito jovens ... não seria um bom princípio? Bem sei que issso pouco ou nada interessa a muitos que votaram e se bateram pelo "Não", convictos de estarem dentro da razão (a sua) e dela não abdicarem.
Num Mundo que se vem cada vez mais desumanizando, onde cresce o fosso entre os que tem tudo e aqueles que nada tem, um Mundo em que o poder do dinheiro determina já o tempo de vida de muitos, aparecem uns iluminados a colorir a realidade com cores que a esmagadora maioria dos seres humanos nunca verá. É obra!
Não tenho ilusões sobre isso, como em relação a muitas outras coisas. Apenas me pareceu oportuno lembrar que o Mundo é já hoje uma realidade bem diferente daquela que desejaríamos possível ou, paar ser mais claro, de acordo com os nossos interesses egoístas. Mas não: o Mundo de hoje é tão mais cruel do que antes e não se compadece com o "faz de conta" em que chafurdamos ano após ano para nos convencermos (fé inglória!) que tudo vai bem. Quer dizer, tudo vai mal. Bem o sabemos. Mas continuamos a assobiar pró lado. É o que ainda fazemos bem: assobiar como quem "faz de conta"... .A ver se a crise passa e o sol volte a brilhar de novo para todos(?) nós!

terça-feira, fevereiro 20, 2007

a noite do general

foto de arquivo
Noite de 27 Junho 1976. No Pequeno Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, o candidato à Presidência da República, Otelo Saraiva de Carvalho, (apoiado pela esquerda revolucionária)reunido com os orgãos de comunicação social a declarar-se "vencido" mas não convencido. O general Eanes foi o candidato vitorioso (61,6%) mercê do apoio da coligação de interesses -PS, PPD, CDS e MRPP- que viu nele o único garante (possível) para garantir o êxito do processo de normalização político iniciado em 25 de Novembro de 1975.
Atrás de Otelo, o operador de camera, de vinte anos, que empunhava a Bolex Paillard ainda acreditava que a Revolução continuava na ordem do dia e seguia dentro de momentos... .

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

palavras de ramiro correia(2)

aquece as tuas mãos
na cinza do poema
prende os teus cabelos
às estrelas
e morre
ardendo lentamente
deixa o teu corpo
enfeitiçar
o tempo
Na Clivagem do Tempo, edição de autor (1973)

sábado, fevereiro 17, 2007

depuramento e fluidez

Letters from Iwo Jima (2006), de Clint Eastwood
Clint Eastwood não pára de surpreender: não obstante os seus 76 anos de idade mantém bem vivas as suas enormes capacidades criativas e o seu potencial talento. A atestá-lo, aí está Letters from Iwo Jima, que é talvez o mais depurado de todos os seus filmes, a par de uma fluidez narrativa, plena de elegância e eficácia, que permanece surpreendentemente exemplar.

terça-feira, fevereiro 13, 2007

domingo à tarde

Tenho-me interrogado algumas vezes sobre o significado da amizade e do amor.Dos amigos, não me apetece adiantar muito, todos me são queridos e poucos foram os que traíram, alguns sem o saberem bem porquê. Do amor, -esse risco de ousar ser inteiro todo o tempo mesmo que o medo tome conta de nós e a ternura, os carinhos e os beijos, afrouxem ou desapareçam apenas por umas horas ou mesmo dias- vou descobrindo que sinto a tentação de às vezes o repelir, talvez para melhor me aproximar dele. Para ter mais um pouco de amor. Quer dizer: de vida.

domingo, fevereiro 11, 2007

au hasard, balthazar (2)

«Je vous invente tel que vous êtes»
Robert Bresson / Notes sur le cinématographe

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

au hasard, balthazar

"Bresson explore un même motif : l’innocence et le mal, la pureté et ce qui la dégrade."
Encyclopédie Universalis

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

anne wiazemsky

Anne Wiazemsky, a actriz fétiche dos cineastas do cinema de autor, como Bresson, Godard, Garrel e Pasolini apresenta-se numa entrevista bastante interessante por sinal, publicada no último número da Les Inrockuptibles. É notório o peso de Bresson reflectido anos, muitos anos mais tarde na sua primeira obra escrita; o casamento com Godard (criticado por Bresson nestes termos: 'Mais Anne, vous faites une folie , il est trop vieux!'); a atracção pela personalidade de Pasolini; as experiências godardianas radicais, sobretudo La Chinoise.
Anne Wiazemsky foi um dos meus amores secretos durante uma boa parte da adolescência e da idade adulta. Essa "fixação" em Anne obrigava-me a ver Au Hasard Balthazar, Teorema de Pasolini, Rendez-Vous, (de Téchinè) vezes sem conta. Uma atracção desmedida, confesso-o. Porque nunca me permitiu sair desse impasse, dessa impossibilidade, de a ter no ecrã e de a desejar a meu lado.

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

pelo "sim", contra a hipocrisia

O referendo pela despenalização do aborto às dez semanas é pau para toda a obra dos que defendem o "não"até às ultimas consequências: bebés boneco made in china do tamanho de um isqueiro passam de mão em mão como que a alertar para o "crime hediondo" que livremente se praticaria aos "milhares"(sic) se o "sim" vencesse; a igreja (alguma da Igreja...precisemos) ensaia nas homilias a excomunhão violenta, ao estilo medieval ,das pecadoras sedentas de matar a vida no ventre, enquanto catequistas febris distribuem nos infantários e nas ruas cartinhas de supostas crianças a quem as mães não mataram a vida e que por isso estão agradecidas(!); um inventivo ex-ministro da segurança e do emprego propõe a condenação das mulheres a uma pena de serviço na comunidade como se fossem jovens delinquentes. Há ainda os moderados que defendem um castigo simbólico das mulheres que abortem, contra a própria lei que deixa de ser lei!.
Todos no "não" pugnam pela vida, a vida acima de tudo! Só estranho, e muito, que a coerência desses princípios não inclua as pilulas contraceptivas e não proponham -por mera razão de coerência- a sua proibição imediata e a aplicação de castigos a quem prevaricar, -como é?
Conclusão: De vez em quando o país vira uma enorme tenda de circo e o espectáculo é sempre o mesmo: disfuncional, demencial e histérico quanto baste, para manter as bancadas em gargalhada e na ilusão de estar a gozar de felicidade.

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

palavras de faulkner

Some things you must always be unable to bear. Some things you must never stop refusing to bear. Injustice and outrage and dishonor and shame. No matter how young you are or how old you have got. Not for kudos and not for cash, your picture in the paper nor money in the bank, neither. Just refuse to bear them
William Faulkner

terça-feira, janeiro 09, 2007

ícones

Andrei Rubliov (1966), de Andrei Tarkovski
(André Rubliev)
Porque
o vento cobre de imagens os tellhados.
O tempo das colheitas
já passou, vem a morte, André Roubliev,
mordendo os cataventos, espera-nos
um cavalo
tão fertil como a chuva sobre os ícones.

Gil Nozes de Carvalho,
in O Bosque Sagrado, Gota de Água (1986)

"paredes frias": voz off dum filme perdido

Stalker, de Andrei Tarkovski
Às vezes, dou por mim a imaginar-me viver perto da infância, tendo por companheiros os meus amigos mais chegados. Às vezes a companhia é a solidão, outras a fala das imagens que eu quando jovem e adolescente juntava depois de sair do cinema num fim de tarde de verão.
Às vezes, só ás vezes, vejo-me de olhos fechados, corpo adolescente, a imaginar a eternidade do momento, de todos os momentos e de todas as recordações, passadas num tempo que parecia límpido, tão inesperadamente límpido que nunca será inalienável. Nunca.
Outras vezes, sonho que todas as paixões mesmo as paixões mais absurdas vem de novo ter comigo e eu guardo-as apesar de tudo, apesar sobretudo da vida ser-nos reduzida.
Às vezes, às vezes, um gesto e olhar doce como no antigamente servem para varrer os axiomas da vida, descolar do desânimo e desviar do desespero. Nunca hão-de compreender aqueles, nem ou outros, que nunca ousaram o atrevimento de ser inteiros e únicos. Como diria o Fernando Pessoa.
Às vezes imagino que nunca vou me cansar de voltar a sentir tudo como se fora a primeira vez.

segunda-feira, janeiro 08, 2007

iniciação

Foi com Noronha da Costa que aprendi o sentido da pintura.
Devo, em parte, essa descoberta ao Zé Miguel Figueiredo -amigo da adolescência com quem partilhei a paixão pelo cinema e a fotografia- que, em 1972, no dia de anos do pai (que saudades, Vitor Figueiredo!) me convidou a ir lá a casa. Logo à entrada, dei por mim siderado frente ao branco imaculado das paredes da sala a deslumbrar-me com "um" N.da Costa colocado acima do maple... . Um deslumbramento que me ficou na retina. Para todo o sempre.

sábado, janeiro 06, 2007

náusea

A condenação à morte de Saddam Hussein, a farsa judicial que o antecedeu e a divulgação de imagens da execução "em directo" por enforcamento, apenas servem para sublimar a grandiosidade do desastre da aventura imperialista no Iraque e permitir aos escribas de serviço arrotarem uma catadupa de idiotices e lugares comuns que tresandam a hipocrisia da mais rasteira.
Se Saddam mereceu a pena capital pelo massacre de 148 xiitas, ocorrida nos anos 80, então o que merecem Bush, Chenney e Rumsfeld pelas vidas de centenas de iraquianos massacrados desde o inicio da agressão militar?.Isto para já não falar do campo dos horrores que (comprovadamente) foi (é?) Abu Ghraib ou na paradisíaca estância de Guantánamo, que faria as delícias das SS e do seu líder, Adolf Hitler.
Há dias, o Manuel António Pina (uma das raras excepções a opinar fora da rota da pantominice instalada...) escrevia no JN esta coisa simples mas lapidar : "são sempre criminosos que julgam outros criminosos". Nem mais!

quinta-feira, janeiro 04, 2007

vulnerabilidades do sistema

Finalmente, on line! Privado (desde o penúltimo dia do ano passado) de sinal do servidor fui-me -mesmo que não por decisão própria- habituando à condição momentânea de "incomunicável". Uma excepção, não a regra -evidentemente.

quinta-feira, dezembro 28, 2006

memória do tempo

Na noite de consoada a saudade veio de mansinho instalar-se no meu pensamento. E encontrei-me só, perdido em noites de leitura na minha velha cama de menino. Eram as aventuras do major alvega de princípe valente e do tarzan. A escutar o último autocarro a subir em esforço a avenida. Irado vou para a janela e fumo mais um cigarro. Engulo o fumo e depois faço-o sair em circunsferências nem sempre perfeitas. Olho a paisagem de carroos dormentes na praceta mal iluminada. Mesmo que não o deseje tenho de enfrentar a saudade. Que poderei eu fazer senão guardar-te na retina. Encontrar-nos-emos na morte, esse lugar cheio do tudo acabado. Que falta que tu me fazes, Mãe.

quarta-feira, dezembro 27, 2006

quarto dos brinquedos

Aconteceu-me a meio da tarde ser sequestrado pelos jovens sobrinhos no quarto de brincar e ser obrigado a ler a história da Anita e os fantasmas com interrupções pelo meio de um que queria pôr-se às cavalitas e outro que desejava exercitar os seus dotes de kung-fu entre gritos de guerreiros e risos incontidos. Às tantas, os miúdos desligaram a luz , ligaram o leitor de cd's e forçaram-me a acompanhá-los ao ritmo do hip-hop. Foi pena, o sequestro ter durado pouco tempo. Sequestro como este deixam a memória com um manancial de lembranças.

domingo, dezembro 24, 2006

imagine...



(by John Lennon)
Imagine there's no heaven
It's easy if you try
Nowhere below us
Above only sky
Imagine all the people
Living for today...
Imagine there's no countries
It isn't hard to do
Nothing to kill or die for
And no religion too
Imagine all the people
Living life in peace...
You may say I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope someday you'll join us
And the world will be as one
Imagine no possessions
I wonder if you can
No need for greed or hunger
A brotherhood of man
Imagine all the people
Sharing all the world...
You may say I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope someday you'll join us
And the world will be as one