segunda-feira, novembro 13, 2006

palavras de josé afonso


Utopia
Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
gente igual por fora
Onde a folha da palma
afaga a cantaria
Cidade do homem
Não do lobo mas irmão
Capital da alegria
Braço que dormes
nos braços do rio
Toma o fruto da terra
E teu a ti o deves
lança o teu
desafio
Homem que olhas nos olhos
que não negas
o sorriso a palavra forte e justa
Homem para quem
o nada disto custa
Será que existe
lá para os lados do oriente
Este rio este rumo esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
na minha rota?
in Como Se Fora seu Filho, edição Orfeu, 1983, LP- 33 r.p.m.

sábado, novembro 11, 2006

lembrar visconti (2)

Morte A Venezia (1970)
Numa iniciativa do ABC Cineclube de Lisboa decorre até dia 30 deste mês no Auditório João Hogan (Voz do Operário, 5ªfeiras e sábados, pelas 17h00), um ciclo de homenagem a Luchino Visconti, no ano em que se celebra o centenário do seu nascimento.
Trata-se, antes de mais de um louvável propósito (o único neste "deserto" cultural em que até a Cinemateca Portuguesa faltou "à chamada"...) de desocultação de uma parte significativa (dez longas-metragens) da obra do grande mestre italiano, com destaque para os filmes (de grande densidade e poder de análise sociológica) de início de carreira -Obsessione, La Terra Treme, Belíssima e Senso- que representam a grande afirmação do que viria a ser (a partir de Il Gattopardo...) a generalidade da restante obra de Visconti.
Obra marcada -nunca é demais lembrá-lo- por uma capacidade invulgar de abordagem psicológica e sociológica da classe burguesa dominante num mundo atravessado por transições e mutações profundas. Quer na abordagem estética quer no domínio fílmico, Visconti evidenciou sempre enormes capacidades também na composição de universos ideológicos e na criação rigorosa de ambiências das épocas retratadas: neo-romantismo em Ludwig, impressionismo em Morte A Venezia e expressionismo alemão em La Caduta degli Dei / The Damned.

sexta-feira, novembro 10, 2006

casualties of war

Como está à vista, a máquina de propaganda dos neo-conservadores norte-americanos foi impotente para evitar a devastação eleitoral de que foi alvo nesta semana: os democratas (e independentes) conquistaram a maioria no Congresso e no Senado (alcançando a vitória á ultima hora no Estado de Virginia, reduto forte do partido do "elefante"), alterando assim a correlação de forças que permitiu durante décadas manter os republicanos no comando do poder "legislativo".
A primeira causa-efeito foi o afastamento (previsivel desde o verão, aliás) do controverso e conflituoso secretário da defesa, Donald Rumsfeld , um dos mais líricos arquitectos da conquista do Iraque em clima hollywoodesco de festa e foguetes... mas que a realidade transformou depressa demais num enorme fiasco gerador de violência e caos extremos. O que teve por consequência a falência completa do fantasioso plano de reconstrução do Iraque, a desorientação no seio do exército dos Estados Unidos (que forçou generais à "rebelião"verbalista contra o Pentágono), a crescente oposição interna contra a guerra e a perigosa situação de desmembramento da nação iraquiana com os efeitos devastadores que se imagina para a região do Médio Oriente.
Se estas são algumas das causas que tornaram decisiva a vitória democrata não são, no entanto, de molde a criar ilusões sobre aquilo que vai mudar, de facto.
Para já, Bush -que já aprendeu a ver a guerra por outra perspectiva...- fica com o poder relativamente limitado às vontades da oposição e, enquanto aguarda pelo novo dossiê da redefinição estratégica da guerra no Iraque bem pode (re) negociar com o partido democrata alguma da "legislação" totalitária e digna de um estado fascista que impôs à América sob o disfarce do combate ao terrorismo.
Veremos, também , como se comportam os velhos novos herdeiros de Lincoln, designadamente em relação ao culto do Mal instalado em Guantánamo, ao obscuro Patriot Act e outros exemplos da perversão dos "neo-cons" que tanto envergonharam o mundo nestes últimos anos.

quarta-feira, novembro 08, 2006

"a sexta melhor pintora"

Arpad e Vieira, em Paris nos anos 60.
Ao remexer ontem em escritos de minha mãe redescubro um interessante folheto sobre a pintora Vieira da Silva, (que quase caiu no esquecimento, como é prática entre nós...) que foi, como se sabe, uma grande personalidade da cultura portuguesa de reconhecido e enorme valor artístico. Em 1966, a revista francesa Connaissance anunciou o nome de Vieira da Silva como uma das seis melhores pintoras, segundo opinião de proprietários das galerias de arte mais importantes em todo o mundo.
Esse folheto, em formato A5, que me veio parar ás mãos anuncia modestamente a realização de uma sessão de homenagem (creio que a única no imediato ...) após a sua morte e promovida pela livraria Barata, com a minha colaboração.

Lembro-me de a sala da galeria estar repleta de gente num sábado à tarde e da emoção disparar às primeiras imagens de Ma Femme Chamada Bicho, o singular documentário do meu amigo José Álvaro de Morais, também já desaparecido. Lembro-e das palavras do David Mourão Ferreira nos fazerem compreender o estatuto ímpar do trabalho da Maria Helena Vieira da Silva.

segunda-feira, novembro 06, 2006

hipocrisia(s)

A esperada condenação á morte de Saddam Hussein decretada por um tribunal criado e gerido pelos ocupantes norte-americanos traz à memória um, dois, três factos que convém não esquecer: a)- Saddam Hussein foi, desde que tomou o poder num golpe de estado em 1967, um homem que tombou nas graças dos americanos e, só caiu em desgraça porque se recusou a aceitar "partilhar" com os Estados Unidos as enormes riquezas naturais ao contrário do coronel Kadhafi que já não carrega nos ombros o anátema de "terrorista"(!) e até se tornou "bonzinho" e "civilizado"!; b)- Saddam Hussein e o Iraque foram nos anos 80, para o chamado "mundo civilizado", uma espécie de "contrafogo" às ameaças do Irão. Por essa razão (e outras) os Estados Unidos prestaram a Saddam uma ajuda militar sem precedentes, muito expressiva, também para ajudar o Partido Baas Iraquiano a suster a ira xiita; c)- O controverso secretário de estado, Donald Rumsfeld fez, nos anos de 80, uma (que se saiba e registada para a posteriedade:::)incursão pacífica a Bagdade na qualidade de membro da administração Reagan, para mostrar a sua simpatia e apoio ao governo de Saddam Hussein, como se pode observar mum curto video disponível online, desde a desastrosa operação "freedom iraq", que fere de vergonha a consciência dos democratas.
Eram de origem norte-americana e ocidental as armas e munições usadas por Saddam para eliminar os focos de resistência interna; eram de origem norte-americana e ocidental os diversos tipos(!) de gases utilizados no extermínio de populações do curdistão iraquiano como o foram na frente de batalha contra o Irão. Eram norte-americanos e ocidentais os "instrutores" que apoiaram as tropas de Saddam, na contenda contra a Republica Islamica do Irão.
Pergunta inocente: não deveriam estar também sentados no banco do réus do Tribunal especial criado pela admnistração Bush todos esses "amigos" de circunstância que tão bem exerceram a sua missão de armar o exército de Saddam? Não mereceriam esses "sponsors" (autores morais!?) eles também a acusação de "crimes contra a humanidade"e a pena de condenação à morte?
Registo, com um sorriso, o facto recente dos britânicos -numa sondagem no The Guardian da passada semana- terem colocado o nome de Bush logo a seguir ao de Bin Laden como os "mais perigosos" à Paz!. Sintomático este "fair play" british!

domingo, novembro 05, 2006

estratégias do desejo

Quarenta anos depois, Belle de Jour mantém intacta a capacidade de proclamar a plenos pulmões que a paixão deve ser objecto de experimentação até às últimas consequências, - i.e. transgressão e perversidade. Buñuel, que foi sobretudo um irónico surrealista, fez dos espectadores simples voyeurs, dando-lhes a ver o que "dispensavam" e a esconder-lhes o muito que ansiosamente desejavam ver. Catherine Deneuve , numa surpreendente metamorfose chamada Séverine, fez da moral burguesa uma amálgama de ambiguidades. Delirante exercício "poético"sobre o desejo e o seu objecto de sedução.

sexta-feira, novembro 03, 2006

lembrar visconti(1)

Cumpriram-se ontem cem anos sob o nascimento de Luchino Visconti, uma das personalidades mais fascinantes da cultura europeia do século passado. De ascendência aristocrática, Visconti deixou-nos um legado artístico que supera em muito o poder criativo de um homem vulgar, que nunca foi, de facto. Da ópera ao teatro, da literatura ao cinema, Luchino Visconti ousou marcar o seu tempo com um vigor e inteligência impares, mantendo sempre a sua independência de pensamento e enorme dignidade intelectual. De Ossessione, passando por Rocco e i Suoi Fratelli Senso até Morte A Venezia, Gruppo i Famiglia in un interno e L'Innocente (seu derradeiro filme que rodou numa cadeira de rodas), Visconti distinguiu-se sempre pelo que havia de mais excelente na sua natureza:um perfeccionismo obsessivo e um virtuosismo desarmante ,elegante, intenso, capaz de nos reconciliar com a vida e estimular-nos a gostar de arte.

quinta-feira, novembro 02, 2006

dores e crescimento

Um dos prazeres maiores de quando tinha 12 ou 13 anos, era estar nas noites de férias em casa do Duarte a ouvir música. Ouviamos discos, de toda a espécie de obras (Zeca Afonso, Chansons Revolucionaires, Brassens, Piaf, sonatas de Beethoven, Joan Baez, etc.), e à vezes, quando a melancolia (provocada pelos amores ausentes!) tomava conta de nós, ouviamos pela milésima vez Leonard Cohen, em especial "Suzanne".
Suzanne takes you down to her place near the river / You can hear the boats go by /You can spend the night beside her / And you know that she's half crazy / But that's why you want to be there / And she feeds you tea and oranges / That come all the way from China / And just when you mean to tell her / That you have no love to give her / Then she gets you on her wavelength / And she lets the river answer / That you've always been her lover / And you want to travel with her/ And you want to travel blind / And you know that she will trust you / For you've touched her perfect body with your mind... .

Lembro-me de às vezes fechar os olhos e chorar. Por causa das palavras. Por causa da música.

quarta-feira, novembro 01, 2006

uma lição de cinema

Numa noite destas dei por mim a (re)deliciar-me (no canal Hollywood) com uma das mais memoráveis obras-primas de Joseph L.Mankiewicz, The Barefoot Contessa, com a belíssima Ava Gardner e Humphrey Bogart. Nunca será demais lembrar que a maior virtude do filme reside no ousado empreendimento de Mankiewicz que á epoca abalou as "convicções" do establishment: a demolição impiedosa de mitos (em especial, o "star system") e a subversão do conceito holywoodesco de melodrama. A conclusão moral de The Bareffot Contessa é que pode ser fatal a uma carreira de sucesso acreditar em contos de fadas (nem tão pouco nos irmãos Grimm!) sobretudo quando os príncipes encantados se podem transformar em assassinos. Excelente exercício de lucidez e enorme apogeu narrativo.

terça-feira, outubro 31, 2006

o fim da aventura

foto-cá-de-casa
(Cena 11- plano 6-vez 04- exterior/dia)
Voz Off:
Olhar o rio e recordar as palavras que tantas vezes fomos incapazes de dizer um ao outro. Palavras que já não importam ouvir porque as deixámos para trás no tempo de exaustão, já sem uma esperança de sonho e eternidade. Agora tenho o teu rosto só o teu rosto , muito belo e carregado de ternura, a converter a alegria em tristeza (e aflição).

Sigo-te, câmara na mão num travelling tremido que me pareceu interminável, rua abaixo, com braço a doer a deixar-me conduzir pelo teu andar apressado e firme.

Talvez a esta lembrança se tenha seguido outra -aquela do plano de conjunto junto ao miradouro- a seguir ao instante em que beijaste os meus cabelos e ficámos a olhar para as sombras dos nossos corpos projectadas no alfalto negro da rua estreita.
Meros rumores, rumores apenas e não prodígios como poderias estar a pensar.

Lisboa, Entrecampos, Setembro 1983

segunda-feira, outubro 30, 2006

palavras de ramiro correia

um dia dei por mim a chorar
e o meu avô que é marinheiro
e morreu agarrando o sol com as duas mãos
atravessou o riacho
e com o seu sorriso de buzio e maio
atirou-me um cacho de uvas
foi assim
Ramiro Correia, Comandante,
membro da Coordenadora do M.F.A.
in, Na Clivagem do Tempo, edição de autor - junho 1973

imagens do real

Na passada semana revisita a Industrial Britain, o clássico documentário de Robert Flaherty e John Grierson, por ocasião do docLisboa 2006. Pena é que a programação (excelente como sempre) não tenha incluído dessa dupla outros admiráveis momentos máximos, como Man of Aran(Flaherty) e Driffters(Grierson) que raramente acedem ao ecrãs dos festivais. Fica para a próxima, não!?.

domingo, outubro 29, 2006

palavras de giuseppe ungaretti

Silêncio
Conheço uma cidade
que cada dia se enche de sol
e tudo desaparece num momento
Cheguei lá quse à noite
No coração durava o ruído
das cigarras
Do navio
envernizado de branco
eu vi
a minha cidade perder-se
deixando
um pouco
um abarço de lumes no ar indeciso
suspensos
Giusepe Ungaretti
in Sentimento do Tempo
(Publicações D.Quixote / Cadernos de Poesia, fev.1971)

sábado, outubro 28, 2006

notas soltas

La Voie Lactée (1969), Luis Buñuel
1.Nos últimos tempos tenho andado com vontade de ler Flaubert (contra quem sempre tive uma certa animosidade que não sei bem explicar porquê), Sartre (Les Séquestrés d'Altona e Les Mots...) e até Garaudy, por razões da experiência, digamos do vivido, e por uma atracção pelo religioso. Tudo autores que já conhecia mas não o suficiente. Esta necessidade tem muito pouco de extraordinário convenhamos, embora me continue a ocupar (menos, reconheço-o) da leitura de poesia mas sem "novidades" maiores porque tenho sentido é a necessidade de me voltar para a releitura daquilo que me é mais familiar : Pessoa, T.S.Elliott, Ungaretti, Carlos de Oliveira, Sophia, Armindo Rodrigues, Rimbaud, Ruy Belo... .
2.As questões da justiça, ou mais prosaicamente, o funcionamento do sistema judiciário português, tem-me ocupado desde há um ano, por razões bem sabidas dos que me são mais próximos, claro.O que me tem agradado nas leituras (de acordãos, de alegações...) não é tanto a retórica (algo pobre na maioria dos casos) mas a preocupação de certos magistrados em fazer crer que as decisões de penas são tomadas em total "independência" das pressões políticas ou outras. É aquilo a que eu chamo o esquema abstrato da independência!
3.La Voie Lactée, de Luís Buñuel, tem sido desde o fim do verão (calendáriamente falando...)
um "recurso" a que tenho recorrido "n" vezes. O que mais admiro em Buñuel não é apenas a capacidade em desmascarar a impostura desse enorme disfarce chamado catolicismo, é fazê-lo a partir das próprias considerações dogmáticas da Igreja. Corrosivo e irónico como sempre.

sexta-feira, outubro 27, 2006

joan crawford: in memorian

No Firmamento apagado
não luciluzem mais estrelas de cinema.
Greta Garbo
passeia ingógnita a solidão de sua solitude.
Marlene Dietrich
quebrou a perna mítica de valquíria.
Joan Crawford,
produtora de refrigerantes, o coração a matou.
O cinema é uma fábula de antigamente
(ontem passou a ser antigamente)
contada por arqueólogos de sonho, em estilo didático,
a jovens ouvintes que pensam em outra coisa.
O nome perdura. Também é outra coisa.
Tudo é outra coisa, depois que envelhecemos.
E não há mais deusas e deuses. Há figurinhas
móveis, falantes, coloridas, projectadas
no interior da casa. Não saem nunca mais,
enqunto se esvazia o céu da grécia
dentro de nós -azul já negro, ou neutra-cor.
Joan, não beberei por ti, à guisa de luto, nenhum líquido fácil e moderno.
Sorvo tua lembrança
a lentos goles.
Carlos Drummond de Andrade
in Discurso da primavera e outras sombras

quarta-feira, outubro 25, 2006

palavras de carlos de oliveira

Vento

As palavras
cintilam
na floresta do sono
e o seu rumor
de corças perseguidas
ágil e esquivo
como o vento
fala de amor
e solidão
quem vos ferir
não fere em vão,
palavras
Carlos de Oliveira, Trabalho Poético

segunda-feira, outubro 23, 2006

"Trás-os-Montes", longe da vista


foto de arquivo
Fez trinta anos em Junho que António Reis e Margarida Cordeiro nos deram a ver -primeiro numa circunstancial ante-estreia na Gulbenkian, depois na salinha do Satélite no ex-Cinema Monumental- a sua primeira longa-metragem: Trás-Os-Montes, um filme poético e ousado sobre a fascinação da terra transmontana no país profundo, que o fascismo dos "brandos costumes" votou ao ostracismo durante décadas a fio.

Após a estreia, Trás-os-Montes teve direito a elogios por parte de alguma (a menos dogmática, claro) da "inteligentzia" lusitana que viu nele uma "achado"fílmico, didáctico e reflexivo, capaz de colocar Portugal nos lugares cimeiros da cultura cinematográfica europeia. Como não podia deixar de ser, o filme não desmereceu a atenção das vozes dissonantes nacionais mais retrógadas, do tipo santa inquisição (telegramas enviados á Secretaria de Estado da Cultura pediam a queima do filme!) e do caciquismo ad eternum.

De alguns dos nomes maiores da História do Cinema, como Joris Ivens, vieram os maiores elogios; os Cahiers..., promoveram-no (como a generalidade da imprensa e crítica europeia) ao primeiro galarim; nos festivais de renome as salas esgotavam e ninguém arredava pé.

Trinta anos depois, se Trás-Os-Montes se distingue de quaisquer outros filmes portugueses, distingue-se sobretudo pela ousadia de fazer um filme de "género inclassificável", da sua temática e da sua proposta narrativa. Trinta anos depois, Trás-Os Montes permanece no limbo e no esquecimento apesar de fugazes exibições na Cinemateca Portuguesa e da atenção (a única homenagem "oficial" a Reis, até á data) de que foi alvo, em 1995, promovida pelo Sector de Cinema do Inatel em sessão realizada no Quarteto e, anos depois, a retrospectiva (integral) promovida pelo Cineclube de Faro.

"Milagre" menor a averbar: o de Trás-os-Montes continuar a ser ignorado ( tal como toda a restante obra de Reis/Cordeiro) pelo mercado vídeo. O que quer dizer que , mais uma vez, se pode dirigir uma valente pateada aos editores de dvd's deste país.

domingo, outubro 22, 2006

revendo cassavetes

Em Shadows estamos perante um daqueles casos extremos em que a banda sonora (marcada pelo jazz) não só é tão importante como a imagem como a sobredetermina. O melhor em Cassavetes sempre foi a sua vocação para histórias intímas às quais nunca (poderia) faltar uma ponta de ambiguidade e melancolia que derivaram sempre da forte dramaticidade que lhe foi tão característica em todos os seus trabalhos, desde Shadows e até Love Streams, seu derradeiro filme que contou também com a prestação (habitual) de sua mulher, a sublime actriz Gena Rowlands.

o fracasso do sonho imperial

Free Press International
As baixas militares norte-americanas no Iraque conheceram este mês novo pico (o número de soldados mortos já vai em 80...) o que vem alarmando ainda mais as hierarquias do Pentágono e reforçou a tese defendida por dezenas de generais de que a estratégia delineada pela Casa Branca -antes mesmo da invasão do país há três anos- foi um "erro" monumental, uma irresponsabilidade assente em falsidades e inventonas de todo o tipo usadas para justificar o injustificável.
O sonhado passeio triunfal das tropas invasoras nas ruas de Bagdade que vinham libertar a nação iraquiana do jugo de Saddam nunca se verificou. Nem tão pouco as lagartas dos blindados que percorreram as artérias de Bagdad não o fizeram em cima de tapetes de flores como idealizaram Rumsfeld e seus sequazes.Mesmo as poucas dezenas de "iraquianos" que assistiram à derrocada da estátua em Bagdad do ditador Saddam Hussein não eram mais do que soldados norte-americanos meio-vestidos a arabes os únicos a dar nas vistas, como ficou demonstrado em dezenas de fotos publicadas em outras tantas páginas online ou em matutinos de referência.
Os milhões de dólares usados (diz-se, na compra de generais da temida guarda republicana, de centenas de informadores e da minoria de exilados afortunados no Ocidente, etc.) funcionaram no início mas não foram suficientes para evitar o caos e a barbárie instalada pelo comportamento das forças ocupantes.
Ao invés da democracia prometida os Estados Unidos elegeram logo no primeiro ano a máxima: em cada iraquiano suspeito um iraquiano a abater. Transformaram Abu Ghraib num santuário de tortura e bestialidade, um entretenimento sádico para soldados e oficiais desumanizados que violentavam jovens estudantes (muitos com menos de 16 anos) e condenavam à morte lenta dezenas de homens obrigados a cumprir todo o tipo de insanidades sob a ameaça de armas.
A democracia prometida jaz há muito também a partir do momento em que as tropas ocupantes passaram a contar com a ajuda "desinteressada" de atiradores de elite (snipers) vindos de Israel, Tchetchenia e da guerra do Kosovo que se tem empenhado no extermínio selectivo e calculado de quadros importantes da nação iraquiana: professores, politicos, cientistas, opositores , etc. com o propósito de destruir o Iraque enqaunto nação e provocar uma guerra civil por forma a fragmentar o país em especies de "cantões" federados. Uma solução "higiénica" que hipoteticamente manteria sob a alçada do invasor-ocupante a maioria dos recursos do Iraque.
Ao invés da democracia prometida por Bush, os iraquianos assistiram impotentes ao saque dos seus bens patrimoniais e históricos (roubados do interior de museus vandalizados) a maior parte "recapturado" em pequenos aeroportos de cidadezinhas do interior da América. Os milhões de dólares disponibilizados para a alegada "reconstrução das infra-estruturas do Iraque" foram sendo na sua maioria desviadas para contas de cidadãos norte-americanos, como o revelam inúmeras fontes insuspeitas dentro dos Estados Unidos.
A recente e arrasadora crítica do general britânico que ousou defender a retirada total e imediata dos soldados de Sua Majestade ( a que se seguiu a do seu homólogo australiano, pouco ou nada difundido nos meios de comunicação portugueses, o que se compreende...), a criticas dos generais do Pentágono, o reconhecimento por parte de Bush de que o Iraque "é um novo Vietnam"e a atribuição a James Baker de uma missão de alta importância que possa (através de contactos com todos os movimentos de guerrrilha iraquianos -mas também que englobe os governos "inimigos" do Irão e da Síria) evitar o descalabro e descontrolo total da situação militar no Iraque, já considerada de "derrota".
Falhados todos os objectivos principais que Rumsfeld previu no seu "caderno de encargos" para o Iraque, resta agora aos Estados Unidos não perder completamente a face. No fundo, no fundo, o que levou os Estados Unidos para este "beco sem saída" foi o controle dos recursos naturais (água, petróleo e gas) como se encontram consubstanciados em numerosos documentos que vieram a lume nos ultimos quatro anos.
A aventura americana no Iraque contabiliza já mais de 655.000 mortos iraquianos: menos (ainda...) do milhão e quase meio de vietnamitas mortos em cerca de 12 anos de guerra. As baixas de cidadãos iraquianos arrisca-se a superar assim o dos vietnamitas. Superados estão já os mais de 200 mil japoneses assassinados em Hiroxima e Nagazaki em Agosto de 1945 quando foram lançadas sobre essas cidades nipónicas sem valor militar duas bombas atómicas que constribuiram poucos anos depois para detonar a corrida aos armamentos .
A aventura iraquiana que também custou a vida a cerca de 2800 (dados oficiais) militares norte-americanos e dezenas de milhares de feridos, a maioria grave, pode perfeitamente vir a despoletar um movimento interno que contribua para afastar Bush da Presidência , promover novas eleições e instalar na Casa Branca um Presidente inteligente para quem o bom senso não seja uma palavra vã.

sexta-feira, outubro 20, 2006

o ovo da serpente

Der Jungle Torless (O Jovem Torless), o inquietante romance de Robert Musil -editado pela Livros do Brasil- que Volker Schlondorff transpôs para o ecrán em 1965 (estranhamente nunca editado em vídeo entre nós) continua a ser considerado um dos filmes mais emblemáticos sobre a natureza do mal e a tentação fascista que de vez em quando assola as sociedades em períodos de decadência. Visto também como prenúncio da ascensão do nazismo.