quarta-feira, setembro 20, 2006

à espera da justiça

"Tudo o que seja corrupção,
falta de isenção, falta de ética,
deve ser punido severamente..."

Juiz Fernando Pinto Monteiro,
- futuro Procurador-Geral da República.

O tema de destaque da edição de hoje do matutino Público foi, como não podia deixar de sê-lo, o sucessor de Souto Moura na Procuradoria-Geral da República -Fernando Pinto Monteiro, juiz de mérito, cuja competência e independência lhe são amplamente reconhecidas.
Tendo sido um dos principais dinamizadores do Movimento Justiça e Democracia, "visto como um sector menos corporativo e mais aberto da magistratura, assumidamente anti-sistema", não podem restar dúvidas de que tem a vontade férrea indispensável para (fazer) cumprir a mudança na Justiça que a sociedade justificadamente anseia, travando a onda de impunidade e imunidade grosseiras que se têm instalado e que vêm minando e pervertendo o sitema democrático português.
Na qualidade de vulgar cidadão da República, trabalhador dependente, com reconhecida competência e actividade cultural valorizada nacional e internacionalmente, cumpridor dos deveres e exigente na defesa das liberdades, direitos e garantias (ousadia que pago caro desde há anos num processo kafkiano...), desejo-lhe sinceramente as maiores felicidades e espero que seja um vencedor antecipado dos duros e muitos combates que o esperam.
Que nos esperam, a todos.

"l'intermitence du coeur"

Que golpe no coração, perante aquele cartaz
já gasto...Aproximo-me, observo aquela cor
de um outro tempo que o rosto quente e oval
da heroína exibe, a palidez heróica do pobre, opaca, manifesta.
De súbito,entro! Sacudido por um clamor interior
decidido a estremecer a cada recordação,
a consumar a glória do meu gesto.
Entro na arena, para o último espectáculo,
sem vida, personagens cinzentas,
parentes, amigos, dispersos pelos bancos,
perdidos na sombra, em círculos distintos
e esbranquiçados, no fresco receptáculo...
Subitamente, os primeiros enquadramentos.
Transtorna-me e arrebata-me..."l'intermitence du coeur"
Encontro-me no escuro caminho da memória, nas misteriosas
câmaras onde o homem é fisicamente outro,
e o passado o banha com o seu pranto.
Contudo, tornado hábil pelo longo exercício,
não perco os fios: eis a Casilina,
sobre quem tristemente se abrem
as portas da cidade de Rosselini...
Eis a épica paisagem neorealista,
com os fios do telégrafo, as calçadas, os pinheiros,
os murozinhos descarnados, a mística
multidão, perdida nos afazeres quotidianos,
as tenebrosas formas de dominação nazi...
Quase emblemático já, o grito de Magnani,
sob as madeixas desordenadamente absolutas,
ressoa pelas desesperadas panorâmicas,
e nos seus olhares vivos e mudos
se adensa o sentido da tragédia.
É ali que dissolve e se mutila
o presente, e atroa o canto dos aedos

Pier Paolo Pasolini
(in O Bosque Sagrado, Gota de Água, 1986)

terça-feira, setembro 19, 2006

por um punhado de terra

O terrorismo de Estado praticado por Israel tem como factor de legitimidade o poder colonial exercido segundo os velhos ensinamentos do apartheid sul-africano e rodesiano. O estado de demência que se instalou nos gabinetes de decisão politico-militar israelense não é de molde a prever um futuro com menos barbárie e mais senso comum e lucidez política.
Israel não pode desejar conservar-se como Estado (de direito e com direitos inquestionáveis) se persistir em recusar aos palestinianos o direito a terem a sua própria pátria.
O número inquietante dos jovens e crianças que pereceram desde Julho nas ruas e nas casas de Gaza e da Cisjordânea -como hoje se refere na edição de The Independent- continuam a ser a pior prova de que Israel perfilha, aparentemente , os velhos expedientes dos terroristas nazis que durante anos exercitaram com comprovada eficácia as suas técnicas de extermínio selectivo da comunidade judaica europeia. Quem não se lembra do gueto de Varsóvia?
É a questão da terra e da sua posse que continua a ditar o destino e a comprometer o futuro de paz no Médio Oriente.O resto é retórica e verbalismo de pacotilha para continuar a enganar tolinhos.

Quando os soldados do IDF assaltam edifícios da Autoridade Palestiniana e destroem os discos rigídos dos computadores e desfazem à coronhada os monitores isso tem um nome e um propósito muito claros.
O direito à existência do Estado de Israel não é, concerteza, garantido através da continuada destruição dos territórios palestinianos com vista a impedir, por todos os meios, a criação, de facto, de um Estado Palestiniano autónomo, -como, de resto, o entenderam Clinton, Arafat e Rabbin.


JD

segunda-feira, setembro 18, 2006

cumplicidade


o cinema é cruel
como um milagre. Nós
sentamo-nos na sala
às escuras, pedindo só
ao espaço branco
e vazio que se mantenha puro
Frank O'Hara
(in O Bosque Sagrado, Gota de Água,1986)

domingo, setembro 17, 2006

saudades da casa

foto-cá-de-casa

sonhei a noite passada com a casa onde reaprendemos ternuras e encantos.

sonhei com o cheiro a café pela manhã vindo da cozinha, ao mesmo tempo que senti o odor doce dos croissants quentes que tu foste comprar à loja habitual, por serem os melhores.

sonhei com o odor a água do mar que ficou para sempre nas cortinas verde-laranja das janelas.

sonhei com os belos momentos passados á noite na varanda à espera de ver surgir um tapete voador, muito cinematográfico(!), que nos levaria à aventura.

sonhei com os passeios nocturnos pelas ruas estreitas quase silenciosas e sonhei, ainda, com as pessoas respeitosas daí que resistem e não se deixam contaminar...

JD

sábado, setembro 16, 2006

trabalho de casa(4)

Psycho, de Alfred Hitchcock - 1960
Ontem à noite, revisitação -pela enésima vez- de Psycho. O discurso hitchcockiano sobre as oscilações dos sentimentos de culpa é de uma actualidade extrema. Ao rever a (notável) sequência de assassinato no chuveiro -que permanece fascinante a meus olhos- dei por mim a pensar na capacidade de imaginação (e inspiração) e no inigualável rigor estilístico do cineasta, que permanecem poderosas quarenta e cinco anos depois. Se isto não é arte, meus amigos, então... .
Gosto de remexer as gavetas da minha secretária mesmo (ou sobretudo) à revelia de uma qualquer razão ou necessidade, como foi o caso de ontem à noite. Dei por mim a fazer o reconhecimento de velhos programas de cinema (do Condes, do Tivoli, do S.Jorge!), a reabrir cartas e postais dos amigos, a redescobrir fotografias de antes da revolução com mais de trinta anos ainda não amarelecidas , a rever-me, corpo e olhar juvenil, em foto de uma manifestação em 1974, de bolex paillard na mão, ao lado do Roy(Rosado) e do Pedro Macedo, ou do sorriso feliz da Isabel Paiva estampado numa "9x12" que o Duarte Medina registou na varanda da casa num longínquo dia de outono. Penso: fotos com os amigos guardadas na gaveta de cima -sempre à mão, sempre todos presentes, na memória e ao alcance da mão.Olho para uma foto de grupo (Ricardo, Rui, Tó,Isabel, Gina, Duarte,Sónia(!) e eu com um sorriso trocista nos lábios) tirada na praia da adraga e o que sinto é uma incontida exacerbação da felicidade desses anos.
Impossível não virem à memória, um a um, os dias brilhantes e limpos que passámos juntos.
JD


sexta-feira, setembro 15, 2006

saudades do eduardo

Algumas palavras são mais que o som.
Soltam-se delas lâmpadas, por vezes gritos.
Palavras que demoram na boca com o sabor da manhã
de Outubro, o claro gosto da terra húmida,
castanha até doer...

Eduardo Guerra Carneiro
( in Zero, O Perfil da Estatua, 1961)

quinta-feira, setembro 14, 2006

abuso de poder

Augusto M. Seabra, na edição de hoje do Público, a propósito dos cinco anos decorridos do 11/09/01:
O Iraque, Abu Ghraib, Guantánamo não são "erros". Foram e são as consequências de um abuso de poder e de um desrespeito pelas regras básicas da democracia. O carácter imperioso da luta contra centros dirigentes do terrorismo foi desviado para uma grosseira mistificação, de que os resultados estão à vista: guerra civil, novos núcleos terroristas, ameaça de partilha e -cruel ironia- alastramento da zona de influência iraniana.

Retenho a constatação, "consequência de um abuso de poder" por uma razão simples: os actos do agressor acabam sempre por redundar numa derrota humilhante. Não há impunidade (nem imunidade) que dure. Eterno só a própria eternidade.

quarta-feira, setembro 13, 2006

"paraíso" infernal


Um dos muitos méritos desta obra de Michel Chossudovsky reside em recusar-se a alinhar nas teses,cínicas e hipócritas, que veêm nas actuais políticas económico-financeiras a única via para a resolução da crise do capitalismo. Contundente e, por vezes, bastante demolidor, Chossudovsky vai desmontando peça a peça o puzzle da chamada nova ordem mundial, mostrando-nos as consequências devastadoras (sobretudo para o chamado Estado Social) do que está acontecendo já de grave e muito grave e do que o futuro breve (pobreza) nos reserva.
Um livro obrigatório a ter sempre à mão.

terça-feira, setembro 12, 2006

ouvindo carly simon

Carly Simon: You belong to me
Um whisky
com duas pedras
de gelo
servem, sempre,
para criar o impossivel
Lisboa, Entrecampos, 9 Dezembro 1978

pensando em breton

André Breton em 1950
O general girou 180 graus e caiu, redondo,
sem um ruído ou um zumbido qualquer:
afinal, a consciência não lhe pesava
Lisboa, Entrecampos, Junho 1980

segunda-feira, setembro 11, 2006

cinco anos depois - in memoriam

tributo às cerca de 3.000 vitimas dos atentados ás twin towers; tributo às centenas de bombeiros, policias e voluntários nova-iorquinos vitimados pelo síndrome de WTC (à espera da morte); tributo aos milhares de civis afegãos que pereceram nos bombardeamentos norte-americanos antes e depopis da tomada de Cabul ; tributo aos mais de 250.000 iraquianos mortos desde a invasão do país e aos milhares de feridos e vitimas de tortura e sodomia (jovens particularmente) nas prisões da "nova ordem", em especial em Abu-Ghraib; tributo às centenas de palestinianos assassinados em acções "preventivas" do exército de Israel; tributo às centenas de vitimas dos atentados bombistas de Madrid e Londres; tributo aos civis israelitas vitimas de actos suicídas; tributo aos cerca de 2.000 civis libaneses chacinados pelos raids da aviação e artilharia hebraica; tributo às dezenas de jornalistas mortos em zonas de guerra; tributo às dezenas de civis massacrados em atentados na Ásia; tributo às familias iraquianas abatidas à queima roupa dentro das suas casas por soldados norte-americanos; tributo aos prisioneiros suspeitos de Guantanamo; tributo aos desertores dos exércitos ocupantes... .
Honra a todos aqueles que diáriamente em todo o mundo protestam contra a demência e a barbárie da guerra e se opõem firmemente ao (re)nascimento do totalitarismo.

palavras de salvador allende

En estos momentos pasan los aviones. Es posible que nos acribillen. Pero que sepan que aquí estamos, por lo menos con nuestro ejemplo, que en este país hay hombres que saben cumplir con la obligación que tienen. Yo lo haré por mandato del pueblo y por mandato conciente de un Presidente que tiene la dignidad del cargo entregado por su pueblo en elecciones libres y democráticas.

En nombre de los más sagrados intereses del pueblo, en nombre de la Patria, los llamo a ustedes para decirles que tengan fe. La historia no se detiene ni con la represión ni con el crimen. Esta es una etapa que será superada. Este es un momento duro y difícil: es posible que nos aplasten. Pero el mañana será del pueblo, será de los trabajadores. La humanidad avanza para la conquista de una vida mejor.

Pagaré con mi vida la defensa de los principios que son caros a esta Patria. Caerá un baldón sobre aquellos que han vulnerado sus compromisos, faltando a su palabra... roto la doctrina de las Fuerzas Armadas.
El pueblo debe estar alerta y vigilante. No debe dejarse provocar, ni debe dejarse masacrar, pero también debe defender sus conquistas. Debe defender el derecho a construir con su esfuerzo una vida digna y mejor.

Seguramente, ésta será la última oportunidad en que pueda dirigirme a ustedes. La Fuerza Aérea ha bombardeado las antenas de Radio Magallanes. Mis palabras no tienen amargura sino decepción Que sean ellas un castigo moral para quienes han traicionado su juramento: soldados de Chile, comandantes en jefe titulares, el almirante Merino, que se ha autodesignado comandante de la Armada, más el señor Mendoza, general rastrero que sólo ayer manifestara su fidelidad y lealtad al Gobierno, y que también se ha autodenominado Director General de carabineros. Ante estos hechos sólo me cabe decir a los trabajadores: ¡No voy a renunciar!
Colocado en un tránsito histórico, pagaré con mi vida la lealtad al pueblo. Y les digo que tengo la certeza de que la semilla que hemos entregado a la conciencia digna de miles y miles de chilenos, no podrá ser segada definitivamente. Tienen la fuerza, podrán avasallarnos, pero no se detienen los procesos sociales ni con el crimen ni con la fuerza. La historia es nuestra y la hacen los pueblos.

Trabajadores de mi Patria: quiero agradecerles la lealtad que siempre tuvieron, la confianza que depositaron en un hombre que sólo fue intérprete de grandes anhelos de justicia, que empeño su palabra en que respetaría la Constitución y la ley, y así lo hizo. En este momento definitivo, el último en que yo pueda dirigirme a ustedes, quiero que aprovechen la lección: el capital foráneo, el imperialismo, unidos a la reaccióncrearon el clima para que las Fuerzas Armadas rompieran su tradición, la que les enseñara el general Schneider y reafirmara el comandante Araya, victimas del mismo sector social que hoy estará esperando con mano ajena, reconquistar el poder para seguir defendiendo sus granjerías y sus privilegios.

Me dirijo a ustedes, sobre todo a la modesta mujer de nuestra tierra, a la campesina que creyó en nosotros, a la madre que supo de nuestra preocupación por los niños. Me dirijo a los profesionales de la Patria, a los profesionales patriotas que siguieron trabajando contra la sedición auspiciada por los colegios profesionales, colegios clasistas que defendieron también las ventajas de una sociedad capitalista.

Me dirijo a la juventud, a aquellos que cantaron y entregaron su alegría y su espíritu de lucha. Me dirijo al hombre de Chile, al obrero, al campesino, al intelectual, a aquellos que serán perseguidos, porque en nuestro país el fascismo ya estuvo hace muchas horas presente; en los atentados terroristas, volando los puentes, cortando las vías férreas, destruyendo lo oleoductos y los gaseoductos, frente al silencio de quienes tenían la obligación de proceder.
Estaban comprometidos. La historia los juzgará.

Seguramente Radio Magallanes será acallada y el metal tranquilo de mi voz ya no llegará a ustedes. No importa. La seguirán oyendo. Siempre estaré junto a ustedes. Por lo menos mi recuerdo será el de un hombre digno que fue leal con la Patria.
El pueblo debe defenderse, pero no sacrificarse. El pueblo no debe dejarse arrasar ni acribillar, pero tampoco puede humillarse.

Trabajadores de mi Patria, tengo fe en Chile y su destino. Superarán otros hombres este momento gris y amargo en el que la traición pretende imponerse. Sigan ustedes sabiendo que, mucho más temprano que tarde, de nuevo se abrirán las grandes alamedas por donde pase el hombre libre, para construir una sociedad mejor.

¡Viva Chile! ¡Viva el pueblo! ¡Vivan los trabajadores!

Estas son mis últimas palabras y tengo la certeza de que mi sacrificio no será en vano, tengo la certeza de que, por lo menos, será una lección moral que castigará la felonía, la cobardía y la traición.

(Mensaje del Presidente de Chile Salvador Allende a los ciudadanos transmitido por Radio Magallanes a las 9,03 de la mañana, 11 de septiembre de 1973)

domingo, setembro 10, 2006

dores de crescimento (5)

Lembras-te?
do ruído do primeiro autocarro da manhã
do longo beijo nos cabelos,
do último cigarro fumado a dois,
da faixa riscada em satisfaction,
da viagem fácil frente à janela,
dos teus braços à volta do meu pescoço,
do teu ar ausente frente à vidraça da janela

Lembras-te,
de estarmos juntos frente ao espelho?

o que foi talvez uma forma de lhe tomar o pulso, ao nosso amor,
antes dele morrer,
definitivamente

Lisboa, 7 Setembro 1979

quinta-feira, setembro 07, 2006

palavras de ruy belo


Habito na morada do castigo, madura como a areia ou o verão no mar. Eu caminhei nos passos solitários. O sol neste lugar é uma ofensa. Nós nunca cultivámos a amizade num mar mesmo maléfico e maravilhoso. No triunfo da verdura, como um grito nas vozes, às vezes tristes, alegres às vezes, meu destino de morte é esquecimento eterno. Essas flores ardentes do verão ocultas, ou nas gretas ou esconderijos, palavras inventadas e selvagens, para mim, irmão, não só do sol como da lua, são para mim, já hoje, um ser de lenda, ó minha mãe, fantástica pessoa. À casa sempre o viajante há-de voltar, muito apesar da proibição eterna dos amigos da laranjeira plantada pela lua, olhar límpido aceso da alegria colar, solar que cerca a minha aldeia, pois os mortos não têm já família. Fantásticas crianças estivais, eu salvaguardo a solidão do nome, o sacrifício, perversão humana, o coração cristão da crua idade, a respiração loquaz dos vegetais, o vento do outono sobre o mar, o severo momento do crepúsculo, poder inacessível a palavras, ao dia pleno, a perfeição da vida, esse reduto último do mar. Os juízos da morte são inexoráveis nos começos da alta primavera, com a flecha dos dias desferida e a impunidade ausente, à lua. Fantásticos silêncios de verão, grande estuário para um rio em calma, aves marinhas longe em seu descanso, rosa que imita a primitiva rosa, ou pérola que segue a primitiva pérola, a excessiva operação do verão, tudo é demasiado para mim.Frescura das manhãs junto dos cais, ó simples criaturas migratórias, ó pequenas estrelas de dezembro. Silêncio tudo e todos: fala-se de mim.
Ruy Belo

segunda-feira, setembro 04, 2006

o correr do tempo

1.Se fosse vivo, o poeta e neo-realista, Raul de Carvalho completaria hoje 86 anos. Passou os seus últimos anos de vida mergulhado na doença (que lhe havia de cortar a vida) , na solidão, magoado pelos (des)afectos e quase esquecido, votado ao quase ostracismo. Conheci-o numa tarde de sábado de verão num café prós lados do Saldanha onde morava. Como agradecimento da atenção que eu lhe dispensara nos breves minutos de conversa (também pela empatia que visivelmente lhe encuti) enquanto tomava um café ofereceu-me um poema escrito numa folha a5 dobrada ao meio. Nunca mais nos vimos. Cerca de um ano depois li no DL a noticia da sua morte.
Belíssimo e tocante é o seu poema,"Serenidade És Minha", dedicado à memória de Fernando Pessoa, de que se reproduz no parágrafo seguinte um breve extracto.
Vem serenidade, /e lembra-te de nós, /que te esperamos há séculos sempre no mesmo sítio, / um sítio aonde a morte tem todos os direitos. / Lembra-te da miséria dourada dos meus versos, / desta roupa de imagens que me cobre corpo silencioso, / das noites que passei perseguindo uma estrela, / do hálito, da fome, da doença, do crime, / com que dou vida e morte a mim próprio e aos outros.
Vem serenidade, / e acaba com o vício de plantar roseiras no duro chão dos dias,/ vício de beber água com o copo do vinho milagroso do sangue. /
/Vem, serenidade, / não apagues ainda a lâmpada que forra os cantos do meu quarto, / papel com que embrulho meus rios de aventura em que vai navegando o futuro. ..

2.No dia 4 de Setembro de 1976, -faz trinta anos- que o futuro 43º Presidente dos EUA, George W.(alker) Bush foi detido e multado por conduzir "sob influência do álcool", segundo se refere na Wikipédia.
JD

domingo, setembro 03, 2006

Minnelli amputado ou, a ditadura do fullscreen

Não se discute o propósito -que teve,aliás, todo o mérito- da exibição, sábado passado, no canal dois da RTP de um dos grandes filmes de Vincent Minnelli, Some Came Running / Deus Sabe Quanto Amei. O que se discute é o facto, em si ofensivo, de ter sido apresentada uma cópia que não respeitou (exceptuando na abertura e no final) o formato original, em Scope.
Dir-se-á que a cópia vídeo era a disponível, por conveniências de contratação ou por uma outra razão qualquer, mesmo a mais absurda (os hábitos e os gostos do público) que por vezes ocorre a um funcionário mais expedito, pouco importa. Mas não: nada pode justificar mais este atentado a uma obra de arte cinematográfica com a importância de Some Came Running em que o emprego do CinemaScope não pode ser dissociável do resto. E o resto é também a coreografia das movimentações e o tratamento dos espaços.
Para além da sua estilística, que não é de todo irrelevante, o filme de Minnelli ressente-se óbviamente do acto de afunilamento que é o da "reconstrução" dos planos, mercê da técnica do "pan scan", e do que daí resulta em termos de amputação grosseira -com a eliminação de 20 a 44% de imagem integral- da versão original de cinema.
Em vez de prestar um bom serviço, a RTP caiu na tentação de impor a ditadura do fullscreen e esteve-se marimbando para os efeitos predadores que a exibição dessa cópia necessariamente acarretou. Não se vislumbra assim onde é que residiu o respeito pelos públicos culturalmente mais exigentes que sintonizam a "dois" com mais esta (não será certamente a única) prova de ausência de bom senso. Interrogo-me do porquê de não se ter recorrido à cópia (de cinema) existente na Atalanta Filmes que há uns anos atrás foi exibida numa sala da capital com inegável sucesso de público e elogios rasgados da crítica.
JD

quinta-feira, agosto 31, 2006

o "toque" de Almodóvar

Volver, o novo filme de Pedro Almodóvar, tem estreia nacional marcada para 7 de Setembro. Ir apreciá-lo é, antes de mais, um acto de militância dos "adoradores" do cinema (de risco no excesso) de um cineasta singular que insiste nos seus filmes levar ao extremo os mais descarnados panoramas existenciais em quotidianos desolados. Subversivo e irónico.

o correr do tempo

Hoje, cumprem-se setenta anos sobre o nascimento de Otelo Saraiva de Carvalho, estratega da sublevação militar vitoriosa do 25 de Abril de 1974 que instaurou o regime democrático, restituiu as liberdades cívicas e pôs termo à guerra colonial. Apesar dos muitos incidentes de percurso (p.e., a retórica à volta do "Campo Pequeno", o espírito aventureirista consubstanciado também na ligação ao grupo "brigadista", FP-25), a personalidade de Otelo é , quer se queira quer não, indissociável do referencial histórico e político do Portugal dos últimos trinta e dois anos. É um dos rostos da Revolução.
Faz hoje trinta e três anos que morreu John Ford, um dos mais consagrados realizadores do cinema norte-americano. De ascendência irlandesa, Ford construiu uma obra admirável , inovadora (e por vezes ousada) tanto narrativamente como nas suas formas artísticas. Exemplos maiores: Grapes of Wrath, The Informer, How Green Was My Valley, The Quiet Man são alguns dos seus momentos mais refinados e criativos -curiosamente nenhum destes títulos pertence à galeria do western, que foi como é sabido o género por excelência onde Ford se tornou exímio como o comprova o sublime, The Searchers que é, talvez, o maior de todos os seus filmes.
Há vinte e seis anos, nascia na Polónia -por obra e graça de um grupo de operários de Gdansk liderados por Lech Walesa- , o movimento sindical Solidariedade. O seu aparecimento ocorreu num momento particularmente grave para o desgastado regime polaco de então. O ideário da utopia comunista -"uma terra sem amos/uma sociedade sem classes"- que triunfara em 1917 na Rússia dos Czares, começava a desmoronar-se . Estava-se nas vésperas da "perestroika" e da "glasnost", dois antídotos que Gorbatchov trazia no bolso quando subiu ao Kremlin e que de nada serviram. Destino semelhante teria o Solidarnosc quando Walesa ascendeu, por sufragio universal, ao cargo de Presidente da República

JD

quarta-feira, agosto 30, 2006

Here's to you

Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti

Here's to you Nicola and Bart
Rest forever here in our hearts
The last and final moment is yours
That agony is your triumph!

Joan Baez


terça-feira, agosto 29, 2006

palavras de sartre

foto: Henry Cartier-Bresson

Demain, tu descendras vers la ville ;
tu emporteras dans tes yeux mon dernier visage vivant,
tu seras le seul au monde à le connaître.
Il ne faudra pas l'oublier. Moi, c'est toi. Si tu vis, je vivrai.

Jean Paul Sartre
(in Morts sans sépulture, Livre de Poche n° 55, p.141)

segunda-feira, agosto 28, 2006

palavras de jacques prévert

Lásky Jedné Plavovlásky/Loves of a blonde(1965), Milos Forman
Chanson
Quel jour sommes-nous
Nous sommes tous les jours
Mon amie
Nous sommes toute la vie
Mon amour
Nous nous aimons et nous vivons
Nous vivons et nous nous aimons
Et nous ne savons pas ce que c'est que la vie
Et nous ne savons pas ce que c'est que le jour
Et nous ne savons pas ce que c'est que l'amour.
Jacques Prévert

domingo, agosto 27, 2006

film noir

Vivement Dimanche (1983), de François Truffaut

Julien: Quand les gens meurent de maladie, c'est cruel, c'est injuste, mais c'est vraiment la mort. Quand ce sont des crimes, des meurtres, des assassinats, la mort devient abstraite, comme si la solution et le mystère passaient en priorité, comme si on était dans un roman policier.
Barbara: Il est beau notre patelin vu d'ici, non?

sábado, agosto 26, 2006

palavras de colette magny


Faz hoje 34 anos que o David, colega de externato, me introduziu a socapa na sala de trabalho do pai e me pôs a ouvir no pick up esta preciosidade que durante dias, semanas e anos eu senti e digeri sem cansaço. Ah, Colette!
Melocoton et Boule d'Or
Deux gosses dans un jardin

Melocoton, où elle est maman ?
- J'en sais rien !
Viens, donne-moi la main
- Pour aller où ?
- J'en sais rien !
Viens !
- Papa il a une grosse voix
Tu crois qu'on saura parler comme ça ?
- J'en sais rien !
Viens, donne-moi la main
- Melocoton, Mémé elle rit souvent
Tu crois qu'elle est toujours contente ?
- J'en sais rien !
Viens, donne-moi la main
- Perrine elle est grande presque comme maman
Pourquoi elle joue pas avec moi ?
- J'en sais rien !
Viens, donne-moi la main
- Christophe il est grand mais pas comme papa
Pourquoi...
- J'en sais rien !
Viens, donne-moi la main
- Dis Melocoton, tu crois qu'ils nous aiment ?
- Ma p'tite Boule d'Or, j'en sais rien !
Viens, donne-moi la main...

quinta-feira, agosto 24, 2006

La Stanza del Figlio: provavelmente se...

( La stanza del figlio, de Nanni Moretti)

Giovanni - Paola...se quella domenica fossi rimasto con voi.

Paola - E' una domanda?
Giovanni - Se quella domenica io non mi fossi precipitato come un cretino a casa di quel paziente...
Paola - Dopo sarebbe comunque andato coi suoi amici...
Giovanni - Sì, ma se l'avessi portato a correre con me...poi avremmo preso un gelato, poi saremmo andati al cinema...Tu mi avevi anche detto: "Ma ci devi proprio andare?"...Era una giornata...
Paola - Giovanni è inutile, tanto non si può tornare indietro!
Giovanni - E invece è proprio quello che io voglio fare. Tornare indietro.

(Extracto de diálogos do filme, La Stanza del Figlio (2001), de Nanni Moretti)

terça-feira, agosto 22, 2006

lutar e resistir

À mesa da esplanada um amigo expõe velhos e esquecidos códigos de conduta: contra a mediocridade instalada, contra o constante abuso de poder (incluindo de dinheiros públicos), contra a promiscuidade, contra o tráfico de influências, etc. e tal. Contra tudo isto e muito mais andam milhares de pessoas neste país a lutar , diariamente, por uma sociedade mais justa. Uma sociedade que não seja tolerante com a impunidade. Qualquer dia, diz-me o meu amigo, será assim. Um dia... .

segunda-feira, agosto 21, 2006

on the road

Mais um dia de férias em território minhoto. Pela manhã, uma escapadinha à Galiza (Tuy) em busca de dvd's de grandes clássicos (não editados em Portugal) a preços chorudos de cinco euros e das rabajas de livros, de fazer inveja á fnac. Pela estrada fora, lembro-me de O'Neill pai e de O'Neill filho (o meu querido amigo Xana) já desaparecidos -em 1986 e 1991, respectivamente.A saudade, esse bicho laborioso, põe-me o olhar embaciado e um nó na garganta.
À medida que o carro avança na paisagem vem-me à memória uma noite (memorável) de verão no princípe real com gente a dissertar sobre a emergência da revolução cultural, que nunca aconteceu, e a utopia impossível que sonhámos ser realizável e que cedo pereceu com o amansar dos dias.

domingo, agosto 20, 2006

palavras de sophia (2)

fotograma da curta-metragem, Sophia de Mello Breyner Andresen,
(1969) de João César Monteiro
A forma justa
Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos - se ninguém atraiçoasse - proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
-Na concha na flor no homem no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo
Por isso recomeço sem cessar a partir de página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo
Sophia de Mello Breyner Andresen
in O Nome das Coisas, ed. Moraes, 1977


sábado, agosto 19, 2006

Anna Magnani: sentimento da tragédia

Foto: Anna Magnani,
em Mamma Roma (1962), de Pier Paolo Pasolini

“Quasi emblema, in noi l’urlo della Magnani sotto le ciocche disordinatamente assolute, rinnova nelle disperate panoramiche, e nelle occhiate vive e mute si addensa il senso della tragedia. E’ lì che si dissolve e mutila/il presente, e assorda il canto degli aedi”
P. P. Pasolini

De todas as actrizes que me ensinaram a amar o cinema, Anna Magnani ocupa um lugar singular na memória. Singular porque Magnani aplicou-se com imaginação, rigor e arte à composição de personagens femininas mais ou menos fortes mas sempre, sempre corajosas. O talento, surpreendente, respirava-se à légua.Que o digam Renoir, Visconti, Kramer, Pasolini.
Quando Magnani aparecia no ecran muito poucos seriam aqueles na plateia que não se identificavam com aquela força ou com aquele olhar expressivo, naturalmente expressivo, carregado de inquietação humana. Lembro-me de Anna Magnani, magnífica, em Mamma Roma interrogar-nos com o seu desespero sobre a natureza do mundo que faz tábua raza da redenção e lhe mata o filho. O filho que era, lembremos, o que ela poderia ter de mais valioso e profundo.

sexta-feira, agosto 18, 2006

encantamento

Godard, de novo revisitado através de Alphaville, essa parábola sobre o amor em registo de filme de aventuras e futurismo com um tal Lemmy Caution (Eddie Constantine) e um expedito computador chamado Alpha. Mas é, uma vez mais, a fotografia de Raoul Coutard -que continua belissima apesar de transcrita para suporte vídeo- que o encantamento se dá. Impossível não pensar também em Barthes.

quinta-feira, agosto 17, 2006

momento

Lembro-me de estares sentada, tranquila e feliz, à espera do momento inesperado em que eu pousaria a cabeça no teu colo e de olhos fechados experimentava a sensação magnífica de nos transformarmos em pedras -pedras como as pedras da praia de Moledo que apanhámos no outono- e assim ficarmos. Na eternidade.

quarta-feira, agosto 16, 2006

causa das coisas

Com o Médio Oriente de novo a mobilizar -pelas piores razões, como habitualmente- toda a atenção da comunidade internacional, anuncia-se , para 30 de Agosto, a estreia em Portugal de Paradise Now, de Hany Abu-Assad. Premiado em festivais de renome, candidato ao oscar de melhor filme estrangeiro (que perdeu devido, diz-se, a pressões hebraicas), o filme narra as últimas quarenta e oito horas de dois amigos de infância palestinianos escolhidos para um atentado bombista suícida em Israel. Elogiado pela generalidade da crítica (incluindo a israelita...) apesar do seu claro pendor controverso, Paradise Now é (mais) uma prova do poder "contra corrente" de algum cinema que, apesar de tudo, vai existindo e deixa marcas -às vezes profundas.

terça-feira, agosto 15, 2006

lucidez

Everybody's worried about stopping terrorism.
Well, there's a really easy way: stop participating in it.

Noam Chomsky

segunda-feira, agosto 14, 2006

palavras de o'neill (2)



A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.

Alexandre O'Neill
in Poesias Completas, 1951-1986
(Assírio & Alvim, Lisboa, 2000 )

domingo, agosto 13, 2006

palavras de o'neill

Foto: cá-de-casa - Ínsua
Gaivota

Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.
Alexandre O'Neill

sábado, agosto 12, 2006

paixão ao cinema


Tinha 16 anos quando tive o meu primeiro contacto com o cinema de Godard: A Bout de Souffle, que vi numa sessão clássica, exerceu um fascínio em mim tão grande que tive de o rever, uma , duas, três vezes sempre com a sensação de alguém que procura algo mais do que o mero desejo e sedução.
De certa maneira, os filmes de Godard tiveram o mérito de orientar a formação do meu gosto pelo cinema. Claro que Truffaut, Chabrol, Melville eram outros “mestres” europeus que permaneciam também centrais nos meus apetites, mas Godard era aquele, maior entre os maiores, que exercia em mim um fascínio invulgar; era aquele a quem eu devia reconhecimento e “fidelidade”; aquele a que se recorre sempre quer se esteja “bem” ou na “fossa”; aquele a quem nunca se recusa atender à chamada -como ocorre em todas as boas amizades.
Se falo como falo de Godard é porque o peso dos seus filmes foi responsável pelo amor que eu guardo ao cinema, não apenas por ter ganho esse amor mas sobretudo por ter sabido conservar essa capacidade em (o) amar.
Tudo isto pode parecer excessivo mas, então, porque haveria de o não ser ou ter de ser de outra maneira?

sexta-feira, agosto 11, 2006

godard+stones

Vi pela primeira vez, One+One ou, Sympathy for the Devil –título da canção dos Rolling Stones cujo ensaio o filme acompanha- ( finalmente editado em dvd em Portugal) em Junho de 1985, numa sessão da retrospectiva integral da obra de Jean-Luc Godard promovida pela Cinemateca Portuguesa.
Sendo um dos (muitos) filmes de Godard deixados na penumbra pelos distribuidores e exibidores a expectativa era justificável pelo facto simples de ter os Stones como protagonistas. Rodado em Inglaterra em 1968 -um ano depois de Made in USA, Week-End e La Chinoise (nunca estreado comercialmente em Portugal, tal como Deux ou Trois Choses Que Je Sais d’Elle, …Enfants Prodigues e Loin du Vietnam)- One+One aparentava, à primeira vista, tratar-se de um mero acto singular por parte de Godard: homenagear o mundo musical e cultural do rock’n roll.
Todavia, a presença da formação liderada por Mick Jagger servia, antes, como um detonador aos propósitos de Godard para sublimar o simbolismo dos acontecimentos políticos (Maio 68, contestação estudantil nos EUA contra a guerra na Indochina, a luta do movimento negro…) que faziam estremecer as democracias liberais, questionar o “poder da burguesia” e colocar a Revolução na ordem do dia. Os Rolling Stones eram, de certo modo, a personificação por excelência da contestação e da ideia revolucionária da mudança.
Trinta e oito anos depois, mesmo não sendo de forma alguma uma obra de referência obrigatória na filmografia de Godard, One+One / Sympathy For the Devil mantém-se um documento contemporâneo de reflexão para os tempos que correm.
Não me parece de todo abusivo se disser que One+One fez mais pelos Stones do que, muito provalmente, duas temporadas de concertos.

quinta-feira, agosto 10, 2006

estratégia da aranha


Prossegue, em quarta semana, a agressão ao Estado do Líbano.
Anteontem no noticiário da noite da sic o comentário off da jornalista às imagens de destruição de uma casa em Haifa: "Hezbollah atacou sem perdão...(sic!)".Não estando em causa saber se os "castigos" infligidos de parte a parte são medidos por maior ou menor propósito "imperdoável" , não me lembro de ter ouvido antes classificar com idêntico enfâse (e não menos "isenção") os efeitos dos bombardeamentos "cirúrgicos" da aviação hebraica .Pelos vistos,"Sem perdão" é, fica-se a saber agora, um exclusivo do "Partido de Deus". Nem seria de esperar outra coisa.
Israel precisa de mais 30 dias...de guerra.Quem o diz é um alto responsável militar do IDF. Isto quer dizer que, decorrido quase um mês de guerra é o mesmo já considerado como sendo insuficiente por Telavive. A média diária de 400 bombas lançadas desde meados de Julho sobre cidades libanesas não colheu ainda o fruto desejado. Isto também quer dizer que o "engôdo"libanês não está a surtir o efeito pretendido junto do inimigo real , a República Islâmica do Irão que tarda em reagir à "provocação". Não há problema: em Gaza e na Cisjordânea,continua-se diariamente a praticar, com toda a impunidade, o mais descarado dos abusos de Estado, -para ser suave- que tem incluído o assassinato de inocentes, raptos de parlamentares e de membros do governo e a destruição calculada das infra-estruturas básicas (água, electricidade...) da população palestiniana.
Para os incrédulos, o crime ecológico no Mediterrâneo praticado na sequência do bombardeamento de uma refinaria a norte do Líbano mostra até que ponto Israel está empenhado, com autenticidade, na destruição das "infra-estruturas" do Hezbollah.

A generalidade da imprensa continua a ignorar a existência do apelo anti-guerra do Líbano encabeçado por Noam Chomsky e subscrito por quase duas vintenas de outras personalidades cujos nomes a seguir se indicam: Tariq Ali, Mona Abaza, Matthew Abraham, Gilbert Achcar, Etel Adnan, Aziz el-Azmeh, Nadia Baghdadi, John Berger, Timothy Andres Brennan, Michaelle Browers, Alexander Cockburn, Dan Connell, Mahmoud Darwish, Richard Falk, Eduardo Galeano, Irene Gendzier, Charles Glass, Yassin al Haj Saleh, Assaf Kfoury, Elias Khouri, Ytzhak Laor, Ken Loach, Jennifer Loewenstein, Karma Nabulsi, John Pilger, Harold Pinter, Richard Powers, Tanya Reinhart, Eric Rouleau, Arundhati Roy, Sandra Shattuck, William Thelin, Gore Vidal, Howard Zinn, Stephen Zunes

"qu'est ce que c'est"


Patricia: "Quelle est votre plus grande ambition dans la vie ? "
Parvulesco: " Devenir immortel…et puis mourir. "

Jean-Luc Godard
(diáologos de A Bout de Souffle)

silêncio do mar

foto: cá-de-casa - a caminho da Ínsua
Navegar... navegar... , por entre a bruma de fumo dos incêndios,
do fogo dos fogos, de todos os fogos que nos cercam,
força destruidora que tudo quer purificar

navegar...navegar...navegar, ir e voltar ,
onde o silêncio nunca deixou de o ser.

Caminha

quarta-feira, agosto 09, 2006

felinos

foto: cá-de-casa - pintura de Guati

Mais les chats sont habitués à leur coin et il est dificile
de les habituer à un nouveau coin.
Pour ceux-lá l'art n'est pas du tout nécessaire.
Pourvu seulement que soint peints leur grand-mère ou les petites
coins aimés des bosquets de lilas.

K.Malévitch,
in L'Art du Sauvage et Ses Principes

terça-feira, agosto 08, 2006

palavras de ferré (2)

Tu ne dis jamais rien

Je vois le monde un peu comme on voit l'incroyable
L'incroyable c'est ça c'est ce qu'on ne voit pas
Des fleurs dans des crayons Debussy sur le sable
A Saint-Aubin-sur-Mer que je ne connais pas
Les filles dans du fer au fond de l'habitude
Et des mineurs creusant dans leur ventre tout chaud
Des soutiens-gorge aux chats des patrons dans le Sud
A marner pour les ouvriers de chez Renault
Moi je vis donc ailleurs dans la dimension quatre
Avec la Bande dessinée chez mc 2
Je suis Demain je suis le chêne et je suis l'âtre
Viens chez moi mon amour viens chez moi y a du feu
Je vole pour la peau sur l'aire des misères
Je suis un vieux Bœing de l'an quatre-vingt-neuf
Je pars la fleur aux dents pour la dernière guerre
Ma machine à écrire a un complet tout neuf
Je vois la stéréo dans l'œil d'une petite
Des pianos sur des ventres de fille à Paris
Un chimpanzé glacé qui chante ma musique
Avec moi doucement et toi tu n'as rien dit

Tu ne dis jamais rien tu ne dis jamais rien
Tu pleures quelquefois comme pleurent les bêtes
Sans savoir le pourquoi et qui ne disent rien
Comme toi, l'œil ailleurs, à me faire la fête

Dans ton ventre désert je vois des multitudes
Je suis Demain C'est Toi mon demain de ma vie
Je vois des fiancés perdus qui se dénudent
Au velours de ta voix qui passe sur la nuit
Je vois des odeurs tièdes sur des pavés de songe
A Paris quand je suis allongé dans son lit
A voir passer sur moi des filles et des éponges
Qui sanglotent du suc de l'âge de folie
Moi je vis donc ailleurs dans la dimension ixe
Avec la bande dessinée chez un ami
Je suis Jamais je suis Toujours et je suis l'Ixe
De la formule de l'amour et de l'ennui
Je vois des tramways bleus sur des rails d'enfants tristes
Des paravents chinois devant le vent du nord
Des objets sans objet des fenêtres d'artistes
D'où sortent le soleil le génie et la mort
Attends, je vois tout près une étoile orpheline
Qui vient dans ta maison pour te parler de moi
Je la connais depuis longtemps c'est ma voisine
Mais sa lumière est illusoire comme moi

Et tu ne me dis rien tu ne dis jamais rien
Mais tu luis dans mon cœur comme luit cette étoile
Avec ses feux perdus dans des lointains chemins
Tu ne dis jamais rien comme font les étoiles
Leo Ferré

segunda-feira, agosto 07, 2006

à vista do mar

as ondas vêm até mim e morrem antes
de tocarem os meus pés, antes
que eu te diga, olhos nos olhos, a palavra mágica
que ficou a tarde toda a pairar na imensidão do areal:
ternura

Caminha

o lugar dos impossíveis


A casa é o lugar dos impossíveis,das memórias dos dias, tão esplêndidos quanto inúteis,riscados de impaciência, de sons adormecidos;a casa é, no preciso momento em que abro uma das suas janelas, um lugar mágico onde a fala e os gestos parecem sempre renovados, ousados e libertos.

Caminha

domingo, agosto 06, 2006

vida


C'est vrai ou c'est un cauchemar?
- Je ne sais pas.
- Je t'adore, Corinne. Vien m'exciter.

- C'est pas um roman, c'est la vie. Un film

c'est la vie.

Jean Luc Godard
diálogos de Week - End (1967)

sexta-feira, agosto 04, 2006

palavras de antero de quental

Foto: copyright by Teo Dias

Nuvens da Tarde

Aquelas nuvens, que voam,
Ninguém pode pôr-lhes mão...
São como as horas que soam,
E as aves, que em bando vão...
Como a folha desprendida,
E como os sonhos da vida,
Aquelas nuvens que voam...

Às vezes o sol, que as doura,
Parece à glória levá-las
Mas surge o vento e, numa hora,
Já ninguém pode avistá-las!
É um convite enganoso,
Um escárnio luminoso,
Às vezes, o sol que as doura!

Tantos castelos caídos!
Tantas visôes dissipadas!
Gigantes, heróis perdidos,
Que mal sustêm as espadas!
Faz pena ver, lá do monte,
Nas ruínas do horizonte,
Tantos castelos caídos!

E as donzelas lastimosas,
Que vão fugindo transidas!
Quem fogem elas ansiosas?
Que buscam elas perdidas?
Ó romances fugidios!
Vejo os tiranos sombrios,
E as donzelas lastimosas!

Aquelas nuvens que vemos,
Esses poemas aéreos,
São os sonhos que nós temos,
Nossos intímos mistérios!
São espelhos flutuantes
Das nossas dores constantes
Aquelas nuvens que vemos...

Nossa alma vai-se com elas,
À procura, quem o sabe?
Doutras esferas mais belas,
Já que no mundo não cabe...
Voando, sem dar um grito,
Através desse infinito,
Nossa alma vai-se com elas!

Antero de Quental
( in Primaveras Românticas, colares editora)

quinta-feira, agosto 03, 2006

festa cinéfila


Prossegue no cinema King, até 23 de Agosto, a selecção cuidada
de filmes estreados na temporada passada.
Há muito por onde escolher: dos independentes americanos ao
moderno cinema asiático, passando pelas cinematografias europeias
(com destaque para a portuguesa) e o documentarismo
-a programação contempla também o clássico de Visconti, Il Gattopardo.
Todos os filmes são, obviamente, imperdíveis.
Calendário de sessões e horários disponíveis em (www.medeiafilmes.pt/noticias/noticias.htm)

palavras de ferré


L'oppression
by Léo Ferré

Ces mains bonnes à tout même à tenir des armes
Dans ces rues que les hommes ont tracées pour ton bien
Ces rivages perdus vers lesquels tu t'acharnes
Où tu veux aborder
Et pour t'en empêcher
Les mains de l'oppression
Regarde-la gémir sur la gueule des gens
Avec les yeux fardés d'horaires et de rêves
Regarde-là se taire aux gorges du printemps
Avec les mains trahies par la faim qui se lève
Ces yeux qui te regardent et la nuit et le jour
Et que l'on dit braqués sur les chiffres et la haine
Ces choses "défendues" vers lesquelles tu te traînes
Et qui seront à toi
Lorsque tu fermeras
Les yeux de l'oppression
Regarde-la pointer son sourire indécent
Sur la censure apprise et qui va à la messe
Regarde-la jouir dans ce jouet d'enfant
Et qui tue des fantômes en perdant ta jeunesse
Ces lois qui t'embarrassent au point de les nier
Dans les couloirs glacés de la nuit conseillère
Et l'Amour qui se lève à l'Université
Et qui t'envahira
Lorsque tu casseras
Les lois de l'oppression
Regarde-la flâner dans l'œil de tes copains
Sous le couvert joyeux de soleils fraternels
Regarde-la glisser peu à peu dans leurs mains
Qui formerons des poings
Dès qu'ils auront atteint
L'âge de l'oppression
Ces yeux qui te regardent et la nuit et le jour
Et que l'on dit braqués sur les chiffres et la haine
Ces choses "défendues" vers lesquelles tu te traînes
Et qui seront à toi
Lorsque tu fermeras
Les yeux de l'oppression

palavras de sophia

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia de Mello Breyner Andresen
( in No Tempo Dividido e Mar Novo”, Edições Salamandra, 1985, p. 79 )

quarta-feira, agosto 02, 2006

trabalho de casa (2)

Nos últimos dias o governo israelita não tem feito outra coisa senão repetir incessantemente a justificação oficial em nome da qual o Estado hebraico iníciou o brutal ataque ao Líbano: o rapto de dois militares da IDF "em território de Israel" por militantes do Hezbollah.
Porém a verdade dos factos (relatada pelas agências de informação) falam outra linguagem bem diferente daquela que a dado momento passou a ser mais conveniente a Telavive. Não subsistem dúvidas de que o envio da patrulha para território libanês fazia parte da estratégia ( tal como em Junho de 96) de "provocar" uma reacção do Hezbollah e com isso dar por adquiridas as motivações para a brutalidade desproporcionada que se seguiu.
Acresce referir que, este episódio nada teve de diferente do ocorrido em 10 Junho 1996 no sul do Líbano quando guerrilheiros do movimento Hezbollah interceptaram uma patrulha de soldados israelitas provocando cinco mortos. A resposta de Israel foi o que se sabe....
(ver www.cnn.com/.../9606/10/israel.attack/index.html)
Atente-se, pois, no artigo de Joshua Frank, que a seguir se transcreve, sem mais comentários. Para reflexão.... .

Kidnapped in Israel or Captured in Lebanon?
Official justification for Israel's invasion on thin ice
by Joshua Frank
( July 25, 2006, www.antiwar.com/frank/)

As Lebanon continues to be pounded by Israeli bombs and munitions, the justification for Israel's invasion is treading on very thin ice. It has become general knowledge that it was Hezbollah guerillas that first kidnapped two IDF soldiers inside Israel on July 12, prompting an immediate and violent response from the Israeli government, which insists it is acting in the interest of national defense. Israeli forces have gone on to kill over 370 innocent Lebanese civilians (compared to 34 killed on Israel's side) while displacing hundreds of thousands more. But numerous reports from international and independent media, as well as the Associated Press, raise questions about Israel's official version of the events that sparked the conflict two weeks ago.
The original story, as most media tell it, goes something like this: Hezbollah attacked an Israeli border patrol station, killing six and taking two soldiers hostage. The incident happened on the Lebanese/Israel border in Israeli territory. The alternate version, as explained by several news outlets, tells a bit of a different tale: These sources contend that Israel sent a commando force into southern Lebanon and was subsequently attacked by Hezbollah near the village of Aitaa al-Chaab, well inside Lebanon's southern territory. It was at this point that an Israel tank was struck by Hezbollah fighters, which resulted in the capture of two Israeli soldiers and the death of six.
As the AFP reported, "According to the Lebanese police force, the two Israeli soldiers were captured in Lebanese territory, in the area of Aitaa al-Chaab, near to the border with Israel, where an Israeli unit had penetrated in middle of morning." And the French news site www.VoltaireNet.org reiterated the same account on June 18, "In a deliberated way, [Israel] sent a commando in the Lebanese back-country to Aitaa al-Chaab. It was attacked by Hezbollah, taking two prisoners."
The Associated Press departed from the official version as well. "The militant group Hezbollah captured two Israeli soldiers during clashes Wednesday across the border in southern Lebanon, prompting a swift reaction from Israel, which sent ground forces into its neighbor to look for them," reported Joseph Panossian for AP on July 12. "The forces were trying to keep the soldiers' captors from moving them deeper into Lebanon, Israeli government officials said on condition of anonymity."
And the Hindustan Times on July 12 conveyed a similar account:
"The Lebanese Shi'ite Hezbollah movement announced on Wednesday that its guerrillas have captured two Israeli soldiers in southern Lebanon. 'Implementing our promise to free Arab prisoners in Israeli jails, our strugglers have captured two Israeli soldiers in southern Lebanon,' a statement by Hezbollah said. 'The two soldiers have already been moved to a safe place,' it added. The Lebanese police said that the two soldiers were captured as they 'infiltrated' into the town of Aitaa al-Chaab inside the Lebanese border."
Whether factual or not, these alternative accounts should at the very least raise serious questions as to Israel's motives and rationale for bombarding Lebanon.
MSNBC online first reported that Hezbollah had captured Israeli soldiers "inside" Lebanon, only to change their story hours later after the Israeli government gave an official statement to the contrary.
A report from The National Council of Arab Americans, based in Lebanon, also raised suspicion that Israel's official story did not hold water and noted that Israel had yet to recover the tank that was demolished during the initial attack in question.
"The Israelis so far have not been able to enter Aitaa al-Chaab to recover the tank that was exploded by Hezbollah and the bodies of the soldiers that were killed in the original operation (this is a main indication that the operation did take place on Lebanese soil, not that in my opinion it would ever be an illegitimate operation, but still the media has been saying that it was inside 'Israel' thus an aggression first started by Hezbollah)."
Before independent observers could organize an investigation of the incident, Israel had already mounted a grisly offensive against Lebanese infrastructure and civilians, bombing Beirut's international airport, along with numerous highways and communication portals. Israel didn't need the truth of the matter to play out before it invaded Lebanon. As with the United States' illegitimate invasion of Iraq, Israel just needed the proper media cover to wage a war with no genuine moral impetus

chauvinismo

The dangerous patriot: "The one who drifts into chauvinism and exhibits blind enthusiasm for military actions. He is a defender of militarism and its ideals of war and glory. Chauvinism is a proud and bellicose form of patriotism . . . which identifies numerous enemies who can only be dealt with through military power and which equates the national honor with military victory."

Marine Corps, Colonel James A. Donovan

trabalho de casa (1)


Depois da reunião de segunda-feira do conselho de segurança israelita ter aprovado a "expansão" das operações no sul do Líbano (as agências falam sem reservas numa penetração das tropas hebraicas previsível em cerca de 30km adentro do território libanês, até ao leito do rio Litani) , ontem em Washington foi a vez do senador republicano do Estado do Nebraska, Chuck Hagel, requerer do Presidente Bush a aplicação de um cessar fogo imediato no Médio Oriente "para pôr fim a esta loucura". Hagel foi particularmente incisivo e levantou uma questão pertinente para a Administração americana - esta que segue no parágrafo seguinte.

"How do we realistically believe that a continuation of the systematic destruction of an American friend -- the country and people of Lebanon -- is going to enhance America's image and give us the trust and credibility to lead a lasting and sustained peace effort in the Middle East?"
"Our relationship with Israel is special and historic," disse, "But it need not and cannot be at the expense of our Arab and Muslim relationships. That is an irresponsible and dangerous false choice."

O Senador Hagel vem assim juntar-se aos oito senadores que, recorda-se, tiveram na semana passada a ousadia de exigir um cessar fogo imediato.

Na BBC dá-se conta de um ataque com mísseis a um camião suspeito de "transportar armas do Hezbollah" que circulava próximo da cidade de Tiro. Afinal as únicas "armas" que integravam a carga do pesado eram...couves, couves ás dezenas, espalhadas com os destroços. Não quero ser desmancha-prazeres (quem sou eu) mas Israel pode não ter contado com a mestria
transcendental de algum imã que estivesse por perto e tivesse , num ápice,praticado um milagre; o milagre da transformação de rockets e de ak-47 em couves!

Se bem me lembro, logo no ínicio dos ataques tinha sido bombardeada uma fábrica (com direito horas depois a directo da Sic) "suspeita" de albergar rampas de rockets e mais não sei o quê. Depois de reduzida a um montão de ferros retorcidos e montões de pedras ficou a saber-se que se tratava de uma linha de produção de ...papel higiénico! Outro milagre em potência, claro!
Em Bruxelas o dia foi positivo para Blair, Bush e o governo de Telavive: a Grã-Bretanha conseguiu bloquear uma decisão acordada pela maioria dos Estados membros da União Europeia reunidos de emergência para que pedia um "cessar fogo imediato" A redacção final do documento ficou como segue o seguinte: "immediate cessation of hostilities" leading to "sustainable ceasefire".Bravo, Tony!
Na edição de hoje do conceituado diário israelita, Haaretz, dá-se conta de mais 3 mortos e 22 feridos do exército israelita na sequência de uma incursão de tropas paraquedistas á cidade libanesa de Ayta a-Shab. O ataque terá tido origem num disparo de arma anti-tanque contra os militares da IDF. Outras fontes dão conta também do abate de um heli israelita mas não ha´qaulquer confirmação oficial.
Curioso é também o facto de o Haaretz (edição on line: www.haaretz.com) ter inserido uma "caixa" a propósito de Gallipoli, o grande fiasco dos brits, em 1915, que levou à chacina de mais de 250.000 mil soldados às mãos das tropas turcas (aqui abre-se um parêntesis para lembrar que o filme de Peter Weir com um Mel Gibson de ar teen está editado em dvd). O jornalista (Moshe Arens) que atribui à "peça" o título "Gallipoli and the Lebanese Quagmire" faz uma análise interessante sobre o historial das intervenções hebraicas no Libano e deixa um aviso sobre as capacidades do Hezbollah... .
Por último, atente-se nos excelentes artigos do veterano Robert Fisk diariamente publicados no The Independent. Trata-se, sem dúvida, do melhor que se está fazendo em informação -qualificada, séria, bem estruturada. Atente-se no artigo sobre o (prevísivel) recurso à Nato para o Sul do Líbano. Um começo de "protectorado" com militares sionistas à mistura?

Oh, it's a lovely war!

terça-feira, agosto 01, 2006

crepúsculo


De todos os filmes de John Huston que vi, The Misfits (Os Inadaptados) ocupa ainda hoje um lugar especial, não apenas porque a presença de Marilyn Monroe (haveria de morrer dois anos depois da estreia) é a expressão perfeita da fragilidade e do desejo de liberdade (tal como os cavalos selvagens) mas sobretudo porque Huston teve a felicidade de ser bastante bem sucedido na exaltação da vida numa atmosfera (crepuscular) contaminada pelo desencanto e a tragédia.

"este é o tempo"


Este é o tempo
Este é o tempo
Da selva mais obscura
Até o ar azul se tornou grades
E a luz do sol se tornou impura
Esta é a noite
Densa de chacais
Pesada de amargura
Este é o tempo em que os homens renunciam.

Sophia de Mello Breyner
in Mar Novo (1958)

segunda-feira, julho 31, 2006

outro teatro



Em pouco mais de meia dúzia de meses a nova Direcção do Teatro Nacional D. Maria II teve a capacidade de intuir com particular habilidade qual o estatuto de excelência que melhor se adequaria no futuro ao Teatro Nacional não apenas para lhe garantir a reabilitação a que tem direito mas também, ou sobretudo, para o posicionar no primeiro galarim das congéneres salas das capitais europeias.
Dotado de uma programação que parece estar orientada para promover outros, novos e diferentes valores artísticos (a que se junta a evidente preocupação de recuperação de públicos) , o D.Maria II reaparece assim com a abertura de espírito indispensável e dotado de outra sensibilidade.
Ganhos evidentes dessa mudança são já notórios, -para além do êxito do Lisboa Mite e da dinamização dos espaços nobres com espectáculos regulares de música e debates- entre outros factos assinaláveis, a (re)abertura da livraria com índices de frequência e vendas que ultrapassaram as (tímidas) expectativas iniciais, a abertura à divulgação do cinema e do audiovisual, a esplanada no exterior, as visitas públicas... . Como se não bastasse, os resultados positivos (de bilheteira) que recentemente vieram a público e que ultrapassam os do período de 2004/2005 são de molde a não ofuscar a tranquilidade do percurso.

efeitos secundários

Graças ás bombas e aos mísseis que espalham a morte no Líbano em particular os actos deliberados ("selectivos") de assassínio de civis , incluindo crianças, ataques a comboios humanitários e a ambulâncias, destruição calculada das infra-estruturas básicas de um país, o governo e os militares de Israel estão (conscientemente?) a dar ao Hezbollah e ao seu líder aquilo que este nunca imaginaria sonhar ser realizável um dia: uma popularidade a subir em flecha que começa a unir os povos árabes da região e colhe a admiração e o empolgamento das populações martirizadas também da Palestina ocupada.

a força do poder

Entre os estrategas militares hebraicos deve haver, concerteza, cinéfilos puros e duros: as designações das suas "campanhas"(eufemismos...) contra os palestinianos e/ou libaneses parecem ser usualmente fruto de inspiração em clássicos do cinema, como ocorreu com a célebre "as vinhas da ira" (Grapes of Wrath, em inglês) porventura em homenagem á obra-prima de matriz social de John Ford centrada no período negro da Grande Depressão como a retratou magníficamente também John Steinbeck, a quem o filme muito deve.
Fica o "simbolismo": para Israel a razão do conflito é como sempre o foi uma questão de posse da terra. Como no filme/romance os agricultores e famílias são forçados a abandonar as suas terras por força do poder dos bancos e aprocurar a sorte noutras paragens, na Palestina aplica-se também a máxima, quem tem a força tem o poder ou vice-versa. Interessante...

domingo, julho 30, 2006

"eu acredito em ti"

Há quem creia em Deus e o veja em toda a parte.
Eu acredito em ti
E vejo-te em tudo o que na vida me dá profundo gosto de viver,
Tudo o que me sorri
E também em tudo o que me faz sofrer.
Vejo-te na recordação da minha infância
-Menino que sonhava estrelas iguais às minhas-
E no despontar das manhãs claras,
Quando o mundo era cheio de mistérios
E cada coisa uma interrogação.
Crescemos juntos sem nos conhecermos,
mas quando nos cruzámos por acaso
Eu soube que eras tu.

Maria Eugénia Cunhal
in Silêncio de Vidro, Edição de Autor, 1962

de olhos fechados

Sábado de manhã. Passo pelo café das arcadas e não resisto a tomar um café na esplanada.O meu olhar fixa-se numa mesa que começa a ser tocada pelo sol. Sento-me virado para sul, recebendo o sol de frente; tiro os óculos.

Do outro lado da rua dois cães trotam alegremente em direcção ao liceu. Fico a vê-los dobrar a esquina e a imaginar a correria que farão quando chegarem às terras que ficam por detrás da escola.Fecho os olhos e a erosão é total. Olhos fechados, sem reticências.

sábado, julho 29, 2006

if...

"If the innocent honest Man must quietly quit all he has for Peace sake, to him who will lay violent hands upon it, I desire it may be considered what kind of Peace there will be in the World, which consists only in Violence and Rapine; and which is to be maintained only for the benefit of Robbers and Oppressors."
John Locke (1632-1704) Filósofo e teórico político inglês
in Second Treatise of Civil Government, p. 465, Lasslet Edition, Cambridge University, 1960

o filme dentro do filme

(Revi, hoje á tarde, e pela 4ª vez -numa cópia em vhs,velhinha e em mau estado- , aquele que é, para mim, um dos mais belos filmes de Truffaut realizado com paixão e inteligência sobre o amor ao cinema... . Um filme dentro do filme, a imagem dentro da imagem -que outra forma mais poderosa de identificação emocional senão a que Truffaut nos propôs hà mais de 30 anos, quando Godard já anunciava entre dentes "a morte do cinema"?)

"Aux questions que le public se pose sur le thème : « Comment tourne-t-on un film ? » j’ai voulu avec La Nuit Américaine apporter des réponses visuelles, les seules possibles ; et pourtant voici que ce film devient un livre !"
François Truffaut

sexta-feira, julho 28, 2006

virose de culto

Palavras oportunas (certeiras e bem-humoradas) de José Miguel Júdice no Público de hoje:
"Os portugueses são assim. Abusam do poder, confundem poder com autoridade, acham -como os romanos achavam do direito de propriedade- que é no abuso que se revela o seu esplendor o poder de que se usufrui. E depois admiram-se que ninguém os respeite, que todos os desprezem: os menos afoitos, da forma rasca e merdosa, com facadas pelas costas logo a seguir às palmadinhas. Os outros, de frente, olhos nos olhos...mesmo quando ...se não esteve a falar para o boneco porque o boneco fugiu".

quinta-feira, julho 27, 2006

mecanismos


The propagandist's purpose is to make one set of people
forget that certain other sets of people are human
Aldous Huxley

quarta-feira, julho 26, 2006

imaginário

A noite passada
sonhei contigo, meu amor
Estavamos á espera do sol nascer
que não veio
porque entretanto acordei
sem ti
Lisboa, Entrecampo, 4 Novembro 1982

sonho


Estava a escrever e saltou-lhe a mão.Foi a correr pôr um agrafo e regressou
à secretária sempre a sangrar no papel.
Lisboa, Entrecampos, 17 de Outubro 1982

terça-feira, julho 25, 2006

carta de Chomsky, Saramago, Harold Pinter, Tariq Ali e outros

(gravura de Picasso)
letter from Chomsky and others on the recent events in the Middle East (July 19, 2006):

The latest chapter of the conflict between Israel and Palestine began when Israeli forces abducted two civilians, a doctor and his brother, from Gaza. An incident scarcely reported anywhere, except in the Turkish press. The following day the Palestinians took an Israeli soldier prisoner - and proposed a negotiated exchange against prisoners taken by the Israelis - there are approximately 10,000 in Israeli jails.That this "kidnapping" was considered an outrage, whereas the illegal military occupation of the West Bank and the systematic appropriation of its natural resources - most particularly that of water - by the Israeli Defence (!) Forces is considered a regrettable but realistic fact of life, is typical of the double standards repeatedly employed by the West in face of what has befallen the Palestinians, on the land alloted to them by international agreements, during the last seventy years.
Today outrage follows outrage; makeshift missiles cross sophisticated ones. The latter usually find their target situated where the disinherited and crowded poor live, waiting for what was once called Justice. Both categories of missile rip bodies apart horribly - who but field commanders can forget this for a moment?
Each provocation and counter-provocation is contested and preached over. But the subsequent arguments, accusations and vows, all serve as a distraction in order to divert world attention from a long-term military, economic and geographic practice whose political aim is nothing less than the liquidation of the Palestinian nation.This has to be said loud and clear for the practice, only half declared and often covert, is advancing fast these days, and, in our opinion, it must be unceasingly and eternally recognised for what it is and resisted.
Tariq Ali
John Berger
Noam Chomsky
Eduardo Galeano
Naomi Klein
Harold Pinter
Arundhati Roy
Jose Saramago
Giuliana Sgrena
Howard Zinn

(consultar site: www.chomsky.info )

caos e horror

foto:AP
Nos noticiários da manhã de ontem , mais um episódio anbsolutamente condenável e inaceitável da guerra dejá-vú no Iraque e no Afeganistão: aviões israelitas executaram várias missões de bombardeamento e de disparos de mísseis sob colunas de automoveis de civis libaneses em fuga para o Norte do Líbano. A atestar pelo número de mortos a precisão dos ataques foi tout court ( e dispensa mesmo as tais "bombas inteligentes" que Bush quer enviar a Israel): uma família de 7 membros, na maioria crianças, foi pulverizada no seu automóvel; um autocarro recebeu o impacte de um míssel (concerteza que também muito"inteligente") e 14 dos seus ocupantes tiveram morte imediata; diversas outras viaturas de civis foram atacadas numa estrada já destruída em anteriores incursões e mais 7 libaneses morreram.

Contra isto não pode haver qualquer tolerância. Nenhum israelita pode ter dúvidas numa coisa: os libaneses já perceberam que a estratégia dos sionistas não é o Hezbollah como querem fazer crer para a opinião pública mundial mas a nação soberana do Líbano. Se a estratégia era a de, no prazo imediato, virar a população libanesa (muçulmanos, judeus, cristãs) contra o movimento do Hezbollah então Telavive cometeu um erro grasso e de palmatória. É lamentável que não haja ninguém no governo de Israel que se oponha com determinação a esta carnificina gratuita e só estejam interessados nos jogos de bastidores que já pouco ou nada conseguirão mudar (a favor de Israel) no complexo tabuleiro geoestratégico que é o Medio Oriente hoje.
Lembro-me que uma das máximas dos neo-conservadores instalados em redor de Bush era o recurso ao "caos", o caos em toda a sua expressiva dimensão como esta que ora subiu á cena no Libano e nos impele cada vez mais a reflectir. Por exemplo, sobre o terrorismo de Estado.

o olhar de TeoDias

(foto: gentileza de Teodósio Dias)
O "portfólio" do Teodósio Dias (dotempoedaluz.blogspot.com) é uma espécie de irmão de outro blogue -ruasdaminhacidade.blogspot.com- também da autoria do Teo. O que fica da visão dessas páginas é mais do que fascinação de um solit(d)ário é uma visão agre e doce impregnada de memória pelas ruas da cidade do Porto, muito amado. É como se a câmara de Teo Dias ou vice-versa tivessem assumido a interessante tarefa de se constituirem numa espécie de vigilantes e/ou zeladores da cidade e de tudo o que ela incorporou e incorpora ainda, apesar dos crimes cometidos diáriamente contra ela.


O Porto tem no olhar de Teo um enorme fôlego de respiração e uma familiaridade que é, a um tempo, de forte conotação "universalizante". E interesante será descobrir como em certas fotos se criaram atmosferas mágicas, pela luz e sombras, pelos cinzentos e azuis, mas também pelos contraluzes e os enquadramentos que seguem um estilo intencionalmente experimentais.


De modo que, em Do Tempo e da Luz e no Ruas da minha cidade -Porto,TeoDias faz a sua viagem no tempo ao encontro dos lugares que a retina guardou, -valorizando os contrastes abruptos, as (re)descobertas, as surpresas...

segunda-feira, julho 24, 2006

pensando no Líbano...

All those who seek to destroy the liberties of a democratic nation ought to know that war
is the surest and shortest means to accomplish it.

Alexis de Tocqueville

domingo, julho 23, 2006

o mais forte

O espectáculo da destruição do Líbano -que está para durar, durar...- continua a merecer honras nas primeiras páginas: os bombardeamentos não arrefecem, o número dos deslocados (à sua sorte) cresce, os estrangeiros são repatriados, os rockets do Hezbollah continuam a cair em Haifa, blindados israelitas entram e saiem de território libanês e Bush deve concerteza estar a saborear um dos seus biscoitos caseiros favoritos e a ler um livro de "pernas-pró-ar"... .
Menos sorte parecem ter os palestinianos que podem neste momento de "distracção" continuar a ser chacinados (à média de 10 por dia) com maior à vontade e prosseguida a destruição infame das suas infraestruturas, como a destruição ontem de um edíficio da Autoridade Palestiniana na Cisjordânia pela artilharia israelita. Pergunto-me como conseguem os palestinianos suportar tanta iniquidade junta -o sentido de conservação? É pouco, obviamente para explicar tanta capacidade de resistência e martírio. Os palestinianos não têm mais nada a perder a não ser as próprias vidas.Esse é o seu poder.O que é perigoso, muito perigoso, para o Estado Hebraico apesar de toda a sua parafernália bélica.

cinema & história

(Foto:John Alcott / Barry Lyndon, by Stanley Kubrick,1973)
"(sobre o cinema e a história)É necessário ter presente que reconstituir é reinventar. A reconstituição do espaço, do cenário do passado, faz-se reinventando porque nos encontramos perante um problema de alheamento das formas, que não tenha ligação com o presente (...).
É uma coisa diferente de uma simples reprodução. Trata-se de Lovecraft... .E é exactamente esse o nosso tipo de relação com a história é reconstruir as formas de uma realidade da época, formas que nos aparecem estranhas. Fazer filmes históricos é -muito mais do que no caso da literatura- convocar físicamente as formas do passado".

René Allio
L'Histoire Au Cinema / Positif nº189, Jan.1977