terça-feira, outubro 17, 2006

sábado á tarde

(escrito a pensar filmar...)
Reparo que trazes a saia de ganga que compráramos em saldo numa loja recatada das avenidas novas naquele sábado chuvoso e frio em que demos as mãos ao fim de muito tempo de receio mútuo. Reparo também que o teu sorriso já não é o mesmo desse dia, nem o teu olhar é luminoso como quando nos encontrámos no pequeno café de bairro antes da matinée no quarteto, nem quando nos despedimos demoradamente horas depois junto ao cais. Reparo ainda que o teu andar não é o teu andar, porque os passos que dás, até mim, já não tem o encanto e a subtileza dos passos qaundo avançavas para mim. Reparo, reparo ainda mais: na forma como procuras esconder o teu olhar do meu olhar, como administras o nervosismo (com o teu característico toque do dedo indicador no canto do lábio superior...) e com que dificuldade procuras a posição confortável na cadeira. Reparo, finalmente, que durante toda esta tarde só me fixaste uma vez, uma única vez (e me tocaste na face com carinho, reconheço-o) com o olhar mais triste que nunca te vi... .Mais triste e só, antes de me beijares e abandonares o café lentamente e eu só te perder, de vista, através da vidraça da montra. Com a morte dentro.

Lisboa, Jardim do Princípe Real, Maio de 2001

definição de juventude

... A imagem de indivíduos que tentam viver de acordo com o seu próprio ritmo em um envolvimento moral que é ou de uma estreiteza sufocante ou de uma altura ameaçadora, mas nunca á medida da solidariedade espontânea que estão prontos a oferecer. Anti-sociais por razão de lealdade e rebeldes por força específica de circunstâncias definidas...
Thomas Elsaesser

questão de identidade

Max Frisch foi uma descoberta (feliz) feita quase ao acaso -já lá vão 12 anos-, quando procurava outro autor (Harold Pinter, para que conste) com provas dadas também na escrita teatral. Chamem-me Gantenbein ( edição da Arcádia) é um romance sobre um homem que finge ser cego "sem o ser, que é cego para os outros, principalmente para a mulher que o ama, porque ele não vê...tudo aquilo que destruiria o amor...". Frisch é, surpreendentemente, sublime.

domingo, outubro 15, 2006

beckett

O que me atrai na personalidade incontornável do grande escritor irlandês, Samuel Beckett é a sua sensibilidade radical: hipersensível, hipercrítico -tanto em relação a si como aos outros- Beckett posicionou a vida na margem do limbo. Essa opção que diria, ser absolutamente consciente e que lhe trouxe como que se sabe consequências, (isolamento social; viveu os últimos anos de vida como um eremita) não foi mais do que uma via (dolorosa e necessária) para a afirmação punjante do seu poder criativo e qualidades reflexivas.

O que me atrai também em Beckett não é apenas o lado exasperado, alucinante e obsessivo da solidão (a incomunicabilidade) do Homem na sociedade moderna mas a consciência da sua resignação e impotência.

No ano em que se celebra o centenário do seu nascimento, recordemos o poema, Os ossos de Eco:

asilo sob os meus passos este dia inteiro
os seus folguedos abafados enquanto a carne se desmorona
arrotando sem receio sem pavor
percorrida a punitiva fileira da sensatez e insensatez
tomados pelos vermes por aquilo que são

sábado, outubro 14, 2006

viagem no tempo

Foto: Fernando Negreira

1976: o olhar semi-ocupado na leitura dos Cahiers du Cinéma numa tarde de primavera nas instalações do Centro Estudantil de Fotografia e Cinema (lugar de divulgação do cinema de autor e militante) em Lisboa, na rua dona Estefânea. Em contracampo, poster de "Che" Guevara, um ídolo que me ficou para sempre incrustado na retina.

sexta-feira, outubro 13, 2006

momento de "ilusão"

Que tem de especial a música de Eleni Karaindrou -compositora de enorme mérito que vem assinando as bandas sonoras dos filmes de Angelopoulos- que ouço (teimosamente e sem auriculares!) quase todas as noites desde há anos? Lirismo? Poesia? Nostalgia? Provavelmente por tudo isto.E também por instinto (de sobrevivência?), e pela busca dum momento sensitivo, muito forte, de libertação. Ou, se quiserem, da sua ilusão.

quinta-feira, outubro 12, 2006

dias puros

foto cá-de-casa
Filmando uma manifestação numa noite de outono de 1974, em Lisboa (Alameda D. Afonso Henriques): ao centro, da esquerda para a direita - o Roy Rosado, Eu (de bolex paillard em punho) e o Pedro Macedo (de óculos).
Foi o tempo de todas as esperanças; o tempo dos (im)possíveis, o tempo de ir sem medo, de experimentar o risco; o tempo de ver o sonho transformar o pensamento...

cidadãos de "sucesso"

Constatação (incómoda) de Manuel Antonio Pina no Jornal de Notícias de anteontem:
Para se ser livre é preciso coragem, muita coragem. (...) Porque é bem mais fácil sobreviver acobardando-se do que escolher livremente. Os locais de trabalho, a vida política, a mera existência social, estão (basta olhar em volta) cheios de cobardes de sucesso.

terça-feira, outubro 10, 2006

bertrand russell dixit

The first step in a fascist movement is the combination under an energetic leader of a number of men who possess more than the average share of leisure, brutality, and stupidity. The next step is to fascinate fools and muzzle the intelligent, by emotional excitement
on the one hand and terrorism on the other.

Bertrand Russell
(Freedom, Harcourt Brace, 1940)

domingo, outubro 08, 2006

não tenho palavras

A insónia da noite passada dói. Onde me magoa o corpo não sei.

Por momentos, (re)vejo o teu rosto no espelho do hall quando passo
para a sala ás escuras.As despedidas súbitas têm o sabor
a desejos irrealizados. Será?

O dia amanhece. Não tenho palavras para descrever a cólera.

A morte, na sua fria pontualidade, que veio roubar-te a vida com a impunidade de sempre e
deixar-nos no olhar a pior das saudades. Bicho laborioso que tudo consome.

Nesta hora ( o féretro vai em ombros para a carrinha) seguimos-te. Não temos palavras. Ficamos, como sempre, prisioneiros do silêncio e da dor. Humedecidos (e vergados) pela falta que nos fazes, já.

Lembras-te Mãe: dias e dias a fio a alimentar o sonho impossível do futuro melhor? Outra terra virá, fisicamente nova, -digo-te que nasce, mas da resistência.

quinta-feira, outubro 05, 2006

à memória de minha mãe, clotilde maria

Nunca mais
Caminharás nos caminhos naturais.
Nunca mais te poderás sentir
Invulnerável, real e densa
-Para sempre está perdido
O que mais do que tudo procuraste
A plenitude de cada presença.

E será sempre o mesmo sonho, a mesma ausência.

Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, outubro 04, 2006

esta gente / essa gente

O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente

Gente que seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente

Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente

Gente que enterre o dente
que fira de unhas e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente

O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente

Ana Hatherly

terça-feira, outubro 03, 2006

cinema e poesia

O Espelho (ZerKalo, aka The Mirror) de Andrei Tarkovsky - 1975

segunda-feira, outubro 02, 2006

os amores de um soldado

Havia formigas por todo o corpo. Corriam
velozes nos braços. Uma grande parte delas
havia-se concentrado no peito em redor da ferida
provocada pelo projéctil.
O soldado tinha um olhar parado de espanto
Um pasmo de incompreensão? Talvez...
Uma, duas, por certo mais de seis formigas
percorriam-lhe o rosto com invulgar curiosidade,
como se descobrissem nele outra terra interior.
Lisboa, Entrecampos, 12 Fevereiro 1982

sábado, setembro 30, 2006

nos tempos que correm

Evidenciar capacidades, ser sensível, apaixonar-se pelo que se faz, manter sempre uma certa combatividade, desempenhar com rigor e exigência, actuar sempre com sentido de dever público, agir com independência (para ser justo) - eís alguns dos atributos de eleição que, nos tempos que correm, podem trazer aborrecimentos aos seus seguidores .

sexta-feira, setembro 29, 2006

revisita a billy wilder

"Monstro sagrado" entre os "monstros sagrados" da velha Hollywood, como Garbo, Dietrich, Swanson ou Pola Negri. Fédora é a actriz feita mito. Que idade terá? Provavelmente sessenta, provavelmente setenta. As opiniões divergem. De facto ela terá a idade que teve nos seus filmes. Ela não existe ao passo que a sua imagem existe. Ela é, pura e simplesmente, a representação, incarnação de uma das fases de ouro da história do cinema.
Um dia, Ela começou a rodar um filme inacabado (como Marylin) e, depois, retirou-se prematuramente para Corfou, ilha das ilhas desertas que nos habitam a memória. Ela recebeu cartas de amor de John Barrymore, Hemingway, Pablo Picasso, Maurice Chevalier, Winston Churchill ou Rachmaninoff. Quando Ela morreu, as mensagens de condolências vieram de todo o mundo (como com Marylin).

Espécie de súmula das grandes preocupações que dominaram Billy Wilder na sua carreira (brilhante) de autor, Fédora é um enorme grito (por vezes lancinante) de amor ao cinema. Revi-o esta noite e continuo a considerá-lo um dos mais hábeis, inventivos e brilhantes filmes de Wilder.

quinta-feira, setembro 28, 2006

a odisseia de madonna

Os fanáticos ( e hipócritas) religiosos que não perdoam a Madonna a ousadia coreográfica da crucificação (como suporte à emblemática canção, "Live to Tell") levada á cena no show da sua última tournée, "Confessions tour Madonna", são os mesmos que silenciam, no quotidiano,
o drama de pobreza e fome vividos pelas populações de África, designadamente no Malawi,
onde a singular cantora desenvolve um projecto meritório de combate à miséria extrema.
Jesus, que foi crucificado e morto pelos pecados do homem, se voltasse á terra estaria como profeta revolucionário a defender os oprimidos do mundo inteiro. Ao lado de Madonna, of course!. JD

terça-feira, setembro 26, 2006

palavras de antónio reis, cineasta esquecido


Na cidade onde envelheço
não há brisa
há vento
A brisa é para o amor
e para os cabelos
Na cidade onde envelheço
a roupa tem de secar
durante a noite
os operários levantam-se cedo
e o seu amor é simples
e no trabalho.
António Reis, poeta e realizador

segunda-feira, setembro 25, 2006

palavras de fernando pessoa


Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive
Fernando Pessoa

domingo, setembro 24, 2006

a razão do predador

Jaws, de Steven Spielberg -1975
A semana política fica marcada pela torrente espaventosa de um grupo de convivas (na maioria gestores, simpatizantes dos neo-conservadores americanos) que deram a conhecer ao país propostas jubilosas para a salvação definitiva. Uma das ideias defendidas consistia no despedimento de mais de duzentos mil funcionários como condição sine quanon para se alcançar o"paraíso".Muitos dos senhores respeitáveis que se lançaram no convívio "Compromisso por Portugal" não encontraram disfarce eficaz para mascarar o apetite voraz que lhes vai na alma pelos fundos da segurança social e pelas empresas lucrativas (que restam) do Estado: para repetirem os negócios do passado?
Mas o mais interessante foi o encontro ter servido também para elevar o tom das intrigas. Calorosas e descontraídas, como sempre.