sábado, agosto 26, 2006

palavras de colette magny


Faz hoje 34 anos que o David, colega de externato, me introduziu a socapa na sala de trabalho do pai e me pôs a ouvir no pick up esta preciosidade que durante dias, semanas e anos eu senti e digeri sem cansaço. Ah, Colette!
Melocoton et Boule d'Or
Deux gosses dans un jardin

Melocoton, où elle est maman ?
- J'en sais rien !
Viens, donne-moi la main
- Pour aller où ?
- J'en sais rien !
Viens !
- Papa il a une grosse voix
Tu crois qu'on saura parler comme ça ?
- J'en sais rien !
Viens, donne-moi la main
- Melocoton, Mémé elle rit souvent
Tu crois qu'elle est toujours contente ?
- J'en sais rien !
Viens, donne-moi la main
- Perrine elle est grande presque comme maman
Pourquoi elle joue pas avec moi ?
- J'en sais rien !
Viens, donne-moi la main
- Christophe il est grand mais pas comme papa
Pourquoi...
- J'en sais rien !
Viens, donne-moi la main
- Dis Melocoton, tu crois qu'ils nous aiment ?
- Ma p'tite Boule d'Or, j'en sais rien !
Viens, donne-moi la main...

quinta-feira, agosto 24, 2006

La Stanza del Figlio: provavelmente se...

( La stanza del figlio, de Nanni Moretti)

Giovanni - Paola...se quella domenica fossi rimasto con voi.

Paola - E' una domanda?
Giovanni - Se quella domenica io non mi fossi precipitato come un cretino a casa di quel paziente...
Paola - Dopo sarebbe comunque andato coi suoi amici...
Giovanni - Sì, ma se l'avessi portato a correre con me...poi avremmo preso un gelato, poi saremmo andati al cinema...Tu mi avevi anche detto: "Ma ci devi proprio andare?"...Era una giornata...
Paola - Giovanni è inutile, tanto non si può tornare indietro!
Giovanni - E invece è proprio quello che io voglio fare. Tornare indietro.

(Extracto de diálogos do filme, La Stanza del Figlio (2001), de Nanni Moretti)

terça-feira, agosto 22, 2006

lutar e resistir

À mesa da esplanada um amigo expõe velhos e esquecidos códigos de conduta: contra a mediocridade instalada, contra o constante abuso de poder (incluindo de dinheiros públicos), contra a promiscuidade, contra o tráfico de influências, etc. e tal. Contra tudo isto e muito mais andam milhares de pessoas neste país a lutar , diariamente, por uma sociedade mais justa. Uma sociedade que não seja tolerante com a impunidade. Qualquer dia, diz-me o meu amigo, será assim. Um dia... .

segunda-feira, agosto 21, 2006

on the road

Mais um dia de férias em território minhoto. Pela manhã, uma escapadinha à Galiza (Tuy) em busca de dvd's de grandes clássicos (não editados em Portugal) a preços chorudos de cinco euros e das rabajas de livros, de fazer inveja á fnac. Pela estrada fora, lembro-me de O'Neill pai e de O'Neill filho (o meu querido amigo Xana) já desaparecidos -em 1986 e 1991, respectivamente.A saudade, esse bicho laborioso, põe-me o olhar embaciado e um nó na garganta.
À medida que o carro avança na paisagem vem-me à memória uma noite (memorável) de verão no princípe real com gente a dissertar sobre a emergência da revolução cultural, que nunca aconteceu, e a utopia impossível que sonhámos ser realizável e que cedo pereceu com o amansar dos dias.

domingo, agosto 20, 2006

palavras de sophia (2)

fotograma da curta-metragem, Sophia de Mello Breyner Andresen,
(1969) de João César Monteiro
A forma justa
Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos - se ninguém atraiçoasse - proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
-Na concha na flor no homem no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo
Por isso recomeço sem cessar a partir de página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo
Sophia de Mello Breyner Andresen
in O Nome das Coisas, ed. Moraes, 1977


sábado, agosto 19, 2006

Anna Magnani: sentimento da tragédia

Foto: Anna Magnani,
em Mamma Roma (1962), de Pier Paolo Pasolini

“Quasi emblema, in noi l’urlo della Magnani sotto le ciocche disordinatamente assolute, rinnova nelle disperate panoramiche, e nelle occhiate vive e mute si addensa il senso della tragedia. E’ lì che si dissolve e mutila/il presente, e assorda il canto degli aedi”
P. P. Pasolini

De todas as actrizes que me ensinaram a amar o cinema, Anna Magnani ocupa um lugar singular na memória. Singular porque Magnani aplicou-se com imaginação, rigor e arte à composição de personagens femininas mais ou menos fortes mas sempre, sempre corajosas. O talento, surpreendente, respirava-se à légua.Que o digam Renoir, Visconti, Kramer, Pasolini.
Quando Magnani aparecia no ecran muito poucos seriam aqueles na plateia que não se identificavam com aquela força ou com aquele olhar expressivo, naturalmente expressivo, carregado de inquietação humana. Lembro-me de Anna Magnani, magnífica, em Mamma Roma interrogar-nos com o seu desespero sobre a natureza do mundo que faz tábua raza da redenção e lhe mata o filho. O filho que era, lembremos, o que ela poderia ter de mais valioso e profundo.

sexta-feira, agosto 18, 2006

encantamento

Godard, de novo revisitado através de Alphaville, essa parábola sobre o amor em registo de filme de aventuras e futurismo com um tal Lemmy Caution (Eddie Constantine) e um expedito computador chamado Alpha. Mas é, uma vez mais, a fotografia de Raoul Coutard -que continua belissima apesar de transcrita para suporte vídeo- que o encantamento se dá. Impossível não pensar também em Barthes.

quinta-feira, agosto 17, 2006

momento

Lembro-me de estares sentada, tranquila e feliz, à espera do momento inesperado em que eu pousaria a cabeça no teu colo e de olhos fechados experimentava a sensação magnífica de nos transformarmos em pedras -pedras como as pedras da praia de Moledo que apanhámos no outono- e assim ficarmos. Na eternidade.

quarta-feira, agosto 16, 2006

causa das coisas

Com o Médio Oriente de novo a mobilizar -pelas piores razões, como habitualmente- toda a atenção da comunidade internacional, anuncia-se , para 30 de Agosto, a estreia em Portugal de Paradise Now, de Hany Abu-Assad. Premiado em festivais de renome, candidato ao oscar de melhor filme estrangeiro (que perdeu devido, diz-se, a pressões hebraicas), o filme narra as últimas quarenta e oito horas de dois amigos de infância palestinianos escolhidos para um atentado bombista suícida em Israel. Elogiado pela generalidade da crítica (incluindo a israelita...) apesar do seu claro pendor controverso, Paradise Now é (mais) uma prova do poder "contra corrente" de algum cinema que, apesar de tudo, vai existindo e deixa marcas -às vezes profundas.

terça-feira, agosto 15, 2006

lucidez

Everybody's worried about stopping terrorism.
Well, there's a really easy way: stop participating in it.

Noam Chomsky

segunda-feira, agosto 14, 2006

palavras de o'neill (2)



A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.

Alexandre O'Neill
in Poesias Completas, 1951-1986
(Assírio & Alvim, Lisboa, 2000 )

domingo, agosto 13, 2006

palavras de o'neill

Foto: cá-de-casa - Ínsua
Gaivota

Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.
Alexandre O'Neill

sábado, agosto 12, 2006

paixão ao cinema


Tinha 16 anos quando tive o meu primeiro contacto com o cinema de Godard: A Bout de Souffle, que vi numa sessão clássica, exerceu um fascínio em mim tão grande que tive de o rever, uma , duas, três vezes sempre com a sensação de alguém que procura algo mais do que o mero desejo e sedução.
De certa maneira, os filmes de Godard tiveram o mérito de orientar a formação do meu gosto pelo cinema. Claro que Truffaut, Chabrol, Melville eram outros “mestres” europeus que permaneciam também centrais nos meus apetites, mas Godard era aquele, maior entre os maiores, que exercia em mim um fascínio invulgar; era aquele a quem eu devia reconhecimento e “fidelidade”; aquele a que se recorre sempre quer se esteja “bem” ou na “fossa”; aquele a quem nunca se recusa atender à chamada -como ocorre em todas as boas amizades.
Se falo como falo de Godard é porque o peso dos seus filmes foi responsável pelo amor que eu guardo ao cinema, não apenas por ter ganho esse amor mas sobretudo por ter sabido conservar essa capacidade em (o) amar.
Tudo isto pode parecer excessivo mas, então, porque haveria de o não ser ou ter de ser de outra maneira?

sexta-feira, agosto 11, 2006

godard+stones

Vi pela primeira vez, One+One ou, Sympathy for the Devil –título da canção dos Rolling Stones cujo ensaio o filme acompanha- ( finalmente editado em dvd em Portugal) em Junho de 1985, numa sessão da retrospectiva integral da obra de Jean-Luc Godard promovida pela Cinemateca Portuguesa.
Sendo um dos (muitos) filmes de Godard deixados na penumbra pelos distribuidores e exibidores a expectativa era justificável pelo facto simples de ter os Stones como protagonistas. Rodado em Inglaterra em 1968 -um ano depois de Made in USA, Week-End e La Chinoise (nunca estreado comercialmente em Portugal, tal como Deux ou Trois Choses Que Je Sais d’Elle, …Enfants Prodigues e Loin du Vietnam)- One+One aparentava, à primeira vista, tratar-se de um mero acto singular por parte de Godard: homenagear o mundo musical e cultural do rock’n roll.
Todavia, a presença da formação liderada por Mick Jagger servia, antes, como um detonador aos propósitos de Godard para sublimar o simbolismo dos acontecimentos políticos (Maio 68, contestação estudantil nos EUA contra a guerra na Indochina, a luta do movimento negro…) que faziam estremecer as democracias liberais, questionar o “poder da burguesia” e colocar a Revolução na ordem do dia. Os Rolling Stones eram, de certo modo, a personificação por excelência da contestação e da ideia revolucionária da mudança.
Trinta e oito anos depois, mesmo não sendo de forma alguma uma obra de referência obrigatória na filmografia de Godard, One+One / Sympathy For the Devil mantém-se um documento contemporâneo de reflexão para os tempos que correm.
Não me parece de todo abusivo se disser que One+One fez mais pelos Stones do que, muito provalmente, duas temporadas de concertos.

quinta-feira, agosto 10, 2006

estratégia da aranha


Prossegue, em quarta semana, a agressão ao Estado do Líbano.
Anteontem no noticiário da noite da sic o comentário off da jornalista às imagens de destruição de uma casa em Haifa: "Hezbollah atacou sem perdão...(sic!)".Não estando em causa saber se os "castigos" infligidos de parte a parte são medidos por maior ou menor propósito "imperdoável" , não me lembro de ter ouvido antes classificar com idêntico enfâse (e não menos "isenção") os efeitos dos bombardeamentos "cirúrgicos" da aviação hebraica .Pelos vistos,"Sem perdão" é, fica-se a saber agora, um exclusivo do "Partido de Deus". Nem seria de esperar outra coisa.
Israel precisa de mais 30 dias...de guerra.Quem o diz é um alto responsável militar do IDF. Isto quer dizer que, decorrido quase um mês de guerra é o mesmo já considerado como sendo insuficiente por Telavive. A média diária de 400 bombas lançadas desde meados de Julho sobre cidades libanesas não colheu ainda o fruto desejado. Isto também quer dizer que o "engôdo"libanês não está a surtir o efeito pretendido junto do inimigo real , a República Islâmica do Irão que tarda em reagir à "provocação". Não há problema: em Gaza e na Cisjordânea,continua-se diariamente a praticar, com toda a impunidade, o mais descarado dos abusos de Estado, -para ser suave- que tem incluído o assassinato de inocentes, raptos de parlamentares e de membros do governo e a destruição calculada das infra-estruturas básicas (água, electricidade...) da população palestiniana.
Para os incrédulos, o crime ecológico no Mediterrâneo praticado na sequência do bombardeamento de uma refinaria a norte do Líbano mostra até que ponto Israel está empenhado, com autenticidade, na destruição das "infra-estruturas" do Hezbollah.

A generalidade da imprensa continua a ignorar a existência do apelo anti-guerra do Líbano encabeçado por Noam Chomsky e subscrito por quase duas vintenas de outras personalidades cujos nomes a seguir se indicam: Tariq Ali, Mona Abaza, Matthew Abraham, Gilbert Achcar, Etel Adnan, Aziz el-Azmeh, Nadia Baghdadi, John Berger, Timothy Andres Brennan, Michaelle Browers, Alexander Cockburn, Dan Connell, Mahmoud Darwish, Richard Falk, Eduardo Galeano, Irene Gendzier, Charles Glass, Yassin al Haj Saleh, Assaf Kfoury, Elias Khouri, Ytzhak Laor, Ken Loach, Jennifer Loewenstein, Karma Nabulsi, John Pilger, Harold Pinter, Richard Powers, Tanya Reinhart, Eric Rouleau, Arundhati Roy, Sandra Shattuck, William Thelin, Gore Vidal, Howard Zinn, Stephen Zunes

"qu'est ce que c'est"


Patricia: "Quelle est votre plus grande ambition dans la vie ? "
Parvulesco: " Devenir immortel…et puis mourir. "

Jean-Luc Godard
(diáologos de A Bout de Souffle)

silêncio do mar

foto: cá-de-casa - a caminho da Ínsua
Navegar... navegar... , por entre a bruma de fumo dos incêndios,
do fogo dos fogos, de todos os fogos que nos cercam,
força destruidora que tudo quer purificar

navegar...navegar...navegar, ir e voltar ,
onde o silêncio nunca deixou de o ser.

Caminha

quarta-feira, agosto 09, 2006

felinos

foto: cá-de-casa - pintura de Guati

Mais les chats sont habitués à leur coin et il est dificile
de les habituer à un nouveau coin.
Pour ceux-lá l'art n'est pas du tout nécessaire.
Pourvu seulement que soint peints leur grand-mère ou les petites
coins aimés des bosquets de lilas.

K.Malévitch,
in L'Art du Sauvage et Ses Principes

terça-feira, agosto 08, 2006

palavras de ferré (2)

Tu ne dis jamais rien

Je vois le monde un peu comme on voit l'incroyable
L'incroyable c'est ça c'est ce qu'on ne voit pas
Des fleurs dans des crayons Debussy sur le sable
A Saint-Aubin-sur-Mer que je ne connais pas
Les filles dans du fer au fond de l'habitude
Et des mineurs creusant dans leur ventre tout chaud
Des soutiens-gorge aux chats des patrons dans le Sud
A marner pour les ouvriers de chez Renault
Moi je vis donc ailleurs dans la dimension quatre
Avec la Bande dessinée chez mc 2
Je suis Demain je suis le chêne et je suis l'âtre
Viens chez moi mon amour viens chez moi y a du feu
Je vole pour la peau sur l'aire des misères
Je suis un vieux Bœing de l'an quatre-vingt-neuf
Je pars la fleur aux dents pour la dernière guerre
Ma machine à écrire a un complet tout neuf
Je vois la stéréo dans l'œil d'une petite
Des pianos sur des ventres de fille à Paris
Un chimpanzé glacé qui chante ma musique
Avec moi doucement et toi tu n'as rien dit

Tu ne dis jamais rien tu ne dis jamais rien
Tu pleures quelquefois comme pleurent les bêtes
Sans savoir le pourquoi et qui ne disent rien
Comme toi, l'œil ailleurs, à me faire la fête

Dans ton ventre désert je vois des multitudes
Je suis Demain C'est Toi mon demain de ma vie
Je vois des fiancés perdus qui se dénudent
Au velours de ta voix qui passe sur la nuit
Je vois des odeurs tièdes sur des pavés de songe
A Paris quand je suis allongé dans son lit
A voir passer sur moi des filles et des éponges
Qui sanglotent du suc de l'âge de folie
Moi je vis donc ailleurs dans la dimension ixe
Avec la bande dessinée chez un ami
Je suis Jamais je suis Toujours et je suis l'Ixe
De la formule de l'amour et de l'ennui
Je vois des tramways bleus sur des rails d'enfants tristes
Des paravents chinois devant le vent du nord
Des objets sans objet des fenêtres d'artistes
D'où sortent le soleil le génie et la mort
Attends, je vois tout près une étoile orpheline
Qui vient dans ta maison pour te parler de moi
Je la connais depuis longtemps c'est ma voisine
Mais sa lumière est illusoire comme moi

Et tu ne me dis rien tu ne dis jamais rien
Mais tu luis dans mon cœur comme luit cette étoile
Avec ses feux perdus dans des lointains chemins
Tu ne dis jamais rien comme font les étoiles
Leo Ferré

segunda-feira, agosto 07, 2006

à vista do mar

as ondas vêm até mim e morrem antes
de tocarem os meus pés, antes
que eu te diga, olhos nos olhos, a palavra mágica
que ficou a tarde toda a pairar na imensidão do areal:
ternura

Caminha

o lugar dos impossíveis


A casa é o lugar dos impossíveis,das memórias dos dias, tão esplêndidos quanto inúteis,riscados de impaciência, de sons adormecidos;a casa é, no preciso momento em que abro uma das suas janelas, um lugar mágico onde a fala e os gestos parecem sempre renovados, ousados e libertos.

Caminha

domingo, agosto 06, 2006

vida


C'est vrai ou c'est un cauchemar?
- Je ne sais pas.
- Je t'adore, Corinne. Vien m'exciter.

- C'est pas um roman, c'est la vie. Un film

c'est la vie.

Jean Luc Godard
diálogos de Week - End (1967)

sexta-feira, agosto 04, 2006

palavras de antero de quental

Foto: copyright by Teo Dias

Nuvens da Tarde

Aquelas nuvens, que voam,
Ninguém pode pôr-lhes mão...
São como as horas que soam,
E as aves, que em bando vão...
Como a folha desprendida,
E como os sonhos da vida,
Aquelas nuvens que voam...

Às vezes o sol, que as doura,
Parece à glória levá-las
Mas surge o vento e, numa hora,
Já ninguém pode avistá-las!
É um convite enganoso,
Um escárnio luminoso,
Às vezes, o sol que as doura!

Tantos castelos caídos!
Tantas visôes dissipadas!
Gigantes, heróis perdidos,
Que mal sustêm as espadas!
Faz pena ver, lá do monte,
Nas ruínas do horizonte,
Tantos castelos caídos!

E as donzelas lastimosas,
Que vão fugindo transidas!
Quem fogem elas ansiosas?
Que buscam elas perdidas?
Ó romances fugidios!
Vejo os tiranos sombrios,
E as donzelas lastimosas!

Aquelas nuvens que vemos,
Esses poemas aéreos,
São os sonhos que nós temos,
Nossos intímos mistérios!
São espelhos flutuantes
Das nossas dores constantes
Aquelas nuvens que vemos...

Nossa alma vai-se com elas,
À procura, quem o sabe?
Doutras esferas mais belas,
Já que no mundo não cabe...
Voando, sem dar um grito,
Através desse infinito,
Nossa alma vai-se com elas!

Antero de Quental
( in Primaveras Românticas, colares editora)

quinta-feira, agosto 03, 2006

festa cinéfila


Prossegue no cinema King, até 23 de Agosto, a selecção cuidada
de filmes estreados na temporada passada.
Há muito por onde escolher: dos independentes americanos ao
moderno cinema asiático, passando pelas cinematografias europeias
(com destaque para a portuguesa) e o documentarismo
-a programação contempla também o clássico de Visconti, Il Gattopardo.
Todos os filmes são, obviamente, imperdíveis.
Calendário de sessões e horários disponíveis em (www.medeiafilmes.pt/noticias/noticias.htm)

palavras de ferré


L'oppression
by Léo Ferré

Ces mains bonnes à tout même à tenir des armes
Dans ces rues que les hommes ont tracées pour ton bien
Ces rivages perdus vers lesquels tu t'acharnes
Où tu veux aborder
Et pour t'en empêcher
Les mains de l'oppression
Regarde-la gémir sur la gueule des gens
Avec les yeux fardés d'horaires et de rêves
Regarde-là se taire aux gorges du printemps
Avec les mains trahies par la faim qui se lève
Ces yeux qui te regardent et la nuit et le jour
Et que l'on dit braqués sur les chiffres et la haine
Ces choses "défendues" vers lesquelles tu te traînes
Et qui seront à toi
Lorsque tu fermeras
Les yeux de l'oppression
Regarde-la pointer son sourire indécent
Sur la censure apprise et qui va à la messe
Regarde-la jouir dans ce jouet d'enfant
Et qui tue des fantômes en perdant ta jeunesse
Ces lois qui t'embarrassent au point de les nier
Dans les couloirs glacés de la nuit conseillère
Et l'Amour qui se lève à l'Université
Et qui t'envahira
Lorsque tu casseras
Les lois de l'oppression
Regarde-la flâner dans l'œil de tes copains
Sous le couvert joyeux de soleils fraternels
Regarde-la glisser peu à peu dans leurs mains
Qui formerons des poings
Dès qu'ils auront atteint
L'âge de l'oppression
Ces yeux qui te regardent et la nuit et le jour
Et que l'on dit braqués sur les chiffres et la haine
Ces choses "défendues" vers lesquelles tu te traînes
Et qui seront à toi
Lorsque tu fermeras
Les yeux de l'oppression

palavras de sophia

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia de Mello Breyner Andresen
( in No Tempo Dividido e Mar Novo”, Edições Salamandra, 1985, p. 79 )

quarta-feira, agosto 02, 2006

trabalho de casa (2)

Nos últimos dias o governo israelita não tem feito outra coisa senão repetir incessantemente a justificação oficial em nome da qual o Estado hebraico iníciou o brutal ataque ao Líbano: o rapto de dois militares da IDF "em território de Israel" por militantes do Hezbollah.
Porém a verdade dos factos (relatada pelas agências de informação) falam outra linguagem bem diferente daquela que a dado momento passou a ser mais conveniente a Telavive. Não subsistem dúvidas de que o envio da patrulha para território libanês fazia parte da estratégia ( tal como em Junho de 96) de "provocar" uma reacção do Hezbollah e com isso dar por adquiridas as motivações para a brutalidade desproporcionada que se seguiu.
Acresce referir que, este episódio nada teve de diferente do ocorrido em 10 Junho 1996 no sul do Líbano quando guerrilheiros do movimento Hezbollah interceptaram uma patrulha de soldados israelitas provocando cinco mortos. A resposta de Israel foi o que se sabe....
(ver www.cnn.com/.../9606/10/israel.attack/index.html)
Atente-se, pois, no artigo de Joshua Frank, que a seguir se transcreve, sem mais comentários. Para reflexão.... .

Kidnapped in Israel or Captured in Lebanon?
Official justification for Israel's invasion on thin ice
by Joshua Frank
( July 25, 2006, www.antiwar.com/frank/)

As Lebanon continues to be pounded by Israeli bombs and munitions, the justification for Israel's invasion is treading on very thin ice. It has become general knowledge that it was Hezbollah guerillas that first kidnapped two IDF soldiers inside Israel on July 12, prompting an immediate and violent response from the Israeli government, which insists it is acting in the interest of national defense. Israeli forces have gone on to kill over 370 innocent Lebanese civilians (compared to 34 killed on Israel's side) while displacing hundreds of thousands more. But numerous reports from international and independent media, as well as the Associated Press, raise questions about Israel's official version of the events that sparked the conflict two weeks ago.
The original story, as most media tell it, goes something like this: Hezbollah attacked an Israeli border patrol station, killing six and taking two soldiers hostage. The incident happened on the Lebanese/Israel border in Israeli territory. The alternate version, as explained by several news outlets, tells a bit of a different tale: These sources contend that Israel sent a commando force into southern Lebanon and was subsequently attacked by Hezbollah near the village of Aitaa al-Chaab, well inside Lebanon's southern territory. It was at this point that an Israel tank was struck by Hezbollah fighters, which resulted in the capture of two Israeli soldiers and the death of six.
As the AFP reported, "According to the Lebanese police force, the two Israeli soldiers were captured in Lebanese territory, in the area of Aitaa al-Chaab, near to the border with Israel, where an Israeli unit had penetrated in middle of morning." And the French news site www.VoltaireNet.org reiterated the same account on June 18, "In a deliberated way, [Israel] sent a commando in the Lebanese back-country to Aitaa al-Chaab. It was attacked by Hezbollah, taking two prisoners."
The Associated Press departed from the official version as well. "The militant group Hezbollah captured two Israeli soldiers during clashes Wednesday across the border in southern Lebanon, prompting a swift reaction from Israel, which sent ground forces into its neighbor to look for them," reported Joseph Panossian for AP on July 12. "The forces were trying to keep the soldiers' captors from moving them deeper into Lebanon, Israeli government officials said on condition of anonymity."
And the Hindustan Times on July 12 conveyed a similar account:
"The Lebanese Shi'ite Hezbollah movement announced on Wednesday that its guerrillas have captured two Israeli soldiers in southern Lebanon. 'Implementing our promise to free Arab prisoners in Israeli jails, our strugglers have captured two Israeli soldiers in southern Lebanon,' a statement by Hezbollah said. 'The two soldiers have already been moved to a safe place,' it added. The Lebanese police said that the two soldiers were captured as they 'infiltrated' into the town of Aitaa al-Chaab inside the Lebanese border."
Whether factual or not, these alternative accounts should at the very least raise serious questions as to Israel's motives and rationale for bombarding Lebanon.
MSNBC online first reported that Hezbollah had captured Israeli soldiers "inside" Lebanon, only to change their story hours later after the Israeli government gave an official statement to the contrary.
A report from The National Council of Arab Americans, based in Lebanon, also raised suspicion that Israel's official story did not hold water and noted that Israel had yet to recover the tank that was demolished during the initial attack in question.
"The Israelis so far have not been able to enter Aitaa al-Chaab to recover the tank that was exploded by Hezbollah and the bodies of the soldiers that were killed in the original operation (this is a main indication that the operation did take place on Lebanese soil, not that in my opinion it would ever be an illegitimate operation, but still the media has been saying that it was inside 'Israel' thus an aggression first started by Hezbollah)."
Before independent observers could organize an investigation of the incident, Israel had already mounted a grisly offensive against Lebanese infrastructure and civilians, bombing Beirut's international airport, along with numerous highways and communication portals. Israel didn't need the truth of the matter to play out before it invaded Lebanon. As with the United States' illegitimate invasion of Iraq, Israel just needed the proper media cover to wage a war with no genuine moral impetus

chauvinismo

The dangerous patriot: "The one who drifts into chauvinism and exhibits blind enthusiasm for military actions. He is a defender of militarism and its ideals of war and glory. Chauvinism is a proud and bellicose form of patriotism . . . which identifies numerous enemies who can only be dealt with through military power and which equates the national honor with military victory."

Marine Corps, Colonel James A. Donovan

trabalho de casa (1)


Depois da reunião de segunda-feira do conselho de segurança israelita ter aprovado a "expansão" das operações no sul do Líbano (as agências falam sem reservas numa penetração das tropas hebraicas previsível em cerca de 30km adentro do território libanês, até ao leito do rio Litani) , ontem em Washington foi a vez do senador republicano do Estado do Nebraska, Chuck Hagel, requerer do Presidente Bush a aplicação de um cessar fogo imediato no Médio Oriente "para pôr fim a esta loucura". Hagel foi particularmente incisivo e levantou uma questão pertinente para a Administração americana - esta que segue no parágrafo seguinte.

"How do we realistically believe that a continuation of the systematic destruction of an American friend -- the country and people of Lebanon -- is going to enhance America's image and give us the trust and credibility to lead a lasting and sustained peace effort in the Middle East?"
"Our relationship with Israel is special and historic," disse, "But it need not and cannot be at the expense of our Arab and Muslim relationships. That is an irresponsible and dangerous false choice."

O Senador Hagel vem assim juntar-se aos oito senadores que, recorda-se, tiveram na semana passada a ousadia de exigir um cessar fogo imediato.

Na BBC dá-se conta de um ataque com mísseis a um camião suspeito de "transportar armas do Hezbollah" que circulava próximo da cidade de Tiro. Afinal as únicas "armas" que integravam a carga do pesado eram...couves, couves ás dezenas, espalhadas com os destroços. Não quero ser desmancha-prazeres (quem sou eu) mas Israel pode não ter contado com a mestria
transcendental de algum imã que estivesse por perto e tivesse , num ápice,praticado um milagre; o milagre da transformação de rockets e de ak-47 em couves!

Se bem me lembro, logo no ínicio dos ataques tinha sido bombardeada uma fábrica (com direito horas depois a directo da Sic) "suspeita" de albergar rampas de rockets e mais não sei o quê. Depois de reduzida a um montão de ferros retorcidos e montões de pedras ficou a saber-se que se tratava de uma linha de produção de ...papel higiénico! Outro milagre em potência, claro!
Em Bruxelas o dia foi positivo para Blair, Bush e o governo de Telavive: a Grã-Bretanha conseguiu bloquear uma decisão acordada pela maioria dos Estados membros da União Europeia reunidos de emergência para que pedia um "cessar fogo imediato" A redacção final do documento ficou como segue o seguinte: "immediate cessation of hostilities" leading to "sustainable ceasefire".Bravo, Tony!
Na edição de hoje do conceituado diário israelita, Haaretz, dá-se conta de mais 3 mortos e 22 feridos do exército israelita na sequência de uma incursão de tropas paraquedistas á cidade libanesa de Ayta a-Shab. O ataque terá tido origem num disparo de arma anti-tanque contra os militares da IDF. Outras fontes dão conta também do abate de um heli israelita mas não ha´qaulquer confirmação oficial.
Curioso é também o facto de o Haaretz (edição on line: www.haaretz.com) ter inserido uma "caixa" a propósito de Gallipoli, o grande fiasco dos brits, em 1915, que levou à chacina de mais de 250.000 mil soldados às mãos das tropas turcas (aqui abre-se um parêntesis para lembrar que o filme de Peter Weir com um Mel Gibson de ar teen está editado em dvd). O jornalista (Moshe Arens) que atribui à "peça" o título "Gallipoli and the Lebanese Quagmire" faz uma análise interessante sobre o historial das intervenções hebraicas no Libano e deixa um aviso sobre as capacidades do Hezbollah... .
Por último, atente-se nos excelentes artigos do veterano Robert Fisk diariamente publicados no The Independent. Trata-se, sem dúvida, do melhor que se está fazendo em informação -qualificada, séria, bem estruturada. Atente-se no artigo sobre o (prevísivel) recurso à Nato para o Sul do Líbano. Um começo de "protectorado" com militares sionistas à mistura?

Oh, it's a lovely war!

terça-feira, agosto 01, 2006

crepúsculo


De todos os filmes de John Huston que vi, The Misfits (Os Inadaptados) ocupa ainda hoje um lugar especial, não apenas porque a presença de Marilyn Monroe (haveria de morrer dois anos depois da estreia) é a expressão perfeita da fragilidade e do desejo de liberdade (tal como os cavalos selvagens) mas sobretudo porque Huston teve a felicidade de ser bastante bem sucedido na exaltação da vida numa atmosfera (crepuscular) contaminada pelo desencanto e a tragédia.

"este é o tempo"


Este é o tempo
Este é o tempo
Da selva mais obscura
Até o ar azul se tornou grades
E a luz do sol se tornou impura
Esta é a noite
Densa de chacais
Pesada de amargura
Este é o tempo em que os homens renunciam.

Sophia de Mello Breyner
in Mar Novo (1958)

segunda-feira, julho 31, 2006

outro teatro



Em pouco mais de meia dúzia de meses a nova Direcção do Teatro Nacional D. Maria II teve a capacidade de intuir com particular habilidade qual o estatuto de excelência que melhor se adequaria no futuro ao Teatro Nacional não apenas para lhe garantir a reabilitação a que tem direito mas também, ou sobretudo, para o posicionar no primeiro galarim das congéneres salas das capitais europeias.
Dotado de uma programação que parece estar orientada para promover outros, novos e diferentes valores artísticos (a que se junta a evidente preocupação de recuperação de públicos) , o D.Maria II reaparece assim com a abertura de espírito indispensável e dotado de outra sensibilidade.
Ganhos evidentes dessa mudança são já notórios, -para além do êxito do Lisboa Mite e da dinamização dos espaços nobres com espectáculos regulares de música e debates- entre outros factos assinaláveis, a (re)abertura da livraria com índices de frequência e vendas que ultrapassaram as (tímidas) expectativas iniciais, a abertura à divulgação do cinema e do audiovisual, a esplanada no exterior, as visitas públicas... . Como se não bastasse, os resultados positivos (de bilheteira) que recentemente vieram a público e que ultrapassam os do período de 2004/2005 são de molde a não ofuscar a tranquilidade do percurso.

efeitos secundários

Graças ás bombas e aos mísseis que espalham a morte no Líbano em particular os actos deliberados ("selectivos") de assassínio de civis , incluindo crianças, ataques a comboios humanitários e a ambulâncias, destruição calculada das infra-estruturas básicas de um país, o governo e os militares de Israel estão (conscientemente?) a dar ao Hezbollah e ao seu líder aquilo que este nunca imaginaria sonhar ser realizável um dia: uma popularidade a subir em flecha que começa a unir os povos árabes da região e colhe a admiração e o empolgamento das populações martirizadas também da Palestina ocupada.

a força do poder

Entre os estrategas militares hebraicos deve haver, concerteza, cinéfilos puros e duros: as designações das suas "campanhas"(eufemismos...) contra os palestinianos e/ou libaneses parecem ser usualmente fruto de inspiração em clássicos do cinema, como ocorreu com a célebre "as vinhas da ira" (Grapes of Wrath, em inglês) porventura em homenagem á obra-prima de matriz social de John Ford centrada no período negro da Grande Depressão como a retratou magníficamente também John Steinbeck, a quem o filme muito deve.
Fica o "simbolismo": para Israel a razão do conflito é como sempre o foi uma questão de posse da terra. Como no filme/romance os agricultores e famílias são forçados a abandonar as suas terras por força do poder dos bancos e aprocurar a sorte noutras paragens, na Palestina aplica-se também a máxima, quem tem a força tem o poder ou vice-versa. Interessante...

domingo, julho 30, 2006

"eu acredito em ti"

Há quem creia em Deus e o veja em toda a parte.
Eu acredito em ti
E vejo-te em tudo o que na vida me dá profundo gosto de viver,
Tudo o que me sorri
E também em tudo o que me faz sofrer.
Vejo-te na recordação da minha infância
-Menino que sonhava estrelas iguais às minhas-
E no despontar das manhãs claras,
Quando o mundo era cheio de mistérios
E cada coisa uma interrogação.
Crescemos juntos sem nos conhecermos,
mas quando nos cruzámos por acaso
Eu soube que eras tu.

Maria Eugénia Cunhal
in Silêncio de Vidro, Edição de Autor, 1962

de olhos fechados

Sábado de manhã. Passo pelo café das arcadas e não resisto a tomar um café na esplanada.O meu olhar fixa-se numa mesa que começa a ser tocada pelo sol. Sento-me virado para sul, recebendo o sol de frente; tiro os óculos.

Do outro lado da rua dois cães trotam alegremente em direcção ao liceu. Fico a vê-los dobrar a esquina e a imaginar a correria que farão quando chegarem às terras que ficam por detrás da escola.Fecho os olhos e a erosão é total. Olhos fechados, sem reticências.

sábado, julho 29, 2006

if...

"If the innocent honest Man must quietly quit all he has for Peace sake, to him who will lay violent hands upon it, I desire it may be considered what kind of Peace there will be in the World, which consists only in Violence and Rapine; and which is to be maintained only for the benefit of Robbers and Oppressors."
John Locke (1632-1704) Filósofo e teórico político inglês
in Second Treatise of Civil Government, p. 465, Lasslet Edition, Cambridge University, 1960

o filme dentro do filme

(Revi, hoje á tarde, e pela 4ª vez -numa cópia em vhs,velhinha e em mau estado- , aquele que é, para mim, um dos mais belos filmes de Truffaut realizado com paixão e inteligência sobre o amor ao cinema... . Um filme dentro do filme, a imagem dentro da imagem -que outra forma mais poderosa de identificação emocional senão a que Truffaut nos propôs hà mais de 30 anos, quando Godard já anunciava entre dentes "a morte do cinema"?)

"Aux questions que le public se pose sur le thème : « Comment tourne-t-on un film ? » j’ai voulu avec La Nuit Américaine apporter des réponses visuelles, les seules possibles ; et pourtant voici que ce film devient un livre !"
François Truffaut

sexta-feira, julho 28, 2006

virose de culto

Palavras oportunas (certeiras e bem-humoradas) de José Miguel Júdice no Público de hoje:
"Os portugueses são assim. Abusam do poder, confundem poder com autoridade, acham -como os romanos achavam do direito de propriedade- que é no abuso que se revela o seu esplendor o poder de que se usufrui. E depois admiram-se que ninguém os respeite, que todos os desprezem: os menos afoitos, da forma rasca e merdosa, com facadas pelas costas logo a seguir às palmadinhas. Os outros, de frente, olhos nos olhos...mesmo quando ...se não esteve a falar para o boneco porque o boneco fugiu".

quinta-feira, julho 27, 2006

mecanismos


The propagandist's purpose is to make one set of people
forget that certain other sets of people are human
Aldous Huxley

quarta-feira, julho 26, 2006

imaginário

A noite passada
sonhei contigo, meu amor
Estavamos á espera do sol nascer
que não veio
porque entretanto acordei
sem ti
Lisboa, Entrecampo, 4 Novembro 1982

sonho


Estava a escrever e saltou-lhe a mão.Foi a correr pôr um agrafo e regressou
à secretária sempre a sangrar no papel.
Lisboa, Entrecampos, 17 de Outubro 1982

terça-feira, julho 25, 2006

carta de Chomsky, Saramago, Harold Pinter, Tariq Ali e outros

(gravura de Picasso)
letter from Chomsky and others on the recent events in the Middle East (July 19, 2006):

The latest chapter of the conflict between Israel and Palestine began when Israeli forces abducted two civilians, a doctor and his brother, from Gaza. An incident scarcely reported anywhere, except in the Turkish press. The following day the Palestinians took an Israeli soldier prisoner - and proposed a negotiated exchange against prisoners taken by the Israelis - there are approximately 10,000 in Israeli jails.That this "kidnapping" was considered an outrage, whereas the illegal military occupation of the West Bank and the systematic appropriation of its natural resources - most particularly that of water - by the Israeli Defence (!) Forces is considered a regrettable but realistic fact of life, is typical of the double standards repeatedly employed by the West in face of what has befallen the Palestinians, on the land alloted to them by international agreements, during the last seventy years.
Today outrage follows outrage; makeshift missiles cross sophisticated ones. The latter usually find their target situated where the disinherited and crowded poor live, waiting for what was once called Justice. Both categories of missile rip bodies apart horribly - who but field commanders can forget this for a moment?
Each provocation and counter-provocation is contested and preached over. But the subsequent arguments, accusations and vows, all serve as a distraction in order to divert world attention from a long-term military, economic and geographic practice whose political aim is nothing less than the liquidation of the Palestinian nation.This has to be said loud and clear for the practice, only half declared and often covert, is advancing fast these days, and, in our opinion, it must be unceasingly and eternally recognised for what it is and resisted.
Tariq Ali
John Berger
Noam Chomsky
Eduardo Galeano
Naomi Klein
Harold Pinter
Arundhati Roy
Jose Saramago
Giuliana Sgrena
Howard Zinn

(consultar site: www.chomsky.info )

caos e horror

foto:AP
Nos noticiários da manhã de ontem , mais um episódio anbsolutamente condenável e inaceitável da guerra dejá-vú no Iraque e no Afeganistão: aviões israelitas executaram várias missões de bombardeamento e de disparos de mísseis sob colunas de automoveis de civis libaneses em fuga para o Norte do Líbano. A atestar pelo número de mortos a precisão dos ataques foi tout court ( e dispensa mesmo as tais "bombas inteligentes" que Bush quer enviar a Israel): uma família de 7 membros, na maioria crianças, foi pulverizada no seu automóvel; um autocarro recebeu o impacte de um míssel (concerteza que também muito"inteligente") e 14 dos seus ocupantes tiveram morte imediata; diversas outras viaturas de civis foram atacadas numa estrada já destruída em anteriores incursões e mais 7 libaneses morreram.

Contra isto não pode haver qualquer tolerância. Nenhum israelita pode ter dúvidas numa coisa: os libaneses já perceberam que a estratégia dos sionistas não é o Hezbollah como querem fazer crer para a opinião pública mundial mas a nação soberana do Líbano. Se a estratégia era a de, no prazo imediato, virar a população libanesa (muçulmanos, judeus, cristãs) contra o movimento do Hezbollah então Telavive cometeu um erro grasso e de palmatória. É lamentável que não haja ninguém no governo de Israel que se oponha com determinação a esta carnificina gratuita e só estejam interessados nos jogos de bastidores que já pouco ou nada conseguirão mudar (a favor de Israel) no complexo tabuleiro geoestratégico que é o Medio Oriente hoje.
Lembro-me que uma das máximas dos neo-conservadores instalados em redor de Bush era o recurso ao "caos", o caos em toda a sua expressiva dimensão como esta que ora subiu á cena no Libano e nos impele cada vez mais a reflectir. Por exemplo, sobre o terrorismo de Estado.

o olhar de TeoDias

(foto: gentileza de Teodósio Dias)
O "portfólio" do Teodósio Dias (dotempoedaluz.blogspot.com) é uma espécie de irmão de outro blogue -ruasdaminhacidade.blogspot.com- também da autoria do Teo. O que fica da visão dessas páginas é mais do que fascinação de um solit(d)ário é uma visão agre e doce impregnada de memória pelas ruas da cidade do Porto, muito amado. É como se a câmara de Teo Dias ou vice-versa tivessem assumido a interessante tarefa de se constituirem numa espécie de vigilantes e/ou zeladores da cidade e de tudo o que ela incorporou e incorpora ainda, apesar dos crimes cometidos diáriamente contra ela.


O Porto tem no olhar de Teo um enorme fôlego de respiração e uma familiaridade que é, a um tempo, de forte conotação "universalizante". E interesante será descobrir como em certas fotos se criaram atmosferas mágicas, pela luz e sombras, pelos cinzentos e azuis, mas também pelos contraluzes e os enquadramentos que seguem um estilo intencionalmente experimentais.


De modo que, em Do Tempo e da Luz e no Ruas da minha cidade -Porto,TeoDias faz a sua viagem no tempo ao encontro dos lugares que a retina guardou, -valorizando os contrastes abruptos, as (re)descobertas, as surpresas...

segunda-feira, julho 24, 2006

pensando no Líbano...

All those who seek to destroy the liberties of a democratic nation ought to know that war
is the surest and shortest means to accomplish it.

Alexis de Tocqueville

domingo, julho 23, 2006

o mais forte

O espectáculo da destruição do Líbano -que está para durar, durar...- continua a merecer honras nas primeiras páginas: os bombardeamentos não arrefecem, o número dos deslocados (à sua sorte) cresce, os estrangeiros são repatriados, os rockets do Hezbollah continuam a cair em Haifa, blindados israelitas entram e saiem de território libanês e Bush deve concerteza estar a saborear um dos seus biscoitos caseiros favoritos e a ler um livro de "pernas-pró-ar"... .
Menos sorte parecem ter os palestinianos que podem neste momento de "distracção" continuar a ser chacinados (à média de 10 por dia) com maior à vontade e prosseguida a destruição infame das suas infraestruturas, como a destruição ontem de um edíficio da Autoridade Palestiniana na Cisjordânia pela artilharia israelita. Pergunto-me como conseguem os palestinianos suportar tanta iniquidade junta -o sentido de conservação? É pouco, obviamente para explicar tanta capacidade de resistência e martírio. Os palestinianos não têm mais nada a perder a não ser as próprias vidas.Esse é o seu poder.O que é perigoso, muito perigoso, para o Estado Hebraico apesar de toda a sua parafernália bélica.

cinema & história

(Foto:John Alcott / Barry Lyndon, by Stanley Kubrick,1973)
"(sobre o cinema e a história)É necessário ter presente que reconstituir é reinventar. A reconstituição do espaço, do cenário do passado, faz-se reinventando porque nos encontramos perante um problema de alheamento das formas, que não tenha ligação com o presente (...).
É uma coisa diferente de uma simples reprodução. Trata-se de Lovecraft... .E é exactamente esse o nosso tipo de relação com a história é reconstruir as formas de uma realidade da época, formas que nos aparecem estranhas. Fazer filmes históricos é -muito mais do que no caso da literatura- convocar físicamente as formas do passado".

René Allio
L'Histoire Au Cinema / Positif nº189, Jan.1977

sábado, julho 22, 2006

recordando Orwell


"The ideal set up by the Party was something huge, terrible, and glittering - a world of steel and concrete, of monstrous machines and terrifying weapons - a nation of warriors and fanatics, marching forward in perfect unity, all thinking the same thoughts and shouting the same slogans, perpetually working, fighting, triumphing, persecuting - three hundred million people all with the same face."

George Orwell, Nineteen Eighty-Four

em redor das imagens

(Foto:AP)

O Líbano resiste mas desespera. Condolezza Rice debita num telejornal um típico discurso de assessor para concluir que ainda não chegou a hora de uma força internacional da ONU se isntalar no Líbano porque, diz, ainda há muito a fazer -nem outra coisa seria de esperar, é um desperdicio deixar o trabalho(que ainda agora começou) a meio. Se desligarmos o som o que vemos é Rice de rosto impermeável ao drama de milhares de libaneses parecer estar a opinar sobre os inconvenientes das donas de casa em mudarem de detergente para a roupa ou, na melhor das hipóteses, sobre os custos para o Tesouro americano que representam as toneladas de armamento despejado nas ultimas semanas em Telavive.
Na Dois, passa quase em "pescadinha" o grupo de jornalistas ditos operacionais deslocados para o "teatro de operações": salvo uma única excepção o ar é desportivo, tranquilo e até aparenta estar divertido -nada de dramas, guerra é guerra e, pensam eles, não tarda nada temos de celebrar mais outro score de audiências. Com a morte e a destruição em directos, of course!. O contracampo dá uma ajuda: por detrás do Rodrigo dos Santos pululam luzinhas de casinhas num qualquer bairro de Israel, vê-se movimento rodoviário. Tudo está calmo. A estética segue a preceito a dos primeiros directos feitos de Bagdade pela CNN massificada depois por todas as televisões do globo que é como quem diz, noublesse oblige!.
Mudo de canal. Um libanês, de meia idade, deixa-se apanhar pela câmara no meio de destroços de casas. Quer resistir, tem um ar atónito e ao mesmo tempo extraordinariamente calmo mas obviamente tenso. Mudo outra vez de canal. Na Sic-Noticias surgem imagens que dispensam qualquer contraditório: pontes, autoestradas, tuneis de ligação rodoviária, ruas, casas, hoteis, tudo foi tocado pelas bombas e misseis lançados pelos f16 e pela artilharia hebraica. Mais adiante mostra-se o que resta de um edifício tido como uma fábrica após ter recebido o impacto de cinco misseis. Os militares israelitas podem ter, compreensivelmente, pensado, que a fábrica poderia ser um posto avançado dos terroristas e albergar armamento do Hezbollah e até, quem sabe , uma ou mais baterias dos temíveis foguetes katiuschas, mas não: a fábrica era mesmo uma fábrica a sério sem disfarces que produzia papel...higiénico !.
A par disso, registo como exemplo do pior dos cultos da demência bestial e de desumanidade aquele grupinho de meninas israelitas de ar inocente como é o ar de todas as crianças junto a um blindado de artilharia a escreverem a marcador "mensagens" nas munições agrupadas como se saídas de uma linha de montagem.
Que surpresa reservaram nesse dia, nessa hora, as meninas de Israel aos meninos e meninas libaneses? É o que saberemos com imediata brevidade nos noticiários da manhã.
Desligo o televisor e ponho-me a pensar; a pensar que vivemos num planeta encalhado, com os passageiros e tripulação à beira do naufrágio. Apocalíptico, evidentemente.

sexta-feira, julho 21, 2006

a festa da guerra (3): I hate all this


"He who joyfully marches to music in rank and file has already earned my contempt. He has been given a large brain by mistake, science for him the spinal cord would fully suffice. This disgrace to civilization should be done away with at once. Heroism at command, senseless brutality, deplorable love-of-country stance, how violently I hate all this, how despicable an ignorable war is; I would rather be torn to shreds than be a part of so base an action! It is my conviction that killing under the cloak of war is nothing but an act of murder."

Albert Einstein

a festa da guerra (2): a ditadura da minoria


Estados Unidos, Grã-Bretanha, Israel: The show must go on!

quinta-feira, julho 20, 2006

a festa da guerra (1)

(foto:AP/ CBS)

Pouco importa se Israel e os Estados Unidos estão mais uma vez a trabalhar em conjunto para cumprirem , ou tentarem cumprir, a "agenda" política que ficou desenhada a seguir não aos acontecimentos do 11 de Setembro de 2001 -como muito boa gente pensa- mas nas vésperas das eleições norte-americanas que deram a vitória a George W. Bush -"como se esperava", de resto.
Pouco importa também que o modelo engendrado (e a ser implementado) por essas duas nações para a região do Médio Oriente tenha em vista um plano (militar) ousado de"alargamento" (para não dizer, expansionismo) gradual do território actual do Estado de Israel, com uma Palestina transformada em " Nação acantonada" no seio da "Grande Israel" que será então deus e senhor na região.
O que importa verdadeiramente é saber quantos milhares de vidas de civis inocentes (já programados friamente) vão ser necessários para que o sonho sionista avance mais uma casas (como nos jogos...) e seja uma realidade.
Os últimos acontecimentos , -que vão desde a invasão de Gaza, aparentemente em perseguição dos líderes do Hamas e se estenderam num ápice ao Sul do Líbano, dominada pela organização xiita do Hezbollah- têm como pretexto a captura de soldados do exército hebraico mas a utilização desproporcionada de meios militares e a escolha de alvos a a bater mostar como Israel está empenhada em trazer à contenda a Síria e o Irão as duas nações árabes alinhadas num "eixo do mal" (Bush dixit) que representam os maiores empecilhos aos propósitos imperiais de Telavive-Washington desde a tragédia das Twin Towers em New York.
A escalada no Líbano é a prova mais evidente do desespero do governo israelita na solução da questão palestiniana. Bombardear o Norte do país do Cedro, antiga Suiça do Médio Oriente,onde não existem xiitas nem sombra do movimento radical Hezbollah é assumir na prática intenções outras meramente destruitivas da maioria das infra-estruturas básicas do Líbano. Porquê? Israel não desdenharia ter poder (que não teve em 1982) para criar outro Líbano, um Líbano "democratizado" que servisse os intentos sionistas.
Nem os libaneses, nem os palestinianos e muito menos os milhares de israelitas que se opõem cada vez mais a estas festas sangrentas promovidas pelo governo e os militares aceitam de animo leve mais esta manifestação do mal.
Quando agentes os serviços de informação e soldados de forças especiais israelitas trabalham desde a primeira hora no Iraque então tudo é possível!
Seja qual for a evolução da escalada em curso (no Libano, na Palestina) uma coisa temos de ter já em conta: é o prazer da destruição, destruição de bens e de pessoas que estamos assistindo diariamente como quem consome Frize limão ou bebe coca cola com hamburguer.
Tudo coisas perfeitamente dignas da civilização (cruel) ocidental.

quarta-feira, julho 19, 2006

esperança


A esperança tem duas filhas: raiva e coragem
raiva pelo estado das coisas, coragem para as mudar
Santo Agostinho

terça-feira, julho 18, 2006

dizem que morreste





Meu Querido Amigo,
Isto não é fácil de explicar. Andámos estes ultimos dezoito anos a vermo-nos por acaso como se vivessemos os dois em terras distantes, sem tempo para nos aturarmos um ao outro pior, sem vontade de forçar a clausura em que se foi caindo (eu mais do que tu, reconheço-o) à conta da sacana da rotina que cansa-mata, da apatia e da renúncia que se foram instalando laboriosamente apesar da resistência, aqui e acolá. Não era fácil, Miguel, fazer de conta, ignorar (sei lá) que o teu olá estás bom, seguido de, ainda estás a aturar os gajos da FNAT? e, o rematar, não queres ir lá a casa, queria dizer 'bora beber uns copos, partilhar um joint, sonhar-fazer-um-filme, ler páginas do teu próximo livro... Que tinha eu para dar, senão desculpas (algumas sem lógica) para tudo ficar para outro dia? Oportunidade? Disponibilidade? Cansaço? Foda-se!
Sempre amámos e sempre tivémos o cérebro com as mesmas imagens!
Isto não é fácil de (me) explicar. Como sabes, sempre fui um pouquinho dessarrumado aqui no lado esquerdo do peito, por razões que conheces , mas nunca me esqueci do amigo-amigo, daquele com quem se partilhou momentos profundos, daquele que esteve a nosso lado nos combates que foi preciso travar, daquele que foi recíproco, leal, afectivo. Nunca esqueci aquele verão de 77 na Ponte de Sôr de projectores de filme às costas a mostrarmos cinema português em dez localidades onde cada sessão nocturna era antecedida de festa á entrada das vilas, lembras-te?; dos miúdos correrem alegres atrás (e ao lado) do velho renault da Junta Central das Casas do Povo, das dezenas de braços no ar a voluntariarem-se para ajudar a carregar as bobines e a máquina, dos comentários, das palmas e dos assobios enquanto a fita corria na tela.
Lembro-me duma noite teres aparecido na residencial com a roupa a fumegar e a cheirar a madeira queimada porque tinhas ido ajudar apagar um incêndio próximo do celeiro onde exibias o pai tirano?. Lembro-me bem de nos deliciarmos nas tardes encaloradas com a leitura, lembro-me que foste tu que me ofereceste, no meu aniversário, o cem anos de solidão, em formato bolso da europa-américa comprado no café central e lembro-me que foi por esses dias que a ideia de fazermos a adaptação do refúgio perdido do Soeiro ganhou forma... .
É tanto aquilo que de ti para mim passou que me dói o tempo que não tivemos (não soubémos) para ter ainda tanto mais . Olho a paisagem instalada fora da minha janela e oiço sons, palavras, risos, gestos do que serias.Isto não está a ser fácil. Não, porque desejaria ter-te dito o quanto gostei, -mais do que aquilo que te disse um dia-, do teu Além Maar (que visualizei em filme, como tu havias visualizado também) que me deste o privilégio de ir lendo à medida que o ias escrevendo, anos antes de a Ler te atribuir o prémio e esse facto ter deixado muita (alguma boa...) gente estupefacta e também possessa, coitados.
Isto não é fácil, Miguel. A nossa ultima conversa, no jantar de aniversário do Jorge, ficou a pairar...
E chega, porque ainda não consegui encaixar que morreste. Para mim continuas vivo!
Um forte abraço, Miguel

segunda-feira, julho 17, 2006

de novo Godard


Quelque chose dans le corps et dans la tête s'arc-boute contre la répétition et le néant. La vie, geste plus rapide, um bras qui retombe à contretemps, un pas plus lent, une bouffée d'irregularité, un faux mouvement. Tout ce par quoi dans ce dérisoire carré de résistance contre l'éternité vide qu'est le poste de travail, il y a encore des événements, même minuscules, il y a encore un temps, même monstruosement étiré. Cette maladresse, ce déplacement superflu, cette accélération soudaine, cette main qui s'y reprend à deux fois, cette grimace, ce décrochage, c'est la vie qui s'accroche, tout ce qui en chacun des hommes de la chaine hurle silencieusement: je ne suis une machine.

(diálogos Sauve qui peut (la vie), Godard, 1979)

domingo, julho 16, 2006

para sempre, Marilyn

(foto: cena de The Seven Year Itch ,by Billy Wilder,1955)
Por além da beleza, carregada de sensualidade e deslumbramento , o corpo de Marilyn não foi apenas promovido (ia a dizer, explorado...) pela indústria de Hollywood como o "sex symbol" de uma época, foi também -e sobretudo- a imagem da inocência e de uma certa fragilidade que fizeram dela não uma "estrela" qualquer mas a "estrela" tout court, o ícone,
por quem todos nós nos perdemos (deliciados) a vida inteira,
irremediávelmente, a sonharmos tê-la nos nossos (a)braços para todo o sempre.

o peso da imagem


Gostaria, afinal, que a minha imagem imóvel, atormentada entre mil fotos
mutáveis consoante as situações, a idade, coincidisse sempre com o meu "eu"
(profundo,como se sabe); mas é o contrário que é preciso dizer: sou "eu"
que nunca coincido com a minha imagem, porque é a imagem que é pesada,
imóvel, obstinada(aquilo em que a sociedade se apoia), e sou "eu" que sou leve,
dividido, disperso e que, como um ludião, não fico quieto, agitando-me no meu bocal.
Ah, se ao menos a fotografia pudesse dar-me um corpo neutro, anatómico,
um corpo que não significa nada! Infelizmente, sou condenado pela fotografia,
que julga fazer bem ter sempre um semblante: o meu corpo não encontra nunca
o seu grau zero, ninguém, lho dá (talvez só a minha mãe? Porque não é a diferença
que retira o peso da imagem -nada como uma fotografia "objectiva", do género Photomaton, para fazer de nós um assassino, procurado pela polícia -, é o amor, o amor extremo).
Roland Barthes
(in La Chambre Claire (Note sur la photographie), Edições 70)

sábado, julho 15, 2006

"Infância"

(Fotos:Ivan's Childhood, by Tarkovski ,1962)

Sonhos
enormes como cedros
que é preciso
trazer de longe
aos ombros
para achar
no inverno da memória
este rumor
de lume:
o teu perfume,
lenha
da melancolia
Carlos de Oliveira
(in Trabalho Poético - primeiro volume, Liv. Sá da Costa)

Luminosidades(2)

Guardo na memória coisas das mais bonitas com que construímos o sonho;
como, por exemplo, utopia. Lembro-me de o tempo não parecer ter a dimensão real , parecer a eternidade, lembro-me de abrires os olhos ao acordar e sorrires um sorriso que nunca mais vi. Lembro-me das noites que não eram noites mas sim anos, muitos anos, e em que nos entregavamos à doçura das palavras que nunca mais diremos. Lembro-me de que não eramos ásperos, amargos ou violentos e de nunca nos termos sentido sufocados. Lembro-me do pão quente na madrugada, das zangas serem passageiras, dos passeios a pé pela cidade teminarem no cacau da ribeira ou na "vigilância revolucionária"; dos passeios de cacilheiro, de fazermos "joints" que fumávamos à socapa da família; lembro-me da noite de fim de ano num dos molhes da caparica, dos concertos do Zeca, do Zé Mário, do Fausto e do Cília, do branco das paredes de Beja, dos fins de tarde em Almoçageme, da praia ser só nossa, de sobrevivermos ao cansaço e ao extase; lembro-me da cerveja fresca manhã fora servir para nos dar força e alento; lembro-me de chorarmos num canto da sala a morte do amigo do peito; lembro-me de trocarmos segredos à mesa do café do bairro, lembro-me das festas na cooperativa do Alentejo, das matinées no Satélite ou no 444 a ver Godard's, lembro-me. De não existir rotina, de haver o hábito (ou a obrigação) de ser criativo (e inventivo), de lermos muito Sartre ("socialismo ou barbárie"), Marx e os clássicos russos, Hemingway, Steinbeck, Jack London, Camus, Kafka...,; lembro-me de gostarmos das fotos de Nadar,André Kertész , Klein e Mapplethorpe, de amarmos loucamente até à insanidade, de fazermos filmes em Super8 a imitar os cineastas da nouvelle vague, de assistirmos às peças dos Bonecreiros e da Comuna, do banho nocturno vestidos na praia de Armação ou do Ferragudo numa noite de outono, de adormecermos a ouvir Pete Seeger, Joplin ou Chico Buarque, e lembro-me de ficarmos deitados na relva a olhar o céu à espera de vermos estrelas candentes; lembro-me de às vezes vaguearmos horas a fio pela serra de sintra em busca do lugar ideal para um piquenique. Lembro-me de nunca termos renunciado nem traído o sonho -nem nos piores momentos- e termos desejado tudo, tudo o que a imaginação nos permitiu. Lembro-me, por exemplo, de nunca nos termos contentado com o infinito. E porque raio nós nos havíamos de contentar com o infinito?
Oeiras, Fevereiro de 97
(dez anos depois da morte de José Afonso)

sexta-feira, julho 14, 2006

sense of security

A new fascism promises security from the terror of crime. All that is required is that we take away the criminals' rights -- which, of course, are our own. Out of our desperation and fear we begin to feel a sense of security from the new totalitarian state."
Gerry Spence Lawyer
( in Give Me Liberty, 1998)

quarta-feira, julho 12, 2006

"o poema mais belo"


O poema mais belo que te posso oferecer
Não te falará da cidade deserta que às vezes desejamos
Nem da ilha isolada que o nosso cansaço de lutar vê como um sonho.
O poema mais belo que te posso oferecer
Será feito das imagens que juntas com a minha
Eu vejo misturadas nos teus olhos
Maria Eugénia Cunhal
(in Silêncio de Vidro, Edição de Autora, Abril 1962)

terça-feira, julho 11, 2006

Dores do Crescimento (4)

"(E) Quando tiver esgotado os anos, ou esquecido a juventude e o amor, com um nó na garganta, quererá tudo refazer...
E não refará senão o nó da sua gravata..."
-de um poema de Jerzy Skolimowski,
cineasta polaco, autor de Deep End

segunda-feira, julho 10, 2006

Luminosidades

(para a rita , a outra parte de mim...)

Mal chegámos a casa, recordo, acendemos pauzinhos de incenso junto à janela. O fumo
erguia-se como ao ralenti em direcção à mancha de sol de fim de dia que se instalara no tecto para ser contemplado até perecer.
Na cozinha onde reuniamos pratos e talheres num tabuleiro outras manchas de sol -sob os azulejos das paredes na mesa de madeira clara e a meio da porta- criavam um ambiente sugestivamente onírico.

Pus-me a imaginar fadas a planar na sala e gnomos a descerem pelas portas dos armários carregados de tostas , bolachas e saquinhos de chá.
Olho para ti , o corpo perseguido pelos raios solares que tomaram de assalto a cozinha,
e (toda) tu és luz.
Volto à sala e começo a colocar os pratos na mesa com o pôr do sol cada vez mais deslumbrante a demorar-se preguiçosamente na parede branca e também do lado oposto junto à janela da varanda a trespassar as cortinas cor laranja-verde de que tanto gostas.

Nesta casa, a luz que a visita torna muitas coisas em poderosos momentos,
que tu tão bem sabes traduzir em gestos e palavras.

Caminha, Setembro de 2005



Le Mépris: elogio da cinefilia



- Ce n'est plus la présence, c'est l'absence
de Dieu qui rassure l'homme.
- Donc, tu m'aime totalment?
(diálogos de Le Mépris (1963), de Jean Luc Godard)

domingo, julho 09, 2006

Franco Progresso

Por estes dias, tivémos direito a mais uns exemplares momentos probatórios da nossa querida incapacidade em sermos capazes de actuar com responsabilidade (a que poderia acrescentar-se também,e racionalidade) de sermos enfim capazes de abandonar, de uma vez por todas, o estado de hipocrisia e de maldade em que nos vimos consumindo desde sempre, com a alegria estonteante própria dos embriagados.

Entre o recrudescer do tráfico de influências, dos assaltos a postos de chefia por parte de aprendizes a ditadorzecos (clientelismo, oblige) e o afastamento dos quadros técnicos mais velhos, experimentados e possuidores de um capital de sabedoria , a fuga aos impostos dos mais ricos (não é deles o sistema que os protege?), a precarização do emprego e a novel bíblia (não criticarás!) para se aceder aos milagrosos subsídios do município promulgada por Rui Rio, até ao punhado de decisões de ilustres magistrados (como aquela peregrina ideia de que dar um tabefe numa criança deficiente mental não tem importância ou, mais recentemente, a criminalização das mulheres que praticaram o aborto) , Portugal parece estar a conduzir-se para a sua própria aniquilação como Estado e Sociedade.

De onde vem tanto irracionalismo e tanto absurdo? O caso de Gisberta é paradigmático do mais vil dos cinismos e da mais beata das hipocrisias. Ainda acaba tudo em "bem" com as culpas a serem atiradas ao infeliz transsexual por estar onde não devia e ter uma identidade contrária aos "bons valores morais".Há ainda o apelo ao nacionalismo patusco que finge que se leva a sério, mas não leva a sério coisa nenhuma, trata-se é de folclore circense por conta de mais um mundial de bola.

Aqui faz-se um parágrafo para lembrar que o Senhor Presidente da Região Autónoma da Madeira, o impagável Jardim, ordenou que as autoridades procedessem à retirada de uma bandeira do Brasil porque era maior... do que as portuguesas que a rodeavam.

Graças à comunicação social que nos dá diariamente uma excelente teatralização da realidade que interessa fazer passar, temos sempre direito ao prato forte da guerra , das guerras todas em que vamos vendo como seres humanos se destroem e sobretudo o fazem com requintada crueldade, como ocorre com mais uma incursão israelita em território palestiniano e no Iraque onde o desejado passeio triunfal sonhado por Rumsfeld se tornou num inferno.

Estamos em franco progresso!

sábado, julho 08, 2006

fragmentos

é sábado: passeio na avenida da liberdade a ouvir sons familiares há muito guardados como as imagens das fachadas das casas que desapareceram ou simplesmente mudaram -mudaram não, desapareceram é que é, os vestígios,tudo... quer dizer o tempo - como os telões gigantes publicitários dos filmes no magnífico Condes e no velho Éden (ambos concepção do Cassiano) o burburinho latejante de gente em redor das entradas a acotovelar-se nas filas das bilheteiras, ansiosa pela fita em ecrã largo com o herói preferido a aviar lambadas a torto e a direito para repôr a justiça e finalmente beijar a rapariga bonita ao som da orquestra antes da legenda the end nos devolver à realidade da rua.
Quando era miúdo lembro-me de chegar um dia aos Restauradores num autocarro de dois pisos descer ainda com ele em andamento e atravessar a praça a correr em direcção ao Politeama para aceder ao (meu primeiro) filme do Hawks -The Big Sky!
Passeio na avenida da liberdade não naquela de outros tempos mas nesta de agora, transformada num lugar de passagem, como se fosse uma gare, abandonada, quase vazia de gente e sem encanto, triste e a tresandar a solidão.

pensando em Godard depois de rever Numéro Deux


J'ai toujours été en va-et-vien, et cela dés mon enfance, avec une famille du côté du lac, et une autre de l'autre côté. Je ne suis nulle part, sinon à l'endroit où je trouve les moyens de communiquer. Je ne suis ni la prise de courant, ni la lampe. Je me sens plutôt entre les deux.
A la fois ici et ailleurs. Mais ni ici, ni ailleurs. Ce qui crée des relations difficiles,
aussi bien personelles que professionnelles.
Jean-Luc Godard

Requerimento

Seja por supostos estudos sobre os gostos em voga dos consumidores portugueses, -portanto, razões de (in)conveniência de mercado- seja por qualquer outra razão naturalmente subjectiva, o certo é que o lançamento em dvd dos êxitos da Paramount entre nós vem somando lacunas (algumas imperdoáveis) que não são conformes com o que ocorre na
generalidade dos mercados europeus.


Vem isto a propósito da incompreensível (e continuada) ausência no mercado dvd português de alguns títulos bastante interessantes (mesmo comercialmente falando) saídos dos estúdios da Paramount nos anos 60/70 ou distribuídos internacionalmente por si.


Entre tanto lixo e edições de filmezinhos que ninguém liga não seria de dar a (re)ver de uma vez por todas o provocatório If..., do realizador britânico, não menos provocador, Lindsay Anderson; ou o popularizado Harold and Maude (que muitas lotações esgotou no Apolo 70) , de Hal Ashby. Para mais, qualquer um desses títulos foram, à época, como se sabe estimáveis êxitos de bilheteira.

Património Cultural da Humanidade


Los Olvidados, o filme sublime de Luís Buñuel realizado no Méxido, em 1950,
integra desde 2003 o programa de arquivo Memória do Mundo da UNESCO.
Há por aí algum distribuidor corajoso disposto a comprar os direitos
e a estrear entre nós (em sala e em dvd) esta jóia da coroa do cinema ?

o universo perfeito


Ha dicho Octavio Paz: Basta que un hombre encadenado cierre sus ojos para que pueda hacer estallar el mundo. Y yo, parafraseando, agrego: basytaría que el párpado blanco de la pantalla pudiera reflejar la luz que le es propria para que hiciera saltar el Universo.

Luís Buñuel

(in Luís Buñuel, de Freddy Buache, Punto Omega/Guadarrama, 1976)

sexta-feira, julho 07, 2006

cintilâncias

Lembro-me, lembro-me perfeitamente de estramos os dois sentados nas rochas a ver o pôr dos sol e tu dizeres, se tivesse de morrer agora seria aqui, e ficares com o olhar preso na linha da água enquanto eu atirava pedrinhas, búzios, carcaças de caranguejos, na direcção das cristas das ondas. Lembro-me, lembro-me perfeitamente do teu vestido de seda ser batido pelo vento...
Praia de Armação de Pêra, Outubro 1981