quinta-feira, setembro 07, 2006

palavras de ruy belo


Habito na morada do castigo, madura como a areia ou o verão no mar. Eu caminhei nos passos solitários. O sol neste lugar é uma ofensa. Nós nunca cultivámos a amizade num mar mesmo maléfico e maravilhoso. No triunfo da verdura, como um grito nas vozes, às vezes tristes, alegres às vezes, meu destino de morte é esquecimento eterno. Essas flores ardentes do verão ocultas, ou nas gretas ou esconderijos, palavras inventadas e selvagens, para mim, irmão, não só do sol como da lua, são para mim, já hoje, um ser de lenda, ó minha mãe, fantástica pessoa. À casa sempre o viajante há-de voltar, muito apesar da proibição eterna dos amigos da laranjeira plantada pela lua, olhar límpido aceso da alegria colar, solar que cerca a minha aldeia, pois os mortos não têm já família. Fantásticas crianças estivais, eu salvaguardo a solidão do nome, o sacrifício, perversão humana, o coração cristão da crua idade, a respiração loquaz dos vegetais, o vento do outono sobre o mar, o severo momento do crepúsculo, poder inacessível a palavras, ao dia pleno, a perfeição da vida, esse reduto último do mar. Os juízos da morte são inexoráveis nos começos da alta primavera, com a flecha dos dias desferida e a impunidade ausente, à lua. Fantásticos silêncios de verão, grande estuário para um rio em calma, aves marinhas longe em seu descanso, rosa que imita a primitiva rosa, ou pérola que segue a primitiva pérola, a excessiva operação do verão, tudo é demasiado para mim.Frescura das manhãs junto dos cais, ó simples criaturas migratórias, ó pequenas estrelas de dezembro. Silêncio tudo e todos: fala-se de mim.
Ruy Belo

segunda-feira, setembro 04, 2006

o correr do tempo

1.Se fosse vivo, o poeta e neo-realista, Raul de Carvalho completaria hoje 86 anos. Passou os seus últimos anos de vida mergulhado na doença (que lhe havia de cortar a vida) , na solidão, magoado pelos (des)afectos e quase esquecido, votado ao quase ostracismo. Conheci-o numa tarde de sábado de verão num café prós lados do Saldanha onde morava. Como agradecimento da atenção que eu lhe dispensara nos breves minutos de conversa (também pela empatia que visivelmente lhe encuti) enquanto tomava um café ofereceu-me um poema escrito numa folha a5 dobrada ao meio. Nunca mais nos vimos. Cerca de um ano depois li no DL a noticia da sua morte.
Belíssimo e tocante é o seu poema,"Serenidade És Minha", dedicado à memória de Fernando Pessoa, de que se reproduz no parágrafo seguinte um breve extracto.
Vem serenidade, /e lembra-te de nós, /que te esperamos há séculos sempre no mesmo sítio, / um sítio aonde a morte tem todos os direitos. / Lembra-te da miséria dourada dos meus versos, / desta roupa de imagens que me cobre corpo silencioso, / das noites que passei perseguindo uma estrela, / do hálito, da fome, da doença, do crime, / com que dou vida e morte a mim próprio e aos outros.
Vem serenidade, / e acaba com o vício de plantar roseiras no duro chão dos dias,/ vício de beber água com o copo do vinho milagroso do sangue. /
/Vem, serenidade, / não apagues ainda a lâmpada que forra os cantos do meu quarto, / papel com que embrulho meus rios de aventura em que vai navegando o futuro. ..

2.No dia 4 de Setembro de 1976, -faz trinta anos- que o futuro 43º Presidente dos EUA, George W.(alker) Bush foi detido e multado por conduzir "sob influência do álcool", segundo se refere na Wikipédia.
JD

domingo, setembro 03, 2006

Minnelli amputado ou, a ditadura do fullscreen

Não se discute o propósito -que teve,aliás, todo o mérito- da exibição, sábado passado, no canal dois da RTP de um dos grandes filmes de Vincent Minnelli, Some Came Running / Deus Sabe Quanto Amei. O que se discute é o facto, em si ofensivo, de ter sido apresentada uma cópia que não respeitou (exceptuando na abertura e no final) o formato original, em Scope.
Dir-se-á que a cópia vídeo era a disponível, por conveniências de contratação ou por uma outra razão qualquer, mesmo a mais absurda (os hábitos e os gostos do público) que por vezes ocorre a um funcionário mais expedito, pouco importa. Mas não: nada pode justificar mais este atentado a uma obra de arte cinematográfica com a importância de Some Came Running em que o emprego do CinemaScope não pode ser dissociável do resto. E o resto é também a coreografia das movimentações e o tratamento dos espaços.
Para além da sua estilística, que não é de todo irrelevante, o filme de Minnelli ressente-se óbviamente do acto de afunilamento que é o da "reconstrução" dos planos, mercê da técnica do "pan scan", e do que daí resulta em termos de amputação grosseira -com a eliminação de 20 a 44% de imagem integral- da versão original de cinema.
Em vez de prestar um bom serviço, a RTP caiu na tentação de impor a ditadura do fullscreen e esteve-se marimbando para os efeitos predadores que a exibição dessa cópia necessariamente acarretou. Não se vislumbra assim onde é que residiu o respeito pelos públicos culturalmente mais exigentes que sintonizam a "dois" com mais esta (não será certamente a única) prova de ausência de bom senso. Interrogo-me do porquê de não se ter recorrido à cópia (de cinema) existente na Atalanta Filmes que há uns anos atrás foi exibida numa sala da capital com inegável sucesso de público e elogios rasgados da crítica.
JD

quinta-feira, agosto 31, 2006

o "toque" de Almodóvar

Volver, o novo filme de Pedro Almodóvar, tem estreia nacional marcada para 7 de Setembro. Ir apreciá-lo é, antes de mais, um acto de militância dos "adoradores" do cinema (de risco no excesso) de um cineasta singular que insiste nos seus filmes levar ao extremo os mais descarnados panoramas existenciais em quotidianos desolados. Subversivo e irónico.

o correr do tempo

Hoje, cumprem-se setenta anos sobre o nascimento de Otelo Saraiva de Carvalho, estratega da sublevação militar vitoriosa do 25 de Abril de 1974 que instaurou o regime democrático, restituiu as liberdades cívicas e pôs termo à guerra colonial. Apesar dos muitos incidentes de percurso (p.e., a retórica à volta do "Campo Pequeno", o espírito aventureirista consubstanciado também na ligação ao grupo "brigadista", FP-25), a personalidade de Otelo é , quer se queira quer não, indissociável do referencial histórico e político do Portugal dos últimos trinta e dois anos. É um dos rostos da Revolução.
Faz hoje trinta e três anos que morreu John Ford, um dos mais consagrados realizadores do cinema norte-americano. De ascendência irlandesa, Ford construiu uma obra admirável , inovadora (e por vezes ousada) tanto narrativamente como nas suas formas artísticas. Exemplos maiores: Grapes of Wrath, The Informer, How Green Was My Valley, The Quiet Man são alguns dos seus momentos mais refinados e criativos -curiosamente nenhum destes títulos pertence à galeria do western, que foi como é sabido o género por excelência onde Ford se tornou exímio como o comprova o sublime, The Searchers que é, talvez, o maior de todos os seus filmes.
Há vinte e seis anos, nascia na Polónia -por obra e graça de um grupo de operários de Gdansk liderados por Lech Walesa- , o movimento sindical Solidariedade. O seu aparecimento ocorreu num momento particularmente grave para o desgastado regime polaco de então. O ideário da utopia comunista -"uma terra sem amos/uma sociedade sem classes"- que triunfara em 1917 na Rússia dos Czares, começava a desmoronar-se . Estava-se nas vésperas da "perestroika" e da "glasnost", dois antídotos que Gorbatchov trazia no bolso quando subiu ao Kremlin e que de nada serviram. Destino semelhante teria o Solidarnosc quando Walesa ascendeu, por sufragio universal, ao cargo de Presidente da República

JD

quarta-feira, agosto 30, 2006

Here's to you

Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti

Here's to you Nicola and Bart
Rest forever here in our hearts
The last and final moment is yours
That agony is your triumph!

Joan Baez


terça-feira, agosto 29, 2006

palavras de sartre

foto: Henry Cartier-Bresson

Demain, tu descendras vers la ville ;
tu emporteras dans tes yeux mon dernier visage vivant,
tu seras le seul au monde à le connaître.
Il ne faudra pas l'oublier. Moi, c'est toi. Si tu vis, je vivrai.

Jean Paul Sartre
(in Morts sans sépulture, Livre de Poche n° 55, p.141)

segunda-feira, agosto 28, 2006

palavras de jacques prévert

Lásky Jedné Plavovlásky/Loves of a blonde(1965), Milos Forman
Chanson
Quel jour sommes-nous
Nous sommes tous les jours
Mon amie
Nous sommes toute la vie
Mon amour
Nous nous aimons et nous vivons
Nous vivons et nous nous aimons
Et nous ne savons pas ce que c'est que la vie
Et nous ne savons pas ce que c'est que le jour
Et nous ne savons pas ce que c'est que l'amour.
Jacques Prévert

domingo, agosto 27, 2006

film noir

Vivement Dimanche (1983), de François Truffaut

Julien: Quand les gens meurent de maladie, c'est cruel, c'est injuste, mais c'est vraiment la mort. Quand ce sont des crimes, des meurtres, des assassinats, la mort devient abstraite, comme si la solution et le mystère passaient en priorité, comme si on était dans un roman policier.
Barbara: Il est beau notre patelin vu d'ici, non?

sábado, agosto 26, 2006

palavras de colette magny


Faz hoje 34 anos que o David, colega de externato, me introduziu a socapa na sala de trabalho do pai e me pôs a ouvir no pick up esta preciosidade que durante dias, semanas e anos eu senti e digeri sem cansaço. Ah, Colette!
Melocoton et Boule d'Or
Deux gosses dans un jardin

Melocoton, où elle est maman ?
- J'en sais rien !
Viens, donne-moi la main
- Pour aller où ?
- J'en sais rien !
Viens !
- Papa il a une grosse voix
Tu crois qu'on saura parler comme ça ?
- J'en sais rien !
Viens, donne-moi la main
- Melocoton, Mémé elle rit souvent
Tu crois qu'elle est toujours contente ?
- J'en sais rien !
Viens, donne-moi la main
- Perrine elle est grande presque comme maman
Pourquoi elle joue pas avec moi ?
- J'en sais rien !
Viens, donne-moi la main
- Christophe il est grand mais pas comme papa
Pourquoi...
- J'en sais rien !
Viens, donne-moi la main
- Dis Melocoton, tu crois qu'ils nous aiment ?
- Ma p'tite Boule d'Or, j'en sais rien !
Viens, donne-moi la main...

quinta-feira, agosto 24, 2006

La Stanza del Figlio: provavelmente se...

( La stanza del figlio, de Nanni Moretti)

Giovanni - Paola...se quella domenica fossi rimasto con voi.

Paola - E' una domanda?
Giovanni - Se quella domenica io non mi fossi precipitato come un cretino a casa di quel paziente...
Paola - Dopo sarebbe comunque andato coi suoi amici...
Giovanni - Sì, ma se l'avessi portato a correre con me...poi avremmo preso un gelato, poi saremmo andati al cinema...Tu mi avevi anche detto: "Ma ci devi proprio andare?"...Era una giornata...
Paola - Giovanni è inutile, tanto non si può tornare indietro!
Giovanni - E invece è proprio quello che io voglio fare. Tornare indietro.

(Extracto de diálogos do filme, La Stanza del Figlio (2001), de Nanni Moretti)

terça-feira, agosto 22, 2006

lutar e resistir

À mesa da esplanada um amigo expõe velhos e esquecidos códigos de conduta: contra a mediocridade instalada, contra o constante abuso de poder (incluindo de dinheiros públicos), contra a promiscuidade, contra o tráfico de influências, etc. e tal. Contra tudo isto e muito mais andam milhares de pessoas neste país a lutar , diariamente, por uma sociedade mais justa. Uma sociedade que não seja tolerante com a impunidade. Qualquer dia, diz-me o meu amigo, será assim. Um dia... .

segunda-feira, agosto 21, 2006

on the road

Mais um dia de férias em território minhoto. Pela manhã, uma escapadinha à Galiza (Tuy) em busca de dvd's de grandes clássicos (não editados em Portugal) a preços chorudos de cinco euros e das rabajas de livros, de fazer inveja á fnac. Pela estrada fora, lembro-me de O'Neill pai e de O'Neill filho (o meu querido amigo Xana) já desaparecidos -em 1986 e 1991, respectivamente.A saudade, esse bicho laborioso, põe-me o olhar embaciado e um nó na garganta.
À medida que o carro avança na paisagem vem-me à memória uma noite (memorável) de verão no princípe real com gente a dissertar sobre a emergência da revolução cultural, que nunca aconteceu, e a utopia impossível que sonhámos ser realizável e que cedo pereceu com o amansar dos dias.

domingo, agosto 20, 2006

palavras de sophia (2)

fotograma da curta-metragem, Sophia de Mello Breyner Andresen,
(1969) de João César Monteiro
A forma justa
Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos - se ninguém atraiçoasse - proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
-Na concha na flor no homem no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo
Por isso recomeço sem cessar a partir de página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo
Sophia de Mello Breyner Andresen
in O Nome das Coisas, ed. Moraes, 1977


sábado, agosto 19, 2006

Anna Magnani: sentimento da tragédia

Foto: Anna Magnani,
em Mamma Roma (1962), de Pier Paolo Pasolini

“Quasi emblema, in noi l’urlo della Magnani sotto le ciocche disordinatamente assolute, rinnova nelle disperate panoramiche, e nelle occhiate vive e mute si addensa il senso della tragedia. E’ lì che si dissolve e mutila/il presente, e assorda il canto degli aedi”
P. P. Pasolini

De todas as actrizes que me ensinaram a amar o cinema, Anna Magnani ocupa um lugar singular na memória. Singular porque Magnani aplicou-se com imaginação, rigor e arte à composição de personagens femininas mais ou menos fortes mas sempre, sempre corajosas. O talento, surpreendente, respirava-se à légua.Que o digam Renoir, Visconti, Kramer, Pasolini.
Quando Magnani aparecia no ecran muito poucos seriam aqueles na plateia que não se identificavam com aquela força ou com aquele olhar expressivo, naturalmente expressivo, carregado de inquietação humana. Lembro-me de Anna Magnani, magnífica, em Mamma Roma interrogar-nos com o seu desespero sobre a natureza do mundo que faz tábua raza da redenção e lhe mata o filho. O filho que era, lembremos, o que ela poderia ter de mais valioso e profundo.

sexta-feira, agosto 18, 2006

encantamento

Godard, de novo revisitado através de Alphaville, essa parábola sobre o amor em registo de filme de aventuras e futurismo com um tal Lemmy Caution (Eddie Constantine) e um expedito computador chamado Alpha. Mas é, uma vez mais, a fotografia de Raoul Coutard -que continua belissima apesar de transcrita para suporte vídeo- que o encantamento se dá. Impossível não pensar também em Barthes.

quinta-feira, agosto 17, 2006

momento

Lembro-me de estares sentada, tranquila e feliz, à espera do momento inesperado em que eu pousaria a cabeça no teu colo e de olhos fechados experimentava a sensação magnífica de nos transformarmos em pedras -pedras como as pedras da praia de Moledo que apanhámos no outono- e assim ficarmos. Na eternidade.

quarta-feira, agosto 16, 2006

causa das coisas

Com o Médio Oriente de novo a mobilizar -pelas piores razões, como habitualmente- toda a atenção da comunidade internacional, anuncia-se , para 30 de Agosto, a estreia em Portugal de Paradise Now, de Hany Abu-Assad. Premiado em festivais de renome, candidato ao oscar de melhor filme estrangeiro (que perdeu devido, diz-se, a pressões hebraicas), o filme narra as últimas quarenta e oito horas de dois amigos de infância palestinianos escolhidos para um atentado bombista suícida em Israel. Elogiado pela generalidade da crítica (incluindo a israelita...) apesar do seu claro pendor controverso, Paradise Now é (mais) uma prova do poder "contra corrente" de algum cinema que, apesar de tudo, vai existindo e deixa marcas -às vezes profundas.

terça-feira, agosto 15, 2006

lucidez

Everybody's worried about stopping terrorism.
Well, there's a really easy way: stop participating in it.

Noam Chomsky

segunda-feira, agosto 14, 2006

palavras de o'neill (2)



A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.

Alexandre O'Neill
in Poesias Completas, 1951-1986
(Assírio & Alvim, Lisboa, 2000 )