domingo, agosto 20, 2006

palavras de sophia (2)

fotograma da curta-metragem, Sophia de Mello Breyner Andresen,
(1969) de João César Monteiro
A forma justa
Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos - se ninguém atraiçoasse - proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
-Na concha na flor no homem no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo
Por isso recomeço sem cessar a partir de página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo
Sophia de Mello Breyner Andresen
in O Nome das Coisas, ed. Moraes, 1977


sábado, agosto 19, 2006

Anna Magnani: sentimento da tragédia

Foto: Anna Magnani,
em Mamma Roma (1962), de Pier Paolo Pasolini

“Quasi emblema, in noi l’urlo della Magnani sotto le ciocche disordinatamente assolute, rinnova nelle disperate panoramiche, e nelle occhiate vive e mute si addensa il senso della tragedia. E’ lì che si dissolve e mutila/il presente, e assorda il canto degli aedi”
P. P. Pasolini

De todas as actrizes que me ensinaram a amar o cinema, Anna Magnani ocupa um lugar singular na memória. Singular porque Magnani aplicou-se com imaginação, rigor e arte à composição de personagens femininas mais ou menos fortes mas sempre, sempre corajosas. O talento, surpreendente, respirava-se à légua.Que o digam Renoir, Visconti, Kramer, Pasolini.
Quando Magnani aparecia no ecran muito poucos seriam aqueles na plateia que não se identificavam com aquela força ou com aquele olhar expressivo, naturalmente expressivo, carregado de inquietação humana. Lembro-me de Anna Magnani, magnífica, em Mamma Roma interrogar-nos com o seu desespero sobre a natureza do mundo que faz tábua raza da redenção e lhe mata o filho. O filho que era, lembremos, o que ela poderia ter de mais valioso e profundo.

sexta-feira, agosto 18, 2006

encantamento

Godard, de novo revisitado através de Alphaville, essa parábola sobre o amor em registo de filme de aventuras e futurismo com um tal Lemmy Caution (Eddie Constantine) e um expedito computador chamado Alpha. Mas é, uma vez mais, a fotografia de Raoul Coutard -que continua belissima apesar de transcrita para suporte vídeo- que o encantamento se dá. Impossível não pensar também em Barthes.

quinta-feira, agosto 17, 2006

momento

Lembro-me de estares sentada, tranquila e feliz, à espera do momento inesperado em que eu pousaria a cabeça no teu colo e de olhos fechados experimentava a sensação magnífica de nos transformarmos em pedras -pedras como as pedras da praia de Moledo que apanhámos no outono- e assim ficarmos. Na eternidade.

quarta-feira, agosto 16, 2006

causa das coisas

Com o Médio Oriente de novo a mobilizar -pelas piores razões, como habitualmente- toda a atenção da comunidade internacional, anuncia-se , para 30 de Agosto, a estreia em Portugal de Paradise Now, de Hany Abu-Assad. Premiado em festivais de renome, candidato ao oscar de melhor filme estrangeiro (que perdeu devido, diz-se, a pressões hebraicas), o filme narra as últimas quarenta e oito horas de dois amigos de infância palestinianos escolhidos para um atentado bombista suícida em Israel. Elogiado pela generalidade da crítica (incluindo a israelita...) apesar do seu claro pendor controverso, Paradise Now é (mais) uma prova do poder "contra corrente" de algum cinema que, apesar de tudo, vai existindo e deixa marcas -às vezes profundas.

terça-feira, agosto 15, 2006

lucidez

Everybody's worried about stopping terrorism.
Well, there's a really easy way: stop participating in it.

Noam Chomsky

segunda-feira, agosto 14, 2006

palavras de o'neill (2)



A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.

Alexandre O'Neill
in Poesias Completas, 1951-1986
(Assírio & Alvim, Lisboa, 2000 )

domingo, agosto 13, 2006

palavras de o'neill

Foto: cá-de-casa - Ínsua
Gaivota

Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.
Alexandre O'Neill

sábado, agosto 12, 2006

paixão ao cinema


Tinha 16 anos quando tive o meu primeiro contacto com o cinema de Godard: A Bout de Souffle, que vi numa sessão clássica, exerceu um fascínio em mim tão grande que tive de o rever, uma , duas, três vezes sempre com a sensação de alguém que procura algo mais do que o mero desejo e sedução.
De certa maneira, os filmes de Godard tiveram o mérito de orientar a formação do meu gosto pelo cinema. Claro que Truffaut, Chabrol, Melville eram outros “mestres” europeus que permaneciam também centrais nos meus apetites, mas Godard era aquele, maior entre os maiores, que exercia em mim um fascínio invulgar; era aquele a quem eu devia reconhecimento e “fidelidade”; aquele a que se recorre sempre quer se esteja “bem” ou na “fossa”; aquele a quem nunca se recusa atender à chamada -como ocorre em todas as boas amizades.
Se falo como falo de Godard é porque o peso dos seus filmes foi responsável pelo amor que eu guardo ao cinema, não apenas por ter ganho esse amor mas sobretudo por ter sabido conservar essa capacidade em (o) amar.
Tudo isto pode parecer excessivo mas, então, porque haveria de o não ser ou ter de ser de outra maneira?

sexta-feira, agosto 11, 2006

godard+stones

Vi pela primeira vez, One+One ou, Sympathy for the Devil –título da canção dos Rolling Stones cujo ensaio o filme acompanha- ( finalmente editado em dvd em Portugal) em Junho de 1985, numa sessão da retrospectiva integral da obra de Jean-Luc Godard promovida pela Cinemateca Portuguesa.
Sendo um dos (muitos) filmes de Godard deixados na penumbra pelos distribuidores e exibidores a expectativa era justificável pelo facto simples de ter os Stones como protagonistas. Rodado em Inglaterra em 1968 -um ano depois de Made in USA, Week-End e La Chinoise (nunca estreado comercialmente em Portugal, tal como Deux ou Trois Choses Que Je Sais d’Elle, …Enfants Prodigues e Loin du Vietnam)- One+One aparentava, à primeira vista, tratar-se de um mero acto singular por parte de Godard: homenagear o mundo musical e cultural do rock’n roll.
Todavia, a presença da formação liderada por Mick Jagger servia, antes, como um detonador aos propósitos de Godard para sublimar o simbolismo dos acontecimentos políticos (Maio 68, contestação estudantil nos EUA contra a guerra na Indochina, a luta do movimento negro…) que faziam estremecer as democracias liberais, questionar o “poder da burguesia” e colocar a Revolução na ordem do dia. Os Rolling Stones eram, de certo modo, a personificação por excelência da contestação e da ideia revolucionária da mudança.
Trinta e oito anos depois, mesmo não sendo de forma alguma uma obra de referência obrigatória na filmografia de Godard, One+One / Sympathy For the Devil mantém-se um documento contemporâneo de reflexão para os tempos que correm.
Não me parece de todo abusivo se disser que One+One fez mais pelos Stones do que, muito provalmente, duas temporadas de concertos.

quinta-feira, agosto 10, 2006

estratégia da aranha


Prossegue, em quarta semana, a agressão ao Estado do Líbano.
Anteontem no noticiário da noite da sic o comentário off da jornalista às imagens de destruição de uma casa em Haifa: "Hezbollah atacou sem perdão...(sic!)".Não estando em causa saber se os "castigos" infligidos de parte a parte são medidos por maior ou menor propósito "imperdoável" , não me lembro de ter ouvido antes classificar com idêntico enfâse (e não menos "isenção") os efeitos dos bombardeamentos "cirúrgicos" da aviação hebraica .Pelos vistos,"Sem perdão" é, fica-se a saber agora, um exclusivo do "Partido de Deus". Nem seria de esperar outra coisa.
Israel precisa de mais 30 dias...de guerra.Quem o diz é um alto responsável militar do IDF. Isto quer dizer que, decorrido quase um mês de guerra é o mesmo já considerado como sendo insuficiente por Telavive. A média diária de 400 bombas lançadas desde meados de Julho sobre cidades libanesas não colheu ainda o fruto desejado. Isto também quer dizer que o "engôdo"libanês não está a surtir o efeito pretendido junto do inimigo real , a República Islâmica do Irão que tarda em reagir à "provocação". Não há problema: em Gaza e na Cisjordânea,continua-se diariamente a praticar, com toda a impunidade, o mais descarado dos abusos de Estado, -para ser suave- que tem incluído o assassinato de inocentes, raptos de parlamentares e de membros do governo e a destruição calculada das infra-estruturas básicas (água, electricidade...) da população palestiniana.
Para os incrédulos, o crime ecológico no Mediterrâneo praticado na sequência do bombardeamento de uma refinaria a norte do Líbano mostra até que ponto Israel está empenhado, com autenticidade, na destruição das "infra-estruturas" do Hezbollah.

A generalidade da imprensa continua a ignorar a existência do apelo anti-guerra do Líbano encabeçado por Noam Chomsky e subscrito por quase duas vintenas de outras personalidades cujos nomes a seguir se indicam: Tariq Ali, Mona Abaza, Matthew Abraham, Gilbert Achcar, Etel Adnan, Aziz el-Azmeh, Nadia Baghdadi, John Berger, Timothy Andres Brennan, Michaelle Browers, Alexander Cockburn, Dan Connell, Mahmoud Darwish, Richard Falk, Eduardo Galeano, Irene Gendzier, Charles Glass, Yassin al Haj Saleh, Assaf Kfoury, Elias Khouri, Ytzhak Laor, Ken Loach, Jennifer Loewenstein, Karma Nabulsi, John Pilger, Harold Pinter, Richard Powers, Tanya Reinhart, Eric Rouleau, Arundhati Roy, Sandra Shattuck, William Thelin, Gore Vidal, Howard Zinn, Stephen Zunes

"qu'est ce que c'est"


Patricia: "Quelle est votre plus grande ambition dans la vie ? "
Parvulesco: " Devenir immortel…et puis mourir. "

Jean-Luc Godard
(diáologos de A Bout de Souffle)

silêncio do mar

foto: cá-de-casa - a caminho da Ínsua
Navegar... navegar... , por entre a bruma de fumo dos incêndios,
do fogo dos fogos, de todos os fogos que nos cercam,
força destruidora que tudo quer purificar

navegar...navegar...navegar, ir e voltar ,
onde o silêncio nunca deixou de o ser.

Caminha

quarta-feira, agosto 09, 2006

felinos

foto: cá-de-casa - pintura de Guati

Mais les chats sont habitués à leur coin et il est dificile
de les habituer à un nouveau coin.
Pour ceux-lá l'art n'est pas du tout nécessaire.
Pourvu seulement que soint peints leur grand-mère ou les petites
coins aimés des bosquets de lilas.

K.Malévitch,
in L'Art du Sauvage et Ses Principes

terça-feira, agosto 08, 2006

palavras de ferré (2)

Tu ne dis jamais rien

Je vois le monde un peu comme on voit l'incroyable
L'incroyable c'est ça c'est ce qu'on ne voit pas
Des fleurs dans des crayons Debussy sur le sable
A Saint-Aubin-sur-Mer que je ne connais pas
Les filles dans du fer au fond de l'habitude
Et des mineurs creusant dans leur ventre tout chaud
Des soutiens-gorge aux chats des patrons dans le Sud
A marner pour les ouvriers de chez Renault
Moi je vis donc ailleurs dans la dimension quatre
Avec la Bande dessinée chez mc 2
Je suis Demain je suis le chêne et je suis l'âtre
Viens chez moi mon amour viens chez moi y a du feu
Je vole pour la peau sur l'aire des misères
Je suis un vieux Bœing de l'an quatre-vingt-neuf
Je pars la fleur aux dents pour la dernière guerre
Ma machine à écrire a un complet tout neuf
Je vois la stéréo dans l'œil d'une petite
Des pianos sur des ventres de fille à Paris
Un chimpanzé glacé qui chante ma musique
Avec moi doucement et toi tu n'as rien dit

Tu ne dis jamais rien tu ne dis jamais rien
Tu pleures quelquefois comme pleurent les bêtes
Sans savoir le pourquoi et qui ne disent rien
Comme toi, l'œil ailleurs, à me faire la fête

Dans ton ventre désert je vois des multitudes
Je suis Demain C'est Toi mon demain de ma vie
Je vois des fiancés perdus qui se dénudent
Au velours de ta voix qui passe sur la nuit
Je vois des odeurs tièdes sur des pavés de songe
A Paris quand je suis allongé dans son lit
A voir passer sur moi des filles et des éponges
Qui sanglotent du suc de l'âge de folie
Moi je vis donc ailleurs dans la dimension ixe
Avec la bande dessinée chez un ami
Je suis Jamais je suis Toujours et je suis l'Ixe
De la formule de l'amour et de l'ennui
Je vois des tramways bleus sur des rails d'enfants tristes
Des paravents chinois devant le vent du nord
Des objets sans objet des fenêtres d'artistes
D'où sortent le soleil le génie et la mort
Attends, je vois tout près une étoile orpheline
Qui vient dans ta maison pour te parler de moi
Je la connais depuis longtemps c'est ma voisine
Mais sa lumière est illusoire comme moi

Et tu ne me dis rien tu ne dis jamais rien
Mais tu luis dans mon cœur comme luit cette étoile
Avec ses feux perdus dans des lointains chemins
Tu ne dis jamais rien comme font les étoiles
Leo Ferré

segunda-feira, agosto 07, 2006

à vista do mar

as ondas vêm até mim e morrem antes
de tocarem os meus pés, antes
que eu te diga, olhos nos olhos, a palavra mágica
que ficou a tarde toda a pairar na imensidão do areal:
ternura

Caminha

o lugar dos impossíveis


A casa é o lugar dos impossíveis,das memórias dos dias, tão esplêndidos quanto inúteis,riscados de impaciência, de sons adormecidos;a casa é, no preciso momento em que abro uma das suas janelas, um lugar mágico onde a fala e os gestos parecem sempre renovados, ousados e libertos.

Caminha

domingo, agosto 06, 2006

vida


C'est vrai ou c'est un cauchemar?
- Je ne sais pas.
- Je t'adore, Corinne. Vien m'exciter.

- C'est pas um roman, c'est la vie. Un film

c'est la vie.

Jean Luc Godard
diálogos de Week - End (1967)

sexta-feira, agosto 04, 2006

palavras de antero de quental

Foto: copyright by Teo Dias

Nuvens da Tarde

Aquelas nuvens, que voam,
Ninguém pode pôr-lhes mão...
São como as horas que soam,
E as aves, que em bando vão...
Como a folha desprendida,
E como os sonhos da vida,
Aquelas nuvens que voam...

Às vezes o sol, que as doura,
Parece à glória levá-las
Mas surge o vento e, numa hora,
Já ninguém pode avistá-las!
É um convite enganoso,
Um escárnio luminoso,
Às vezes, o sol que as doura!

Tantos castelos caídos!
Tantas visôes dissipadas!
Gigantes, heróis perdidos,
Que mal sustêm as espadas!
Faz pena ver, lá do monte,
Nas ruínas do horizonte,
Tantos castelos caídos!

E as donzelas lastimosas,
Que vão fugindo transidas!
Quem fogem elas ansiosas?
Que buscam elas perdidas?
Ó romances fugidios!
Vejo os tiranos sombrios,
E as donzelas lastimosas!

Aquelas nuvens que vemos,
Esses poemas aéreos,
São os sonhos que nós temos,
Nossos intímos mistérios!
São espelhos flutuantes
Das nossas dores constantes
Aquelas nuvens que vemos...

Nossa alma vai-se com elas,
À procura, quem o sabe?
Doutras esferas mais belas,
Já que no mundo não cabe...
Voando, sem dar um grito,
Através desse infinito,
Nossa alma vai-se com elas!

Antero de Quental
( in Primaveras Românticas, colares editora)

quinta-feira, agosto 03, 2006

festa cinéfila


Prossegue no cinema King, até 23 de Agosto, a selecção cuidada
de filmes estreados na temporada passada.
Há muito por onde escolher: dos independentes americanos ao
moderno cinema asiático, passando pelas cinematografias europeias
(com destaque para a portuguesa) e o documentarismo
-a programação contempla também o clássico de Visconti, Il Gattopardo.
Todos os filmes são, obviamente, imperdíveis.
Calendário de sessões e horários disponíveis em (www.medeiafilmes.pt/noticias/noticias.htm)