segunda-feira, agosto 07, 2006

à vista do mar

as ondas vêm até mim e morrem antes
de tocarem os meus pés, antes
que eu te diga, olhos nos olhos, a palavra mágica
que ficou a tarde toda a pairar na imensidão do areal:
ternura

Caminha

o lugar dos impossíveis


A casa é o lugar dos impossíveis,das memórias dos dias, tão esplêndidos quanto inúteis,riscados de impaciência, de sons adormecidos;a casa é, no preciso momento em que abro uma das suas janelas, um lugar mágico onde a fala e os gestos parecem sempre renovados, ousados e libertos.

Caminha

domingo, agosto 06, 2006

vida


C'est vrai ou c'est un cauchemar?
- Je ne sais pas.
- Je t'adore, Corinne. Vien m'exciter.

- C'est pas um roman, c'est la vie. Un film

c'est la vie.

Jean Luc Godard
diálogos de Week - End (1967)

sexta-feira, agosto 04, 2006

palavras de antero de quental

Foto: copyright by Teo Dias

Nuvens da Tarde

Aquelas nuvens, que voam,
Ninguém pode pôr-lhes mão...
São como as horas que soam,
E as aves, que em bando vão...
Como a folha desprendida,
E como os sonhos da vida,
Aquelas nuvens que voam...

Às vezes o sol, que as doura,
Parece à glória levá-las
Mas surge o vento e, numa hora,
Já ninguém pode avistá-las!
É um convite enganoso,
Um escárnio luminoso,
Às vezes, o sol que as doura!

Tantos castelos caídos!
Tantas visôes dissipadas!
Gigantes, heróis perdidos,
Que mal sustêm as espadas!
Faz pena ver, lá do monte,
Nas ruínas do horizonte,
Tantos castelos caídos!

E as donzelas lastimosas,
Que vão fugindo transidas!
Quem fogem elas ansiosas?
Que buscam elas perdidas?
Ó romances fugidios!
Vejo os tiranos sombrios,
E as donzelas lastimosas!

Aquelas nuvens que vemos,
Esses poemas aéreos,
São os sonhos que nós temos,
Nossos intímos mistérios!
São espelhos flutuantes
Das nossas dores constantes
Aquelas nuvens que vemos...

Nossa alma vai-se com elas,
À procura, quem o sabe?
Doutras esferas mais belas,
Já que no mundo não cabe...
Voando, sem dar um grito,
Através desse infinito,
Nossa alma vai-se com elas!

Antero de Quental
( in Primaveras Românticas, colares editora)

quinta-feira, agosto 03, 2006

festa cinéfila


Prossegue no cinema King, até 23 de Agosto, a selecção cuidada
de filmes estreados na temporada passada.
Há muito por onde escolher: dos independentes americanos ao
moderno cinema asiático, passando pelas cinematografias europeias
(com destaque para a portuguesa) e o documentarismo
-a programação contempla também o clássico de Visconti, Il Gattopardo.
Todos os filmes são, obviamente, imperdíveis.
Calendário de sessões e horários disponíveis em (www.medeiafilmes.pt/noticias/noticias.htm)

palavras de ferré


L'oppression
by Léo Ferré

Ces mains bonnes à tout même à tenir des armes
Dans ces rues que les hommes ont tracées pour ton bien
Ces rivages perdus vers lesquels tu t'acharnes
Où tu veux aborder
Et pour t'en empêcher
Les mains de l'oppression
Regarde-la gémir sur la gueule des gens
Avec les yeux fardés d'horaires et de rêves
Regarde-là se taire aux gorges du printemps
Avec les mains trahies par la faim qui se lève
Ces yeux qui te regardent et la nuit et le jour
Et que l'on dit braqués sur les chiffres et la haine
Ces choses "défendues" vers lesquelles tu te traînes
Et qui seront à toi
Lorsque tu fermeras
Les yeux de l'oppression
Regarde-la pointer son sourire indécent
Sur la censure apprise et qui va à la messe
Regarde-la jouir dans ce jouet d'enfant
Et qui tue des fantômes en perdant ta jeunesse
Ces lois qui t'embarrassent au point de les nier
Dans les couloirs glacés de la nuit conseillère
Et l'Amour qui se lève à l'Université
Et qui t'envahira
Lorsque tu casseras
Les lois de l'oppression
Regarde-la flâner dans l'œil de tes copains
Sous le couvert joyeux de soleils fraternels
Regarde-la glisser peu à peu dans leurs mains
Qui formerons des poings
Dès qu'ils auront atteint
L'âge de l'oppression
Ces yeux qui te regardent et la nuit et le jour
Et que l'on dit braqués sur les chiffres et la haine
Ces choses "défendues" vers lesquelles tu te traînes
Et qui seront à toi
Lorsque tu fermeras
Les yeux de l'oppression

palavras de sophia

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia de Mello Breyner Andresen
( in No Tempo Dividido e Mar Novo”, Edições Salamandra, 1985, p. 79 )

quarta-feira, agosto 02, 2006

trabalho de casa (2)

Nos últimos dias o governo israelita não tem feito outra coisa senão repetir incessantemente a justificação oficial em nome da qual o Estado hebraico iníciou o brutal ataque ao Líbano: o rapto de dois militares da IDF "em território de Israel" por militantes do Hezbollah.
Porém a verdade dos factos (relatada pelas agências de informação) falam outra linguagem bem diferente daquela que a dado momento passou a ser mais conveniente a Telavive. Não subsistem dúvidas de que o envio da patrulha para território libanês fazia parte da estratégia ( tal como em Junho de 96) de "provocar" uma reacção do Hezbollah e com isso dar por adquiridas as motivações para a brutalidade desproporcionada que se seguiu.
Acresce referir que, este episódio nada teve de diferente do ocorrido em 10 Junho 1996 no sul do Líbano quando guerrilheiros do movimento Hezbollah interceptaram uma patrulha de soldados israelitas provocando cinco mortos. A resposta de Israel foi o que se sabe....
(ver www.cnn.com/.../9606/10/israel.attack/index.html)
Atente-se, pois, no artigo de Joshua Frank, que a seguir se transcreve, sem mais comentários. Para reflexão.... .

Kidnapped in Israel or Captured in Lebanon?
Official justification for Israel's invasion on thin ice
by Joshua Frank
( July 25, 2006, www.antiwar.com/frank/)

As Lebanon continues to be pounded by Israeli bombs and munitions, the justification for Israel's invasion is treading on very thin ice. It has become general knowledge that it was Hezbollah guerillas that first kidnapped two IDF soldiers inside Israel on July 12, prompting an immediate and violent response from the Israeli government, which insists it is acting in the interest of national defense. Israeli forces have gone on to kill over 370 innocent Lebanese civilians (compared to 34 killed on Israel's side) while displacing hundreds of thousands more. But numerous reports from international and independent media, as well as the Associated Press, raise questions about Israel's official version of the events that sparked the conflict two weeks ago.
The original story, as most media tell it, goes something like this: Hezbollah attacked an Israeli border patrol station, killing six and taking two soldiers hostage. The incident happened on the Lebanese/Israel border in Israeli territory. The alternate version, as explained by several news outlets, tells a bit of a different tale: These sources contend that Israel sent a commando force into southern Lebanon and was subsequently attacked by Hezbollah near the village of Aitaa al-Chaab, well inside Lebanon's southern territory. It was at this point that an Israel tank was struck by Hezbollah fighters, which resulted in the capture of two Israeli soldiers and the death of six.
As the AFP reported, "According to the Lebanese police force, the two Israeli soldiers were captured in Lebanese territory, in the area of Aitaa al-Chaab, near to the border with Israel, where an Israeli unit had penetrated in middle of morning." And the French news site www.VoltaireNet.org reiterated the same account on June 18, "In a deliberated way, [Israel] sent a commando in the Lebanese back-country to Aitaa al-Chaab. It was attacked by Hezbollah, taking two prisoners."
The Associated Press departed from the official version as well. "The militant group Hezbollah captured two Israeli soldiers during clashes Wednesday across the border in southern Lebanon, prompting a swift reaction from Israel, which sent ground forces into its neighbor to look for them," reported Joseph Panossian for AP on July 12. "The forces were trying to keep the soldiers' captors from moving them deeper into Lebanon, Israeli government officials said on condition of anonymity."
And the Hindustan Times on July 12 conveyed a similar account:
"The Lebanese Shi'ite Hezbollah movement announced on Wednesday that its guerrillas have captured two Israeli soldiers in southern Lebanon. 'Implementing our promise to free Arab prisoners in Israeli jails, our strugglers have captured two Israeli soldiers in southern Lebanon,' a statement by Hezbollah said. 'The two soldiers have already been moved to a safe place,' it added. The Lebanese police said that the two soldiers were captured as they 'infiltrated' into the town of Aitaa al-Chaab inside the Lebanese border."
Whether factual or not, these alternative accounts should at the very least raise serious questions as to Israel's motives and rationale for bombarding Lebanon.
MSNBC online first reported that Hezbollah had captured Israeli soldiers "inside" Lebanon, only to change their story hours later after the Israeli government gave an official statement to the contrary.
A report from The National Council of Arab Americans, based in Lebanon, also raised suspicion that Israel's official story did not hold water and noted that Israel had yet to recover the tank that was demolished during the initial attack in question.
"The Israelis so far have not been able to enter Aitaa al-Chaab to recover the tank that was exploded by Hezbollah and the bodies of the soldiers that were killed in the original operation (this is a main indication that the operation did take place on Lebanese soil, not that in my opinion it would ever be an illegitimate operation, but still the media has been saying that it was inside 'Israel' thus an aggression first started by Hezbollah)."
Before independent observers could organize an investigation of the incident, Israel had already mounted a grisly offensive against Lebanese infrastructure and civilians, bombing Beirut's international airport, along with numerous highways and communication portals. Israel didn't need the truth of the matter to play out before it invaded Lebanon. As with the United States' illegitimate invasion of Iraq, Israel just needed the proper media cover to wage a war with no genuine moral impetus

chauvinismo

The dangerous patriot: "The one who drifts into chauvinism and exhibits blind enthusiasm for military actions. He is a defender of militarism and its ideals of war and glory. Chauvinism is a proud and bellicose form of patriotism . . . which identifies numerous enemies who can only be dealt with through military power and which equates the national honor with military victory."

Marine Corps, Colonel James A. Donovan

trabalho de casa (1)


Depois da reunião de segunda-feira do conselho de segurança israelita ter aprovado a "expansão" das operações no sul do Líbano (as agências falam sem reservas numa penetração das tropas hebraicas previsível em cerca de 30km adentro do território libanês, até ao leito do rio Litani) , ontem em Washington foi a vez do senador republicano do Estado do Nebraska, Chuck Hagel, requerer do Presidente Bush a aplicação de um cessar fogo imediato no Médio Oriente "para pôr fim a esta loucura". Hagel foi particularmente incisivo e levantou uma questão pertinente para a Administração americana - esta que segue no parágrafo seguinte.

"How do we realistically believe that a continuation of the systematic destruction of an American friend -- the country and people of Lebanon -- is going to enhance America's image and give us the trust and credibility to lead a lasting and sustained peace effort in the Middle East?"
"Our relationship with Israel is special and historic," disse, "But it need not and cannot be at the expense of our Arab and Muslim relationships. That is an irresponsible and dangerous false choice."

O Senador Hagel vem assim juntar-se aos oito senadores que, recorda-se, tiveram na semana passada a ousadia de exigir um cessar fogo imediato.

Na BBC dá-se conta de um ataque com mísseis a um camião suspeito de "transportar armas do Hezbollah" que circulava próximo da cidade de Tiro. Afinal as únicas "armas" que integravam a carga do pesado eram...couves, couves ás dezenas, espalhadas com os destroços. Não quero ser desmancha-prazeres (quem sou eu) mas Israel pode não ter contado com a mestria
transcendental de algum imã que estivesse por perto e tivesse , num ápice,praticado um milagre; o milagre da transformação de rockets e de ak-47 em couves!

Se bem me lembro, logo no ínicio dos ataques tinha sido bombardeada uma fábrica (com direito horas depois a directo da Sic) "suspeita" de albergar rampas de rockets e mais não sei o quê. Depois de reduzida a um montão de ferros retorcidos e montões de pedras ficou a saber-se que se tratava de uma linha de produção de ...papel higiénico! Outro milagre em potência, claro!
Em Bruxelas o dia foi positivo para Blair, Bush e o governo de Telavive: a Grã-Bretanha conseguiu bloquear uma decisão acordada pela maioria dos Estados membros da União Europeia reunidos de emergência para que pedia um "cessar fogo imediato" A redacção final do documento ficou como segue o seguinte: "immediate cessation of hostilities" leading to "sustainable ceasefire".Bravo, Tony!
Na edição de hoje do conceituado diário israelita, Haaretz, dá-se conta de mais 3 mortos e 22 feridos do exército israelita na sequência de uma incursão de tropas paraquedistas á cidade libanesa de Ayta a-Shab. O ataque terá tido origem num disparo de arma anti-tanque contra os militares da IDF. Outras fontes dão conta também do abate de um heli israelita mas não ha´qaulquer confirmação oficial.
Curioso é também o facto de o Haaretz (edição on line: www.haaretz.com) ter inserido uma "caixa" a propósito de Gallipoli, o grande fiasco dos brits, em 1915, que levou à chacina de mais de 250.000 mil soldados às mãos das tropas turcas (aqui abre-se um parêntesis para lembrar que o filme de Peter Weir com um Mel Gibson de ar teen está editado em dvd). O jornalista (Moshe Arens) que atribui à "peça" o título "Gallipoli and the Lebanese Quagmire" faz uma análise interessante sobre o historial das intervenções hebraicas no Libano e deixa um aviso sobre as capacidades do Hezbollah... .
Por último, atente-se nos excelentes artigos do veterano Robert Fisk diariamente publicados no The Independent. Trata-se, sem dúvida, do melhor que se está fazendo em informação -qualificada, séria, bem estruturada. Atente-se no artigo sobre o (prevísivel) recurso à Nato para o Sul do Líbano. Um começo de "protectorado" com militares sionistas à mistura?

Oh, it's a lovely war!

terça-feira, agosto 01, 2006

crepúsculo


De todos os filmes de John Huston que vi, The Misfits (Os Inadaptados) ocupa ainda hoje um lugar especial, não apenas porque a presença de Marilyn Monroe (haveria de morrer dois anos depois da estreia) é a expressão perfeita da fragilidade e do desejo de liberdade (tal como os cavalos selvagens) mas sobretudo porque Huston teve a felicidade de ser bastante bem sucedido na exaltação da vida numa atmosfera (crepuscular) contaminada pelo desencanto e a tragédia.

"este é o tempo"


Este é o tempo
Este é o tempo
Da selva mais obscura
Até o ar azul se tornou grades
E a luz do sol se tornou impura
Esta é a noite
Densa de chacais
Pesada de amargura
Este é o tempo em que os homens renunciam.

Sophia de Mello Breyner
in Mar Novo (1958)

segunda-feira, julho 31, 2006

outro teatro



Em pouco mais de meia dúzia de meses a nova Direcção do Teatro Nacional D. Maria II teve a capacidade de intuir com particular habilidade qual o estatuto de excelência que melhor se adequaria no futuro ao Teatro Nacional não apenas para lhe garantir a reabilitação a que tem direito mas também, ou sobretudo, para o posicionar no primeiro galarim das congéneres salas das capitais europeias.
Dotado de uma programação que parece estar orientada para promover outros, novos e diferentes valores artísticos (a que se junta a evidente preocupação de recuperação de públicos) , o D.Maria II reaparece assim com a abertura de espírito indispensável e dotado de outra sensibilidade.
Ganhos evidentes dessa mudança são já notórios, -para além do êxito do Lisboa Mite e da dinamização dos espaços nobres com espectáculos regulares de música e debates- entre outros factos assinaláveis, a (re)abertura da livraria com índices de frequência e vendas que ultrapassaram as (tímidas) expectativas iniciais, a abertura à divulgação do cinema e do audiovisual, a esplanada no exterior, as visitas públicas... . Como se não bastasse, os resultados positivos (de bilheteira) que recentemente vieram a público e que ultrapassam os do período de 2004/2005 são de molde a não ofuscar a tranquilidade do percurso.

efeitos secundários

Graças ás bombas e aos mísseis que espalham a morte no Líbano em particular os actos deliberados ("selectivos") de assassínio de civis , incluindo crianças, ataques a comboios humanitários e a ambulâncias, destruição calculada das infra-estruturas básicas de um país, o governo e os militares de Israel estão (conscientemente?) a dar ao Hezbollah e ao seu líder aquilo que este nunca imaginaria sonhar ser realizável um dia: uma popularidade a subir em flecha que começa a unir os povos árabes da região e colhe a admiração e o empolgamento das populações martirizadas também da Palestina ocupada.

a força do poder

Entre os estrategas militares hebraicos deve haver, concerteza, cinéfilos puros e duros: as designações das suas "campanhas"(eufemismos...) contra os palestinianos e/ou libaneses parecem ser usualmente fruto de inspiração em clássicos do cinema, como ocorreu com a célebre "as vinhas da ira" (Grapes of Wrath, em inglês) porventura em homenagem á obra-prima de matriz social de John Ford centrada no período negro da Grande Depressão como a retratou magníficamente também John Steinbeck, a quem o filme muito deve.
Fica o "simbolismo": para Israel a razão do conflito é como sempre o foi uma questão de posse da terra. Como no filme/romance os agricultores e famílias são forçados a abandonar as suas terras por força do poder dos bancos e aprocurar a sorte noutras paragens, na Palestina aplica-se também a máxima, quem tem a força tem o poder ou vice-versa. Interessante...

domingo, julho 30, 2006

"eu acredito em ti"

Há quem creia em Deus e o veja em toda a parte.
Eu acredito em ti
E vejo-te em tudo o que na vida me dá profundo gosto de viver,
Tudo o que me sorri
E também em tudo o que me faz sofrer.
Vejo-te na recordação da minha infância
-Menino que sonhava estrelas iguais às minhas-
E no despontar das manhãs claras,
Quando o mundo era cheio de mistérios
E cada coisa uma interrogação.
Crescemos juntos sem nos conhecermos,
mas quando nos cruzámos por acaso
Eu soube que eras tu.

Maria Eugénia Cunhal
in Silêncio de Vidro, Edição de Autor, 1962

de olhos fechados

Sábado de manhã. Passo pelo café das arcadas e não resisto a tomar um café na esplanada.O meu olhar fixa-se numa mesa que começa a ser tocada pelo sol. Sento-me virado para sul, recebendo o sol de frente; tiro os óculos.

Do outro lado da rua dois cães trotam alegremente em direcção ao liceu. Fico a vê-los dobrar a esquina e a imaginar a correria que farão quando chegarem às terras que ficam por detrás da escola.Fecho os olhos e a erosão é total. Olhos fechados, sem reticências.

sábado, julho 29, 2006

if...

"If the innocent honest Man must quietly quit all he has for Peace sake, to him who will lay violent hands upon it, I desire it may be considered what kind of Peace there will be in the World, which consists only in Violence and Rapine; and which is to be maintained only for the benefit of Robbers and Oppressors."
John Locke (1632-1704) Filósofo e teórico político inglês
in Second Treatise of Civil Government, p. 465, Lasslet Edition, Cambridge University, 1960

o filme dentro do filme

(Revi, hoje á tarde, e pela 4ª vez -numa cópia em vhs,velhinha e em mau estado- , aquele que é, para mim, um dos mais belos filmes de Truffaut realizado com paixão e inteligência sobre o amor ao cinema... . Um filme dentro do filme, a imagem dentro da imagem -que outra forma mais poderosa de identificação emocional senão a que Truffaut nos propôs hà mais de 30 anos, quando Godard já anunciava entre dentes "a morte do cinema"?)

"Aux questions que le public se pose sur le thème : « Comment tourne-t-on un film ? » j’ai voulu avec La Nuit Américaine apporter des réponses visuelles, les seules possibles ; et pourtant voici que ce film devient un livre !"
François Truffaut

sexta-feira, julho 28, 2006

virose de culto

Palavras oportunas (certeiras e bem-humoradas) de José Miguel Júdice no Público de hoje:
"Os portugueses são assim. Abusam do poder, confundem poder com autoridade, acham -como os romanos achavam do direito de propriedade- que é no abuso que se revela o seu esplendor o poder de que se usufrui. E depois admiram-se que ninguém os respeite, que todos os desprezem: os menos afoitos, da forma rasca e merdosa, com facadas pelas costas logo a seguir às palmadinhas. Os outros, de frente, olhos nos olhos...mesmo quando ...se não esteve a falar para o boneco porque o boneco fugiu".