segunda-feira, julho 31, 2006

outro teatro



Em pouco mais de meia dúzia de meses a nova Direcção do Teatro Nacional D. Maria II teve a capacidade de intuir com particular habilidade qual o estatuto de excelência que melhor se adequaria no futuro ao Teatro Nacional não apenas para lhe garantir a reabilitação a que tem direito mas também, ou sobretudo, para o posicionar no primeiro galarim das congéneres salas das capitais europeias.
Dotado de uma programação que parece estar orientada para promover outros, novos e diferentes valores artísticos (a que se junta a evidente preocupação de recuperação de públicos) , o D.Maria II reaparece assim com a abertura de espírito indispensável e dotado de outra sensibilidade.
Ganhos evidentes dessa mudança são já notórios, -para além do êxito do Lisboa Mite e da dinamização dos espaços nobres com espectáculos regulares de música e debates- entre outros factos assinaláveis, a (re)abertura da livraria com índices de frequência e vendas que ultrapassaram as (tímidas) expectativas iniciais, a abertura à divulgação do cinema e do audiovisual, a esplanada no exterior, as visitas públicas... . Como se não bastasse, os resultados positivos (de bilheteira) que recentemente vieram a público e que ultrapassam os do período de 2004/2005 são de molde a não ofuscar a tranquilidade do percurso.

efeitos secundários

Graças ás bombas e aos mísseis que espalham a morte no Líbano em particular os actos deliberados ("selectivos") de assassínio de civis , incluindo crianças, ataques a comboios humanitários e a ambulâncias, destruição calculada das infra-estruturas básicas de um país, o governo e os militares de Israel estão (conscientemente?) a dar ao Hezbollah e ao seu líder aquilo que este nunca imaginaria sonhar ser realizável um dia: uma popularidade a subir em flecha que começa a unir os povos árabes da região e colhe a admiração e o empolgamento das populações martirizadas também da Palestina ocupada.

a força do poder

Entre os estrategas militares hebraicos deve haver, concerteza, cinéfilos puros e duros: as designações das suas "campanhas"(eufemismos...) contra os palestinianos e/ou libaneses parecem ser usualmente fruto de inspiração em clássicos do cinema, como ocorreu com a célebre "as vinhas da ira" (Grapes of Wrath, em inglês) porventura em homenagem á obra-prima de matriz social de John Ford centrada no período negro da Grande Depressão como a retratou magníficamente também John Steinbeck, a quem o filme muito deve.
Fica o "simbolismo": para Israel a razão do conflito é como sempre o foi uma questão de posse da terra. Como no filme/romance os agricultores e famílias são forçados a abandonar as suas terras por força do poder dos bancos e aprocurar a sorte noutras paragens, na Palestina aplica-se também a máxima, quem tem a força tem o poder ou vice-versa. Interessante...

domingo, julho 30, 2006

"eu acredito em ti"

Há quem creia em Deus e o veja em toda a parte.
Eu acredito em ti
E vejo-te em tudo o que na vida me dá profundo gosto de viver,
Tudo o que me sorri
E também em tudo o que me faz sofrer.
Vejo-te na recordação da minha infância
-Menino que sonhava estrelas iguais às minhas-
E no despontar das manhãs claras,
Quando o mundo era cheio de mistérios
E cada coisa uma interrogação.
Crescemos juntos sem nos conhecermos,
mas quando nos cruzámos por acaso
Eu soube que eras tu.

Maria Eugénia Cunhal
in Silêncio de Vidro, Edição de Autor, 1962

de olhos fechados

Sábado de manhã. Passo pelo café das arcadas e não resisto a tomar um café na esplanada.O meu olhar fixa-se numa mesa que começa a ser tocada pelo sol. Sento-me virado para sul, recebendo o sol de frente; tiro os óculos.

Do outro lado da rua dois cães trotam alegremente em direcção ao liceu. Fico a vê-los dobrar a esquina e a imaginar a correria que farão quando chegarem às terras que ficam por detrás da escola.Fecho os olhos e a erosão é total. Olhos fechados, sem reticências.

sábado, julho 29, 2006

if...

"If the innocent honest Man must quietly quit all he has for Peace sake, to him who will lay violent hands upon it, I desire it may be considered what kind of Peace there will be in the World, which consists only in Violence and Rapine; and which is to be maintained only for the benefit of Robbers and Oppressors."
John Locke (1632-1704) Filósofo e teórico político inglês
in Second Treatise of Civil Government, p. 465, Lasslet Edition, Cambridge University, 1960

o filme dentro do filme

(Revi, hoje á tarde, e pela 4ª vez -numa cópia em vhs,velhinha e em mau estado- , aquele que é, para mim, um dos mais belos filmes de Truffaut realizado com paixão e inteligência sobre o amor ao cinema... . Um filme dentro do filme, a imagem dentro da imagem -que outra forma mais poderosa de identificação emocional senão a que Truffaut nos propôs hà mais de 30 anos, quando Godard já anunciava entre dentes "a morte do cinema"?)

"Aux questions que le public se pose sur le thème : « Comment tourne-t-on un film ? » j’ai voulu avec La Nuit Américaine apporter des réponses visuelles, les seules possibles ; et pourtant voici que ce film devient un livre !"
François Truffaut

sexta-feira, julho 28, 2006

virose de culto

Palavras oportunas (certeiras e bem-humoradas) de José Miguel Júdice no Público de hoje:
"Os portugueses são assim. Abusam do poder, confundem poder com autoridade, acham -como os romanos achavam do direito de propriedade- que é no abuso que se revela o seu esplendor o poder de que se usufrui. E depois admiram-se que ninguém os respeite, que todos os desprezem: os menos afoitos, da forma rasca e merdosa, com facadas pelas costas logo a seguir às palmadinhas. Os outros, de frente, olhos nos olhos...mesmo quando ...se não esteve a falar para o boneco porque o boneco fugiu".

quinta-feira, julho 27, 2006

mecanismos


The propagandist's purpose is to make one set of people
forget that certain other sets of people are human
Aldous Huxley

quarta-feira, julho 26, 2006

imaginário

A noite passada
sonhei contigo, meu amor
Estavamos á espera do sol nascer
que não veio
porque entretanto acordei
sem ti
Lisboa, Entrecampo, 4 Novembro 1982

sonho


Estava a escrever e saltou-lhe a mão.Foi a correr pôr um agrafo e regressou
à secretária sempre a sangrar no papel.
Lisboa, Entrecampos, 17 de Outubro 1982

terça-feira, julho 25, 2006

carta de Chomsky, Saramago, Harold Pinter, Tariq Ali e outros

(gravura de Picasso)
letter from Chomsky and others on the recent events in the Middle East (July 19, 2006):

The latest chapter of the conflict between Israel and Palestine began when Israeli forces abducted two civilians, a doctor and his brother, from Gaza. An incident scarcely reported anywhere, except in the Turkish press. The following day the Palestinians took an Israeli soldier prisoner - and proposed a negotiated exchange against prisoners taken by the Israelis - there are approximately 10,000 in Israeli jails.That this "kidnapping" was considered an outrage, whereas the illegal military occupation of the West Bank and the systematic appropriation of its natural resources - most particularly that of water - by the Israeli Defence (!) Forces is considered a regrettable but realistic fact of life, is typical of the double standards repeatedly employed by the West in face of what has befallen the Palestinians, on the land alloted to them by international agreements, during the last seventy years.
Today outrage follows outrage; makeshift missiles cross sophisticated ones. The latter usually find their target situated where the disinherited and crowded poor live, waiting for what was once called Justice. Both categories of missile rip bodies apart horribly - who but field commanders can forget this for a moment?
Each provocation and counter-provocation is contested and preached over. But the subsequent arguments, accusations and vows, all serve as a distraction in order to divert world attention from a long-term military, economic and geographic practice whose political aim is nothing less than the liquidation of the Palestinian nation.This has to be said loud and clear for the practice, only half declared and often covert, is advancing fast these days, and, in our opinion, it must be unceasingly and eternally recognised for what it is and resisted.
Tariq Ali
John Berger
Noam Chomsky
Eduardo Galeano
Naomi Klein
Harold Pinter
Arundhati Roy
Jose Saramago
Giuliana Sgrena
Howard Zinn

(consultar site: www.chomsky.info )

caos e horror

foto:AP
Nos noticiários da manhã de ontem , mais um episódio anbsolutamente condenável e inaceitável da guerra dejá-vú no Iraque e no Afeganistão: aviões israelitas executaram várias missões de bombardeamento e de disparos de mísseis sob colunas de automoveis de civis libaneses em fuga para o Norte do Líbano. A atestar pelo número de mortos a precisão dos ataques foi tout court ( e dispensa mesmo as tais "bombas inteligentes" que Bush quer enviar a Israel): uma família de 7 membros, na maioria crianças, foi pulverizada no seu automóvel; um autocarro recebeu o impacte de um míssel (concerteza que também muito"inteligente") e 14 dos seus ocupantes tiveram morte imediata; diversas outras viaturas de civis foram atacadas numa estrada já destruída em anteriores incursões e mais 7 libaneses morreram.

Contra isto não pode haver qualquer tolerância. Nenhum israelita pode ter dúvidas numa coisa: os libaneses já perceberam que a estratégia dos sionistas não é o Hezbollah como querem fazer crer para a opinião pública mundial mas a nação soberana do Líbano. Se a estratégia era a de, no prazo imediato, virar a população libanesa (muçulmanos, judeus, cristãs) contra o movimento do Hezbollah então Telavive cometeu um erro grasso e de palmatória. É lamentável que não haja ninguém no governo de Israel que se oponha com determinação a esta carnificina gratuita e só estejam interessados nos jogos de bastidores que já pouco ou nada conseguirão mudar (a favor de Israel) no complexo tabuleiro geoestratégico que é o Medio Oriente hoje.
Lembro-me que uma das máximas dos neo-conservadores instalados em redor de Bush era o recurso ao "caos", o caos em toda a sua expressiva dimensão como esta que ora subiu á cena no Libano e nos impele cada vez mais a reflectir. Por exemplo, sobre o terrorismo de Estado.

o olhar de TeoDias

(foto: gentileza de Teodósio Dias)
O "portfólio" do Teodósio Dias (dotempoedaluz.blogspot.com) é uma espécie de irmão de outro blogue -ruasdaminhacidade.blogspot.com- também da autoria do Teo. O que fica da visão dessas páginas é mais do que fascinação de um solit(d)ário é uma visão agre e doce impregnada de memória pelas ruas da cidade do Porto, muito amado. É como se a câmara de Teo Dias ou vice-versa tivessem assumido a interessante tarefa de se constituirem numa espécie de vigilantes e/ou zeladores da cidade e de tudo o que ela incorporou e incorpora ainda, apesar dos crimes cometidos diáriamente contra ela.


O Porto tem no olhar de Teo um enorme fôlego de respiração e uma familiaridade que é, a um tempo, de forte conotação "universalizante". E interesante será descobrir como em certas fotos se criaram atmosferas mágicas, pela luz e sombras, pelos cinzentos e azuis, mas também pelos contraluzes e os enquadramentos que seguem um estilo intencionalmente experimentais.


De modo que, em Do Tempo e da Luz e no Ruas da minha cidade -Porto,TeoDias faz a sua viagem no tempo ao encontro dos lugares que a retina guardou, -valorizando os contrastes abruptos, as (re)descobertas, as surpresas...

segunda-feira, julho 24, 2006

pensando no Líbano...

All those who seek to destroy the liberties of a democratic nation ought to know that war
is the surest and shortest means to accomplish it.

Alexis de Tocqueville

domingo, julho 23, 2006

o mais forte

O espectáculo da destruição do Líbano -que está para durar, durar...- continua a merecer honras nas primeiras páginas: os bombardeamentos não arrefecem, o número dos deslocados (à sua sorte) cresce, os estrangeiros são repatriados, os rockets do Hezbollah continuam a cair em Haifa, blindados israelitas entram e saiem de território libanês e Bush deve concerteza estar a saborear um dos seus biscoitos caseiros favoritos e a ler um livro de "pernas-pró-ar"... .
Menos sorte parecem ter os palestinianos que podem neste momento de "distracção" continuar a ser chacinados (à média de 10 por dia) com maior à vontade e prosseguida a destruição infame das suas infraestruturas, como a destruição ontem de um edíficio da Autoridade Palestiniana na Cisjordânia pela artilharia israelita. Pergunto-me como conseguem os palestinianos suportar tanta iniquidade junta -o sentido de conservação? É pouco, obviamente para explicar tanta capacidade de resistência e martírio. Os palestinianos não têm mais nada a perder a não ser as próprias vidas.Esse é o seu poder.O que é perigoso, muito perigoso, para o Estado Hebraico apesar de toda a sua parafernália bélica.

cinema & história

(Foto:John Alcott / Barry Lyndon, by Stanley Kubrick,1973)
"(sobre o cinema e a história)É necessário ter presente que reconstituir é reinventar. A reconstituição do espaço, do cenário do passado, faz-se reinventando porque nos encontramos perante um problema de alheamento das formas, que não tenha ligação com o presente (...).
É uma coisa diferente de uma simples reprodução. Trata-se de Lovecraft... .E é exactamente esse o nosso tipo de relação com a história é reconstruir as formas de uma realidade da época, formas que nos aparecem estranhas. Fazer filmes históricos é -muito mais do que no caso da literatura- convocar físicamente as formas do passado".

René Allio
L'Histoire Au Cinema / Positif nº189, Jan.1977

sábado, julho 22, 2006

recordando Orwell


"The ideal set up by the Party was something huge, terrible, and glittering - a world of steel and concrete, of monstrous machines and terrifying weapons - a nation of warriors and fanatics, marching forward in perfect unity, all thinking the same thoughts and shouting the same slogans, perpetually working, fighting, triumphing, persecuting - three hundred million people all with the same face."

George Orwell, Nineteen Eighty-Four

em redor das imagens

(Foto:AP)

O Líbano resiste mas desespera. Condolezza Rice debita num telejornal um típico discurso de assessor para concluir que ainda não chegou a hora de uma força internacional da ONU se isntalar no Líbano porque, diz, ainda há muito a fazer -nem outra coisa seria de esperar, é um desperdicio deixar o trabalho(que ainda agora começou) a meio. Se desligarmos o som o que vemos é Rice de rosto impermeável ao drama de milhares de libaneses parecer estar a opinar sobre os inconvenientes das donas de casa em mudarem de detergente para a roupa ou, na melhor das hipóteses, sobre os custos para o Tesouro americano que representam as toneladas de armamento despejado nas ultimas semanas em Telavive.
Na Dois, passa quase em "pescadinha" o grupo de jornalistas ditos operacionais deslocados para o "teatro de operações": salvo uma única excepção o ar é desportivo, tranquilo e até aparenta estar divertido -nada de dramas, guerra é guerra e, pensam eles, não tarda nada temos de celebrar mais outro score de audiências. Com a morte e a destruição em directos, of course!. O contracampo dá uma ajuda: por detrás do Rodrigo dos Santos pululam luzinhas de casinhas num qualquer bairro de Israel, vê-se movimento rodoviário. Tudo está calmo. A estética segue a preceito a dos primeiros directos feitos de Bagdade pela CNN massificada depois por todas as televisões do globo que é como quem diz, noublesse oblige!.
Mudo de canal. Um libanês, de meia idade, deixa-se apanhar pela câmara no meio de destroços de casas. Quer resistir, tem um ar atónito e ao mesmo tempo extraordinariamente calmo mas obviamente tenso. Mudo outra vez de canal. Na Sic-Noticias surgem imagens que dispensam qualquer contraditório: pontes, autoestradas, tuneis de ligação rodoviária, ruas, casas, hoteis, tudo foi tocado pelas bombas e misseis lançados pelos f16 e pela artilharia hebraica. Mais adiante mostra-se o que resta de um edifício tido como uma fábrica após ter recebido o impacto de cinco misseis. Os militares israelitas podem ter, compreensivelmente, pensado, que a fábrica poderia ser um posto avançado dos terroristas e albergar armamento do Hezbollah e até, quem sabe , uma ou mais baterias dos temíveis foguetes katiuschas, mas não: a fábrica era mesmo uma fábrica a sério sem disfarces que produzia papel...higiénico !.
A par disso, registo como exemplo do pior dos cultos da demência bestial e de desumanidade aquele grupinho de meninas israelitas de ar inocente como é o ar de todas as crianças junto a um blindado de artilharia a escreverem a marcador "mensagens" nas munições agrupadas como se saídas de uma linha de montagem.
Que surpresa reservaram nesse dia, nessa hora, as meninas de Israel aos meninos e meninas libaneses? É o que saberemos com imediata brevidade nos noticiários da manhã.
Desligo o televisor e ponho-me a pensar; a pensar que vivemos num planeta encalhado, com os passageiros e tripulação à beira do naufrágio. Apocalíptico, evidentemente.

sexta-feira, julho 21, 2006

a festa da guerra (3): I hate all this


"He who joyfully marches to music in rank and file has already earned my contempt. He has been given a large brain by mistake, science for him the spinal cord would fully suffice. This disgrace to civilization should be done away with at once. Heroism at command, senseless brutality, deplorable love-of-country stance, how violently I hate all this, how despicable an ignorable war is; I would rather be torn to shreds than be a part of so base an action! It is my conviction that killing under the cloak of war is nothing but an act of murder."

Albert Einstein