quinta-feira, julho 06, 2006

Une Femme Marièe


-Où commens-tu? Et où commence l'image que je me fais de toit? Autrement dit,
comment distinguer entre la realité et le désir que j'en ai?

-Tu n'as qu'a savoir ce que cache mon regard
-Et il cache quoi?

Jean-Luc Godard

quarta-feira, julho 05, 2006

Dores do Crescimento (3)

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas
Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio
Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação
Não posso adiar o coração
António Ramos Rosa
(in Não posso adiar o coração, Edições Plátano, 1974)

terça-feira, julho 04, 2006

Princípio da Esperança

imagem de Teodósio Dias


Ernst Bloch definia (literáriamente) aUtopia como um "princípio da esperança".
Para mim a Utopia é isso mais vontade de transformar, vontade de romper com as limitações
e com o medo do risco. Utopia é o combate contra o quotidiano cinzento e amargo.
É transgressão contra os "muros que nos tolhem o pensamento".

"É neste acordo que a beleza existe"




É neste acordo que a beleza existe:
o ver e o poder ver as cousas e os corpos,
no acordo entre eles serem e os desejarmos
como se fossem o que nós queremos
ser como nós mesmos. Neste acordo que
dá senso de beleza ao que de imaginar
fica evocado na memória esquiva
para ser visto noutras coisas. Vozes
se agitam torvas latejando o sexo
que dorme oculto dentro dos olhares,
Jorge de Sena
(in Visão Perpétua, Moraes/Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1982)

segunda-feira, julho 03, 2006

no chiado à tardinha

(Camões, de Abel Manta)
Vagueio pelo chiado ao sábado pela tardinha e simpatizo com o ar de desdém e altivez do sem-abrigo que espera na escadaria da igreja o milagre (sem pedir) de uma moeda.
À porta da Bertrand um grupo de adolescentes com as cabeças cheias de telenovela esgrimem argumentos entre si sobre quem é o "melhor no engate" e nos jogos da playstation.
Mais abaixo, duas mulheres balzaquianas(!) amolecem a ansiedade devorando um gelado enquanto olham em aparente indiferença a montra de um pronto-a-vestir.
Cruzo-me com um grupo numeroso de italianos ruidosos que sobem a Garret de câmaras fotográficas na mão ou a tiracolo.
Vagueio com a sensação de estar a arquivar imagens e de não me importar de serem repetidas, sempre repetidas, na eternidade do quotidiano.

domingo, julho 02, 2006


"The world is a dangerous place to live; not because of the people who are evil,
but because of the people who don't do anything about it."
Albert Einstein

sábado, julho 01, 2006

The Grapes of Wrath


O mais arrebatador dos "dramas sociais" -baseado num romance célebre de John Steinbeck (Livros do Brasil)- que é visto também como uma experiência extrema na obra de John Ford, surgiu há semanas (sem pompa e circunstância da comunicação social) numa edição em dvd por obra e graça da Castello Lopes Multimédia. Proibido durante o fascismo, exibido na RTP em 1980 (curiosamente, duranrte a vigência de um governo da AD...) "As Vinhas da Ira" tornou-se um "ícone" para a generalidade da esquerda europeia que viu nele um cúmulo de eficácia ideológica nada desprezível. Sublimes interpretações de Henry Fonda, Jane Darwell e John Carradine

sexta-feira, junho 30, 2006

Dores de Crescimento (2)
"Quando encarei a luz do sol, vindo da escuridão da sala de cinema..."
(The Outsiders, de Francis Ford Coppola)
Nature's first green is gold
Her hardest hue to hold
Her early leaf's a flower
But only so an hour
then leaf sussidef to leaf
So Eden sank to grief
So a dawn goes down to day
Nothing gold can stay
Robert Frost

Dores de Crescimento (1)
Há um odor a mar na minha boca onde o teu seio
se deixa extasiar.
Pressinto o afastamento -um beijo ainda.
( exasperado, eu ; infatigável ,tu)
Pressinto a despedida em meus ombros
já o odor a maresia se esvai com o vento.
O que fica apenas: grãos de areia que eu trago no rosto para Lisboa.
(Praia do Guincho, 4 de Outubro 1973)

Memória de Jean Vigo
" D'un être, autant que l'on puisse l'aimer et que l'on desire le comprendre,
il faut, je crois,renoncer à atteindre jamais sa realité.
Lui-même en prend-il conscience?
(...) Quelle angoisse ne ressent-on pas à cette course dans le labyrinthe de glaces, qui ne nous livrent que l'image de notre image, et toujours de notre image? "
Jean Vigo
(carta a M. de Saint-Prix, de 2 Outubro 1928)