Sábado, Maio 23, 2009

"off the record" (1)


Get out of Iraq. Get out Afghanistan. Come home America.
Dennis Kucinich, congressista do Partido Democrata

Quinta-feira, Maio 21, 2009

joão bénard da costa (1935 - 2009)


Ao fim da tarde, recebo um telefonema do Rádio Clube Português a solicitar-me um depoimento em directo a seguir ao noticiário das 22 horas. Que dizer sobre o homem que amou (como eu) apaixonadamente o cinema e que por ele se perdeu vezes sem conta? Que lembranças direi de um homem inteligente e de uma enorme cultura que um dia me estendeu a mão no seu gabinete da Gulbenkian para ouvir um jovem cinéfilo que queria fazer um filme e que pediu um subsídio (que nunca veio...) à fundação?. O João Bénard que me ficou na retina é também aquele que há anos se ergueu contra uma horda de mentes censórias lideradas por um presidente de Câmara (o controverso Krus Abecassis) que invadiram a sala da Cinemateca Portuguesa para impedir a projecção de Je Vous Salue Marie, de Jean-Luc Godard e acabaram expulsos à bastonada por agentes da PSP.
Foto: Je Vous Salue Marie (1985), by Jean Luc Godard.

Domingo, Maio 03, 2009

do amor incurável


Evidenciando grande economia e fluidez narrativas, Um Amor de Perdição, parece ser o sinal inequívoco da entrada plena na maturidade de Mário Barroso, que a obra anterior (a primeira, por sinal bastante interessante), O Milagre Segundo Salomé (2004), já anunciava.
Ao inspirar-se no clássico romance popular português, Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, -que, recorde-se, fora por três vezes adaptada ao cinema, inicialmente em 1921 por Georges Pallu, vinte e dois anos depois por António Lopes Ribeiro e quatro anos após Abril de 1974, pela mão de Manoel de Oliveira, que é a versão (mais longa) considerada de enorme rigor estilístico - Barroso propõe convocar o espectador para uma outra visão dimensional da tragédia do par célebre de jovens românticos (Simão Botelho e Teresa Albuquerque) enamorados, “imortalizados” por Camilo: sem reconstituições de época, sem referências históricas e ambientais, sem a carga mítica dos amores contrariados, sem o espartilho dos diálogos literários.
Isto quer dizer que Mário Barroso prefere uma abordagem moderna aparentemente despretensiosa (e sóbria), em que a acção se situe numa Lisboa actual com protagonistas idênticos aos jovens adolescentes de hoje com boa posição social iguais a outros que vemos diariamente nas ruas, nas escolas, a circularem de moto ou em automóveis, a conversarem à beira rio ou em desacatos violentos em bares e discotecas. Confessadamente, o que conta para Barroso é, passe o uso de certos clichés, o retrato de obstinação juvenil num universo de oposição e rebeldia destrutiva que conduz á auto-destruição de um herói, solitário e narcisista, intransigente e suicidário. Quanto a aparente afinidades com a suposta versão pós-moderna de Romeu e Julieta, de Baz Lhurmaan, o filme de Barroso, que está a milhões de anos luz fica-se, e bem, por uma nostálgica referência shakespeariana assaz divertida à volta de beijos de dois adolescentes passada numa aula de dramatização.
No seu propósito inovador, Mário Barroso -que é, também, um notável director de fotografia de méritos firmados internacionalmente- trata o “seu” amor de perdição como uma doença incurável em crescendo sem, no entanto, prescindir aqui e ali de um tom irónico a que não falta alguns momentos estimulantes de sensualidade e compaixão.
E, pesem alguma convencionalidade da representação, o elenco é globalmente impecável e a câmara (digital) de Mário Barroso compõe eficazmente, como sempre, sugestivas atmosferas.
Um Amor de Perdição
de Mário Barroso (Portugal, 2008 1h21 min.)
Com Tomás Alves, Patrícia Franco, Willion Brandão, Catarina Wallenstein, Ana Padrão, Rui Morrison, Virgílio Castelo, Ana Moreira, Paulo Pirtes, Dinarte Branco, etc.
(data de estreia em Lisboa: 23 de Abril )
publicado em Tempo Livre, Abril 2009

Domingo, Abril 26, 2009

portfólio (6)


Refª: ciclo de cinema "França, Cinco Grandes "
Formato: A4, uma cor
Design e produção: JSDiabinho
Edição: ABC Cineclube de Lisbooa, 1987

Sábado, Abril 25, 2009

a felicidade

Às sete e meia da manhã fui ao café nova américa espreitar o ambiente. Tomei o pequeno almoço ao balcão e vi que as pessoas estavam em tensão mas olhavam uma s para outras com tímidos sorrisos de pequena felicidade. Menos os dois guardas da PSP que lá estavam agitados a anunciar em voz altiva que o Caetano estava a dominar o golpe.Na papelaria a senhora Hermínia confidenciou-me que estava à espera de edições especiais de todos os jornais e já tinha reservas de clientes que não iam sair de casa.Comprei pilhas para o radio portátil e corri para casa. É quando aguardo que "caia" o verde que um opel branco passa por mim e uma voz ecoa poderosa vinda de dentro morte ao fascismo! viva a Liberdade! Chegado a casa telefono pela enésima vez ao Duarte e digo-lhe vamos encontrar-nos nas picoas e rumar até ao rossio, parece que a gnr fiel ao governo posicionou-se em toda a praça e estão armados. Vamos mas é para o terreiro do Paço disse o Duarte. Não fomos. Acabei a manha devorar torradas na cozinha do "JPB" e a ouvir as rádios. Saímos para o Carmo quando o regime já agoniava,
Se tivesse de morrer , seria aqui disse quando descemos a rua nova da trindade a correr sem ligar nenhuma aos soldados da gnr de mauzer na mão que mantinham o cerco e alimentavam a ideia dos comandantes para uma acção de garrote ao largo do carmo.
Lisboa, entre-campos, 25 de Abril 1984

Quinta-feira, Abril 23, 2009

prima della rivoluzione


Foi assim: às 10 horas da manhã do dia ensolarado de 24 de Abril de 1974 apresentei-me no primeiro piso do tribunal de polícia, junto ao faraónico palácio da justiça, em S.Sebastião na qualidade de arguido-acusado de "actividade subversiva contra a segurança do Estado" e -há sempre um "e"!- por ter recusado pagar uma coima de 2.250$00 por distribuição de panfletos no Liceu D. Pedro V .
Lá estive -lá estivemos , os doze ou treze colegas "subversivos- quase uma hora a circular no hall seguido(s) pelos olhares insatisfeitos de quase uma vintena de agentes fardados de cinzento e equipados a rigor de pistola-metralhadora a tiracolo até que uma porta se abriu e um senhor de fato escuro comunicou o adiamento da sessão para 4 de Outubro.
Convém recordar que "isto" se explica uns meses antes -em Junho de 1973-, num meeting realizado no Liceu D. Pedro V contra o fascismo onde foram detidos vinte e tal estudantes (incluindo um menor de 14 anos)no decurso do festim de bastonadas e outras bestialidades comuns ao tempo por ordem do Capitão Pereira que cercara e invadira literalmente a escola. Conduzidos sob escolta(!) primeiro a uma esquadra junto à penitenciária de lisboa depois rumo ao governo civil de Lisboa,fomos encarcerados numa cela de 3 m2 com mais oito ou 9 colegas desde o fim do dia até meio da manhã seguinte. Depois do acto forçado(de despersonalização, tão criticado em missivas oficiais por Marcelo Caetano) do corte de cabelo à máquina zero numa barbearia repleta de guardas reformados a lançarem-nos "bocas" e a aplaudirem as "carecadas"fomos conduzidos para o gabinete do chefe de dia, espécie de recepção de hotel, para nos apresentarem a factura de 2.250$00 por "actividade subversiva" (nunca percebi se o corte de cabelo estava incluído).Eram perto das 13h30 de sábado quando saímos em liberdade.
Nessa noite de 24 de Abril de 1974, eu , o meu amigo "JPB" e o seu pai, advogado e oposicionista, reunimo-nos num restaurante chinês para a habitual tarefa de debater com entusiasmo o fim do salazarismo-marcelismo. O "fim" só era possível , como havíamos concluído, pela força das armas. O pai de "JPB" ainda arriscou a possibilidade de Caetano conseguir controlar os "ultras" e por em marcha mudanças de fachada .
Ironia do destino: quando cerca das onze e meia da noite descia a av. estados unidos da américa em direcção a casa a fadiga e a excitação da conversa não me despertou os sentidos que dois camiões militares em velocidade passassem por mim em direcção à avenida de Brasil. Chegado ao meu quarto lancei-me sob a cama a ouvir na rádio renascença a leitura de abertura ("Grândola, Vila Morena /Terra da Fraternidade/ O Povo É quem Mais Ordena/ Dentro de ti Ó Cidade)do programa Limite o som de marcha cadenciada e a voz do Zeca a troar livremente. Mal sabia eu... .
Eram cinco da manhã quando a minha Avó Maria José me acorda a dizer está o Duarte ao telefone a falar de revolução. Graças a deus, graças a deus, vai acabar a guerra! dizia a minha avó com olhos a humedecerem-lhe. E o Duarte na linha a insistir sintoniza a emissora (nacional) estão a passar músicas do zeca, do mario branco, do adriano, também do fanhais, e do freire... .
Lembro-me perfeitamente... .
Lisboa, entre-campos, 23 de Abril de 1984

Sexta-feira, Abril 17, 2009

profissão de fé


Anteontem, durante o acto mais ou menos inglório de (des)arrumação de uma das estantes dei por mim a sorrir ao reencontrar uma velha pérola do então temerário Alberto Pimenta: "Discurso sobre o filho-da-puta" (com notas de Câpelo Filho Catedrático Literaturas Paradas) que em 1987 deu á estampa em festejada 6ª edição da Centelha de Coimbra e é hoje (quase) uma raridade -o livro ,claro!
A páginas tantas o Alberto escreve em duas linhas esta coisa singela e certeira :"Há os filhos-da-puta vocacionados para fazer e filhos-da-puta vocacionados para não deixar fazer e estes são os dois tipos universais e eternos filhos-da-puta... ."
Que triunfam, quer-se dizer!